quarta-feira, 14 de junho de 2017

Um Farol na Escuridão


São exatamente duas horas da madrugada de 6-6-2017. Acordei com o pensamento na pequenina Eloá que se encontra hospitalizada tratando de um câncer que começou pelo cérebro, e que sendo operada, espalhou-se como metástase pelo seu corpinho, e ainda agora está sendo alimentada por meio de um tubo ligado diretamente ao seu estômago, porque perdeu os movimentos de um lado de seu corpo, não conseguindo abrir um dos olhos, e tendo perdido a capacidade de mastigação.
A condição da nossa pequenina e querida Eloá tem movido os corações de muitos, e especialmente não poucos crentes a estarem intercedendo em seu favor diante de Deus, para que a cure ou que a sustente e a seus pais com a Sua poderosa graça.
Há muito tempo que eu não escrevia sobre a temática da enfermidade, mas fui inspirado pelo presente quadro a voltar a discorrer sobre o assunto, não no afã de encontrar respostas definitivas para o propósito de Deus em nossas fraquezas e enfermidades, mas para achar algum consolo da parte da Palavra e do Espírito Santo para os nossos corações em perplexidade.
Por que sofrem os pequeninos?
Por que sofrem os justos?
Estas são perguntas que nunca querem se calar, e portanto, devemos nos entregar a alguma forma de reflexão para acharmos pelo menos algumas respostas adequadas que nos façam entregar-nos submissamente aos propósitos e à soberania de Deus, reconhecendo que Ele sabe o que faz e que tem sob inteiro controle tudo o que se passa na Sua criação, que presentemente geme, aguardando a manifestação gloriosa e final dos filhos de Deus.
Não apenas a pequena Eloá que está passando por esta enfermidade antes mesmo de completar seu primeiro ano de vida, como muitas outras crianças, jovens, adultos e velhos estão transitando pelo mesmo vale de dores nesta hora, e em todos os momentos da história da humanidade, desde que a criação ficou sujeita a estas dores, sofrimentos e lágrimas, desde a Queda original de Adão no jardim do Éden.
Estas vidas são levantadas por Deus em sua soberania, para serem faróis nos alertando de que já se encontra instalada em todos nós, uma morte espiritual, para a qual somente Ele pode prover a cura por meio das chagas de Jesus Cristo.
Se não houvesse enfermidades físicas e mentais em nossa presente condição caída, é bem certo que ficaríamos totalmente insensíveis para este fato e toparíamos no final de nossa jornada terrena, com uma morte eterna, em um inferno de fogo, onde o sofrimento nunca tem fim.
Assim, devemos ser gratos a Deus por sua grande misericórdia, em nos alertar, a todos nós, por meio das enfermidades que experimentamos deste outro lado céu, porque, por elas somos avisados de que há algo estranho na criação original, que a corrompeu, e que a levou à deterioração espiritual, a qual é refletida no corpo, pois, nele, podemos perceber visivelmente, que de fato há uma morte eterna, pelo que podemos observar na corrupção gradativa do nosso homem exterior, que a cada dia se aproxima mais e mais do seu retorno ao pó do qual foi formado.
Isto se processa mais velozmente em uns do que em outros, mas o grande fato é que todos estamos morrendo fisicamente a cada dia que passa, até que haja o desfecho final com o último suspiro exalado sobre a face da Terra.
Muito bem, amados, esta é a condição geral que nunca devemos perder de vista, para que não venhamos a atribuir alguma forma de injustiça da parte de Deus em permitir que alguns sofram mais do que outros, porque afinal, o grande e terrível sofrimento a ser evitado é aquele que ocorrerá para todo o que não tiver Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor.
Dos pequeninos é o reino dos céus. Eloá está sendo cuidada pelo Senhor, pela consolação de Sua graça, poder e amor. Aquele que disse “deixai vir a mim os pequeninos” é o mesmo que vai sempre ao encontro deles, especialmente nestas horas de maior necessidade da Sua amada companhia.
Agora, num exame mais detalhado e acurado do assunto, devemos, antes de tudo, entender que nem toda enfermidade é ditada por uma consequência direta de pecados praticados pelo que sofre ou por seus pais, conforme o próprio Senhor Jesus Cristo afirma nas páginas do evangelhos.
“Respondeu Jesus: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus.” (João 9.3). 
Quando abordado pelos discípulos com esta inferência ele lhes esclareceu que as enfermidades são para manifestar a glória de Deus. Há muito a ser considerado nestas palavras, pois elas se referem não apenas ao propósito geral de Deus de manifestar a sua glória curando enfermidades, mas também, em manifestar através delas a sua exclusiva soberania em determinar quem deve ser ou não acometido por determinados tipos de doenças, de modo a cumprir o seus muitos propósitos, e dos quais tivemos já a ocasião de antecipar alguns deles.
Outros que são notórios, é que por meio das enfermidades do corpo, Deus efetua a obra de curar as enfermidades do espírito de muitos, porque estas fazem parte das variadas tribulações a que estamos sujeitos, e que visam ao nosso aperfeiçoamento e cura espiritual.
Também aprendemos a simpatizar com o nosso próximo, conforme Deus simpatiza conosco em nossas aflições. Ficamos, por assim dizer, mais sensíveis ao sofrimento alheio. Desprendemos os olhos de nossos próprios problemas para compartilhar os sofrimentos de outros, para lhes oferecer um ombro amigo para ajudá-los a carregarem os seus fardos, e nisto se aprende e se experimenta o amor, conforme ele se encontra na própria natureza divina, da qual somos tornados participantes por meio da nossa comunhão com nosso Senhor Jesus Cristo.
Se a criação não tivesse ficado sujeita à vaidade, é certo que não haveria aqui nem choro, nem lágrima, nem dor, que será a condição que será achada na restauração de todas as coisas, quando o próprio Deus enxugará de nossos olhos todas as lágrimas, para que nunca mais voltemos a chorar.
Mas, como aprenderíamos, senão por este modo doloroso, o consolo de Deus no sofrimento?
O que conheceríamos da Sua misericórdia, a não ser por sermos visitados por Ele com provisão para as nossas misérias?
Onde aprenderíamos a consolar outros com as mesmas consolações com que somos consolados por Deus?
Assim que, apesar de a enfermidade e a morte serem elementos estranhos à natureza de Deus, pois é Deus de vivos e não de mortos, e no qual há plenitude de força e alegria, todavia elas cumprem os Seus propósitos em um mundo caído, de modo a prover a cura a todos aqueles que almejam pela vida eterna em Cristo Jesus.
Estes propósitos são levados a efeito por Deus mesmo nas vidas daqueles dos quais ele dá o testemunho de serem justos, tementes a ele e que se desviam do mal, como foi o caso de Jó.
O Senhor queria curá-lo da inclinação para a justiça própria, que nele ainda havia, e levar-lhe a ter um conhecimento mais profundo da Sua vontade e pessoa, de modo que desviou para Jó a atenção de Satanás, que afirmou que toda a santidade de Jó não era fruto do amor dele por Deus, mas por ser um interesseiro que estava simplesmente focado nos favores que recebia dEle.
Então, ocorreu tudo o que todos nós já conhecemos, e vemos em grandes sofrimentos aquele que era um dos favoritos do céu.
Como isto pode ser entendido pela simples razão natural?
Deixar ser afligido a quem se ama?
Sim. Desde que seja este o único meio pelo qual possamos ser levados a ter uma maior alegria e comunhão com o Senhor.
Por isso se afirma nas Escrituras que devemos nos gloriar nas próprias tribulações, e ter por motivo de grande alegria o passar por variadas tentações. Ou seja, desde que tais experiências carreguem consigo este supremo propósito de nos tornar mais semelhantes ao Senhor Jesus.
Chegará o dia em que todos os crentes, sem exceção, serão perfeitos, sem qualquer falha moral, pecado ou enfermidade, mas este dia ainda não chegou, e seremos sábios em entender que não podemos aplicar no presente uma condição que está prometida a existir em grau absoluto somente no porvir.  
Deste modo não se pode afirmar que pelo fato de ainda estarmos sujeitos à prática eventual do pecado, em razão da natureza terrena, que estamos sujos diante de Deus ou com o templo do Espírito Santo que é o nosso corpo, sujo, porque fomos lavados pelo sangue de Jesus, e necessitamos lavar senão os pés, conforme Ele próprio afirmou: “Respondeu-lhe Jesus: Aquele que se banhou não necessita de lavar senão os pés, pois no mais está todo limpo; e vós estais limpos, mas não todos. Pois ele sabia quem o estava traindo; por isso disse: Nem todos estais limpos.” (Jo 13.10,11). E ainda: “Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado.” (Jo 15.3).
De igual modo, por conseguinte, não se pode afirmar que um crente que está enfermo estará com o templo do Espírito, que é o seu corpo, sujo, por causa da sua enfermidade.
Ainda que muitas enfermidades sejam colocadas até mesmo em servos de Deus pelo diabo, como se deu no caso de Jó, nem por isso eles estão com o templo de Deus, que é o corpo deles, sujo por causa da enfermidade, de modo que o Espírito Santo viesse a se retirar deles por causa da sujeira produzida no corpo deles, como alguns alegam, em razão da presença da enfermidade.
