Título
Original: The Good Practitioner
Por Thomas
Watson (1620-1686)
Traduzido,
Adaptado e Editado
por Silvio
Dutra
Introdução pelo Tradutor:
A
exigência da justiça de Deus em relação às Suas criaturas morais (anjos e
homens) é que sejam perfeitamente santos assim como Ele é santo. Essa perfeição
que atende à Sua justiça só é possível quando se está em união completa com
Ele. Deus é justo nesta exigência porque foi para o propósito de serem santos e
perfeitos como Ele, que os criou.
Os anjos
que se apartaram de Deus ficaram desprovidos de justiça em si mesmos,
pois como vimos é impossível permanecer justo, separado de Deus, e sem esta
justiça divina não há vida, e por isso se tornaram demônios.
Quando o primeiro homem pecou tendo, por
conseguinte se separado de Deus, sujeitou à referida separação toda a Sua
descendência. Todavia, aquilo que aos anjos caídos foi negado, tem sido
concedido àqueles que dentre os homens desejam retornar à união com Deus.
É neste ponto que entra a necessidade da
justificação pela fé em Jesus Cristo, uma vez que a referida união não pode ser
consolidada por nenhum outro meio, já que o homem necessita de uma justiça
perfeita para poder estar unido a Deus, e é bem sabido que tal justiça perfeita
não existe em nenhum homem.
Todavia, a justificação não consiste em
transformar um pecador em um santo, pois ela realiza apenas a expiação da culpa
do pecador, o seu perdão, a sua remoção de debaixo da condenação da Lei, mas
não opera qualquer transformação moral em sua natureza.
O pecador é justificado pela redenção que há no
sangue de Cristo, para que tendo retornado ao favor de Deus, e à comunhão com
ele, possa então ser regenerado e santificado pelo poder do Espírito Santo.
A regeneração, que lhe dá uma nova natureza
celestial e espiritual, é realizada simultaneamente com a justificação, no
momento mesmo em que ele crê em Cristo de uma forma salvífica.
A santificação começa com a regeneração e deve
progredir paulatinamente operando a transformação moral à semelhança do próprio
Cristo.
Entendemos então a justificação como a abertura da
porta do caminho da salvação, a partir da qual há uma longa caminhada a ser
feita através do processo da santificação que é realizada pela agência do
Espírito Santo, mediante a instrumentalidade da aplicação da Palavra de Deus em
nossas vidas. É nisto que consiste o que se costuma chamar de prática da
Palavra.
É nesta prática e não no mero conhecimento da
Palavra que consiste a santificação. É sobre esta prática santificante que
discorre Thomas Watson neste seu livro abençoado e edificante.
"Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes." (João 13:17)
Neste capítulo, nosso bendito Salvador, o
grande Instrutor da igreja, ensina Seus discípulos. Ele lhes ensinou:
1. Por doutrina. Versículo 34: "Um novo
mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei a vós,
que também vós vos ameis uns aos outros.”
Cristo agora estava saindo do mundo; e como um pai, quando está morrendo,
deixa uma ordem para seus filhos se amarem mutuamente, assim que nosso salvador
deixa este encargo solene a seus discípulos de se amarem um ao outro.
2. Ele lhes ensinou por alegoria. Versículo 4: "Ele se levantou da
refeição, tirou a sua roupa exterior e enrolou uma toalha em torno de Sua
cintura". Ele assim ensinou-lhes por uma alegoria sagrada como Ele se
envolveu com a nossa carne. Os anjos abençoados ficaram imaginando como a
natureza divina poderia ser cingida com a natureza humana.
