sexta-feira, 28 de abril de 2017

Miséria do Homem e Misericórdia de Deus


Título original: Man”s Misery and God”s Mercy

Por J. C. Philpot (1802-1869)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra

"Muitas vezes os livrou; mas eles foram rebeldes nos seus desígnios, e foram abatidos pela sua iniquidade. Contudo, atentou para a sua aflição, quando ouviu o seu clamor; e a favor deles lembrou-se do seu pacto, e aplacou-se, segundo a abundância da sua benignidade." (Salmo 106: 43-45)
Os filhos de Israel eram, como vocês bem sabem, "pessoas típicas", representativas por seu relacionamento com Deus, por meio de uma aliança nacional e externa, daquela geração escolhida, aquela nação santa, esse povo peculiar, que está mais próximo, numa relação mais elevada e mais permanente com ele por meio dessa aliança eterna, em tudo bem ordenada e segura (2 Sm 23: 5). Ora, havia várias razões, e todas elas carimbadas com a manifesta impressão de infinita sabedoria, misericórdia e graça por parte de Deus, no pacto externo.
Uma das razões era que o trato de Deus com eles, e suas relações com Deus, poderiam ser um registro permanente, para que a Igreja em todas as eras pudesse ler em um espelho seu próprio caráter como tipificado pelos filhos de Israel e o caráter de Deus como representado por suas relações com eles. Agora, esta é a razão pela qual um salmo como este, que nos dá um resumo ou breve história do caráter e da conduta dos filhos de Israel, tanto no deserto como na terra prometida, como sempre pecando e se rebelando contra Deus. A ternura para com eles apesar de, e em meio a todos os seus pecados e desvios, é tão instrutiva, edificante e encorajadora, que vemos por um lado, em sua conduta, a representação da nossa própria; e vemos, por outro lado, nos tratos de Deus com eles, a representação dos tratos misericordiosos de Deus conosco. Mas, como espero, com a ajuda e a bênção de Deus, mostrar esses dois pontos mais completamente ao abrir as palavras diante de nós, e passarei agora, sem outro prefácio, ao nosso texto, no qual pareço ver essas quatro características proeminentes:
Primeiro, os numerosos livramentos de Deus de Israel - "Muitas vezes o libertou".
Em segundo lugar, as ações vis de Israel, e sua triste consequência - "Mas eles provocaram-no com o seu conselho, e foram reduzidos à sua iniquidade".
Em terceiro lugar, a tendência com que Deus os contemplou quando, na sua aflição, clamaram a ele: "Contudo, viu a sua aflição quando ouviu o seu clamor".
E por fim, a misericordiosa lembrança de Deus para com eles da sua aliança e do arrependimento que moveu o seu coração gracioso - "E eu me lembrei deles por sua aliança, e me arrependi de acordo com a multidão de suas misericórdias".
Se você ver e sentir comigo, você vai ver e sentir grande beleza e doçura nas palavras do nosso texto. Convido, portanto, a quem quer que seja do Israel espiritual, que conhece tanto o que tem sido para com Deus como o que ele tem sido e é para contigo, para escutar esta manhã a tua história, na qual encontrarás abundante matéria para vergonha e tristeza, e também uma história de bondade e misericórdia de Deus, em que encontrarás abundante matéria para louvor e ação de graças.
(Nota do tradutor: Conforme a Bíblia nos revela, e pelas palavras confirmatórias do autor deste livro, podemos ver claramente que os escarnecedores da misericórdia de Deus, que julgam que Ele é um grande tolo em estender todos os dias a Sua bondade, inclusive para com eles, inveterados pecadores, que nunca se arrependem do mal, nada entendem do pacto pelo qual Ele se comprometeu a salvar um povo que o ame e sirva fielmente, ainda que sejam pecadores, pois a essência de todo o Seu propósito se resume em que Ele os tem perfeitamente santos e justos quando os tira deste mundo para a Sua presença no céu. Onde estão os escarnecedores de todas as épocas? Certamente não no céu, pois a Bíblia não nos dá testemunho do comparecimento deles ao paraíso para desfrutarem do gozo eterno da divindade.
Se há uma misericórdia em fazer o Seu sol brilhar e a chuva cair neste mundo sobre justos e injustos,  todavia, a misericórdia que é manifestada para a salvação eterna da alma é destinada apenas àqueles que se arrependem e se submetem a Jesus como Salvador e Senhor de suas vidas, através da Nova Aliança firmada com eles e fundamentada no sangue que Jesus derramou na cruz.)
I. Tenho primeiro que mostrar as numerosas libertações do Israel literal como típicas e figurativas das numerosas libertações do Israel espiritual. "Muitas vezes ele os livrou."
A. Quando lemos a história dos filhos de Israel, como tão plena e fielmente prestada no Antigo Testamento, quantas repetidas vezes encontramos essas palavras cumpridas. Mas, a partir dessas numerosas libertações, posso agora apenas citar algumas.
1. Olhe primeiro, então, aquele grande sinal de libertação, quando eles eram escravos no Egito, em servidão aparentemente desesperada e indefesa. Lembre-se de seus gemidos e lágrimas, de suas costas machucadas e de corações ainda mais machucados, quando os mestres de tarefa cruéis, sob o comando do Faraó, os obrigaram a fazer tijolos sem palha e ainda assim exigiram o mesmo número anterior de tijolos. Veja como quão rápida e firme foi a mão do cruel tirano egípcio nessa terra miserável; como Deus enviou praga após praga, e julgamento após julgamento sobre ele; e, no entanto, aquele rei ímpio endureceu seu coração e não os deixou ir. Finalmente, quando todos os outros meios falharam, Deus enviou o anjo destruidor para ferir os primogênitos, desde o de Faraó que estava assentado em seu trono até o primogênito do cativo no calabouço, de modo que houve pelo Egito um clamor universal, pois não havia uma casa onde não houvesse ninguém morto. Então, e não até então, ele os enviou para fora da terra em pressa.
Mas mesmo assim, tão logo enterraram seus mortos, todos os julgamentos de Deus foram esquecidos. Este implacável rei ainda estava determinado a manter Israel. Ele os perseguiu com seus carros e seus cavalos, e os alcançou no Mar Vermelho. Com as ondas espumantes adiante, e um inimigo feroz por trás, como completamente pareciam cortados de toda ajuda ou esperança. O desespero apoderou-se deles, e até brigaram com seu libertador. "Então eles se voltaram contra Moisés e se queixaram: 'Por que nos trouxeste para aqui morrermos no deserto, não havia túmulos suficientes para nós no Egito, por que nos fizeste ir?'" (Êxodo 14:11). Mas como Moisés acalmou seus corações conturbados. "Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que ele hoje vos fará; porque aos egípcios que hoje vistes, nunca mais tornareis a ver; o Senhor pelejará por vós; e vós vos calareis." (Êxodo 14:13, 14). Nessa sua situação extrema profunda, Deus falou a palavra; ordenou que Moisés estendesse a mão; as águas poderosas se separaram de cada lado, e através das paredes assim feitas, todos os israelitas passaram em segurança, homens, mulheres e crianças, sem sofrer o menor dano. Mas, quando seus inimigos tentaram o mesmo, por ordem de Deus, as águas voltaram e derrubaram Faraó e todas as suas tropas armadas no fundo do mar. Que libertação foi aquela. (Nota do tradutor: Tantos israelitas e egípcios não eram criaturas de Deus? Qual a razão da distinção feita entre ambos? Os israelitas não eram tão pecadores quanto eram os egípcios? Por aquele livramento Deus revelava que é o salvador do povo com o qual ele está aliançado. Que ele faz distinção entre aqueles que o servem e os que não o servem (Malaquias 3.17,18). Há esperança para todo aquele que é tornado filho de Deus por meio da justificação pela graça mediante a fé em Jesus Cristo. Mas para o ímpio que não se arrepende, não há esperança, pois não há qualquer aliança de misericórdia firmada entre eles e Deus. Por isso a Nova Aliança é designada por fiéis misericórdias prometidas a Davi – Atos 13.34).
2. Vejam outra vez como, quando vieram no deserto, Deus repetidamente estendeu a sua mão para libertá-los. Ele os livrou da fome, enviando maná diariamente para alimento. Livrou-os de perecer pela sede, ordenando a Moisés ferir a rocha, e as águas jorraram. Embora os castigasse severamente pelos seus pecados, e embora os cadáveres dos rebeldes caíssem no deserto, ele nunca deixou de suprir suas necessidades. Nesse belo resumo de sua história, que encontramos na oração dos levitas, eles falam de forma verdadeira e tocante. "Todavia tu, pela multidão das tuas misericórdias, não os abandonaste no deserto. A coluna de nuvem não se apartou deles de dia, para os guiar pelo caminho, nem a coluna de fogo de noite, para lhes alumiar o caminho por onde haviam de ir. Também lhes deste o teu bom Espírito para os ensinar, e o teu maná não retiraste da sua boca, e água lhes deste quando tiveram sede." (Neemias 9:19, 20).
3. Se, do deserto, nós os seguirmos até a terra de Canaã, ainda vemos as misericórdias de livramento de Deus, como reconhece a mesma oração. "Os filhos, pois, entraram e possuíram a terra; e abateste perante eles, os moradores da terra, os cananeus, e lhos entregaste nas mãos, como também os seus reis, e os povos da terra, para fazerem deles conforme a sua vontade. Tomaram cidades fortificadas e uma terra fértil, e possuíram casas cheias de toda sorte de coisas boas, cisternas cavadas, vinhas e olivais, e árvores frutíferas em abundância; comeram, pois, fartaram-se e engordaram, e viveram em delícias, pela tua grande bondade." (Neemias 9:24, 25).
E como retribuíram ao Senhor por todas essas misericórdias?  "Não obstante foram desobedientes, e se rebelaram contra ti; lançaram a tua lei para trás das costas, e mataram os teus profetas que protestavam contra eles para que voltassem a ti; assim cometeram grandes provocações." (Neemias 9:26). O que então se seguiu? Juízos pesados, cativeiros repetidos, opressão dolorosa sofrida da parte de seus inimigos. Mas o Senhor os abandonou? Não. Quando clamaram a ele, ele ouviu seu clamor. "No entanto, ele considerou a sua aflição, quando ouviu o seu clamor. E lembrou-se de seu pacto, e se arrependeu de acordo com a multidão de suas misericórdias". (Salmo 106: 44, 45).
B. Agora, não podemos ver nestas relações de Deus com Israel de antigamente, assim registradas na Palavra, alguma semelhança com as relações de Deus com seu Israel espiritual agora?
1. Não houve um tempo em que, como Israel no Egito, eles foram mantidos em cativeiro pelo pecado, Satanás e o mundo? Não foi então uma grande e maravilhosa libertação, quando pelo poder de Sua graça vivificante ele os tirou de sua dura escravidão com uma mão forte e um braço estendido? Era Faraó um inimigo pior para os filhos de Israel do que Satanás era para eles? As tarefas mais difíceis do Faraó eram tarefas mais difíceis do que o pecado? Foram as chicotadas infligidas sobre as costas daqueles que não fizeram a quota de tijolos mais pesadas do que as colocadas sobre eles pelo flagelo de uma consciência culpada? E, no entanto, como o Senhor se alegrou em estender a sua mão e tirá-los do mundo e da escravidão do pecado, por um poder que, se não tão abertamente e evidentemente milagroso, era ainda tão real e tão eficaz.
2. Da mesma forma, quando vieram à experiência do Mar Vermelho e temeram que não houvesse livramento da maldição da lei e da condenação de uma consciência culpada, Satanás pressionando-os, como Faraó, por trás, e a ira de Deus contra os seus pecados, encontrando-os como as ondas do mar em frente, e parecia não haver esperança de fuga, como o Senhor abriu um caminho mesmo através dessas águas profundas, e trouxe-os com segurança através delas, de modo que eles viram seus inimigos mortos sobre a praia. A cruz de Cristo é para estas águas o que a vara de Moisés foi para as do Mar Vermelho. Elas se separam e se esticam sobre eles, e os redimidos passam com segurança por elas; mas as mesmas águas, quando retornam à sua força, dominam seus inimigos.
3. Mas, não encontramos paralelo semelhante também nas outras libertações que eu designei como relativas ao antigo Israel? Tem o maná do céu, a rocha ferida, a coluna de nuvem de dia e de fogo à noite, e outras misericórdias do deserto - têm cumprimento estes contínuos livramentos da fome, da sede, de se perderem num deserto estéril e sem trilhas? Levado mesmo literal e providencialmente, não houve nenhum alimento diário dado, nenhuma água diária, nenhuma roupa diária, nenhuma libertação de vez em quando das provações prementes na providência? Como os filhos de Israel tiveram que aprender a viver pela providência, assim também nós temos. E onde eles aprenderam esta lição? Não no Egito, onde estavam sentados junto às panelas de carne, e comiam pão em abundância, mas no deserto.
Assim é com a família de Deus. A providência diária de Deus sobre eles, seu olho atento, seu coração amoroso, sua mão generosa, seu terno cuidado, não são aprendidos no mundo, mas no deserto; não no rico Egito, mas no deserto estéril.
Mas veja espiritual e experimentalmente, e veja nos pecados no deserto e nas misericórdias do deserto, uma imagem reflexa do nosso comportamento para com Deus e de seu tratamento para conosco. De quantas provações, tentações, aflições, quantas épocas de escravidão e cativeiro, trazidos sobre nós mesmos por nossas próprias transgressões, e vagando por nossas próprias idolatrias, ele nos livrou. Fazendo uma revisão de tudo o que temos sido para ele, e do que ele tem sido para nós, não podemos colocar o nosso selo, "Muitas vezes ele nos libertou?"
Agora são essas misericórdias que entregam Deus à alma. Traçando sua mão nesta e naquela libertação; vendo como, quando ninguém mais do que ele podia ajudar ou livrar, o Senhor apareceu em um ou outro exemplo evidente, aprendemos ou, pelo menos, devemos aprender  a observar sua mão e atribuir todo o poder e a glória a ele. Assim, Israel no Mar Vermelho viu os egípcios morrerem na margem do mar, e sob a impressão desse sinal de libertação temia e acreditava. "E Israel viu aquela grande obra que o Senhor fez sobre os egípcios – e o povo temeu ao Senhor, e creu no Senhor, e no seu servo Moisés". (Êxodo 14:31). Como o salmista declara no Salmo diante de nós, a fé estava em seu coração e o louvor na sua boca. "Então creram nas suas palavras, e cantaram o seu louvor." (Sl 106: 12).