A propósito, nenhuma pessoa, na Nova Aliança, é considerada imunda por Deus, de modo que não possa receber a habitação do Espírito Santo, por meio da fé e do arrependimento. Foi exatamente isto que Ele ensinou a Pedro com a visão do lençol cheio de animais considerados cerimonialmente imundos pela Lei, que Deus ordenou que Pedro matasse e comesse: “Pela segunda vez lhe falou a voz: Não chames tu comum ao que Deus purificou.” (At 10.15). Assim o Espírito Santo habita em pecadores, regenerando-os, mas enquanto neste mundo, não deixam de ser pecadores, porque estão ainda sujeitos ao pecado em razão da natureza terrena, mas não é por serem pecadores que o Espírito Santo deixa de operar nos que creem e se arrependem, mas em razão de apostasia dos que viram as suas costas para Deus e para a Sua vontade e permanecem na prática deliberada dos seus pecados, sem que se arrependam disso.   
Deus não tem feito nenhuma promessa na Nova Aliança de que não permitiria que nenhum crente enfermasse. E não tem também feito nenhuma promessa absoluta de curar todos os que ficassem enfermos. Ele tem reservado isto à Sua exclusiva autoridade, curando, podemos dizer, muito e realmente muito mais do que enfermando, em face da Sua misericórdia e poder. Mas não são poucos os casos em que crentes fiéis têm passado à perfeição da glória, através da morte, em razão de enfermidades, e muitas delas, não raro, muito severas, como o câncer.
E se na soberania de Deus nem sequer um pássaro cai do céu sem a Sua permissão divina, muito menos, nenhum dos seus servos ficará ou permanecerá enfermo sem a Sua permissão.
É isto que Jesus quis ensinar aos discípulos no caso daquele cego de nascença.
Assim, para nossa reflexão, estamos destacando a seguir alguns dos textos bíblicos que tratam do assunto, e nos quais nós vemos que o Deus soberano opera como quer e com quem quer, e onde quer. Afinal Ele é Deus, e como disse Lutero, devemos deixar Deus ser Deus, no sentido de entendê-lo nesta soberania que lhe pertence e que é claramente revelada nas Escrituras.
1) “Depois destas coisas disseram a José: Eis que teu pai está enfermo. Então José tomou consigo os seus dois filhos, Manassés e Efraim.”. (Gên 48.1)
A causa da morte de Jacó foi uma enfermidade.”
2) “dizendo: Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é reto diante de seus olhos, e inclinares os ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, sobre ti não enviarei nenhuma das enfermidades que enviei sobre os egípcios; porque eu sou o Senhor que te sara.” (Êx 15.6)
Deus está afirmando expressamente que Ele mesmo envia enfermidades por motivo de julgamento do pecado. Assim não está fazendo nenhuma promessa absoluta de que nenhum israelita nunca ficaria enfermo caso lhe fosse fiel, pois como vimos, o patriarca deles, Jacó, morreu de uma enfermidade. O que Ele está dizendo é que não castigaria com enfermidades aqueles que não violassem a Sua aliança. Ele julgou os pecados dos egípcios com enfermidades. E agora está dizendo ao Seu povo que o pecado deliberado pode ser a causa de visitação dos Seus juízos com enfermidades.
Destas palavras, também se aprende que o fato de Deus garantir uma vida saudável aos israelitas sob os termos da Antiga Aliança, era um sinal indicativo de que a causa das enfermidades que existem no mundo é o pecado. O andar contrariamente à vontade do Senhor e se rebelado a Ele, como era o caso das nações pagãs.
Israel, sendo preservado dos juízos que sobrevieram aos egípcios nos dias de Moisés, serviria de sinal para o mundo de que aqueles que andam com Ele são livrados dos seus juízos destruidores.
Hoje, sabemos à luz mais plena da Nova Aliança, que mesmo quando Deus traz enfermidades sobre os crentes genuínos, estas não carregam um propósito destrutivo, como se deu no caso dos egípcios, mas corretivo, assim como um pai que corrige o seu filho.
É portanto, sob esta luz, que devem ser entendidos os seguintes textos a seguir:
3) Servireis, pois, ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós as enfermidades. (Êx 23.25)
4) “E o Senhor desviará de ti toda enfermidade; não porá sobre ti nenhuma das más doenças dos egípcios, que bem conheces; no entanto as porá sobre todos os que te odiarem.” (Dt 7.15).

Veja que é dito claramente que é o próprio Deus que colocaria as enfermidades por motivo de julgamentos, e seria também o próprio Deus que não as colocaria por motivo de não exercer juízos usando enfermidades, em face de obediência à aliança, sem que isto significasse, como já dissemos antes, uma promessa de caráter absoluto de premiar aquele que é obediente não permitindo que nunca ficasse enfermo. Vale lembrar que a enfermidade é o caminho mais usual para a morte, e mesmo crentes morrem, doutra sorte Abraão, Noé e muitos outros ainda estariam vivendo plenamente saudáveis entre nós, vivendo neste corpo de carne e sangue. 
5) “então o Senhor fará espantosas as tuas pragas, e as pragas da tua descendência, grandes e duradouras pragas, e enfermidades malignas e duradouras;” (Dt 28.59).
Aqui se fala não somente de enfermidades isoladamente, mas de pragas, isto é de doenças epidêmicas assolando toda uma nação por causa do pecado. E é dito que seria o próprio Deus que o faria. Vemos assim que em muitas enfermidades e doenças epidêmicas há um aviso da parte de Deus que a Sua vontade está sendo transgredida na terra.
Há muitas formas de enfermidades, especialmente emocionais, em nossa época, que não eram comuns e nem mesmo se nomeavam na antiguidade, pois surgiram em razão do aumento da iniquidade na face da Terra, conforme Jesus predisse que ocorreria no tempo do fim. Estas muitas enfermidades são, portanto, como já dissemos antes, sinais da misericórdia de Deus, nos avisando que há um caminhar desordenado em sua presença, e que há necessidade de arrependimento, para que seja evitado que caiamos sob os seus dolorosos juízos.
6) “Também o Senhor fará vir a ti toda enfermidade, e toda praga que não está escrita no livro desta lei, até que sejas destruído.” (Dt 28.61).
Aqui não se fala apenas que o próprio Deus traria toda sorte de enfermidade e praga, inclusive as que não estavam descritas na Palavra, com o fim de produzir a morte. Vemos então que Ele pode até mesmo punir com a morte pelo caminho da enfermidade, os transgressores da Sua vontade. Isto não configura entretanto que toda morte por enfermidade tenha sido causada por motivo de um juízo de Deus. Assim como nem todos que têm vida longeva é porque honraram seus pais. Deus fez a promessa de dar vida longa aos que honrarem seus pais, mas não o fez também de modo absoluto porque há muitos que morrem em tenra idade, mesmo honrando a seus pais. Em tudo isto nós vemos que Deus é soberano para agir do modo que lhe aprouver, não ficando amarrado a nenhuma promessa que não tenha sido feita em caráter absoluto.
Por exemplo, há muitas promessas de caráter absoluto, como a vida eterna que é prometida aos que creem. Neste caso, como em muitos outros Deus está amarrado à promessa que fez e não pode revogá-la porque foi feita em caráter absoluto.  
Quanto às promessas de Deus, que são boas e consoladoras para o seu povo, devemos destacar sobretudo que aos profetas, em especial, foram reveladas as coisas que hão de ocorrer no tempo do fim. Enquanto os profetas viviam, Deus consolava o povo de Israel por meio deles, mas chegaria um tempo em que não haveria profetas em Israel, como sucedeu no período extenso, chamado Interbíblico, mas o Senhor não deixaria o seu povo, sem a promessa da sua consolação, e por isso mandou Daniel registar as coisas que ocorreriam no citado período, especialmente as duras perseguições que os judeus sofreriam, mas que o Senhor estaria com eles para os livrar. Assim, a confiança deles deveria ser colocada agora na Palavra escrita de consolação que lhes foi dirigida, em todas as suas gerações, e nós, juntamente com eles, devemos manter a nossa inteira confiança nas promessas desta Palavra infalível e fiel.
7)  “Estando Eliseu doente da enfermidade de que morreu, Jeoás, rei de Israel, desceu a ele e, chorando sobre ele exclamou: Meu pai, meu pai! carro de Israel, e seus cavaleiros!”. (II Rs 13.14)
É dito expressa e claramente que o grande profeta Eliseu morreu de uma enfermidade. Veja que até um jovem foi ressuscitado por ele enquanto vivia, e até mesmo depois de morto Deus ressuscitou uma pessoa que foi jogada sobre o seu túmulo, para confirmar que aquele homem foi um servo poderoso e fiel na Sua presença.
A morte de Eliseu serviu ao propósito de indicar que há vida naqueles que servem ao Senhor mesmo depois que eles morrem fisicamente, pois vivem para sempre em Sua presença, em espírito.