3. Ele lhes ensinou pelo exemplo. Versículo 5: "Depois disso, Ele
derramou água em uma bacia e começou a lavar os pés de Seus discípulos,
secando-os com a toalha que estava envolvida ao redor dele". Ele
ensinou-lhes humildade por Seu próprio exemplo. Ele se inclinou para o ofício
mais baixo. "Ele lava os pés de Seus discípulos", e isto Ele fez para
sua imitação. Versículo 14, "vocês também devem lavar os pés uns dos
outros." Agora, nosso Senhor Jesus Cristo, tendo assim ensinado os Seus
discípulos por doutrina, alegoria e exemplo, fez uso de tudo nas palavras do
texto: "Se você sabe estas coisas, feliz será você se as fizer".
Este é um texto que merece ser gravado em letras de ouro em nossos
corações; um texto que, se bem observado, nos ajudará a tirar proveito de todos
os outros textos. Um sermão nunca é ouvido corretamente, até que seja
praticado. Por conseguinte, farei que este sermão seja, pela bênção de Deus,
como uma torneira, para manter o resto dos sermões que você ouve fluindo. Deve
ser um sermão maravilhoso, que o ajudaria a colocar em prática todos os outros
sermões que você ouviu.
“Se você souber estas coisas”. Pelas palavras "estas coisas",
nosso Salvador, reúne todos os assuntos da verdadeira religião; embora mais
particularmente aquelas duas coisas que Ele citou imediatamente antes de falar
de amor e humildade. No texto há:
1. Uma suposição, "se você sabe estas coisas e as faz."
2. Uma bênção, "feliz é você."
A partir destes dois pontos, vemos esta doutrina: Não é o conhecimento
dos pontos da religião, mas a prática deles, o que torna um homem
verdadeiramente feliz. Se Cristo tivesse dito: "Se você conhece essas
coisas, feliz você é", e houvesse parado e não ido mais longe, teríamos
pensado que o conhecimento seria suficiente para fazer alguém eternamente feliz
e abençoado. Porém, Cristo não para aqui, mas vai mais longe: "felizes são
vocês se o fizerem". Cristo não põe a felicidade em conhecer, mas em
fazer. Não é conhecimento, mas prática, que torna um homem verdadeiramente
feliz e abençoado.
Esta proposição consiste em dois ramos, e eu os tratarei distintamente.
I. O conhecimento
sozinho, nas verdades das Escrituras - não fará um homem eternamente feliz e
abençoado. Mateus 7:21. Lucas 6:46: "E por que me
chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?" Não é o mero conhecimento e aceitação das mais gloriosas verdades
do Evangelho, que trará um homem ao céu. Se um homem pudesse fluentemente
discursar sobre todas as verdades bíblicas, se sua cabeça fosse um tesouro de
sabedoria, um oceano de aprendizagem, contudo isso não poderia dar-lhe direito
à felicidade. Seu conhecimento poderia fazê-lo admirado, mas não abençoado. Se
um homem conhecesse e acreditasse em todas as doutrinas da Escritura, isso não
poderia coroá-lo de felicidade.
Na verdade, o
conhecimento das doutrinas da Escritura, tem uma beleza nele ao lado da pérola
da graça; este ouro é o mais precioso. O conhecimento é o enriquecimento da
mente. É uma guirlanda justa para olhar - mas é como Raquel. Embora ela fosse
linda - contudo sendo estéril ela disse: "Dê-me filhos ou eu morro!"
Da mesma forma, se o conhecimento não produzir o filho da obediência, ele
morrerá e virá a nada.
Eu não iria de modo algum menosprezar o conhecimento. O conhecimento é o
piloto que nos guia em nossa obediência. Se o zelo não é de acordo com o
conhecimento, é adoração da vontade; está estabelecendo um altar para um Deus
desconhecido. O conhecimento deve introduzir obediência. É tão abominável para
Deus oferecer os animais cegos como os coxos. A ignorância finalmente destrói!