Agora, o que esperaríamos que fosse o fruto e a consequência dessas numerosas libertações? Que para o futuro devamos desconfiar de nós mesmos, e ter visto, claramente visto, sentido, profundamente e dolorosamente sentido, as consequências miseráveis ​​de tomar conselho da carne, e que devemos tomar conselho de Deus. Temos sua Palavra como nosso guia escrito; temos seu Espírito Santo como nosso guia interior. Não devemos então reverentemente e submissamente tomar conselho da Palavra de Deus; tomar conselho de seu Espírito Santo como devemos melhor glorificá-lo, como andar mais ternamente em seu temor, como mais agradecer-lhe por seus livramentos na providência e na graça? Já fizemos isso? Teremos nos aconselhado com o Espírito de Deus quanto a como agir? Nós fizemos o livro de Deus nosso companheiro diário? Temos buscado direção a partir da página sagrada, e temos louvado a Deus como deveríamos ter feito por seus vários livramentos? Oh, quão poucos podem dizer que eles têm! Como, na maioria das vezes, eles devem confessar, para chegar ao nosso segundo ponto:
II. Suas vis rebeliões e os tristes frutos e consequências delas. "Eles o provocaram com o seu conselho, e foram humilhados pela sua iniquidade".
A. Infelizmente! Em vez de tomar conselho com o Espírito de Deus, quantas vezes temos tomado conselho com o nosso próprio espírito, e, portanto, o deixado de lado por sermos trazidos sob uma influência errada. Quantas vezes, em vez de tomar conselho na Palavra de Deus e procurar orientação a partir da página sagrada, tomamos conselho com amigos que nos enganaram com conselhos falsos, ou tomamos conselhos com nossas próprias concupiscências para satisfazê-las, ou tomamos conselho com o nosso orgulho, com a nossa própria ambição para alimentá-la, com o nosso próprio lucro para promovê-lo, ou com o nosso próprio conforto para apreciá-lo. Em vez de tomar conselho para agradar a Deus, temos tomado conselho para agradar a nós mesmos; em vez de tomar o conselho da Palavra de Deus, nós preferimos, em vez disso, enfraquecer a sua ponta se ela fosse demasiado pontiaguda, negligenciar os seus avisos, ignorar os seus preceitos, negligenciar as suas advertências e admoestações e não prestar atenção às suas instruções sagradas e sábias e ouvir os argumentos de nossa própria autoindulgência e os desejos de nossa carne inquieta e insatisfeita.
Tal era o Israel do passado. "Eles não esperaram por seu conselho;" Ou nas palavras do texto, "Eles o provocaram com o seu conselho". Assim, eles cometeram dois males. Eles negligenciaram o conselho de Deus e seguiram os seus. Eles rejeitaram o bem e escolheram o mal. Seus preceitos bondosos e ternos, adequados e salutares foram desprezados; mas todos os impulsos e inclinações, luxúrias, e dispositivos de sua própria mente eles avidamente seguiram.
Agora, este deve ser sempre o caso quando nós negligenciamos a Palavra de Deus. Na religião não há posição neutra; nenhuma posição neutra entre o bem e o mal, entre a obediência e a desobediência; nenhum equilíbrio sutil de motivos e ações; nenhuma direção cuidadosa e cautelosa entre os marcos do certo e errado, como se pudéssemos apenas pastar à borda da cerca sem tocá-la; não considerar o cumprimento da vontade de Deus, e como se deve agradá-lo e satisfazê-lo, e cumprir a vontade da carne para agradá-la e satisfazê-la. Saul tentou dessa maneira; assim fez Aitofel; assim fez Demas. Manter o evangelho em uma mão e o mundo na outra; agradar a Deus e não desagradar ao homem; ser religioso o suficiente para conseguir um nome para viver e ser carnal o suficiente para garantir uma boa participação nos lucros e prazeres, estima e favores do mundo - este é o grande feito do dia; e embora os homens infelizmente não precisem de instrução nem para elaborar ou executar um plano tão falacioso e tão apropriado, Satanás prepara milhares de ministros para ensiná-los mais eficazmente a fazer malabarismos com suas próprias consciências e suavizar o caminho até as câmaras da morte. 
É agora como era no passado. O povo gosta de ser enganado, e os profetas adoram enganá-los. "Que dizem aos videntes: Não vejais; e aos profetas: Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis, e profetizai-nos ilusões." (Isaías 30:10). "Coisa espantosa e horrenda tem-se feito na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam por intermédio deles; e o meu povo assim o deseja. Mas que fareis no fim disso?" (Jeremias 5:30, 31).
Mas nós, que professamos ser um povo separado de todas essas doutrinas e de todos esses caminhos? Por acaso, não provocamos muito a Deus? E isso não é desagradável para Deus? Retribuir a sua libertação com vil ingratidão? Isto não é o que ele espera de nossas mãos; isto não é o que é digno de seu grande nome, e das obrigações que ele colocou sobre nós. E, no entanto, acredito que não há um entre nós que, se a questão fosse pressionada em sua consciência,  seria obrigado a pendurar a cabeça e corar de vergonha com uma confissão diante de Deus de que a acusação é verdadeira. Porque o Senhor considera o coração; seu olho escrutinador olha para dentro de nosso íntimo, e lá ele lê todo o nosso conselho. As tramas, os planos, os artifícios, as especulações que ocorrem nas câmaras da imaginação, estão todos nus e abertos aos olhos daquele com quem temos de lidar. Ele vê como repetidamente consultamos nosso próprio interesse, conforto e benefício, em vez da glória e honra de Deus; temos buscado agradar a nós mesmos em vez de agradá-lo e obter algo para nossa gratificação, em vez de tentar conhecer sua vontade e fazê-la.
Se às vezes tivemos pensamentos, desejos e sentimentos certos, como eles se desvaneceram antes que produzissem frutos sólidos; com que murmurações e inquietação vimos nossos ídolos levados; e como, de má vontade e contra a vontade divina, caminhamos por um caminho de abnegação, e paramos, olhamos para trás, ou nos sentamos em cada pequena colina de dificuldade ou num trecho de estrada áspero. Não é tudo isso altamente provocador para o Senhor?
Se um pai acumulou todos os benefícios possíveis para seu filho, deu-lhe o melhor de educação, liberalmente supriu todas as suas necessidades, nunca lhe negou qualquer coisa que era para seu bem real, cuidou dele na doença, ajudou-o em dificuldade, pagou todas as suas dívidas, e tem sido para ele o mais bondoso e melhor dos pais, não esperaria razoavelmente algum retorno de gratidão e afeto? Mas se, ao invés de retribuir seu pai por afeição e obediência, este filho, tão cuidadosamente educado e ternamente indulgente, viesse a revelar um caráter vil, e o que é pior, se ele praticasse todas as manobras para enganar seu pai, e ainda que ele pudesse dar a todas as suas transgressões uma aparência do que é moral e bom, e ainda secretamente estivesse se se entregando a toda a forma de vício, não devemos corar de vergonha por tal filho e tal curso de conduta?
Ou se tivéssemos um amigo a quem tivéssemos carregado de benefícios, a quem tivéssemos feito todo o bem que pudéssemos, e procurado em todos os sentidos servir, e então descobríssemos que ele estava tomando conselho como poderia nos ferir, e estava secretamente planejando alguma forma como ele poderia nos ferir mais profundamente, como deveríamos levantar as mãos e dizer: "Ó ingratidão do homem".
Ou se, de vez em quando, caminhássemos para a casa de Deus em companhia de alguém de quem esperávamos o bem, se lhe tivéssemos confiado algum segredo íntimo, e descobríssemos, tarde demais, que ele era um traidor de Deus, da verdade e da amizade, ficaríamos maravilhados com a iniquidade do homem e ficaríamos surpresos de que houvesse alguém tão vil. E, no entanto, tudo isso é apenas uma transcrição fraca, senão uma fraca cópia do que somos internamente, pois direi que temos praticado tudo isso externamente, diante dos olhos de um Deus santo. É assim que "o provocamos com o nosso conselho".
O Senhor não nos permitiu, pode ser, que colocássemos em execução ativa as várias armadilhas e arranjos de nosso coração ímpio; não nos permitiu andar como nós teríamos andado impiamente; não nos permitiu erigir nossos castelos arejados, ou construir e plantar nossos paraísos visionários. Mas, o conselho estava em nosso coração para fazê-lo, e isso o provocou, embora ele não tivesse permitido que o enredo amadurecesse em execução. Você nunca planejou qualquer desejo secreto e planejou formas para realizá-lo? Você nunca se deleitou com a imaginação em cenas de iniquidade, e realizou todo um drama de pecado, desde a concepção de uma luxúria até sua completa execução? Você nunca alimentou seus desejos em vez de morrer de fome, e deu lugar a uma tentação em vez de resistir a ela? Você não especulou repetidamente, inventou e planejou algo que sua consciência sabia que era mau e odioso para Deus?
E agora, com tudo aquilo que a tua consciência tem registrado e tudo o que a tua consciência esqueceu, podes olhar para Deus e dizer: “Nunca te provoquei pelo meu conselho, nunca tive um pensamento no meu coração, uma ação em minhas mãos contrária à tua santa vontade. Sempre achei o que era mais para tua honra e glória, e nunca me entreguei a nenhum plano para promover meu próprio interesse, satisfazer minha própria mente ou agradar a minha própria carne." Ó seu hipócrita! Ó, pobre criatura enganada, assim também zomba de Deus e do homem. Que véu deve estar sobre o teu coração, para ocultar da tua visão tanto o pecado como o ego; pois se tivesses uma visão correta do que era pecado aos olhos do Deus santo, terias dito: "É por causa da misericórdia do Senhor que eu não fui consumido quando conspirando e tomando conselho com o meu coração ímpio, e pecando em especulação e imaginação se não em ação positiva."
B. Mas agora vejamos qual foi o EFEITO deste Deus provocado por seu conselho. Eles "foram humilhados pela sua iniquidade".
Deus toma grande notícia do que se passa nos corações dos homens, e como ele é provocado pelo conselho deles, então no devido tempo ele os traz para baixo; e isso é "pela sua iniquidade", porque ele é um Deus de conhecimento, e por ele não só as ações, mas os pensamentos são pesados. "Mesmo o pensamento da loucura é pecado". Deus tem várias maneiras de reduzir a aparência. "O dia do Senhor será sobre toda torre alta, e os altos cedros do Líbano, que são altos e elevados, e sobre todos os carvalhos de Basã". Porque "Os olhos altivos do homem serão abatidos, e a altivez dos varões será humilhada, e só o Senhor será exaltado naquele dia." (Isaías 2:11).
Mas, o Senhor tem várias maneiras de executar essa determinação de seu coração.
1. Às vezes ele traz o seu povo em circunstâncias baixas. Você tem planejado como entrar no mundo; talvez tenha conseguido em alguma medida, e seu coração é levantado. Agora vem um golpe de Deus na providência, e você é trazido para baixo. Seu trabalho falha ou seu salário diminui; sua empresa parece gradualmente diminuir; os clientes não vêm como antes em sua loja; você perde os bons e os maus; um negócio concorrente é criado perto de você, e você tem a mortificação de ver o seu comércio deixando-o para o seu rival. Ou você faz dívidas impagáveis; as contas vêm, e as dificuldades surgem de lugares que você mal poderia esperar. Ou sua fazenda se torna inútil; você tem grandes perdas entre suas ovelhas ou gado; ou ferrugem em suas colheitas; ou algo em uma forma de adversidade marcada que parece claramente mostrar a mão de Deus contra você. Esses traços pesados ​​fazem você examinar por que é assim tratado, e  logo começa a ver que é trazido para baixo por causa da sua iniquidade; que o orgulho, ou a cobiça, ou a mentalidade mundana dominaram você, que você tem tomado conselho com o pecado e o ego em vez de com o Senhor, e que essa conduta errada trouxe este golpe sobre você.
2. Alguns Deus traz para baixo no corpo, coloca sobre eles uma queixa que pode tornar a vida miserável sem muito encurtá-la, como uma afeição nervosa, ou um estado de espírito deprimido e melancólico, brotando de e conectado com alguma aflição corporal, de modo que a vida ainda o possa suportar, contudo dia após dia traz consigo melancolia e miséria.
3. Às vezes, o Senhor envia uma tribulação à família. Quantas vezes os pais piedosos, às vezes até ministros da verdade, têm filhos desobedientes e ímpios, cuja conduta, não só contrasta, mas realmente excede a vida ímpia e as ações daqueles que nunca conheceram as restrições de um lar religioso, nunca ouviram as orações de um pai piedoso, ou as advertências de uma mãe graciosa. Poder-se-ia pensar que isso era suficiente para trazer os pais em humildade diante de Deus e do homem, e perguntar-se: "Não há uma causa? Ser assim afligido em minha família - não fui culpado de alguma negligência e, em certa medida trouxe esse problema para mim por minha severidade indevida ou minha indulgência indevida?”
4. Ou você pode ter sofrido de falecimentos familiares dolorosos - pode ter perdido uma esposa querida ou marido amado, um excelente filho ou uma filha afetuosa, e suas plantas agradáveis ​​foram assoladas.
5. Outros, mais uma vez, o Senhor traz para baixo, especialmente no que diz respeito às suas almas. Ele permite que eles sejam muito provados com dúvidas e medos, permite que Satanás caia sobre eles com suas sugestões, permite que sejam tentados dia a dia e noite a noite; e por essas tentações severas e cortantes eles são derrubados tão baixos como às vezes ou mesmo muitas vezes para questionar se eles têm uma centelha de graça em seus corações, ou um grão de temor piedoso em suas almas. Nessas e semelhantes maneiras o povo de Deus muitas vezes é trazido para baixo.
Mas, agora, observe o efeito desses tratos de Deus com eles. Seus olhos se abrem para ver a mão de Deus nestas dispensações de sua providência ou sua graça. Eles são feitos para sentir que são trazidos para baixo por suas iniquidades; que havia algum pecado secreto indulgente, seguiram alguns conselhos ímpios, algum pagamento vil pela bondade e misericórdia de Deus; e eles podem ver, se trazidos para baixo, o que eles trouxeram sobre si mesmos. "Você não comprou isso para si mesmo?" Eles podem ver que tinham entrado em um espírito mundano; tinham sido retirados do caminho estreito e apertado; se tornaram lânguidos e descuidados nos caminhos do Senhor; tinham perdido muito do seu antigo amor, zelo e ternura de consciência, e tinham caído em um estado morto e estéril. Agora eles claramente veem por que eles são abatidos e acham a palavra verdadeira: "Aquele que semeia na carne, da carne colherá corrupção."
Mas, serão deixados lá? Não! Eles têm um Deus misericordioso para lidar com eles. Eles não têm um duro mestre sobre eles como Faraó; eles não têm um inimigo cruel como Satanás, mas têm um Deus misericordioso, cujas compaixões não falham. Portanto, lemos, o que nos leva ao nosso próximo ponto:
III. A terna consideração com que Deus os contemplou quando, na sua aflição, clamaram a ele - "No entanto" - O que? Um "No entanto!" - "Ele considerou a sua aflição quando ouviu o seu clamor".
Aqui está a marca da vida de Deus na alma; pois quando o povo do Senhor é levado para baixo pela sua iniquidade, geralmente há um suspiro e um clamor pelo que Deus colocou em seu coração; e como este suspiro e clamor é sincero, e eles não são como aqueles de quem lemos, "Eles não clamaram a mim com seu coração quando eles uivaram em suas camas"; como é o fruto especial da graça de Deus, e é a respiração intercedente do Espírito Santo neles, ele inclina o Seu ouvido gracioso e considera a voz da sua súplica. E embora não possam orar com fluência, pois suas orações fluentes nos tempos passados ​​agora se transformam em suspiros e gemidos; embora eles não possam se aproximar do Senhor com qualquer medida de confiança e doce segurança, como tendo tão vilmente pecado contra ele, ainda há isto forjado por seu Espírito e graça dentro deles, que clamam das profundezas de um coração quebrado e espírito contrito.
Não, às vezes eles são obrigados a voltar para sua primeira oração, e clamam: "Deus seja misericordioso comigo, um pecador". Eles são feitos para confessar seus pecados, e para chorar por eles; eles são feitos para lamentar que sempre tenham tomado conselho com a carne, e se rebelado contra o  Senhor tão ingratamente por suas libertações anteriores. Nenhum ponto é demasiado baixo para eles, nenhuma postura demasiado humilde, nenhuma confissão demasiado abjeta e não reservada. Eles se confessam ser o principal dos pecadores, o mais vil e pior de todos os transgressores, os mais vil de todos os rebeldes, o mais atrevido de todos os rebeldes e o mais sujo e culpado de todos os provocadores da paciência e misericórdia de Deus.
Agora, quando eles assim clamam, suas orações entram nos ouvidos do Senhor Todo-Poderoso. Ele considera sua aflição. Uma das coisas mais dolorosas que muitas vezes você sente é que o Senhor não considera suas aflições. Vocês que estão aflitos - aflitos em circunstâncias, aflitos em corpo, aflitos em família, aflitos em mente - quantas vezes vocês sentem ou temem que Deus não considera sua aflição. Você diz: "Se Deus olhasse para minha aflição, ele não a tiraria ou me apoiaria mais sob ela? Se ele considerasse minha aflição, por que não estende a mão e a alivia, se não totalmente a leva embora? Que acrescenta tristeza à minha tristeza e, em vez disso, torna a carga mais pesada do que mais leve. Por que ele assim adiciona cruz a cruz e golpe a golpe? Ou se ele achar adequado ainda assim me afligir, por que não tenho mais fé, mais paciência, mais submissão, mais poder para suportar o que o Senhor deposita sobre mim, e por que eu não colho mais proveito disso? Onde está a minha humildade? Onde minha submissão à vontade de Deus? Onde a minha gratidão, mesmo para o menor dos seus atos? Qual é o meu senso de sua grande bondade para comigo, apesar de estar no meio de meus muitos problemas? Tudo parece engolido em minha aflição. Estou tão perturbado que não posso falar, minhas aflições são tão pesadas que parecem esmagar-me."
Mas, apesar de todos esses murmúrios e perguntas inquietas, o Senhor considera sua aflição. Ele não trouxe esse golpe sobre você sem pretendê-lo para o seu bem. Por que ele lhe trouxe para baixo em circunstâncias, por que ele lhe afligiu em corpo, provou você em mente, e lhe trouxe baixo de espírito, senão porque ele queria trazer-lhe boas coisas? E não tem o que é bom já saído disso? Não quebrou em pedaços o conselho que você tomou com o ego, e fez você temer a fim de que não deveria ser mais enredado outra vez em pecados assediantes? Não lhe fez temer, para que não seja novamente preso nas armadilhas de Satanás; fez com que você visse mais a santidade de Deus, a sua pureza e majestade e o terrível mal do pecado; fez a sua consciência mais terna, fez com que o temor de Deus crescesse mais e prosperasse humilhou-o, e colocou-o baixo no pó diante dele? Não há nada de bom aqui?
Um cristão, como ele cresce em graça, como trigo maduro, vai se curvar para o chão. Ele não levantará sua cerviz quando o ouvido está disparando primeiro; mas com o ouvido amadurecido, mais e mais curvará abaixo sua cabeça. Ele não pode ficar muito baixo; e quanto mais graça ele tiver, mais baixo ele ficará, pois quanto mais rico o ouvido e mais maduro o trigo, mais ele abaixará a cabeça. Professantes estéreis se erguem para cima. Nenhum talo cresce tão alto como talos estéreis; nenhum ouvido olha tão orgulhosamente como aqueles que têm toda a palha neles e nenhum grão. Portanto, se você sente ou teme que Deus não considera a sua aflição, contudo, se sua aflição o humilhou, e o derrubou, fez com que aprendesse mais a misericórdia, mostrou-lhe mais do mal do pecado, tornou sua consciência mais tenra, trouxe-o mais para fora do mundo, e mais em união com a querida família de Deus, isso te fez bem. Havia um propósito nisso, e esse propósito foi até agora realizado.
"No entanto, ele considerou a sua aflição, quando ele ouviu o seu clamor." É, eu ia dizer, insultando a Majestade do céu, que Deus não considera a sua aflição. É negar seu olho que tudo vê, ou sua mão todo-poderosa, ou seu coração terno, misericordioso. Ele considera sua aflição quando ele ouve seu clamor.
Mas, como ele mostra isso? Ele não tem meios de mostrar sua poderosa mão e esticar o braço? Ele está sempre calado? Não!
 IV. Observe, então, em quarto lugar, a lembrança de Deus de sua aliança e arrependimento para com seus filhos. "E ele se lembrou deles por causa de seu pacto, e se arrependeu de acordo com a multidão de suas misericórdias."
Deus fez um pacto com Israel. Jurou a Abraão que nele e em sua descendência seriam abençoadas todas as nações da terra. E Deus, tendo-se comprometido por juramento e aliança, cabia à sua veracidade e fidelidade nunca afastar-se de uma só coisa.
A. Mas há algo extraordinariamente marcante nas palavras: "Lembrou-se deles por sua aliança". É quase como se Deus tivesse parcialmente esquecido, ou melhor, como se estivesse quase tentado a quebrá-la. Pensei, por vezes, que, se Deus não se ligasse por aliança, os pecados e as iniquidades do seu povo de tão grandes que são, ele teria sido provocado além de toda a resistência, para expulsá-los para sempre e enviá-los à perdição. Portanto, se eu posso usar a expressão, ele amarrou suas próprias mãos pelo vínculo de sua própria veracidade. Ele se ligou por um pacto para que não fosse provocado além da resistência; de modo que, quando seu braço estava prestes a ser solto para varrer da terra, sua aliança o reteve.
Vemos isso representado no Salmo diante de nós. "Por isso disse que os destruiria, se Moisés, seu escolhido, não tivesse estado diante dele na brecha, para desviar a sua ira, para que não os destruísse". Mas, como Moisés se colocou diante dele na brecha? Ao lembrá-lo de sua aliança, bem como dizer-lhe o que os egípcios diriam se ele destruísse seu povo no deserto. "Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel, teus servos, aos quais por ti mesmo juraste, e lhes disseste: Multiplicarei os vossos descendentes como as estrelas do céu, e lhes darei toda esta terra de que tenho falado, e eles a possuirão por herança para sempre." (Êxodo 32:13). E qual foi o efeito desse apelo? "E o Senhor se arrependeu do mal que pensou fazer ao seu povo". (Êxodo 32:14). Foi assim que Moisés, como o mediador típico, se interpôs entre Deus e Israel e reteve a mão estendida. Deus lembrou-se de sua aliança.
Mas, agora vejamos este ponto no sentido do Novo Testamento como tendo relação com a aliança da graça. Deus fez uma aliança com seu querido Filho em favor do seu povo escolhido. Nesta aliança comprometeu-se a perdoar todos os seus pecados; para vesti-los com uma túnica de justiça em que eles seriam aceitos e justificados; para abençoá-los com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para levá-los através de todas as tempestades da vida, e colocá-los diante de seu rosto em glória. O Filho se comprometeu a salvar todos os que lhe foram dados, a lavá-los na fonte de seu preciosíssimo sangue, a viver, morrer e ressuscitar para eles, e executar com toda a fidelidade a confiança que lhe foi confiada, como seu Fiador e Mediador, pôde levantar-se no último dia, e dizer: "Daqueles que tu me deste, eu não perdi nenhum."
Agora, se Deus tivesse sido provocado pelos pecados de qualquer um de seu povo para soltar sua mão e arrastá-lo à destruição, ele teria quebrado sua aliança. Ele convidou a aceitar e abençoar cada membro do corpo místico de Cristo, porque, se alguém fosse perdido, toda a aliança teria sido quebrada. É com esta aliança celestial como é com as alianças terrenas. Tomemos, por exemplo, uma locação ou um contrato. Se você quebrar qualquer uma de suas condições, o todo é anulado. Portanto, se alguém da família querida de Deus perecesse no caminho, a aliança da graça teria sido quebrada. Portanto, "Ele se lembra deles por sua aliança".
Embora aborreça os seus pecados e os abata por causa das suas iniquidades; embora gravemente provocado pela sua desobediência, contudo, ele se lembra deles - isto é, de sua aliança. Não são suas boas ações que ele considera, nem suas más. Ele parece mais alto que qualquer um. Ele olha para o seu Filho querido, com quem fez um pacto eterno, bem ordenado em todas as coisas e com segurança. Ele olha para o selo pelo qual foi selado com sangue, pois lemos do "sangue da aliança eterna", e como no Egito, ele se lembra do sangue e passa por seus pecados, ao passar por cima das casas com sangue.
Oh, a bem-aventurança de ter um manifesto interesse salvador no sangue da aliança, e assim ter um testemunho de que Deus fez uma aliança com seu amado Filho em nosso favor; que nossos nomes estão escritos no livro da vida; e que Cristo é o nosso Mediador à direita do Pai. Quais são todas as bênçãos terrenas em comparação com isso? O que são a saúde, a força, a riqueza e todos os bens da vida; o que é tudo o que o coração carnal pode desejar ou a mente cobiçosa agarrar; o que é tudo comparado com um interesse salvador na aliança eterna, e no amor, sangue e justiça do Senhor, do Cordeiro? O que é a terra, com todas as suas atrações, em comparação com um interesse salvador no sangue precioso de um Jesus moribundo?
Você vai encontrá-lo assim quando você chegar a deitar sobre uma cama de doença e dor; quando as gotas frias do suor se levantarem em sua testa, e o último inimigo estiver prestes a agarrá-lo pela garganta. Quais serão as suas ansiosas tentativas de ter algo mais do que você tem ou é - e posso acrescentar - seus sucessos - o que eles farão por você então? Apenas serão espantosos espectros do passado para aterrorizar e alarmar sua consciência, para ver por quais sombras você tem procurado se agarrar à negligência da substância sólida. Mas, naquela hora solene ter um testemunho de Deus de perdão e paz, vai tornar suave um leito de morte; acalmará todos os medos ansiosos; e te levará com segurança pelo vale escuro da sombra da morte.
B. Mas agora, para algumas palavras sobre a última frase do texto: "Ele se arrependeu de acordo com a multidão de suas misericórdias". Foi, como eu disse há pouco, como se Deus estivesse prestes a acabar com eles. Mas, veja como isso se relaciona com a nossa experiência diária. Às vezes, quando você tem planejado, e talvez gastado metade do dia em conspirar como você deve realizar este ou aquele desígnio mundano, à noite você começa a refletir sobre o negócio do dia; e as tramas e esquemas que passaram por sua mente ocupada caem com algum peso e poder sobre sua consciência. E agora você se pergunta como Deus poderia suportá-lo; como ele poderia permitir que um desgraçado como você vivesse e se entregasse a tais esquemas e planos para sua própria honra, ganho ou ambição, e consultar tão pouco a honra e a glória de Deus.
Agora, você é levado a ver que o Senhor, se ele deu pleno alcance à sua ira, dará um fim a você; mas em vez disso se arrepende - isto é, não fará o que faria de outra maneira. Não que devamos atribuir o arrependimento a Deus como devemos ao homem. Mas, como um termo emprestado da linguagem dos homens, ele até agora se arrepende de não pôr em execução os pensamentos de seu coração santo e indignado. Assim, em vez de nos arrastar para a destruição, ele nos leva ao seu seio; em vez de juízo, manifesta misericórdia; em vez da ira ele revela sua graça; e assim ele se arrepende de acordo com a multidão de suas misericórdias.
Que expressão doce é essa e como ela parece transmitir à nossa mente que as misericórdias de Deus não caem gota a gota, mas são tão inumeráveis ​​como a areia sobre a praia, como as estrelas que brilham no céu; gotas de chuva que enchem as nuvens antes de descarregarem seus copiosos chuveiros sobre a terra. É a multidão de suas misericórdias que o tornam um Deus tão misericordioso. Ele não dá senão uma ou duas gotas de misericórdia - que logo serão exaladas e desaparecidas, como a chuva que caiu esta manhã sob o sol quente. Mas, as suas misericórdias fluem como um rio, sim, como aquele "rio de Deus" que lemos "está cheio de água". Há nele uma multidão de misericórdias para uma multidão de pecados e uma multidão de pecadores. E assim ele dá de acordo com a multidão de suas misericórdias.
Isto é sentido e recebido no amor que quebra, humilha, suaviza, e derrete o coração de um pecador sensível; e ele diz: "Por que, pecar contra tais misericórdias?" Por que, quando o Senhor se lembrou de mim na minha baixa propriedade, novamente visitou-me com a luz do seu rosto, e manifestou mais uma vez uma sensação de sua misericórdia - devo agir para provocá-lo de novo, tomar de novo o conselho de meu próprio coração, voltar a andar inconsistentemente, ser enredado novamente nas armadilhas de Satanás? Ó, que Deus o proíba. Que o proíba o evangelho, a terna consciência, e todo o amor moribundo de Jesus!
Assim, Deus toma ocasião, pelas próprias necessidades de seu povo, para derretê-las em obediência, para amaciá-las em arrependimento, para dissolvê-las em arrependimento e assim trazer uma colheita de louvor e gratidão para fora dos sulcos que ele rega tão abundantemente com sua misericórdia. Ele assim colhe para si um louvor eterno no céu, enquanto ele assegura essa obediência, através da qual ele é glorificado ainda agora sobre a terra.