8) “e tu terás uma grave enfermidade; a saber, um mal nas tuas entranhas, até que elas saiam, de dia em dia, por causa do mal.” (II Cr 21.15)
Deus afirmou terríveis juízos contra o rei Jeorão e toda a sua casa, e é dito no verso 16 que o próprio Deus despertou contra Jeorão o ânimo dos filisteus para exercer sobre ele e Judá, os seus juízos.  
Nessa altura, Marcião um dos primeiros grandes hereges do início da igreja se levantou excluindo do cânon que ele estava formando, os livros do Antigo Testamento e algumas epistolas do Novo, por entender que o Deus do Velho Testamento era cruel e violento, pois não aceitava que Ele fosse soberano para enfermar a quem quer e como quer, bem como a exercer qualquer outro tipo de juízo vingador contra o pecado. Ele não conseguia aceitar que é o mesmo Deus de misericórdia tanto do Velho quanto do Novo, pois é o mesmo Deus, que cura, liberta, salva, ama, não exerce juízos diretos ou indiretos sobre o mundo de pecado pelo Seu atributo da justiça e da ira divinas.     
9) “No decorrer do tempo, ao fim de dois anos, saíram-lhe as entranhas por causa da doença, e morreu desta horrível enfermidade. E o seu povo não lhe queimou aromas como queimara a seus pais.” (II Cr 21.19)
O juízo de Deus sobre Jeorão se cumpriu dois anos depois de ter sido proferido.
10) “O Senhor o sustentará no leito da enfermidade; tu lhe amaciarás a cama na sua doença.” (Sl 41.3)
É dito que o Senhor consola na hora da enfermidade o homem piedoso que acode ao necessitado. Ainda que isto pudesse incluir a sua cura por Deus, não é dito expressamente que será curado, mas que será confortado com a santa presença de Deus. E esta tem sido a experiência de muitos servos fiéis de Deus no leito de enfermidade. Eles, antes de partirem para a glória demonstram toda a graça de Jesus que há neles, e dão o bom testemunho que o Senhor é com os seus servos especialmente quando se aproxima a hora da morte.
11) “É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades, quem sara todas as tuas enfermidades,.” (Sl 103.3)
O salmista reconhecia a mão de Deus na cura de todas as suas enfermidades. Ele era um homem de Deus mas está afirmando que havia sido curado por ele de muitas enfermidades. E isto não denota somente o fato da misericórdia e poder de Deus em nos curar, como também a realidade de que servos fiéis de Deus podem ficar enfermos.
12) “O escrito de Ezequias, rei de Judá, depois de ter estado doente, e de ter convalescido de sua enfermidade.” (Is 38.9)
O piedoso rei Ezequias havia ficado enfermo e teria morrido caso não tivesse orado insistentemente pedindo a Deus que permanecesse em vida na terra. Deus lhe acrescentou mais quinze anos de vida, mas isto não configura uma regra que sempre acrescentará anos de vida a quem lhe pedir tal coisa na hora da sua morte. Deus sabia o que era melhor para Ezequias e para o seu povo, mas atendeu excepcionalmente àquele pedido, para revelar que Ele tem todo o poder sobre a vida e a morte, bem como sobre o prazo de vida que teremos sobre a terra. Está na soberania dele prolongar ou não os nossos anos de vida neste mundo.
Eis parte da oração que fez Ezequias, após ter sido curado:  
“16 Ó Senhor por estas coisas vivem os homens, e inteiramente nelas está a vida do meu espírito; portanto restabelece-me, e faze-me viver.
17 Eis que foi para minha paz que eu estive em grande amargura; tu, porém, amando a minha alma, a livraste da cova da corrupção; porque lançaste para trás das tuas costas todos os meus pecados.” (Isaías 38.16,17)
O Senhor havia ordenado ao rei Ezequias que pusesse em ordem a sua casa, uma vez que morreria em breve.
Sabemos que o Senhor não voltou atrás quanto à exigência de colocar em ordem a sua casa – certamente os erros que ele vinha cometendo em seu reinado, e no possível afastamento da comunhão com Deus – apesar de ter revogado a sentença de morte imediata, tendo-lhe acrescentado quinze anos de vida.
Nós lemos nos versos do nosso texto uma parte da carta de gratidão e memorial que Ezequias escreveu após ter sido restaurado da sua enfermidade.
Ele se refere à sua necessidade de restauração espiritual – para que o Senhor o vivificasse por que disso dependia a vida do seu espírito.
Ele reconhece que foi para o seu retorno à paz e comunhão com o Senhor, que havia sido afligido pelos assírios e por sua enfermidade mortal; e isto lhe causara grande amargura de espírito.
Então declara que a causa do perdão dos seus pecados e o livramento da corrupção da sua alma foi o grande amor do Senhor por ele.
Assim como agiu em relação a Ezequias, Deus faz o mesmo com todos os seus filhos, pois os repreende e disciplina, especialmente através de tribulações, por amá-los, de maneira que abandonem seu viver pecaminoso e venham a andar de maneira ordeira na Sua santa presença.
13)  “Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.” (Is 53.4)
É profetizado aqui o caráter messiânico de Jesus como restaurador da criação que foi corrompida pelo pecado. Ele demonstrou em Seu ministério terreno não apenas o Seu poder curativo curando a todos que lhe eram trazidos, quer enfermos ou endemoninhados, para revelar que no porvir será Ele mesmo que restaurará todas as coisas e removerá para sempre todas as enfermidades e todas as causas de dores produzidas pelo pecado, porque Ele porá um termo ao pecado quando estabelecer o Seu Reino de justiça e paz em sua forma final.
Cabe destacar, entretanto, que no próprio Evangelho em que se diz que curava a todos que lhe eram trazidos, para confirmar este Seu caráter messiânico, é dito também que Jesus deixou de realizar muitos sinais e milagres em algumas cidades, em razão da incredulidade deles. Isto também traz uma mensagem de que esta cura e vida perfeitas estão reservadas para aqueles que se converterem a Deus pela fé.
Devemos dar graças a Deus por nos ter dado a graça de Jesus, especialmente nestes dias da Nova Aliança, porque afinal quem é que não deseja ser abençoado e curado por Ele de suas enfermidades? Mas, devemos entender, enquanto cremos e pedimos a Ele de todo o nosso coração e com toda a fé, para que nos cure, que Ele é soberano para nos atender ou não, e é soberano também, quando nos atende, para fazê-lo no Seu tempo e não no nosso.
14) “Todavia, foi da vontade do Senhor esmagá-lo, fazendo-o enfermar; quando ele se puser como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos.” (Is 53.10)
Vemos que a raiz da mesma palavra hebraica Keley, usada para enfermidade aqui, é a mesma usada em Is 53.4 – kalay .  E a significação desta palavra no seu uso original é muito mais extensa do que somente enfermidade física, pois se refere também a debilidades, fraquezas, ansiedades, enfim, é uma palavra de significação ampla para indicar todos os tipos de debilidades produzidos pelo pecado.
Nós achamos esta palavra kalay em Deut 7.15; 28.61; I Rs 17.17; II Rs 1.2; 8.8,9, 13.14; II Cr 16.12; 21.15, 18, 19; Sl 41.3; Ec 5.17; Is 1.5; 38.9; 53.3, 4; Jer 6.7; 10.19; Os 5.13. Se tomarmos, por exemplo, este último texto citado, de Os 5.13, nós lemos: “Quando Efraim viu a sua enfermidade, e Judá a sua chaga, recorreu Efraim à Assíria e enviou ao rei Jarebe; mas ele não pode curar-vos, nem sarar a vossa chaga.”, e nós vemos que o sentido usado aqui para a palavra kalay, enfermidade, se refere ao estado pecaminoso de Israel e Judá. Ainda que a maior parte destes textos se refira a enfermidade física, no entanto o uso, como já dissemos não é restritivo. Veja também, por exemplo Is 1.5: “Por que seríeis ainda castigados, que persistis na rebeldia? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco.”. A referência aqui a “cabeça enferma” tem a ver com doenças físicas? Certamente não. A referência aqui é ao estado mau da alma em razão do pecado.  
Em Is 53.4, referindo-se a nós, é usada também outra palavra com um sentido de reforço, com um uso pleonástico desta primeira palavra citada, que significa principalmente aflições, dores, tristezas, a saber, makobi.  Assim, pela primeira palavra se expressa as realidades relativas às debilitações propriamente ditas, produzidas em razão do pecado original (enfermidades físicas, emocionais, imperfeições, carências etc) e a segunda palavra indica os sentimentos que acompanham estas realidades  por serem produzidos por elas (afições, tristezas, dores, sofrimentos).
Nós encontramos a palavra makobi, também em Êx 3.7; II Cr 6.29; Jó 33.19; Sl 32.10; 38.17; 69.26; Ec 1.18; 2.23; Is 53.3,4; Jer 30.15; 45.3; 51.8; Lam 1.12,18.