Oséias 4: 6, "Meu povo é destruído por falta de conhecimento". A
palavra hebraica é que eles são cortados ou derrubados como árvores. Portanto,
há uma necessidade de conhecimento. O conhecimento é a irmã mais velha - mas a
obediência é melhor que o conhecimento; e aqui o ancião deve servir o mais
jovem. O conhecimento pode nos colocar no caminho da felicidade, mas é somente
a prática que nos leva lá. Esse conhecimento por si só não pode fazer um homem
eternamente feliz e abençoado – e vou provar por três demonstrações:
1. Conhecimento sozinho, não faz um homem melhor; portanto, não pode
fazê-lo eternamente feliz e abençoado. O conhecimento nu não tem influência; não
deixa uma tintura espiritual de santidade. O conhecimento informa e não
transforma. O conhecimento, por si só, não tem poder sobre o coração para
torná-lo mais divino. O mero conhecimento é como um remédio fraco, que não
funciona. Não aquece as afeições nem purga a consciência; não traz a virtude de
Cristo para secar a sangrenta questão do pecado. Um homem pode receber a luz da
verdade, mas não amar a verdade: "e com todo o
engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade
para serem salvos." (2
Tessalonicenses 2:10). O Apóstolo chama isso de "forma de
conhecimento", Romanos 2:20. Conhecimento sozinho, é apenas uma forma
morta, não tendo nada para animá-lo. Aquele que só tem conhecimento - é um
nascido-morto espiritual! Ele parece um cristão, mas não tem apetite nem
movimento. O conhecimento sozinho, faz homens monstros na religião - todos eles
são cabeça, mas não pés! Eles não andam em Cristo, Colossenses 2: 6.
Um homem pode ter o conhecimento correto, e ser descuidado de seu dever.
Plutarco disse dos gregos que eles sabiam o que era justo, mas não praticavam a
justiça. Um homem pode ter conhecimento bíblico, e ainda ser profano! Ele pode
ter uma cabeça clara e um coração imundo! O entendimento pode ser iluminado,
quando o pé pisa em caminhos profanos. Se o conhecimento é divorciado da
prática, e não faz um homem melhor, então ele não pode fazer um homem
eternamente feliz e abençoado.
2. O conhecimento sozinho, não salvará; portanto, não pode fazê-lo eternamente
feliz e abençoado. Se o conhecimento puro salvará - então todos os que tiverem
conhecimento serão salvos. Mas isso não é verdade, porque então Judas seria
salvo, pois ele tinha conhecimento suficiente. Então o diabo seria salvo! Um
homem pode ter conhecimento correto, e não ser melhor do que um diabo! O
inferno está cheio de cabeças instruídas! Agora, se o conhecimento por si só
não salvará, então não colocará um homem em estado de bem-aventurança.
3. Somente o conhecimento torna o caso de um homem pior; portanto, não
pode fazê-lo eternamente feliz e abençoado. O conhecimento tira toda a
desculpa. João 15:22, "Se eu não viera e não lhes
falara, não teriam pecado; agora, porém, não têm desculpa do seu pecado." O conhecimento aumenta o tormento de
um homem. "Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaida, eu digo que haverá maior
tolerância para a terra de Sodoma no dia do juízo do que para você!" Seria
melhor ser pagão do que ser como os cristãos professos que vivem em contradição
com o seu conhecimento. Lucas 12:47: "O servo que soube a vontade
do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será
castigado com muitos açoites."
Conhecimento sem prática, serve apenas como uma tocha para iluminar os homens
para o inferno - quanto mais brilhante a luz, mais quente o fogo! Se um rei faz
com que sua proclamação seja publicada, e o sujeito a conhece, mas a desobedece
- isso incendeia o rei ainda mais contra ele. Ele punirá aquele homem por
desprezo malicioso. Melhor ser ignorante da verdade bíblica, do que ser conscientemente
desobediente a ela. Agora, então, se o conhecimento sozinho torna o caso de um
homem pior, então está longe de fazê-lo eternamente feliz e abençoado.