quinta-feira, 27 de abril de 2017

Contentamento


Título original: Contentment


Por Wilhelmus à Brakel (1635-1711)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra


Introdução do Tradutor

Já ouvi várias vezes ser pronunciado que o verdadeiro contentamento é algo impossível, pelo menos enquanto vivermos neste mundo de trevas e pecado.
Quantas vezes, eu mesmo abriguei em meu coração expectativas de ser alegrado e ficar satisfeito em determinados projetos, que no fim deram em grande frustração.
Todavia, estes eventos são uma causa real para a anulação de um verdadeiro contentamento?
Creio que esta pergunta será plenamente respondida à medida que o leitor se dedicar em meditar nas verdades que são reveladas neste livro.
Não a título de antecipação, mas para expor minha própria experiência, tenho aprendido ao longo dos anos que quanto mais colocamos nossa esperança de contentamento na criatura, é quase certo que sempre seremos frustrados no processo.
A Bíblia e especificamente o ensino de nosso Senhor Jesus Cristo e dos Seus apóstolos revelam claramente, que é em Deus somente que deve ser colocada a nossa expectativa de contentamento, e esta deve excluir totalmente o tratamento que recebemos de pessoas ou das circunstâncias que tenhamos que enfrentar.
Quando nosso Senhor estava consolando os apóstolos com suas últimas palavras em Seu ministério terreno, Ele lhes disse que, para que a alegria deles fosse completa deveriam começar a se dirigir ao Pai fazendo-lhe petições. Veja que Ele associou o contentamento, à relação deles com Deus e não a qualquer outro motivo.
O apóstolo Paulo afirma, que é no Senhor que deve estar o motivo da nossa alegria.
Em muitas outras passagens encontramos a mesma orientação para o referido propósito.
Então, enquanto ficamos entristecidos ou frustrados e descontentes pelas circunstâncias, ou pelas criaturas em nosso relacionamento com elas, é porque ainda não aprendemos a grande lição de estarmos contentes em toda e qualquer situação, porque o nosso foco de alegria deve estar direcionado somente para Deus e nada mais.
Viver de expectativas de alegrias terrenas, e de cavarmos aqui o nosso contentamento, certamente trará muito abatimento e descontentamento de espírito, que muitas vezes impedirá que continuemos na prática do bem com o coração aberto e alegre, amando até mesmo os que nos frustram ou maltratam, em razão do nosso foco no amor de Deus e em nosso dever de dar um bom testemunho de fé, de amor e alegria em tudo o que possamos estar sofrendo neste mundo. 
É por isso que a ordenança bíblica pode ser “alegrai-vos sempre no Senhor”, e também, “em tudo dai graças”, pois se dependêssemos de circunstâncias favoráveis e agradáveis para sermos encontrados contentes em espírito, tal ordenança seria simplesmente impossível de ser vivida, pois somos afligidos por diversas provações.
Somos ordenados a fazer todas as coisas com amor e não como para os homens, mas para Deus, ou seja, para agradar a Deus e não aos homens, e nem mesmo para buscarmos agrado para nós mesmos.
Se Noé fosse construir a arca naqueles 120 anos contando com o aplauso,  a gratidão ou a aprovação dos homens, é bem certo que jamais a teria construído, pois deve ter sofrido oposição até mesmo dentro de sua família, por ter se entregado à realização de um projeto que aos olhos de todos parecia uma loucura.
Assim, também nós se formos esperar sermos reconhecidos, amados, e ter o agradecimento e a aprovação dos homens nos projetos que realizamos para Deus é bem certo que iremos parar no meio do caminho, porque toda obra que proceda verdadeiramente de Deus sempre fica sujeitada a grandes oposições, porque é uma lei; que onde há a fé, esta deve sempre ser provada.
Mas, deixemos a palavra com Wilhelmus à Brakel para sermos melhor instruídos neste fascinante e tão proveitoso caminho, que tem muito a ver com nossa vida real e cotidiana, se é nosso desejo viver de modo esclarecido e aprovado diante de Deus e dos homens.


Introdução do Autor

Uma vez que a profissão da verdade geralmente tem um efeito adverso sobre as questões temporais que impedem tantos de serem ousados ​​em sua profissão, é necessário, portanto que resistamos a essa adversidade e estejamos satisfeitos com a vontade de Deus em relação às circunstâncias temporais. Isso vamos discutir agora.
A palavra "contentamento" em hebraico é “dai”, isto é, “plenitude, abundância e suficiência”. Frequentemente esta palavra é atribuída a Deus. O Senhor se chama (El Shaddai), isto é, o Deus que possui tudo e a todos.
É capaz de trazer tudo de Sua plenitude. É geralmente traduzido como "o Todo-Poderoso". Em grego, a palavra é (autarkeia), que é composta por duas palavras: ser suficiente e – si mesmo. Isto, é indicativo de ter suficiência por nós mesmos ou para nós mesmos, pois ninguém pode se contentar se não tiver o suficiente, e nós temos bastante se já não desejarmos qualquer coisa. Assim, “contentamento” não consiste na multidão de posses, mas no cumprimento do desejo. Se o desejo é grande, então muito é necessário para a realização deste desejo; se for pequeno, só um pouco será suficiente. Um pouco vai encher uma pequena garrafa, e muito é necessário para encher um grande barril. O homem precisa senão de pouco para viver no serviço de Deus, e se seus desejos são proporcionais com o que precisa, um pouco é suficiente para preencher seus desejos e seu estômago.
O contentamento é uma virtude cristã consistindo numa correspondência entre o desejo dos filhos de Deus e as suas circunstâncias presentes - isto é verdade, porque é a vontade de seu Deus em Cristo, de acordo com Sua soberana determinação. Nisto descansam com alegria, em confiança tranquila com alegria e gratidão, confiando que o Senhor fará com que o presente e o futuro se transformem em vantagem. Isso faz com que eles utilizem sua condição atual para o avanço de sua vida espiritual e para a glória de Deus.
O contentamento é uma virtude cristã dos filhos de Deus. Os não convertidos são reprovados para todas as boas obras e não são familiarizados com a natureza dessa virtude. Quando percebem isso nos filhos de Deus, eles o desprezam como tendo um nível baixo de inteligência, sonhadores, de insensibilidade estoica, e nos consideram impróprios para assuntos mais elevados - sendo este um tesouro que está escondido para eles. Os filhos de Deus, no entanto têm esta virtude em princípio, e eles percebendo a beleza desta virtude fazem diligente esforço para possuí-la em maior medida. O coração é o verdadeiro assento dessa virtude. O contentamento não é questão de palavras. Não é de natureza obrigatória, nem consiste em abster-se de perseguir o que é necessário no mundo. Não é uma determinação mental para manter-nos satisfeitos, mas é uma disposição da alma. O intelecto, a vontade, e as afeições estão em uma disposição satisfeita, e a partir desta propensão ações surgem que são consistentes com essa disposição. Essa disposição só pode ser encontrada nos filhos de Deus – naqueles que são de fato piedosos. “Mas a piedade com contentamento é de grande ganho." (1 Tim 6: 6).
(Nota do tradutor: Esta disposição de estar contente em todas as circunstâncias é aprendida pela instrução e poder operante do Espírito Santo, e o seu fundamento é a justificação pela fé em Cristo, motivo pelo qual não pode ser achada no não convertido - naquele que rejeita a Cristo e a Sua salvação.)