Em Is 53.10 a referência é ao próprio Jesus. E sabemos que foi a crucificação e não uma enfermidade específica a causa da Sua morte. Podemos então entender que as enfermidades citadas em relação a nós, e que foram carregadas por Jesus, são muito mais amplas do que somente as doenças físicas, senão tudo aquilo que produz dor e sofrimento por causa do pecado. Jesus morreu na cruz como forma de juízo estabelecido sobre ele, não por causa de algum pecado próprio, porque Ele não tinha pecado, mas foi por causa do pecado, porque Ele carregou sobre si os nossos pecados, e com eles, as enfermidades, isto é, todas as consequências malignas do pecado. 
Se a referência ao fato de Jesus ter carregado nossas enfermidades (kalay) e nossas dores e sofrimentos (makobi) é de caráter absoluto para ser visto na vida de todo crente fiel neste mundo, por que então existe ainda tanto sofrimento especialmente na vida daqueles que têm servido fielmente a Deus? E Jesus nos prometeu que teríamos aflições no mundo, como a dizer que teríamos o bom ânimo que é dado pela Sua presença consoladora e graça, mas os sofrimentos certamente nos acompanhariam neste mundo.  Ele disse acerca de Paulo o quanto ele teria que sofrer por causa do Seu nome: “pois eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre padecer pelo meu nome” (At 9.16). De modo que Paulo viria a dar o seguinte testemunho quando estava preso em Roma e escreveu aos colossenses: “Agora me regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja;” (Col 1.24). A promessa  da remoção total dos sofrimentos é somente para o céu. Não se pode querer fazer com que uma realidade que se cumprirá de modo absoluto, somente no futuro, depois do retorno do Senhor, se cumpra aqui na terra, antes da Sua segunda vinda, como se lê em Apo 21.4: “Ele enxugará de seus olhos toda [lágrima]; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.”
Assim, aqueles que afirmam que os crentes não podem mais ficar enfermos, de modo absoluto, aqui neste mundo, porque Jesus carregou a enfermidade deles, devem também afirmar que eles não podem ter mais qualquer tipo de sofrimento, porque é esta a promessa que é feita em Is 53.4.          
15) “Porque assim diz o Senhor: Eis que desta vez arrojarei para fora os moradores da terra, e os angustiarei, para que venham a senti-lo. Ai de mim, por causa da minha ruína! É mui grave a minha ferida: então eu disse: Com efeito é isto o meu sofrimento e tenho de suportá-lo” (Jer 10.18,19).
A palavra usada para sofrimento no final deste versículo, é traduzida em outras versões por enfermidade, porque é vertida da mesma palavra hebraica keley,  usada em Is 53.4. Assim, o sentido não é um mero sofrimento, ou mera enfermidade física, mas toda a debilidade que poderia ser infligida como forma de juízo de Deus sobre os pecados dos judeus, que seriam enviados para o cativeiro.
Vemos que o texto de Isaías 53 é bastante abrangente quando se refere a Jesus, demonstrando que Ele trataria não apenas das enfermidades físicas, mas de tudo o que entrou no mundo por causa do pecado. As nossas enfermidades ali referidas dizem respeito à debilidade geral produzida em nós pelo pecado e que nos sujeitou à maldição e ira de Deus. E foi especialmente da maldição da lei, da aplicação da ira de Deus que viria sobre nós por causa do pecado, que Jesus nos resgatou por meio da Sua morte na cruz. Assim, quando Ele veio em Seu ministério terreno curando de modo visível a todos os que tinham enfermidades físicas, Ele estava não apenas usando da Sua misericórdia, poder e amor, mas sobretudo revelando este Seu caráter divino e messiânico, do Único que pode nos livrar de todas as consequências maléficas do pecado, e dentre estas a principal delas, a saber, a morte eterna. Tanto é assim, que sempre houve em Jesus, mesmo quando curava, um apelo ao arrependimento e à conversão. E não foram poucas as imprecações que Ele fez sobre aqueles que Ele havia curado e no entanto não haviam se arrependido dos Seus pecados, como que a demonstrar que eles não haviam topado com o principal motivo de todas aquelas curas, sinais, milagres, que era a de convencer-nos de ser Ele o Messias prometido, e assim, por crermos nEle, pudéssemos ser salvos da ira vindoura.
16) “A perdida buscarei, e a desgarrada tornarei a trazer; a quebrada ligarei, e a enferma fortalecerei; e a gorda e a forte vigiarei. Apascentá-las-ei com justiça.” (Ez 34.16)
É dito aqui neste texto de Ezequiel o cuidado especial que o Senhor teria com as ovelhas do Seu rebanho.
Ele afirma que fortaleceria a enferma. Não é prometido expressa e absolutamente a cura de todas as enfermidades físicas. Mas o fortalecimento com graça, e isto Deus sempre faz para aqueles que são seus e que nele esperam, assim como fizera com Paulo em relação ao seu espinho na carne.
Mais uma vez é usada a mesma palavra de Is 53.4 para se referir aos enfermos: keley, que já comentamos anteriormente.    
17) “E eu, Daniel, desmaiei, e estive enfermo alguns dias; então me levantei e tratei dos negócios do rei. E espantei-me acerca da visão, pois não havia quem a entendesse.”  (Dn 8.27).
O próprio Daniel deu testemunho que esteve enfermo alguns dias, e que depois de ter sarado da enfermidade se levantou para fazer o seu trabalho. E vale destacar qual era o caráter aprovado e fiel de Daniel. Dele se declarou pelo anjo do Senhor que era homem muito amado por Deus. Ele não estava enfermo por motivo de nenhum pecado específico.
Cabe destacar que algumas enfermidades produzidas por vírus têm o propósito de criar anticorpos em nosso organismo nos tornando mais resistentes a outros tipos de enfermidades. Deus em Sua infinita sabedoria e poder sabe como governar e dosar a nossa exposição aos muitos organismos invisíveis do mundo microscópico que podem tanto nos enfermar quanto curar. Assim, até mesmo por meio disto Ele nos convence da Sua grande sabedoria e poder. Não foi o diabo que criou qualquer vírus. Não foi o diabo que criou qualquer bactéria nociva. Não foi o diabo que criou o inferno. Não foi o diabo que criou as pragas que atacam as lavouras. Ele não é criador, é criatura. Todas estas coisas foram trazidas à existência por Deus por causa da entrada do pecado no mundo. E através delas o Senhor nos tem ensinado a tomar cuidados com nossa higiene pessoal e coletiva. Ele nos obriga a viver em asseio, porque a falta disto pode produzir enfermidades. E qual é a lição que Ele quer nos ensinar, senão que é preciso ser limpo tanto no sentido físico quanto no espiritual? Isto não aponta para a necessidade de santidade para se ter vida, e vida saudável?
18) “E percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino, e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.” (Mt 4.23).
Já nos referimos antes ao propósito das muitas curas havidas no ministério de Jesus e no princípio dos dias apostólicos, de modo sobrenatural e miraculoso, para especialmente confirmar o caráter salvífico do Senhor.
Nunca mais se repetiu ao longo de toda a história da igreja, mesmo no período final do ministério dos apóstolos, o testemunho de cura de todos que eram levados a Jesus ou aos apóstolos. O Senhor continua curando a muitos e em muitos lugares, mas não com toda a extensão do início da Nova Aliança. E cabe destacar que toda vez que Deus inaugura uma nova dispensação, é que vemos a multiplicação de sinais e maravilhas, assim como ocorreu nos dias de Moisés e Josué, quando instituiu a Antiga Aliança, mas nunca mais se viu em Israel, em profusão, os portentosos milagres daqueles dias, senão nos dias dos profetas Elias e Eliseu, em razão de quase todos os israelitas terem se curvado ao culto de Baal, tendo sido necessário uma mais abundante realização de sinais para se provar que o Deus de Israel era com Elias e Eliseu, que davam testemunho da Sua Lei, da Sua Palavra, e não com os falsos profetas. Mas, depois disto nós testemunhamos o retorno da realização de sinais e prodígios somente na inauguração da Nova Aliança com Jesus e com os apóstolos. Uma vez estabelecida a igreja, não se testemunhou mais a realização daquela profusão de sinais e maravilhas senão em alguns avivamentos havidos em períodos específicos da história da igreja, especialmente em áreas em que o evangelho estava sendo pregado pioneiramente, como por exemplo na Ásia e na África.
É esperado por muitos que haja ainda uma grande realização de sinais e maravilhas quando estivermos próximos do tempo do fim, em razão da multiplicação da iniquidade na terra, mas é importante lembrar que o Senhor nos alertou que também muitos falsos mestres, profetas e cristos também os fariam na referida ocasião.
Leia também os seguintes textos que dão o mesmo testemunho de Mt 14.23: Mt 8.16, 17; 9.35; 10.1, 8; 14.14, 35; Mc 6.56.
19) “pegarão em serpentes; e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados.” (Mc 16.18).