Aplicação: Obtenha o conhecimento das Escrituras, mas
não descanse nele. Você descansará naquilo que não o fará eternamente feliz e
abençoado? Nesse sentido, "aquele que aumenta o conhecimento, aumenta a
tristeza", Eclesiastes 1:18. Seu conhecimento servirá apenas para
condená-lo. Se o conhecimento separado da prática tornasse os homens
eternamente felizes e abençoados, o povo da Inglaterra seria um povo feliz. Não
lhes falta conhecimento. Nunca desde a época dos Apóstolos, a luz bíblica
brilhou mais clara; mas aqui está o problema: a maioria das pessoas sabe
somente para conhecer. Pode-se dizer da generalidade das pessoas, como diz Sêneca
- elas preferem disputar bem do que viver bem. Eles teriam conhecimento para arruiná-los,
em vez de santificá-los. Infelizmente, o conhecimento por si só nunca os
tornará eternamente felizes e abençoados. Os homens podem construir seus ninhos
entre as estrelas, e ainda assim fazerem a sua cama no inferno. Eles podem ter
conhecimento para os coroar, e Deus para condená-los. Oh professante, que te
glorias em teu conhecimento de cabeça nua - em que você excede um hipócrita?
Onde você supera o diabo? Ele conhece todos os artigos do credo. Ele poderia
dizer a Cristo: "Está escrito". Não é triste que um homem não tenha
melhores evidências para mostrar para o céu do que o diabo?
Quão inútil é uma gama de conhecimento da cabeça? Aquele que está cheio
de conhecimento, é como um copo cheio de espuma. Que coisa vã, tola é, ter
conhecimento e não fazer uso espiritual dele! É como se um homem tivesse várias
fontes em seu jardim, mas nunca regou suas flores com elas; ou como se um burro
fosse carregado de feno, mas não comesse nada do mesmo. Da mesma forma, muitos
homens possuem um grande conhecimento sobre eles, mas não se alimentam da
doçura dele nem digerem seu conhecimento em prática.
Conhecer apenas para saber - é como alguém que conhece certos países pelo
mapa e pode discursar sobre eles, mas nunca viajou até eles nem provou as
especiarias doces desses países. Da mesma forma, o gnóstico na religião tem
ouvido e lido muito da beleza da santidade, mas nunca viajou para a piedade ou
provou quão bom o Senhor é. Que lucro há nisso - ter a Bíblia em nossas cabeças,
mas não em nossos corações? Podem meras noções serem cordiais quando chegarmos
à morte?
Para concluir isso, os homens não podem ser adequadamente chamados cristãos
por seu conhecimento sozinho. Você não chama de um artesão aquele que não
trabalha em seu ofício. Que um homem seja sempre tão instruído - contudo você
não o chama um ourives se nunca refinou um recipiente ou provou o ouro. Embora
um homem tenha conhecimento em cirurgia - contudo você não o chama de um
cirurgião se nunca lancetou uma ferida. Assim, é impróprio chamar de um cristão
quem tem conhecimento, mas nenhuma prática. Ele sabe que deve mortificar o
pecado, mas não o faz. Ele sabe que deve mostrar obras de misericórdia, mas ele
não as pratica. Ele nunca operou no ofício da piedade.
II. Passo ao segundo ramo da doutrina, que é a prática da verdadeira
religião, que faz um homem eternamente feliz e abençoado. Conhecimento sem
prática é como uma árvore sem fruto. A arte da prática é a arte mais nobre. O
sangue vital da religião percorre as veias da obediência. Aqui eu vou mostrar
por que deve haver prática, e que é apenas a parte prática da religião que faz
um homem eternamente feliz e abençoado.
1. A razão pela qual deve haver prática, é porque é somente a prática que
responde ao fim de Deus ao nos dar Sua Palavra, tanto escrita quanto pregada.
Levítico 18: 4, "Os meus preceitos observareis, e os meus estatutos
guardareis, para andardes neles. Eu sou o Senhor vosso Deus." Deuteronômio 26:16: "Neste
dia o Senhor teu Deus te manda observar estes estatutos e preceitos; portanto
os guardarás e os observarás com todo o teu coração e com toda a tua alma." Você não somente deve conhecê-los, mas
segui-los. A Palavra de Deus não é apenas uma regra de conhecimento, mas uma
regra de dever. Se você falar com seus filhos e dizer-lhes o que sua mente está
em um assunto, não é só para que eles possam conhecer a sua mente, mas fazê-lo.