O Objeto do Contentamento

O objeto do contentamento é nossa condição atual. Sendo crentes e permanecendo no estado de graça, ainda encontram muitas coisas relativas aos desejos da alma e do corpo. Às vezes, a condição de ambos concorda em um sentido geral com seus desejos, e às vezes há uma discrepância muito grande entre os dois. É fácil se contentar, se o Senhor conceder o desejo do coração. Se, entretanto nossas circunstâncias não concordarem com nossos desejos será uma tarefa difícil trazer nossos desejos em harmonia com nossas circunstâncias. O cristão é exercitado quanto a isso.

As posses não produzem contentamento. O homem pode ser descontente ou satisfeito, independentemente de ser rico ou pobre. Alguém que é rico ou de posses medianas deve se esforçar tanto para ser contente com seu estado, quanto o pobre no seu. Não devemos nos esforçar para estarmos em circunstâncias diferentes, pensando que estaremos melhor; pelo contrário devemos trabalhar para estarmos bem, na condição em que nos encontramos. Um pobre pensa: "Se eu fosse apenas da classe média..."; um da citada classe pensa: "se eu fosse rico..."; uma pessoa rica: "se eu tivesse mais"; uma pessoa solteira pensa quanto ao contentamento: Se eu fosse casado...; e uma pessoa casada: se eu fosse solteiro...; um marinheiro: se eu só tivesse uma ocupação em terra...”; um artesão: se eu fosse um homem de negócios; etc. Estes são pensamentos tolos. O contentamento não consiste nisso, mas em sentir que a condição em que nos encontramos é a melhor para nós.
A exortação é a seguinte: “Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes; porque ele mesmo disse: Não te deixarei, nem te desampararei." (Heb 13: 5).


A Natureza do Contentamento

A natureza dessa virtude consiste em haver harmonia entre nossos desejos e nossas circunstâncias atuais.

O homem não é naturalmente autossuficiente; ele é apenas um vaso no qual algo pode ser inserido. E, para ser preenchido ele tem desejos que - como mãos – se estendem para o que ele julga necessitar.

Após a queda, nossos desejos se tornaram desordenados tanto em relação aos assuntos desejados que não podemos cumprir, bem como à maneira desejada, fazendo isso com muita veemência e paixão. Este vício ainda está parcialmente presente nos filhos de Deus após a regeneração, e lhes dá muito sofrimento. Ainda que eles saibam que devem ser opostos a isso, também desejam muito. Eles desejam que tudo esteja bem, de acordo com suas aspirações, no entanto eles não as podem preencher com o que é terreno, porém seus desejos devem ser moderados, de acordo com o que possuem- seja muito ou pouco.
Não devemos eliminar todos os desejos, como se a ausência de desejo constituísse a verdadeira satisfação. Isso seria desumanizar o homem e torná-lo menos que um animal. Nossos desejos devem ser contrários ao que é mau. O que é mal deve ser um fardo para nós, deve nos afligir, deve-se sentir dor sob ele, e ter o desejo de ser livrado dele. O que é bom deve ser desejável para nós e nossos desejos devem ser focados em seu prazer. Devemos perseguir esses desejos usando os meios que estão subordinados a isso. Assim, a satisfação não exclui os desejos nem o uso dos meios, mas exclui todos os desejos que se concentram em assuntos pecaminosos. Isso se refere a todos os desejos para tudo o que excede nossas necessidades; todos os desejos veementes e apaixonados por algo que normalmente poderia ser legalmente desejado, todas as angústias mentais, mágoas e desânimos se as coisas não seguirem nosso caminho.
No entanto, tudo isso ainda não constitui o contentamento. O contentamento consiste na correspondência de nossos desejos com nossas condições, e numa disposição para estar nas circunstâncias em que estamos, e em nenhuma que seja correspondente a outras pessoas. Antes de estar em tais circunstâncias, podemos realmente ter desejos (uma questão que consideramos essencial), contudo devemos fazê-lo com um julgamento verdadeiro e justo. Além disso, se entramos em circunstâncias difíceis, então realmente desejamos ser libertados delas e vir a circunstâncias melhores. Isso não é contrário a ser satisfeito. No entanto, enquanto estamos em nossas circunstâncias presentes - sejam boas ou más - devemos nos contentar com o presente, e regular nossos desejos em harmonia com as condições em que estamos vivendo atualmente. Mesmo os homens naturais, que aderem a um stoicum fatum (ou seja, “isto deve ser assim; não há nada a ser feito sobre isso”),  enquanto na verdade permanece descontente quanto ao desejo que foi apenas sublimado. Já, no caso do contentamento cristão, a grande diferença está em que o crente se gloria inclusive nas próprias necessidades, e assim demonstram que o contentamento consiste em uma correspondência entre desejos e circunstâncias atuais. Os piedosos têm muito mais razão para regular seus desejos de acordo com suas circunstâncias, e fazer com que sua vontade esteja em harmonia com isto - sendo a vontade de Deus.
Isto não é apenas aplicável ao físico, mas também ao espiritual. Estar contente quando as coisas não vão de acordo com nossos desejos é uma tarefa difícil em ambos os aspectos, entretanto isto é muito mais verdadeiro no reino espiritual. Se estamos em trevas espirituais sofrendo de deserção espiritual, sendo espiritualmente agredidos e estando sujeitos ao poder da corrupção, então também devemos estar satisfeitos e regular nossos desejos de acordo com nossas circunstâncias.  Devemos fazê-lo, não porque tais circunstâncias são desejáveis ​​para nós ou poderiam ser, e não porque não devemos nos esforçar para estar contentes, mas porque é a vontade de Deus não nos dar mais graça presentemente, uma vez que lhe agrada conduzir-nos sob provação no caminho para a salvação e a glorificação de Seu Nome.
(Nota do tradutor: Este último ponto pode ser exemplificado por condições em que mesmo estando cumprindo fielmente a obra de Deus, somos atingidos por espinhos na carne, conforme sucedeu com o apóstolo Paulo na experiência relatada por ele em II Coríntios 12, e somos chamados a contar somente com a graça de Jesus, de maneira que possamos até mesmo nos gloriar nas tribulações, nas perseguições, nas angústias, nas necessidades, por causa do nosso amor por Cristo.
Este espinho na carne pode vir a nós sob variadas formas, quer em ataques espirituais diretos dos poderes das trevas, ou através da instrumentalidade de pessoas que nos sejam até mesmo muito queridas, em demonstrações de provocação, ingratidão, injustiça, confrontação, desmerecimento, calúnia, injúria, maledicência ou em qualquer outra forma que vise anular o nosso contentamento.
Caso estejamos buscando o favor dos homens, de sermos amados ou aprovados e elogiados por eles, é bem certo que ficaremos desanimados, entristecidos, magoados, caso sejamos decepcionados por eles, mas se estivermos buscando fazer tudo somente para a glória de Deus, para o Seu agrado em cumprimento à Sua vontade, e na plena convicção de estarmos cumprindo a mesma, nada poderá nos deter no caminho da prática do amor e do bem, por maiores que sejam as injustiças e perseguições que possamos sofrer da parte dos homens. De igual forma, nada poderá tirar o nosso contentamento em Deus, pois é a certeza de que Deus está contente conosco, pelo nosso bom testemunho e procedimento, que é a nossa força, como se afirma na Palavra que “a alegria do Senhor  é a nossa força”.)



O Fundamento do Contentamento

O fundamento sobre o qual nossas circunstâncias atuais são baseadas, e pelo qual estamos satisfeitos com elas é porque tal é a vontade de nosso Deus em Cristo Jesus, e Ele tem dirigido estas circunstâncias para serem assim.

O homem não pode amar o que é doloroso e desejá-lo como tal. Em vez disso existe uma razão diferente para que os crentes estejam contentes em circunstâncias que são maléficas e graves - a razão é porque assim agrada a Deus. É uma coisa para que simplesmente coloquemos em prática o princípio de buscar o fortalecimento da graça, e somente dela tal como o apóstolo havia experimentado com seu espinho na carne, de maneira que nossa condição seja de acordo com a vontade de Deus, porque todos devemos  ceder ao poder e à mão de Deus. Então não há um desejo sequer do qual se possa dizer que não deve corresponder às circunstâncias. Pelo contrário, é um ser obrigado a consentir, e isso não difere muito do destino pagão. É algo bastante diferente abraçar a vontade de Deus como sendo a mais eminente em si, e desejável para eles, porque para que a vontade de Deus seja eficaz para o contentamento, devemos considerar Deus como nosso Deus - nosso Deus reconciliado em Cristo Jesus. O exercício da fé é de grande significado aqui, seja ao receber expressamente Jesus como oferecendo a Si mesmo, e assim vindo a Deus, ou seja que a fé é operada reflexivamente e com segurança sobre nosso estado de graça. O exercício da fé também é de grande significado, quando se pode considerar como sendo reconciliado somente em virtude da propensão da fé, além de uma manifestação renovada de segurança, e quando alguém se apega somente a Jesus para ter uma participação  nEle, assim vindo a Deus através dEle enquanto exercita a esperança. Quanto mais forte for a fé, maior será o contentamento com a vontade de Deus.
Esta disposição crente gera amor para com Deus, e o amor reconhece Sua majestade e a adequação da sujeição. O amor engendra um deleite na vontade de Deus, e assim o amor pela vontade de Deus conquista e prevalece sobre o amor por si mesmo. O amor para com o bom prazer de Deus faz com que os desejos do crente correspondam às suas circunstâncias. Ele desejará que seja assim, mesmo que com lágrimas nos olhos, porque o Senhor deseja que assim seja. Esta vontade é preciosa para os crentes acima de tudo o mais, e faz tudo o que é amargo se tornar doce, e o que é pesado, leve. Observe isso no perfeito exemplo do Senhor Jesus: "Porque desci do céu, para não fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que enviou." (João 6:38); “todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres." (Mateus 26:39).
(Nota do tradutor: é por este motivo que podemos entender melhor o significado das seguintes palavras do apóstolo Pedro:
15 Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos,
16 como livres, e não tendo a liberdade como capa da malícia, mas como servos de Deus.
17 Honrai a todos. Amai aos irmãos. Temei a Deus. Honrai ao rei.
18 Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos vossos senhores, não somente aos bons e moderados, mas também aos maus.
19 Porque isto é agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, suporte tristezas, padecendo injustamente.
20 Pois, que glória é essa, se, quando cometeis pecado e sois por isso esbofeteados, sofreis com paciência? Mas se, quando fazeis o bem e sois afligidos, o sofreis com paciência, isso é agradável a Deus.
21 Porque para isso fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais as suas pisadas.” (I Pedro 2.15-21).
E também:
“12 Amados, não estranheis a ardente provação que vem sobre vós para vos experimentar, como se coisa estranha vos acontecesse;
13 mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis.
14 Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória, o Espírito de Deus.
15 Que nenhum de vós, entretanto, padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se entremete em negócios alheios;
16 mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome.” ( I Pedro 4.12-16).
O apóstolo havia aprendido isto do exemplo do próprio Senhor Jesus Cristo e da ordem expressa que ele deixou para ser cumprida na vida de todos os crentes:
“10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.
12 Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.” (Mateus 5.10-12).

Os Efeitos ou Frutos do Contentamento
Os efeitos ou frutos do contentamento são:
(1) Estar satisfeito com determinadas circunstâncias, uma vez que é a vontade de Deus. “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte." (2 Cor 12:10).
(2) Uma confiança tranquila. Este não é um ser descuidado e insensível, mas um abraço ativo da vontade de Deus que faz com que os crentes fiquem em silêncio - não com relutância ou desânimo, mas crendo na submissão. “Emudecido estou, não abro a minha boca; pois tu és que agiste," (Salmos 39: 9).
(3) Uma disposição alegre. Isso não se refere às tribulações como tal. “Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ela têm sido exercitados." (Heb 12:11).
A vontade de Deus torna aquilo que é amargo doce,  portanto, o apóstolo diz: "Também nos gloriamos nas tribulações" (Rom 5: 3);
Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias provações," (Tiago 1: 2).