A promessa de cura dos enfermos neste texto deve ser entendida no seu próprio contexto, pois sabemos que não está sendo prometido de modo absoluto que toda vez que um crente pegar em serpente venenosa ou beber veneno, que isto não lhe fará qualquer mal, pois a conclusão é óbvia.  Então o Senhor não está falando também de cura de enfermidade de modo absoluto, isto é, que toda vez que impusermos as mãos sobre os doentes, todos eles, sem exceção serão curados, quer na hora ou posteriormente. Oramos por muitas pessoas com toda a fé e convicção de que o Senhor é poderoso para curá-las seja do tipo de enfermidade ou gravidade que for. Entretanto, sabemos por experiência que não é por falta de poder, santidade ou fé em nós que em muitos casos, que a propósito não são poucos, que mesmo depois de termos orado por eles, morrem em razão daquelas enfermidades pelas quais oramos a Deus para que os curasse. Mas temos testemunhado também muitas curas como resposta à nossas orações. Então a promessa de Jesus de que isto seria um sinal no meio da verdadeira igreja, como livramentos miraculosos de situações perigosas, exemplificadas no texto por serpentes e veneno, e a isto podemos acrescentar muitas outras coisas, especialmente em nossos dias, com por exemplo balas perdidas, atropelamentos etc. Não se pode portanto tomar tal promessa em sentido absoluto, mas como um sinal que em existindo em nosso meio serve para comprovar que de fato temos crido em Cristo para a salvação, pois Ele disse que estes sinais seguiriam os que cressem.
20) “Jesus, porém, ao ouvir isto, disse: Esta enfermidade não é para a morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.” (João 11.4)
Ao dizer que a enfermidade de Lázaro não era para morte, apesar dele ter morrido por meio dela, Jesus confirmou que há casos, e estes não são poucos, mesmo entre crentes fiéis, que a enfermidade deles será para morte.
Lázaro foi ressuscitado porque não deveria ter morrido por aquela enfermidade assim como Jesus afirmou aos seus discípulos quando teve notícia de que estava enfermo. E o nome de Jesus seria glorificado com aquela ressurreição pelo testemunho de que Ele tem poder sobre a morte, e tem o poder de ressuscitar; de modo que tivéssemos um testemunho visível disso para confiarmos inteiramente na Sua promessa de ressuscitar o nosso corpo depois que passarmos pela morte.
Agora fica uma pergunta para aqueles que afirmam que o dever da igreja é ressuscitar a todos os que morrerem: Porventura Lázaro se encontra entre nós? Ele não teve que passar posteriormente pela experiência da morte, e possivelmente por uma enfermidade que seria para morte na ocasião determinada pela soberania de Deus?    
Nosso propósito não é diminuir a fé de ninguém a ponto de dizer que Deus não possa ressuscitar alguém em nossos dias. Temos testemunho destas realidades entre nós. O nosso propósito é simplesmente o de termos uma fé equilibrada que nos leve a entender que a soberania de Deus não pode ser desconsiderada em qualquer caso, seja ele qual for, porque está na Sua vontade e poder, e não em nós, a cura e a ressurreição de quem quer que seja.
21) “À vista disto, Pedro se dirigiu ao povo, dizendo: israelitas, por que vos maravilhais disto, ou por que fitais os olhos em nós, como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar:” (At 3.12)
Os próprios apóstolos declararam que não curavam a ninguém pelo próprio poder ou piedade, senão pelo poder de Jesus como declaram no verso 16. A piedade que havia neles não era propriamente deles, mas um fruto do Espírito Santo que neles se movia.
Mas, há muitos declarando hoje em dia que curam pelo próprio poder. Eles dizem que já receberam o poder de Jesus e agora é tudo por conta deles. Não foi isso que aconteceu com os apóstolos. E nem é isto que acontece com todos aqueles que são curados sobrenaturalmente, porque ainda que muitos afirmem que foi pelo próprio poder deles, não sabem em sua ignorância, que foi o próprio Deus que operou o milagre. Tudo o que ocorre na esfera do sobrenatural é realizado pelo próprio Senhor, de modo que apenas o seu santo nome seja glorificado e honrado.
22) “de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos.” (At 19.12).
No início do estabelecimento das igrejas pelos apóstolos temos o testemunho da abundância de milagres que Deus fazia entre eles para confirmar a Palavra de salvação que pregavam. Aqui no caso a referência é a Paulo que foi muito usado por Deus na ocasião, mas o vemos falando posteriormente de suas próprias enfermidades, e das de Timóteo, pelas quais ele certamente também orava para que fossem curadas, e no entanto, teve que recomendar a Timóteo na ocasião uma receita caseira para prevenir-se delas. 
Como pois toda enfermidade é do diabo? Ou então só fica enfermo quem não tem fé? Era este o caso de Paulo e Timóteo? Voltemos à sensatez se esta nos tem faltado.
“Eles, entretanto, se demoraram ali por muito tempo, falando ousadamente acerca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra da sua graça, concedendo que por suas mãos se fizessem sinais e prodígios.” (At 14.3). Veja aqui o propósito daqueles muitos sinais de dar testemunho da palavra da graça de Deus que estava sendo oferecida aos pecadores. E este testemunho não foi estabelecido na terra nos dias dos apóstolos? Era algo novo que estava acontecendo nos dias deles, mas já não é algo novo desde então, pois a todos tem sido proclamado o nome de Cristo, e o cânon do evangelho de há muito já foi fechado e confirmado. Nos dias de Jesus eles tinham Moisés e os profetas, como uma referência ao Velho Testamento, mas desde que Ele inaugurou a Nova Aliança nós temos também no Novo Testamento o testemunho da verdade de que somente Ele é o Salvador. E esta Palavra de salvação foi estabelecida e confirmada por meio de muitos sinais e prodígios, e a nós agora, cabe tão somente crer nela para a nossa salvação. Não necessitamos mais de nenhum sinal especial para podermos crer.
“Por isso convém atentarmos mais diligentemente para as coisas que ouvimos, para que em tempo algum nos desviemos delas. Pois se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu justa retribuição, como escaparemos nós, se descuidarmos de tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram: testificando Deus juntamente com eles, por sinais e prodígios, e por múltiplos milagres e dons do Espírito Santo, distribuídos segundo a sua vontade.” (Hb 2.1-4)
23) “Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem.”.
Nós temos aqui o testemunho, como vimos no início deste estudo, do uso que Deus faz de enfermidades e até mesmo da morte física para exercer juízos sobre os próprios crentes, que andem desordenadamente na Sua presença. Está na esfera da Sua soberania quando e por que fazê-lo. Não significando portanto que toda vez que um crente pecar ele terá consequentemente algum tipo de enfermidade física.
Aquele juízo veio sobre a igreja de Corinto para trazer de volta a reverência e o temor devidos a Deus. Se alguém pecar deve confessar e abandonar o pecado por motivo de Sua consciência para com Deus e não simplesmente por temer a enfermidade e a morte. Um crente deve viver em santidade de vida porque este é o único modo pelo qual deve um crente viver. Contudo em sua caminhada está sujeito a muitas falhas, mas sempre poderá contar com o favor do Senhor se continuar depositando a sua confiança nele, e mantendo o desejo de fazer aquilo que seja da Sua vontade. O Senhor é benigno, compassivo e perdoador. Nunca devemos esquecer isto em face das nossas fraquezas e imperfeições.
24) “e vós sabeis que por causa de uma enfermidade da carne vos anunciei o evangelho a primeira vez,” (Gál 4.13).  
Paulo está afirmando expressamente que o motivo de ter pregado o evangelho aos Gálatas pela primeira vez, foi exatamente uma enfermidade. Assim ainda que a enfermidade não seja um bem em si mesmo, Deus pode usá-la para propósitos elevados e santos, como nos tornar mais dóceis, ou fazer com que tenham compaixão de nós e nos ouçam, levar-nos a nos compadecer de quem está fraco e enfermo, quebrar o nosso orgulho etc. 
25) “Não bebas mais água só, mas usa um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades.” (I Tim 5.23)
Paulo se refere não à enfermidade de Timóteo, mas dos problemas de estômago que ele tinha, e de outras e frequentes enfermidades. No entanto, na ocasião da escrita desta carta ele estava ordenando a Timóteo que constituísse presbíteros em Éfeso e colocasse em ordem as coisas naquela igreja. E como o faria se estivesse vivendo em pecado ou com falta de fé?
Não podemos esquecer que o poder de Jesus se aperfeiçoa exatamente na nossa fraqueza. Aquelas enfermidades deviam sem qualquer dúvida, produzir em Timóteo uma grande confiança em Deus e no Seu poder, e não em si mesmo. Elas lhe lembravam que somos apenas um vaso de barro, facilmente quebrável, e que neste vaso, a excelência do poder que nele existir, pertence exclusivamente a Deus.
26) “E fez sair os israelitas com prata e ouro, e entre as suas tribos não havia quem tropeçasse.” (Sl 105.37)
Há versões que em vez de “não havia quem tropeçasse”, se afirma “não havia inválidos”, e em outras se diz “não havia enfermos”. Recorrendo à palavra no original hebraico nós temos kashal, que significa tropeçar, cair, falhar, enfraquecer, debilitar. Nós encontramos esta mesma palavra nos textos de Lev 26.37; I Sm 2.4; II Cr 25.8; 28.15, 23; Ne 4.10; Jó 4.4; Sl 9.3; 27.2; 31.10; 64.8; 105.12; Pv 4.1’2, 16, 19; 24.16, 17; Is 3.8; 5.27; 8.15; 28.13; 31.3; 35.3; 40.30; 59.10, 14; 63.13; Jer 6.15, 21; 8.12; 18.15, 23; 20.11; 31.9; 46.6, 12, 16; 50.32; Lam 1.14; 5.13; Ez 33.12; 26.15; Dn 11.14, 19, 33, 34, 35; 11.41; Os 4.5; 5.5; 14.19; Na 2.5; 3.3; Zac 12.8 e Ml 2.8.  
Por exemplo, em Os 14.1 Deus diz que Israel estava caído por causa dos seus pecados. E a palavra usada aqui para caído é a mesma do Sl 105.37, a saber, kashal. Assim, o sentido no Sl 105.37 não se refere exclusivamente a enfermidades físicas, mas à condição geral de decaimento da presença de Deus em razão do pecado, e é a isto que o autor do Sl 105.37 quis se referir quando da saída de Israel do Egito.
Mas, ainda que quiséssemos restringir o uso do termo para enfermidades físicas, deve-se ter em conta que no dia em que eles deixaram o Egito, as pragas trazidas sobre aquela nação haviam sido despejadas recentemente àquela saída, e de fato, Deus havia feito distinção entre o seu povo e os egípcios, de modo que não trouxe sobre os israelitas, naquela ocasião, nenhuma das pragas que havia trazido sobre os egípcios.  
Mas, depois de terem saído do cativeiro Deus lhes advertiu que andassem na Sua presença e cumprissem os Seus mandamentos para que não os enfermasse assim como havia enfermado os egípcios. Enfermidades epidêmicas entre os israelitas, como aquelas que acometeram os egípcios nas dez pragas, seriam então um sinal da parte de Deus de que havia pecado de todo o povo contra Ele, como foi o caso da praga de Baal-Peor que havia ceifado 24.000 vidas.
Assim, em Êx 15.26, nós lemos o seguinte: “Se ouvires atentamente a voz do Senhor teu Deus, e fizeres o que é reto diante de seus olhos, e inclinares os ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, sobre ti não enviarei nenhuma das enfermidades que enviei sobre os egípcios; porque eu sou o Senhor que te sara.”. E em Êx 23.25: “Servireis, pois, ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós as enfermidades.”.
E no caso de transgressão da Aliança nós lemos a seguinte ameaça que foi dirigida aos israelitas:         “então o Senhor fará espantosas as tuas pragas, e as pragas da tua descendência, grandes e duradouras pragas, e enfermidades malignas e duradouras;” (Dt 28.59). 
As ameaças previstas na Lei para os casos de violação da aliança por parte dos israelitas foram, portanto, cumpridas por Deus, como Ele havia prometido que o faria.
27) “18 Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Isto diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo, e os pés semelhantes a latão reluzente:
19 Conheço as tuas obras, e o teu amor, e a tua fé, e o teu serviço, e a tua perseverança, e sei que as tuas últimas obras são mais numerosas que as primeiras.
20 Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos;
21 e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não quer arrepender-se da sua prostituição.
22 Eis que a lanço num leito de dores, e numa grande tribulação os que cometem adultério com ela, se não se arrependerem das obras dela;
23 e ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que esquadrinha os rins e os corações; e darei a cada um de vós segundo as suas obras.” (Apo 2.18-23).
Veja que ele se dirigiu a crentes de uma das sete igrejas da Ásia Menor que são citadas no livro de Apocalipse.
Ele elogiou a fé deles, as obras deles que a propósito eram maiores do que as primeiras, mas reprova a prostituição espiritual deles com as práticas que estavam sendo ensinadas por uma determinada profetiza, que lhes estava incentivando a compartilharem com as coisas sacrificadas a ídolos.
Como aquela profetiza não se arrependeu dentro do tempo que o Senhor havia concedido a ela como oportunidade para tal arrependimento, Ele afirmou expressamente que Ele próprio a colocaria, como também os seus seguidores num leito de dores e de grande tribulação, e não somente isto, caso não houvesse arrependimento em face de tal juízo, e feriria de morte a seus filhos para que as igrejas soubessem que Ele dá a cada um segundo as suas obras. Jesus não deixará de disciplinar a sua igreja. O autor de Hebreus diz que Deus nos corrige e disciplina assim como um pai faz com seus filhos. E que todo aquele que não está debaixo desta disciplina de Deus é bastardo e não filho. Ora, se alguém se vangloria do fato de nunca ter tido tribulações e enfermidades, em face de uma alegada suprema santidade, deve ter muito cuidado com isto, porque não há quem não peque, ainda que crente, e por conseguinte, que esteja fora da esfera de correção de Deus.
Se é pelas tribulações que estamos sendo aperfeiçoados em perseverança, paciência, experiência, santidade, como se afirma na Palavra, como poderemos então nos gloriar no fato de nunca termos experimentado tribulações? Por acaso estamos em estado de perfeição que nada tenhamos que aprender de Deus? E com isto não nos referimos apenas a juízos sobre pecados praticados deliberadamente, mas ao nosso estado de endurecimento geral, produzido pelo pecado, que Deus quebra com as provações e humilhações das tribulações de modo que sejamos achados mais longânimos, pacientes, misericordiosos, simpáticos aos sofrimentos do nosso próximo etc.  
E ainda numa palavra final para aqueles que ficam horrorizados, tal como Marcião ficou em seus dias, com a ideia de que um Deus de amor possa se valer de enfermidades para castigar ou para qualquer outro propósito, pois isto não seria digno de uma pessoa boa como ele, senão do diabo que é mau. Cabe destacar que Jesus nos alertou que não devemos sequer temer os homens maus quanto aos sofrimentos que possamos experimentar, mas ao próprio Deus que pode não apenas tirar a vida do corpo físico, como lançar a alma eternamente no inferno. Será Deus quem lançará o próprio diabo no lago de fogo e todos os seus seguidores. Não será o diabo que lançará qualquer alma no inferno, pois não lhe foi dado o poder de julgar, senão a Cristo, que tem as chaves da morte e do inferno em Suas mãos. Afinal, não foi o diabo que destruiu pelo fogo as cidades de Sodoma e Gomorra, e nem foi ele quem trouxe a destruição do dilúvio nos dias de Noé, e nem será ele quem fará com que o mundo que hoje existe seja totalmente destruído pelo fogo. 
Falar sobre o atributo da ira de Deus faz parte de um outro estudo, e não é nosso propósito nos estendermos aqui sobre tal assunto. Mas recomendamos que isto seja também estudado em paralelo, para que se aprenda pelas Escrituras que o Deus que servimos é inteiramente amor e misericórdia, mas é também justiça e juiz, e assim como Ele nos faz alvo do Seu favor, nos faz também alvo dos Seus juízos.  
Quantas graças então, devemos a Jesus Cristo que desviou o cálice da ira de Deus de sobre nós, por tê-lo sorvido em nosso lugar até a última gota no Calvário?
Quantas graças, não devemos lhe tributar pelo seu cuidado amoroso e paternal?
Lembramos neste momento, da pequenina Eloá, e somos gratos a Deus por sua vida preciosa, que nos inspirou à escrita desta breve meditação sobre o propósito santo e misericordioso que há nas enfermidades e sofrimentos que temos neste mundo.
Eloá é do Senhor quer na vida ou na morte física, porque traz com ela a promessa da ressurreição do seu próprio corpo, hoje combalido, mas que refulgirá  na glória com um brilho maior do que o das estrelas naquela manhã maravilhosa da ressurreição final que está prometida a todos os que são do Senhor, e que no meu espírito, posso testificar juntamente com o Espírito Santo, que Eloá é de Deus, e que Deus é de Eloá, pois assim como somos do nosso amado, Ele também é nosso, pois fomos comprados para Ele, pelo sangue precioso de Jesus.





São Todas as Transgressões da Lei Igualmente Hediondas?

   

Por Thomas Watson (1620-1686)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra

Alguns pecados em si mesmos, e em razão de vários agravamentos, são mais hediondos aos olhos de Deus do que outros.
Jesus disse a Pilatos: "Aquele que me entregou a ti, tem maior pecado" (João 19:11). Os filósofos estoicos sustentavam que todos os pecados eram iguais; mas esta Escritura afirma claramente que há uma diferença gradual no pecado; alguns são maiores do que outros; alguns são "pecados graves" e que clamam, Gênesis 18:21. Todo pecado tem voz para falar, mas alguns pecados clamam. Como algumas doenças são piores do que outras, e alguns venenos são mais venenosos, então alguns pecados são mais hediondos. "E vós fizestes pior do que vossos pais; pois eis que andais, cada um de vós, após o pensamento obstinado do seu mau coração, recusando ouvir-me a mim." (Jeremias 16:12; Ezequiel 16:47).
Alguns pecados têm um aspecto mais negro do que outros; cortar a moeda do rei é traição; mas atacar sua pessoa é um grau mais alto de traição. Um pensamento vão é um pecado, mas uma palavra blasfema é um pecado maior.
Alguns pecados são maiores do que outros,
(1) Por haver diferença nas ofertas previstas na lei; a oferta pelo pecado era maior que a oferta pela transgressão.