(4) Gratidão. Um cristão vê a mão de Deus como sendo a mão de um pai amoroso. Ele sabe por experiência própria, que é bom ser afligido e que Deus aflige em fidelidade. Assim sendo, ele dá graças a Deus em tudo (1 Tessalonicenses 5:18), e diz com Jó: "O Senhor deu, e o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor." (Jó 1:21).
(5) Descansar e confiar na providência do Senhor. Uma pessoa contente encontra tal prazer na vontade de Deus, que não tem preocupação com o presente nem com o futuro, pois acredita que Deus é seu Pai, portanto tudo o que Deus trouxer sobre ele será para seu bem e sua vantagem. E, em consequência fica confiante e bem satisfeito.
1 Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará.
2 Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio." (Sl 91: 1-2).
(6) Crescimento espiritual. Por meio do contentamento escaparemos a muitos obstáculos que nos impedem de praticar a piedade. O mal engendra muitos pecados e nos mantém em uma condição pecaminosa, ou impede a prática de muitas virtudes. Por meio do contentamento, nós iremos afastar cada peso e o pecado que tão facilmente nos aflige; Ele nos capacitará a "correr com paciência a carreira que está diante de nós" (Heb 12:10).
Somente quando carregamos nossa cruz com contentamento, a cruz será para nosso benefício e seremos santificados por ela. Se pudermos nos gloriar na tribulação, então a tribulação vai trabalhar a paciência; e a paciência, a experiência; e a experiência, a esperança." (Romanos 5: 3-4). Assim, a cruz se torna uma escola. “Bem-aventurado é o homem a quem tu castigas, ó Senhor, e a quem ensinas a tua lei." (Sal 94:12).
(Nota do tradutor: para tal viver é essencial que nos exercitemos a identificar em todas as circunstâncias que nos sejam desagradáveis, a mão de Deus nos provando, para que possamos saber o quanto ainda estamos depositando nossa confiança em estarmos contentes nas circunstâncias e pessoas que nos sejam favoráveis, ou sempre e somente no Senhor independentemente do que sejam tais circunstâncias. Se ficamos desanimados, abatidos, magoados ou irados, é sinal que não aprendemos ainda como o apóstolo Paulo havia aprendido a estarmos contentes em toda e qualquer situação.)
 (7) Que Deus é glorificado por isso, pois os crentes demonstram assim, que o Senhor é soberano e pode fazer com Sua criatura segundo o Seu bom prazer. Eles manifestam que Deus é todo suficiente e que, ao ter Deus, nós podemos perder tudo o mais. Então se tornará manifesto que Deus é bom, fiel, verdadeiro, sábio e onipotente. “Para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo;" (1 Pe 1: 7).
“Mas, se padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome.” (1 Ped 4.16).
A verdade que apresentamos e explicamos é apropriada para convencer os não convertidos de sua má condição, e os crentes de sua deficiência e pecado.
O descontentamento é uma característica dos não convertidos, pois em muitos casos, com eles...
(1) Algo está sempre errado. Eles não têm filhos ou têm muitos. Eles aprenderam o comércio errado; se eu fosse um lojista, se soubesse um ofício, ou tivesse tal ou tal habilidade, então eu estaria muito melhor. Em tudo o que eu começo, eu contra a corrente; onde terminarei finalmente? Procuro agradar a todos e desfrutar de seu amor e estima; no entanto, eles viram as costas para mim. Todo mundo se opõe a mim, e lidam comigo e minha família de uma maneira injusta. Eles me caluniam, roubam-me da minha honra e todos estão me perseguindo. Eles estão sempre rodeados por ursos, para que nem de dia, nem de noite possam encontrar descanso devido a uma agitação externa e interna.
(2) Outra pessoa pode ser letárgica e preguiçosa, portanto insensível.
(3) Outra pessoa tem uma disposição doce, suave e pode suportar tudo.
(4) Outros usam a razão e percebem como as coisas são, ou então percebem que não há saída. Assim sendo, são pacientes à força, isto é, não há nada a ser feito sobre isso. Ou eles se engajarão de tal maneira que tudo correrá bem.
(5) Outros, quando a coisa principal escapa, agarram-se a um remendo flutuante e se ocupam com uma coisa ou outra.
(6) Outros ficam completamente desencorajados, desanimados e estariam inclinados a pendurar-se para trazer seu sofrimento ao fim.
(7) Outros, embora possam lidar com o presente, estão preocupados com o futuro. Todo o mau suposto faz com que eles tremam, roubando-lhes o gozo pacífico do presente.
(8) Outros querem encontrar sua satisfação em comer e beber, gastar dinheiro, ter prestígio e gratificar suas concupiscências pecaminosas.
 (9) Outros procuram gratificação no trabalho de suas mãos, ou o procuram nos homens, sendo obsequiosos, lisonjeiros, e adorando-os para ganhar seu favor. Toda pessoa não convertida procura descansar desta maneira sem encontrá-lo, e seu contentamento não é nada, senão agitação.
(10) Outro fará um pouco melhor e, segundo o seu dito está satisfeito com a vontade de Deus, embora nunca tenha buscado nem obtido reconciliação com Deus e, portanto não pode esperar a ajuda ou o favor de Deus.
Todos aqueles cuja disposição concorda com o que acaba de ser dito devem saber:
(1) Que você está sem Deus e Cristo, e que Deus não é por você, mas contra você. Se Ele agita as coisas, quem então vai silenciar as questões? Se Ele te desamparou, o que te ajudará? Então você não pode deixar de ser cheio de medo por dentro e por fora.
(2) Que todos os seus movimentos, e todo o seu contentamento e descontentamento não são senão pecaminosos. Isso faz você, cada vez mais abominável aos olhos de Deus. E se você imaginar que suas circunstâncias atuais sejam satisfatórias ou insatisfatórias, o resultado de tudo o que persegue terá consequências para você e não produzirá senão descontentamento, tristeza, terror, apreensão, bem como a condenação roubará tudo o que você procura até certo ponto. A ira de Deus e o fogo do inferno te envolverão para sempre, portanto volte-se para o Senhor e busque a reconciliação com Deus, em Cristo. Ele vai ser a sua satisfação, e estando satisfeito Nele, todas as coisas cooperarão para o bem.


O Piedoso: Também Sujeito ao Descontentamento

Agora vou dirigir-me aos piedosos. É triste que aqueles que têm Deus, como um Deus reconciliado, que O escolheram para ser Sua porção única e suficiente (ao mesmo tempo em que rejeitam tudo o que não é Deus), que têm tanto descontentamento, porque tanto de acordo com o corpo e a alma, não agem neste mundo como a sua nova natureza gostaria de agir.
(1) Seus olhos e coração olham demais para o que é do mundo, isto é, para aquilo que é elevado e  belo, bem como para comida, bebida, vestuário, e toda sorte de aquisição de bens terrenos, como se isso pudesse lhes render qualquer satisfação.
(2) Eles também querem agir a seu modo, e se isso não ocorrer e os homens não cederem a eles, ficam tristes, irritados e magoados.
(3) Eles comem o pão com descontentamento, pois a quantidade e o sabor não são como gostariam que fosse.
(4) Eles temem e tremem, tanto quanto o futuro está em causa. Eles dizem: "O que devemos comer e vestir?"
(5) A ansiedade aflige o coração, e as preocupações afastam a alegria da vida.
(6) Eles vacilam em relação à providência de Deus.
(7) Eles imediatamente percebem Deus como estando irritado com eles.
(8) Eles rejeitam seu estado espiritual.
(9) Eles se tornam vulneráveis ​​aos assaltos do diabo, que então facilmente se apodera deles, jogando-os para lá e para cá.
(Nota do tradutor: o descontentamento espiritual, a falta de satisfação em Deus em todas as circunstâncias faz com que o crente se torne, por outro lado, iracundo, ingrato, amargo, insensível, sem afeto natural, e sujeito a tudo que se refira às obras da carne, que são ampliadas pela atuação de demônios que lhe oprimem. E, caso não se arrependa e se volte para Deus para achar libertação, sua condição se agravará e considerará tudo e todos como culpados pela sua condição infeliz, ou buscará alento e contentamento nas coisas que são do mundo; e não achando paz para sua alma em suas próprias iniciativas, a tendência é que fique ainda mais descontente.)
(10) A vida espiritual perderá seu vigor, e se o Senhor não fosse fiel e imutável, eles seriam corrompidos em corpo e alma; e tão severamente as tribulações mundanas poderiam feri-los. Em tal condição eles se deliciam em desejar serem consolados, mas de uma maneira que concorde com o atendimento de seu desejo – então eles seriam encorajados. A tristeza deve primeiro desaparecer, a matéria deve primeiro ser atingida, eles devem primeiro ver e possuir aquilo que vão viver, e então o conforto terá um efeito. Assim poderiam viver despreocupados e servir o Senhor.


O Piedoso Exortado a Não Ser Irritável

O que eu devo dizer? Que eu devo ter pena de você? Isso eu terei, mas de tal maneira que não prejudicarei nem incentivarei você em seu pecado. Em vez disso, eu o farei agitando-o para superar essas ansiedades improdutivas, este ímpio descontentamento, e essas preocupações que o arrastam para baixo.
Primeiro, quando descobrimos tudo isso, você mesmo perceberá que ainda é muito carnal e que tem dado sua atenção a coisas que são insignificantes. Você ainda é deste mundo como outros são, cuja porção está nesta vida? Aquilo que é do mundo é capaz de satisfazê-lo? Quando você entrou no pacto da graça, não estipulou que o que quer que lhe acontecesse seria para seu bem e sua satisfação? Ou você mudou seu modo de pensar em relação a isso? Por que haveria mais preocupação por seu corpo, do que por sua alma? Por que deveriam as deficiências corporais serem mais dolorosas do que as deficiências da alma? Tenha vergonha diante de Deus e do homem, que você seja assim tão carnal.
Em segundo lugar, você não percebe que isso é idolatria? Há nisso um afastamento secreto de Deus, uma negligência de Sua dependência, e uma negação secreta da providência de Deus. Existe uma acusação secreta de crueldade e falta de cuidado por você, de mutabilidade e de não ser fiel às Suas promessas. Sob a pretensão de estar preocupado com necessidades há o desejo de confiar em coisas temporais e viver apenas de pão; e mesmo se não, sua confiança nas coisas temporais é parcialmente verdadeira. Deus e as coisas deste mundo juntos devem realizar a sua satisfação; ou você serve a Deus para que Ele lhe dê coisas temporais? Que disposição má é esta! Quão longe isso está da disposição do salmista: "A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; do meu coração, porém, Deus é a fortaleza, e o meu quinhão para sempre.” (Salmo 73: 25-26)!
Ao chegar diante de Deus tenha vergonha da sua disposição pecaminosa.
Em terceiro lugar, essas preocupações e ansiedades que fazem estremecer provêm de um coração orgulhoso relativo tanto a Deus, quanto ao homem. É orgulho relativo a Deus, pois implica que alguém é digno de alguma coisa, e que Deus é obrigado a nos tratar de acordo com nossos desejos. Se alguém fosse verdadeiramente consciente de sua pecaminosidade e culpa, e refletisse sobre isso, ele chegaria a um lugar inferior e afundaria em espanto, que Deus ainda o suportou e lhe deu muito acima de outros que têm muito menos do que ele, considerando que pecamos gravemente, e talvez sejamos ainda mais pecaminosos do que pensamos.
É também uma manifestação de orgulho em relação ao nosso próximo, pois olhamos para aqueles que são superiores a nós e perguntamos: "Por que eu não tenho tanto como ele?" Muito raramente a preocupação pertence verdadeiramente ao que está presentemente em necessidades temporais, pois pouco é suficiente. Em vez disso pertence ao nosso desejo de possuir, de ter tanto quanto o outro, e a busca de dignidade para não sermos desprezados, por sermos pobres e ter que depender da igreja ou de outros. É verdade que isso, quando considerado em si mesmo, não deve ser uma questão de indiferença para nós. É a vontade de Deus que tenhamos desejos relativos ao nosso bem-estar e que nossa jornada por este mundo seja com dignidade, no entanto devemos negar esses desejos quando Deus deseja nos humilhar e nos manter humildes. Portanto, escondido sob a capa de estar preocupado com as necessidades, com a dignidade e ser capaz de servir a Deus, está o orgulho.
Deus deseja ser servido por alguém enquanto tendo uma posição mais elevada no mundo, e por outro enquanto em uma posição mais humilde. A vontade de Deus deve ser nosso prazer em qualquer circunstância em que estejamos. O desânimo de estar em uma posição mais baixa, não é nada além de orgulho.
Portanto, torne-se humilde e você será libertado de muitos cuidados não lucrativos.
Em quarto lugar, todas as suas preocupações são em vão e você não vai ganhar um centavo por elas. Deus já decretou desde a eternidade quanto você terá. Há uma porção "conveniente" (Provérbios 30: 8) que Deus designou para todos, e que Ele dá em Seu tempo. Ninguém tirará esta porção de você, nem será diminuída. Com todas as suas preocupações e ansiedade você não vai adicionar nem um níquel, nem quebrar ou mudar o conselho determinado de Deus. Havia Israelitas cobiçosos que ajuntaram muito maná, contudo quando chegaram em casa, não tiveram mais do que a sua medida.
Havia outros que devido à falta de força, ou por estarem em um local onde não havia caído muito maná, haviam juntado pouco. Mas quando chegaram em casa, sua medida também estava cheia. O primeiro não teve sobras e o outro não teve  falta. (2 Cor 8, 15).
“25 Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?
26 Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
27 Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
28 E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam;
29 contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
30 Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
31 Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?
32 (Pois a todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso." (Mt 6:25, 27, 32).
Em quinto lugar, você desonra a Deus e se prejudica, pois por meio destas preocupações mostra que não tem somente a Deus como sua porção, e que não pode ser satisfeito com Ele a menos que tenha tantos bens temporais quanto você julgar necessário. Não seria uma desonra para um Pai que tem riqueza suficiente, se permitir que seus filhos sofram necessidade, apesar de seus gritos e súplicas? Você também não é a causa para que outros, por meio de sua insatisfação e preocupações infrutíferas, comecem a pensar no Senhor dessa maneira, como se Ele não tivesse amor, misericórdia e compaixão? Você o glorificaria, pelo contrário, se ficasse satisfeito com suas circunstâncias atuais e se sua felicidade consistisse no gozo do próprio Deus.
No que diz respeito a si mesmo, se permanecer em inquietação, apreensão, medo e ansiedade; você se rouba de prazer e alegria em Deus. Você impede seu crescimento, uma vez que a sua disposição desagrada a Deus, e o torna impróprio para usar adequadamente os meios para crescimento espiritual. Suas preocupações farão com que a Palavra e seus bons movimentos interiores sejam sufocados, tornando-os assim Infrutíferos (Mt 13:22). A incredulidade tem oportunidade de aparecer, e lançará a alma ansiosa de um lado para outro. O desejo do exercício religioso diminui e o livre acesso a Deus é dificultado. Os pensamentos que essas adversidades vêm sobre você sob a ira de Deus, faz com que a alma trema. Assim, em grande parte a quietude, a dependência de Deus, uma confiança infantil nEle, e andar com Ele desaparece. Você perderia tudo isso por uma quantidade maior ou menor de pão, o caminho para sua própria honra e para o futuro, do qual você não sabe como será? Oh, esses assuntos também são insignificantes para permitir que o bem-estar de sua alma se dissipe.
(Nota do tradutor: esta insatisfação motivada por desejos inadequados por coisas materiais pode ser estendida a todos os demais motivos, inclusive a todas as circunstâncias em que nos sintamos sendo contrariados por 0utros, ou até mesmo por motivo de complexos de inferioridade. Em suma, tudo o que nos leve para longe de um contentamento permanente em Deus pode comprovar para nós mesmos o quanto ainda somos carnais, e não plenamente confiantes e satisfeitos no Senhor.)
Em sexto lugar, depois que o Senhor te livrar da tua perplexidade - o que certamente fará em Seu tempo - então, devido à sua insatisfação anterior e resmungos, você terá se tornado incapaz de ser verdadeiramente grato ao Senhor, e um sentimento de vergonha sobre a sua desconfiança anterior fará com que sua alma sinta uma nova tristeza. Também pode acontecer  que o Senhor, ao ter cumprido seu desejo desordenado enviará uma magreza em sua alma. Então, você será confundido e desejará que estivesse em uma condição espiritual melhor. Assim sendo, conduza-se bem enquanto estiver em uma escola em que pode aprender muito daquilo que não poderia aprender em um tempo de prosperidade. Tome cuidado, portanto e esteja em guarda para não ser murmurador e queixoso sobre sua condição, enquanto andando de acordo com suas concupiscências (Judas 16). Em vez disso, possua a sua alma em paciência e fique satisfeito com o presente. Você então estará apto a servir ao Senhor em prosperidade ou em adversidade.