(2) Porque alguns pecados não são capazes de perdão como os outros são, portanto, eles devem ser mais hediondos, como a blasfêmia contra o Espírito Santo. (Mat 12:31).
(3) Porque alguns pecados têm um maior grau de punição do que outros. "Você receberá a maior condenação". (Mat 23:14). "O juiz de toda a terra não deve fazer o bem?" Deus não puniria mais do que outro se seu pecado não fosse maior? É verdade, "todos os pecados são igualmente hediondos em relação ao objeto", ou ao Deus infinito, contra o qual o pecado é cometido, mas, em outro sentido, todos os pecados não são tão hediondos; alguns pecados têm mais circunstâncias sangrentas neles, que são como o corante para a lã, para dar uma cor mais profunda.
[1] Tais pecados são mais hediondos, quando são cometidos sem qualquer ocasião oferecida; como quando um homem jura ou está irritado, e não tem provocação. Quanto menor for a ocasião para o pecado, maior é o próprio pecado.
[2] Os pecados são mais hediondos quando são cometidos de forma presunçosa. Sob a lei, não havia sacrifício por pecados presunçosos. Núm 15:30.
Qual é o pecado da presunção, que agrava o pecado, e o torna mais odioso?
Pecar presunçosamente, é pecar contra convicções e iluminações, ou uma consciência esclarecida. "São daqueles que se rebelam contra a luz". Jó 24:13. A consciência, como os querubins, está com uma espada flamejante na mão para deter o pecador; e ainda assim ele pecará. Pilatos não pecou contra a convicção, ao condenar Cristo? Ele sabia que por inveja os judeus o entregaram. (Mat 27:18). Ele confessou que "não encontrou culpa nele". (Lucas 23:14). Sua própria esposa enviou-lhe uma mensagem dizendo: "Não tenha nada a ver com esse homem justo". (Mat 27:19). No entanto, e  em meio a tudo isso, ele deu a sentença de morte contra Cristo. Ele pecou com presunção, contra uma consciência esclarecida.
"Se eu não tivesse vindo e não tivesse lhes falado, eles não teriam pecado", isto é, o pecado deles teria sido menor. (João 15:22). Mas pecar contra iluminações e convicções aumenta os pecados dos homens. Estes pecados fazem feridas profundas na alma; outros pecados obtêm sangue; eles são uma facada no coração.
(1) Quando ele vive na negligência total do dever. Ele não é ignorante que é um dever ler a Palavra, mas ele deixa a Bíblia ficar como armadura uma enferrujada. Ele está convencido de que é um dever orar em sua família, mas pode passar dias e meses, e Deus nunca ouve falar dele; ele chama Deus de Pai, mas nunca pede sua benção. A negligência da oração familiar, por assim dizer, descobre o telhado das casas dos homens, e abre caminho para que uma maldição caia sobre sua mesa.
(2) Quando um homem vive nos mesmos pecados que ele condena nos outros. "Você que julga, faz as mesmas coisas" ( Rom 2: 1). Como Agostinho diz de Sêneca: "Ele escreveu contra a superstição, mas ele adorava as imagens que ele reprovava". Um homem condena outro por censura precipitada, mas ainda vive no próprio pecado; um mestre reprova seu aprendiz por causa de palavras torpes, mas ele próprio as profere. Os espevitadores do tabernáculo eram de puro ouro: os que repreendem e exalam os vícios dos outros, precisam ser livres desses pecados.
(3) Quando um homem peca por causa dos votos. "Seus votos estão sobre mim, ó Deus". (Salmo 56:12). Um voto é uma promessa religiosa feita a Deus, para se dedicar a Ele. Um voto não é apenas um propósito, mas uma promessa. Todo devoto torna-se um devedor; ele se liga a Deus de maneira solene. Agora, pecar contra um voto, jurar a Deus e dar a alma ao demônio, deve ser contra as convicções mais elevadas.
(4) Quando um homem peca contra conselhos, admoestações, avisos, ele não pode pretextar ignorância. A trombeta do evangelho foi soprada em seus ouvidos, e soou para chamá-lo de seus pecados, ele foi informado de sua injustiça, vivendo em malícia, mantendo uma má companhia, e ele se arrisca contra o pecado. Isto é pecar contra a convicção; agrava o pecado, e é como um peso colocado na balança, para fazer seu pecado pesar ainda mais. Se uma marca for colocada no mar para advertir que há pedras naquele lugar, e ainda assim o marinheiro navegar para lá e naufragar seu navio, isto é presunção; e se ele for demitido, quem vai ter pena dele?
(5) Quando um homem pecar contra combinações expressas e ameaçadoras. Deus criou ameaças contra tais pecados. "Mas Deus esmagará a cabeça de seus inimigos, o crânio cabeludo daquele que prossegue em suas culpas." (Salmo 68:21). Embora Deus coloque a ponta de sua espada no peito de um pecador, ele ainda cometeu pecado. O prazer do pecado o deleita mais do que as ameaças o amedrontam. Como o leviatã, "ele lamenta a agitação de uma lança". (Jó 41:29). Ele ridiculariza as ameaças de Deus. "E dizem: Apresse-se Deus, avie a sua obra, para que a vejamos; e aproxime-se e venha o propósito do Santo de Israel, para que o conheçamos. Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que põem as trevas por luz, e a luz por trevas, e o amargo por doce, e o doce por amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e astutos em seu próprio conceito!” (Isa 5:19-21). Quando os homens veem a espada flamejante das ameaças de Deus brandindo, e ainda se fortalecem no pecado, isto é uma forma agravada de pecar contra a iluminação e a convicção.
(6) Quando um homem peca sob a aflição. Deus não apenas troveja por ameaçar, mas deixa cair seu raio. Ele inflige julgamentos a uma pessoa para que ela possa ler seus pecados em seu castigo, e ainda assim ele peca. Seu pecado era imundície, pelo qual desperdiçava sua força, bem como sua propriedade. Ele teve um ataque de apoplexia; e ainda assim, sentindo o poder do pecado, ele conserva o amor ao pecado. Isto é pecar contra a convicção. "Em sua angústia, ele transgrediu ainda mais”; este é o rei Acabe (2 Crônicas 28:22). Isso torna o pecado maior quando é contra uma consciência esclarecida. Está cheio de obstinação. Os homens não dão razão, não fazem defesa por seus pecados, e ainda estão resolvidos a manter a iniquidade. Voluntas est regula et mensura actionis [Uma ação pode ser medida e julgada pela vontade envolvida], e assim, quanto mais houver da vontade em um pecado, maior é o pecado. "Mas eles dizem: Não há esperança; porque após os nossos projetos andaremos, e cada um fará segundo o propósito obstinado do seu mau coração." (Jeremias 18:12). Embora haja morte e inferno a cada passo, vamos marchar sob as cores de Satanás. O que fez o pecado dos anjos apóstatas tão grande era que era intencional; eles não tinham ignorância em sua mente, nenhuma paixão para agitá-los; não havia tentador para enganá-los, mas eles pecaram obstinadamente e por um ato de escolha consciente.
Pecar contra convicções e iluminações, é unido a rejeição e desprezo de Deus. É ruim que um pecador se esqueça de Deus, mas é pior condená-lo. "Por que os ímpios condenam Deus?" (Salmo 10:13). Um pecador esclarecido sabe que, por seu pecado, ele desobedece e irrita Deus; mas ele não se importa se Deus está satisfeito ou não, e ele praticará o seu pecado; portanto, o tal é acusado de Deus. "Mas a pessoa que fizer alguma coisa presumivelmente, quer seja natural, quer estrangeira, blasfema ao Senhor; tal pessoa será extirpada do meio do seu povo." (Num 15:30). Todo pecado desagrada a Deus, mas os pecados contra uma consciência esclarecida reprovam ao Senhor. Condenar a autoridade de um príncipe, é considerado um opróbrio. É acompanhado de impudência. O medo e a vergonha são banidos, o véu da modéstia é deixado de lado. "O injusto não conhece vergonha".(Sofonias 3: 5).
Judas sabia que Cristo era o Messias; ele estava convencido disso por um oráculo do céu, e pelos milagres que ele fez, e, no entanto, ele continuou impudentemente na sua traição, mesmo quando Cristo disse: "Aquele que mergulha sua mão comigo no prato, esse me trairá” E ele sabia que Cristo o iria dizer. Quando ele estava indo para praticar sua traição, e Cristo pronunciou uma aflição sobre ele, ainda assim, por tudo isso, ele prosseguiu em sua traição. (Lucas 22:22). Assim, pecar de forma presunçosa, contra uma consciência esclarecida, colore o pecado de uma cor carmesim e torna-o maior do que outros pecados.
[3] Pecados são mais hediondos do que outros, quando são pecados de continuidade. A continuação do pecado é o aumento do pecado. Aquele que trai, se torna um ofensor maior. As cabeças de alguns homens são o minério do diabo, são uma mina de malícia. "Inventores de coisas más". (Rom 1:30). Alguns inventam novos juramentos, outras novas armadilhas. Tais foram os presidentes que inventaram um decreto contra Daniel e levaram o rei a assiná-lo. (Dan 6: 9).
[4] São pecados maiores, aqueles que procedem de um espírito de malignidade. A maldade é diabólica. É um pecado ter falta da graça, mas é um pior odiá-la. Na natureza existem antipatias, entre a videira e o louro. Alguns têm uma antipatia contra Deus por causa de sua pureza. “Desviai-vos do caminho, apartai-vos da vereda; fazei que o Santo de Israel deixe de estar perante nós." (Isa 30:11). Os pecadores, se estiverem no seu poder, não só encurralariam a Deus, mas aniquilariam-no; se pudessem fazê-lo, Deus não deveria mais ser Deus. Assim, o pecado é tornado maior.
[5] São de maior magnitude aqueles pecados que são misturados com ingratidão. De todas as coisas, Deus não pode suportar a destruição de sua bondade. Sua misericórdia é vista em perseguir os homens por tanto tempo, em cortejá-los por seu Espírito e ministros para serem reconciliados, coroando-os com tantas bênçãos temporais e ainda assim eles abusam de todo esse amor, quando Deus vem preenchendo a medida da sua misericórdia, até que os homens preencham a medida de seus pecados, é uma alta ingratidão e faz seus pecados de um carmesim mais profundo. Alguns são piores para a misericórdia. Assim, o pecador contrai o mal dos doces perfumes da misericórdia de Deus.
A crônica inglesa relata de um Parry, que foi condenado a morrer, e a rainha Elizabeth lhe enviou perdão; e depois de ter sido perdoado, ele conspirou e planejou a morte da rainha. Assim lidam com Deus: ele concede misericórdia, e trazem traição contra ele. "Eu nutri e criei filhos, e eles se rebelaram contra mim." (Isa 1: 2). Os atenienses, em paga do bom serviço que Temistocles lhes fizera, o baniram de sua cidade. Certamente, os pecados contra a misericórdia são mais hediondos.
[6] São pecados mais hediondos do que outros aqueles que estão comprometidos com a determinação da vontade. Um filho de Deus pode pecar por causa de uma tentação, ou contra sua vontade. "O mal que eu não desejo, esse eu faço." (Rom 7:19). Ele é como que levado pelo fluxo involuntariamente. Mas o pecado com prazer aumenta o pecado. É um sinal de que o coração está no pecado. "Eles colocam seu coração em sua iniquidade", como um homem segue seu ganho com prazer. (Os 4: 8). "Fora ficam os cães, e todo aquele que ama e pratica a mentira." (Apocalipse 22:15). Dizer uma mentira é um pecado; mas amar dizer uma mentira é um pecado maior.
[7] São pecados mais hediondos do que outros aqueles que são cometidos sob pretexto de religião. Trapacear e defraudar é um pecado, mas fazê-lo com uma Bíblia em sua mão, é um duplo pecado. "Pegou dele, pois, e o beijou; e com semblante impudico lhe disse: Sacrifícios pacíficos tenho comigo; hoje paguei os meus votos. Por isso saí ao teu encontro a buscar-te diligentemente, e te achei. Já cobri a minha cama de cobertas, de colchas de linho do Egito. Já perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Vem, saciemo-nos de amores até pela manhã; alegremo-nos com amores. Porque meu marido não está em casa; foi fazer uma jornada ao longe." (Provérbios 7:13-19). Ela fala como se estivesse na igreja e tivesse dito suas orações: quem jamais teria suspeitado de desonestidade por parte dela? Mas, veja sua hipocrisia; ela torna sua devoção um prefácio ao adultério.
"Que devoram as casas das viúvas, fazendo, por pretexto, longas orações; estes hão de receber maior condenação." (Lucas 20.47). O pecado não estava em fazerem longas orações; pois Cristo passou uma noite inteira em oração; mas fazer longas orações para que eles fizessem ações injustas, tornou o pecado mais hediondo.
[8] São pecados mais hediondos do que outros. Demas abandonou a verdade e depois tornou-se um sacerdote em um templo de ídolos (2 Tim 4:10). Cair é um pecado; mas apostatar é um pecado maior. Os apóstatas lançam uma desgraça sobre a religião. "O apóstata", diz Tertuliano, "parece colocar Deus e Satanás na balança; e tendo pesado ambos os cultos, prefere o do diabo e proclama que ele é o melhor mestre. Em que aspecto é dito do apóstata colocar Cristo em "vergonha aberta" (Heb 6: 6). É um pecado não professar Cristo, mas é um maior negá-lo. Não usar as cores de Cristo é um pecado, mas correr de suas cores é um pecado maior.
[9] Perseguir a religião aumenta o pecado. (Atos 7:52). Não ter religião é pecado, mas esforçar-se para destruir a religião verdadeira é um maior. Antíoco Epifânio vexava e se opunha aos judeus, mais do que todos os seus predecessores tinham feito para obter vitórias. Herodes acrescentou isso acima de tudo, que ele calou João na prisão. (Lucas 3:20). Ele pecou antes pelo incesto; mas, aprisionando o profeta, ele tornou o seu pecado maior. A perseguição enche a medida do pecado. "Preenchem a medida de seus pais". (Mat 23:32). Se você derramar um pouco de água em uma cisterna, você adiciona algo a ela, mas se derramar um balde ou dois enche a medida da cisterna; então a perseguição enche a medida do pecado e a torna maior.
[10] Pecar maliciosamente torna o pecado maior. Aquino considera o pecado contra o Espírito Santo como sendo a malícia. O pecador faz tudo o que pode para aborrecer a Deus, apesar de ser o Espírito de graça. (Heb 10:29). Então Júlio brandiu a adaga no ar, como se ele tivesse se vingado de Deus. Isso conduz o pecado para o tamanho completo, não pode ser maior. Quando um homem chegou uma vez a isso, blasfemando, apesar do Espírito, há apenas um passo para baixo, ele pode cair, e isso é para o inferno.
[11] Agrava o pecado e o torna maior, quando um homem não somente peca, mas esforça-se para fazer os outros pecarem.
(1) Tal como ensinar erros às pessoas, que criticam a divindade de Cristo, ou negam suas virtudes, tornando-se apenas uma cabeça política, não uma influência: quem prega contra a moralidade do sábado ou a imortalidade da alma; os pecados destes homens são maiores do que outros. Se os quebradores da lei de Deus pecam, o que são os que ensinam os homens a quebrá-la? (Mateus 5:19).
(2) Tal como destruir outros por seu mau exemplo. O pai injurioso ensina seu filho a injuriar e o contamina por seu exemplo. Os pecados desses homens são maiores do que outros, e eles terão um lugar mais quente no inferno.
Você vê assim que todos os pecados não são iguais; alguns são mais penosos do que outros e trazem maior ira; portanto, tome especialmente em consideração esses pecados. "Também de pecados de presunção guarda o teu servo, para que não se assenhoreiem de mim; então serei perfeito, e ficarei limpo de grande transgressão." (Salmo 19:13). O menor pecado é ruim o suficiente; você não precisa agravar seus pecados e torná-los mais atormentadores. Aquele que tem uma pequena ferida não deve torná-la mais profunda. Oh, cuidado com as circunstâncias que aumentam o seu pecado e o tornam mais hediondo! Quanto mais alto um homem estiver pecando, mais baixo ele estará em tormentos.
(Nota do tradutor: à luz de tudo o que foi exposto, como poderíamos ainda afirmar que diante de Deus não há pecadinhos e pecadões, e que todos os pecados possuem o mesmo peso e medida diante dele?
Evidentemente, para efeito de juízo eterno um pequeno pecado pode tanto conduzir ao inferno quanto um grande, mas é notório que nunca houve um descendente de Adão que tivesse praticado durante todo o longo curso de sua vida, apenas uns poucos e pequenos pecados. O pecado abunda em todo coração pulsante, e caso não haja um tratamento pelo sangue de Jesus, e uma contínua mortificação da carne, jamais poderá ser subjugado e desalojado dali.
Bem-aventurados são todos aqueles que se examinam, pelo Espírito Santo e pelas Escrituras, diariamente, para que possam não somente confessar suas transgressões a Deus, como também para evitá-las e deixá-las, pois, por mais fracos que sejam, e obtenham pouco sucesso em seus esforços contra o pecado, todavia, Deus não deixará de levar em conta o desejo de seus corações, para em tudo agradá-lo, por odiarem a todo tipo de pecado, e amarem todas as virtudes, como elas se encontram em Jesus Cristo.
Onde não há a prática deliberada do pecado, há de se manifestar a suficiência e poder do sangue que Jesus derramou na cruz para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.
Somente onde existe a citada deliberação da vontade quanto ao pecado que é abrigado e amado, é que não se pode contar com a eficácia de qualquer sacrifício ou cobertura pelo pecado, inclusive os do próprio Senhor Jesus Cristo, que se mostra eficaz somente onde há verdadeiro arrependimento e confissão. Todavia, ainda que debaixo da sagrada proteção eficaz contra a condenação eterna, ficamos sujeitos aos juízos corretivos de Deus quando andamos contrariamente à Sua vontade, e tanto maiores serão estes juízos conforme a forma como pecamos, como se vê no texto de Lucas 12.47,48:
“O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá.”)