Exortação para Lutar pelo Contentamento
Portanto, filhos de Deus, ou ricos, ou da classe média, de meios limitados, insignificantes, pobres, oprimidos ou atirados com a tempestade - quem quer que você seja e quaisquer que sejam suas circunstâncias, todos precisam de uma exortação, pois nenhuma circunstância por si só produz satisfação. Aprenda a ajustar seus desejos às suas circunstâncias, independentemente do que possam ser, e não se esforce para ajustar suas circunstâncias aos seus desejos, pois não haveria fim para isso. Mantenha a insatisfação longe de você como sendo uma pestilência prejudicial para sua vida espiritual, e possua a sua alma em contentamento.
Para isso, primeiro você deve meditar sobre todas as exortações vigorosas. Ouça-as da boca do Senhor, que lhe fala desta maneira: "Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele tudo fará." (Sl 37: 5); "Lança o teu fardo sobre o Senhor, e ele te susterá; nunca permitirá que o justo seja abalado." (Sl 55:22); "Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes; porque ele mesmo disse: Não te deixarei, nem te desampararei." (Heb 13: 5);
" Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; (Mt 6: 31-32);
“Este habitará nas alturas; as fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio; dar-se-lhe-á o seu pão; as suas águas serão certas."(Isaías 33:16); “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós." (1 Pe 5: 7).
Não passe depressa esses textos, mas preste atenção a cada um; sim, a cada Palavra individual. Tome nota dessas palavras como sendo dirigidas a você pelo Deus do céu. Ele não apenas lhe ordena que deve pensar, mas também se contentar. O comando de Deus não é suficiente para motivá-lo a se tornar obediente? Sua exortação não é suficiente para te incentivar? Tome nota também, das promessas que o Onipotente, bom e verdadeiro Deus faz além disso: Ele o fará acontecer; Ele te sustentará; Ele não te desamparará; o seu Pai celestial sabe que tem necessidade de todas estas coisas; e Ele cuida de você.
As promessas de Deus não são o suficiente para você? Ele diria isso e não o faria? Portanto, fique satisfeito, deleite-se e se regozije em Suas promessas que certamente serão cumpridas. É verdade que o Senhor nem sempre promete aquilo que julgamos que é mais adequado para nós, no entanto o Senhor certamente o fará em Seu tempo. Isto é assim melhor se não as recebermos em nosso tempo; ainda há algo a ser aprendido e devemos primeiro, ser capazes de usar bem as promessas. É a sabedoria e bondade do Senhor que faz com que Ele adie o assunto, entretanto o cumprimento está fora de dúvida. Ele não prometeu lhe dar certa quantidade, mas tanto quanto vai precisar, que deveria ser suficiente para você, e Ele certamente lhe dará. Portanto, embora demore, espere por ela, “porque certamente virá, não tardará "(Hab 2: 3). Mesmo se você não perceber qualquer meio pelo qual, ou de onde ela virá, Ele é Todo-Poderoso. Ele também pode fazê-lo sem meios, e sustentar você e seus filhos sem comida. Ou então, Ele proverá os meios - mesmo que os corvos tivessem que trazê-lo a você, mesmo se Ele fizesse com que o pão chovesse do céu, mesmo se Ele tivesse que multiplicar farinha e óleo, ou mesmo se Ele tivesse que fechar a boca dos leões e fazer com que o fogo não tenha poder. Portanto, fiquem quietos e vejam a salvação do Senhor.
Em segundo lugar, não é Deus, que é seu Pai soberano? Você gostaria que Ele não fosse assim? Você certamente responderá, - Não, estou feliz que Ele seja assim e não quero ficar acima dEle. Eu aprovo Sua soberania, e mesmo se Ele fosse matar-me, eu adoraria Sua soberana majestade. "No entanto, aqui a vontade de Deus se opõe à sua vontade”. Você diz: "Eu desejo ter isto", e Deus diz: "Eu não quero dar isto a você; tal e tal é a medida que terá". De quem é, no entanto a vontade superior; a de Deus ou a sua? Desde que sabe que não pode prevalecer contra Deus, você se preocupará e murmurará, como às vezes as crianças fazem com seus pais? Isso seria um esforço contra Deus. Desde que é soberano, entretanto Sua vontade é suprema, e você a aprova com prazer, sujeitando-se à Sua vontade, e fazendo o que Ele quiser. Deleite-se em suas circunstâncias, pois é a vontade de Deus a respeito de você, especialmente porque Deus é seu Pai a quem você ora diariamente, “seja feita a Tua vontade”. Desde que você se submete à Sua vontade em oração, também não se sujeitará à Sua vontade em Seus tratos com você, mesmo que eles não estejam de acordo com seus desejos? Submeta-te, portanto a Deus e glorifique-O ao fazê-lo.
Em terceiro lugar, Deus não disse: "Eu sou o seu Deus"? Faça com que Ele seja a sua porção para que possa desfrutar de toda a felicidade nEle! Se você tem o Todo-Suficiente como sua salvação, ainda está em necessidade de qualquer outra coisa? Não é Ele melhor para você do que mil mundos, uma quantia de dinheiro ou um pedaço de pão? Portanto, fale e pratique o que o piedoso fez. “O Senhor é a minha porção, diz a minha alma; por isso espero nele." (Lam 3:24).
Como você considera Deus, o único Deus bendito, o Deus da salvação completa para ser sua porção, volte-se para Ele em tempos de angústia, busque refúgio nEle, deleite-se nEle pela fé, mesmo que Lhe agrade não dar a medida que você deseja. Isto é posto para você na eternidade. Delicie-se em tê-Lo como sua porção, e deixe isto satisfazê-lo, enquanto renunciando às coisas do mundo que gostaria de ter. Para isso mantenha diante de si o exemplo de Habacuque: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas vides; ainda que falhe o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado da malhada e nos currais não haja gado. Todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação." (Hab 3: 17-18).
Em quarto lugar, o próprio Deus que lhe deu o que é mais precioso para Ele, a saber, Seu próprio Filho Jesus Cristo, a fim de livrá-lo de seu estado miserável e trazê-lo para a glória eterna (que Ele colocou como uma Herança para você (Rm 8:32). Ele permitiria que você realmente tivesse falta de alguma coisa, tanto quanto as necessidades de seu corpo? “Quem não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não dará também com ele livremente todas as coisas "(Rm 8:32). Eis que Cristo vos foi dado como Salvador, e participais de todos os benefícios do pacto da graça, e a salvação é a vossa eterna herança. Isso não é suficiente para você? Deve uma quantia de dinheiro e um pedaço de pão ainda ser adicionado a isso antes que fique satisfeito? Tenha vergonha de que tenha tais pensamentos. Será que Ele, quem te deu o que é superior e eterno, te nega o que é necessário para o teu corpo? Aquele que te deu a vida e teu corpo, também não te dará comida e roupa? “Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?" (Mt 6:25). Como você se atreve a pensar tal coisa? Portanto, esteja satisfeito com as suas presentes circunstâncias, e você será contente. Ajuste seus desejos às suas circunstâncias.
Em quinto lugar, o que é o mundo para você? O que é que você está tão desejoso dele? O que é para que você esteja tão preocupado com ele? Não é tudo transitório? Você mesmo não permanecerá aqui eternamente, e assim como tudo o que existe no mundo, senão existem por um momento. Por que então, se preocupa tanto com isso? Quando a morte vier, não lamentará que você tenha tido muito pouco nesta vida, nem lhe dará alegria se tivesse uma abundância; você não vai morrer mais pacificamente por causa disso. Se fosse considerar todos os dias como sendo o seu último e estivesse imaginando continuamente que está atualmente morrendo, você não ficaria preocupado se tem mais ou menos, do que está tendo atualmente. Portanto, permaneça focado na natureza transitória de sua existência e na insignificância de tudo o que é do mundo. Concentre-se simultaneamente nas promessas de Deus; Ele, como um benefício adicional lhe dará das coisas do mundo conforme necessitar delas. Você então aprenderá a estar contente.
Em sexto lugar, alguma pessoa piedosa nunca teve alguma coisa? Se você ler toda a Bíblia, não encontrará um único exemplo.
Considere o seu próprio caso. Deus cuidou de você quando era pequeno. Ele forneceu roupas para sua conveniência, seios para ser amamentado, pais para que pudesse ser amado, pão e roupas quando  cresceu, e tem nutrido você desde o momento de sua existência até agora. E quando você entrou em circunstâncias desconcertantes, Ele não o livrou frequentemente? Seria então que Deus cessará neste momento?
Aquele que concede alimento aos filhotes quando clamam a Ele, fornece comida para os pássaros do céu, sustenta tudo o que vive, e concede o alimento ao próprio ímpio; Ele te esqueceria? Ele se recusaria a dar-lhe o que precisa?
Portanto, esteja contente, confie Nele e esteja satisfeito com sua despensa, pois mesmo que a medida não seja de acordo com seus desejos, será tanto quanto você precisa. Isso é suficiente e deveria ser suficiente para você.


Os Benefícios Abençoados que Emanam do Contentamento

Em sétimo lugar, o contentamento gera muitas coisas boas. “E sabemos que todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus." (Rm 8:28).
(1) Haverá um espírito calmo, que é de grande valor aos olhos de Deus (1 Pe 3: 4).
Haverá um grande deleite. Uma pessoa satisfeita atropela tudo que é do mundo, vive acima daquilo que é visível e está além do alcance de todas as flechas dos inimigos.
(2) Haverá alienação do mundo. O homem, por natureza está muito ocupado com seu corpo e provisão para isso, por meio de coisas temporais. Ainda há muito a ser encontrado disso em uma pessoa regenerada. Se, entretanto ele se torna satisfeito com a vontade de Deus, então começa a se dissociar do mundo e não busca gratificação nele, mas permanece nele como um estranho.
(3) É um estado em que há oração e comunhão com Deus. Uma vez que Deus é a parte do crente, ele se deleita e observa a mão de dEle em tudo o que encontra, acreditando que é para sua vantagem, mesmo quando uma faca de poda é usada para cortar. Se necessita de alguma coisa, ora com fé e crê, e antecipa o que ele precisa.
(4) Há uma experiência frequente da ajuda de Deus. Perceber que Deus olha para ele, ouve a sua oração e o livra, é dez vezes mais precioso para um crente, dando-lhe incomparavelmente mais alegria do que se fosse resultante de um estado de extrema pobreza, para extrema riqueza. Essa experiência o fortalece no Senhor e também irá livrá-lo uma e outra vez no futuro. Aquele que me livrou do urso e do leão também me livrará deste filisteu. Aquele que me livrou de seis tribulações, não me abandonará na sétima.
(5) Haverá gratidão. Se tivermos falta de tudo e não vemos nenhuma maneira de escape, no entanto Deus nos concede Sua ajuda; um pedaço de pão vai ter maior sabor do que todas as iguarias desfrutadas em prosperidade. Assim, um abrigo atrás do qual há refúgio contra a chuva e o vento é mais agradável  do que um castelo antes habitado. A alma se eleva ao Senhor, reconhecendo-O como o Doador, regozijando-se nEle e reconhecendo que não é digna da menor de todas as Suas misericórdias. A confissão será, “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades, quem sara todas as tuas enfermidades, quem redime a tua vida da cova, quem te coroa de benignidade e de misericórdia," (Sl 103: 2, 4).
(6) Há um anseio pelo estado de glória. Então o crente perceberá que não se encontra aqui embaixo, mas no céu. Por isso, ele não estará ansioso para partir e a estar com Cristo. Ele se consolará com essa expectativa, e assim será fortalecido e encorajado a suportar todas as tribulações. Ele se alegrará que o descanso tenha sido estabelecido, e se apressará em entrar nesse descanso.
(7) Há a manifestação da santidade. Como os cuidados deste mundo são os espinhos que sufocam a boa semente, o contentamento também faz um ajuste para negar a si mesmo, ser humilde, confiar e deleitar-se em Deus como sendo sua porção, a possuir livremente a causa do Senhor, e demonstrar que há uma suficiência total em Deus. Aqui está a fonte de toda piedade.
Objeção: Alguns talvez digam: "Eu realmente estaria contente se soubesse que era um filho de Deus, que o Senhor estava perto de mim, e que Ele me faria sentir a Sua bondade."
Resposta: Isto é tanto como dizer, "Se eu estivesse apenas no céu, eu ficaria satisfeito." Nós devemos encontrar satisfação aqui embaixo, na vontade de Deus pela fé. A descrença em relação ao seu estado surge do descontentamento e não da sua falta. Enquanto você não estiver satisfeito, a não ser que seu desejo seja cumprido, tanto tempo também será lançado para lá e para cá, como seu estado espiritual e sua alma serão como "uma onda do mar movida pelo vento." (Tiago 1: 6).
Para que a fé seja exercida, você deve se contentar com o presente, e ao ficar satisfeito deve exercer a fé; estes dois se pertencem mutuamente. Que o Senhor lhe conceda a ambos!
Objeção: Outros dirão: "O Senhor não me ouve, eu não sou livrado, e minha perplexidade se torna maior a cada hora. Como posso então me contentar?"
Resposta: Você vê agora que seu contentamento é contingente em possessão? Não possuir e ainda estar satisfeito com a vontade de Deus, confiando que haverá libertação,  que é a verdadeira satisfação. A razão pela qual o Senhor não dá a você é porque ainda não precisa dEle. O Senhor quer ensinar você a se contentar somente com Ele. Ele deseja guiá-lo no uso adequado do que é bom. Ele deseja confortá-lo e ajudá-lo de maneira diferente daquilo que você prescreveria a Deus em sua loucura.


Diretrizes para Aprender Como Ser Contente

Se você deseja aprender a ser contente, então pratique o seguinte:
(1) Considere sempre o que você merece, e então será feliz porque você ainda não está no inferno.
(2) Olhe para os outros, e não vai querer trocar sua condição com a deles. Alguém terá muito menos, e será mais miserável do que você é, materialmente falando, mas será um exemplo para você quanto ao contentamento. A outra pessoa ficará sem graça, e você certamente não gostaria de trocar de lugar com ela.
(3) Viva somente cada dia e não tome sobre você as dificuldades de dois, dez ou cem dias. Este seria um fardo muito grande para você. O suficiente para cada dia é o seu mal.
(4) A sua dificuldade talvez não seja tão grande quanto a imagina - isto em consequência de seu desejo ser excessivo. Portanto, você deve fazer mais esforço para ajustar seu desejo às suas circunstâncias considerando qual seja a vontade de Deus, em vez de procurar melhorar suas circunstâncias de acordo com seu desejo.
(5) Utilize os meios com toda diligência e fidelidade para que sua consciência não o acuse, e deixe o resultado para o Senhor. Confie na Sua promessa e Ele a cumprirá bem.
(6) Permaneça com seu foco continuamente sobre o céu, e considere a insignificância de tudo o que há na terra. Quanto mais próximo você estiver de Deus, mais estará à distância da criatura. Tudo passará, mas aquele que faz a vontade de Deus habitará seguro para sempre.
Nota do tradutor: Apesar de que muitas outras considerações pudessem ter sido apresentadas pelo autor quanto a esta questão relativa ao contentamento, cremos que ele bem resumiu o fundamento para o verdadeiro contentamento, e a principal causa para o descontentamento.
Tendo escrito no século XVII, não havia no tempo do autor a multiplicidade de bens, até mesmo virtuais que atiçam a cobiça da quase totalidade da humanidade em nossos dias. Assim, multiplicando-se os bens multiplicam-se também os desejos, e vimos que à medida que estes não podem ser ajustados às circunstâncias, a consequência imediata é o descontentamento.
Não admira que tantos estejam descontentes em nossos dias, quando se pode dizer deles, que são muito mais ricos do que os que foram considerados ricos no passado, quando não havia sequer energia elétrica, e todos os confortos que podem ser por ela fornecidos; como também quando não havia o avanço tecnológico e científico do qual temos sido testemunhas em nossa própria época. Enfim, há muito para se desejar, como não havia no passado, mas o mais carente de bens não está em condições tão precárias, assim como muitos que no passado remoto não dispunham de todas as facilidades que temos presentemente.
Mas, a grande razão para o descontentamento reside em se não estar plenamente conformado à vontade de Deus, quer no que tange à provisão material, quanto à espiritual.
É para lamentar o estado da igreja atual em busca de prosperidade material, como se esta fosse a grande conquista da fé em Jesus Cristo.
Quão afastados caminham daquela condição de ser luz do mundo e sal da terra, pelo bom testemunho de se estar contente em todas as circunstâncias, com gratidão no coração, todos os que não aprenderam ainda a fazer do Senhor a razão suficiente de todo o seu contentamento.
Isto se aplica até mesmo ao modo de se agir na obra do evangelho, pois é possível que o contentamento de muitos se encontre, não em promover o reino de Deus e a Sua justiça, mas em achar prazer nas atividades que desenvolvem em si mesmas, de modo que quando são contrariados ou sentem que os resultados não são os esperados quanto ao sucesso que deveriam ter, conforme sua imaginação, tornam-se desanimados, insatisfeitos, e não dispostos a levar a obra adiante. O foco estava incorreto e daí a razão da sua frustração. Se estivesse corretamente no Senhor, ficariam satisfeitos por terem agido com obediência e fidelidade a Ele, deixando os resultados em Suas mãos divinas, pois se colhessem pouco ou muito em seus esforços, estariam contentes por saberem e sentirem em espírito, que Deus estava agradado da fidelidade deles.
Afinal, tudo o que podemos fazer é semear e regar, pois o resultado do crescimento depende exclusivamente da aplicação do poder de Deus, e da forma como as pessoas recebem nosso testemunho de Cristo e da Sua Palavra.
Quanto a isto, se Paulo e todos os apóstolos fossem dirigir seus esforços em razão da plena aceitação por todos, da Palavra que pregaram, é bem certo que teriam abandonado o ministério logo no início, porque não foram poucos os que não somente resistiram à pregação, como os perseguiram.
Que cada um se dedique com zelo e fidelidade ao ministério que recebeu do Senhor para cumprir, e que permaneça na sua realização com contentamento e gratidão em seus corações, mesmo que sejam rejeitados, perseguidos; tanto eles, quanto a Palavra que pregam e ensinam.
Afinal, está determinado por Deus que a obra do evangelho deve prosseguir em meio a resistências e fortes oposições. Então, todos os seus ministros devem estar armados em pensamento que deverão suportar oposições com alegria e contentamento, pelo privilégio de servirem a Deus.
Sendo humanos, estamos sujeitos a nos entristecer ao recebermos oposição por causa do nosso amor ao Senhor e ao evangelho, mas não devemos ficar desanimados a ponto de desistir de amar os pecadores e batalhar pela salvação de suas almas, intercedendo em favor deles junto ao Senhor em oração incessante.
A graça do Senhor nos fortalecerá em todas as circunstâncias, caso seja achada em nós esta disposição de permanecermos fiéis em tudo o que possamos ter que sofrer e suportar.
O Espírito Santo fortalecerá e alegrará o coração abatido pelo sofrimento, e renovará a nossa esperança e fé, de modo que levemos a obra de evangelização adiante, sem nos importar com o que nos façam de bem ou mal, com a aprovação ou rejeição que recebamos, pois não estamos trabalhando para a nossa própria glória, mas para a do Senhor.
Temos um firme fundamento para esta confiança, na justificação pela fé, da qual poderíamos dizer também, que é a nossa fé na justificação que nos possibilita nos aproximarmos do trono da graça para recebermos o renovo espiritual sempre que dele necessitarmos.
Não somos aceitos por Deus em nenhuma outra base, senão na única, da nossa justificação por causa da morte e ressurreição de Jesus. É sempre pelo sangue que Ele derramou por nós que podemos nos aproximar de Deus e sermos aceitos por Ele.
Apesar de a justificação nos ter sido atribuída de uma vez para sempre no dia da nossa conversão, é pela continuidade dos seus benefícios que podemos ter comunhão com Deus ao longo de toda a nossa vida.
É por confiarmos em Cristo, no perdão que Ele obteve para nós na Cruz do Calvário, na satisfação plena da justiça de Deus que Ele fez pela oferta de Si mesmo, como sacrifício expiatório, que podemos continuar sendo abençoados por Deus, desde que nos arrependamos e confessemos os nossos pecados.
Este é, portanto o grande fundamento para o nosso contentamento, pois uma vez tendo sido renovados pela graça que está em Jesus podemos continuar na prática do bem, desenvolvendo a nossa salvação em santificação.
Não podemos estar contentes se não estivermos santificados, mas convém lembrar que podemos sempre nos santificar por termos sido justificados.
Mas, como temos ainda em nós uma velha natureza, corrompida pelo pecado, necessitamos de esforço contínuo, de oração e vigilância incessantes para guardarmos a santificação que tivermos alcançado, pois como temos visto é impossível estar contente (pleno, satisfeito em Deus) sem santificação.
Todavia, em todo o caso, o grande motivo para o nosso contentamento está resumido nas palavras que nosso Senhor dirigiu aos apóstolos quando estes vieram ter com ele exultando pelo fato de os demônios se lhes sujeitarem:
“Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus.” (Lucas 10.20)
Em sentido geral, não é nem mesmo o nosso sucesso espiritual na obra de Deus, ou o grau de nossa santificação, o principal motivo de estarmos contentes, mas o fato de termos sido tornados filhos de Deus, tendo nossos nomes escritos nos céus.
Esta é a grande razão para o crente estar contente em toda e qualquer circunstância, e não outra. Ele foi reconciliado com Deus por meio do sangue de Jesus, e ninguém poderá anular esta condição abençoada.