Deus nos dá Sua Palavra não apenas como uma imagem a ser vista, mas como uma
cópia para ser escrita depois. O mestre dá a seu servo um instrumento não para
olhar, mas para trabalhar.
A luz da Escritura é para guiar nossos pés para o caminho da obediência;
e assim Davi chama a Palavra de Deus, não uma lâmpada para os seus olhos, mas
uma "lâmpada para os seus pés", Salmo 119: 105, sugerindo que a luz
da Palavra é mais para andar do que para ver. Deus nos dá Sua Palavra como Sua
vontade e testamento, para que nós a cumpramos. Se Deus somente tivesse tido
Suas leis para serem conhecidas ou faladas, Ele poderia tê-las entregado aos
papagaios! Se Ele as tivesse mantido seguras, Ele poderia ter "com pena de ferro, e com chumbo, fazer com que fossem para sempre esculpidas
na rocha!", Jó 19:24. Mas,
portanto, Ele entrega os registros do céu aos homens para que eles sejam
obedecidos.
O Senhor nos dá seus preceitos como um médico dá ao paciente suas
prescrições - para serem tomadas e aplicadas. Para este fim são todos os
institutos de Deus, para que possamos, pela prática, aplicá-los para a purgação
do pecado e trazer a alma em um temperamento mais saudável. Deus nos dá Sua
Palavra como a mãe dá à criança o peito - não só para olhar, mas para sugar.
Muitos têm ido ao inferno com o peito em suas bocas, porque não o sugaram para
transformar o leite da Palavra em alimento sagrado!
2. É somente a parte prática da religião, que faz um homem eternamente
feliz e abençoado. Isso é claro se consultarmos a Escritura ou a razão.
Ela aparece pela Escritura. A Escritura não conhece outro caminho para a
felicidade, senão pela prática. Salmo 15: 5, "que não empresta o seu dinheiro a juros, nem recebe peitas contra o
inocente. Aquele que assim procede nunca será abalado." O salmista não diz, aquele que conhece estas coisas nunca
perecerá, mas aquele que as fizer. Ser um praticante da Palavra dá direito à
bem-aventurança. Tiago 1:25, "Entretanto aquele que atenta bem para
a lei perfeita, a da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido,
mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer." Não por sua ação, como o papista
erradamente interpretou - mas em sua ação. A obediência é mais uma prova de
bem-aventurança do que uma causa de bem-aventurança.
Procure de um lado da Bíblia para o outro, e você encontrará a coroa
ainda colocada sobre a cabeça da obediência! Os santos de renome sempre
receberam seus elogios e títulos de honra de sua obediência. "Moisés era
um homem poderoso em palavras e obras", Atos 7:22. Quando Cristo
pronunciar a sentença de absolvição, veja como ela correrá: "Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu
Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do
mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber;
era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me
visitastes; estava na prisão e fostes ver-me." (Mateus 25: 34-36). Cristo não diz que no último dia recompensará os
homens de acordo com seu conhecimento, mas por suas ações. "Eis que
cedo venho e está comigo a minha recompensa, para retribuir a cada um segundo a
sua obra." (Apocalipse 22:12).
Então, se a Bíblia, aquela vara de medição infalível, não aponta nenhum outro
caminho para a felicidade senão a prática, então é inútil esperá-la de outra
maneira.
Isto aparece pela razão. A felicidade não é atingível, senão no uso dos
meios. Agora, o uso de meios implica prática. A salvação não só deve ser
buscada pelo conhecimento, mas operada pela prática, "efetuai a vossa salvação com temor e tremor.", Filipenses 2:12. Não pode haver coroa sem correr, nem recompensa
sem diligência. Se a felicidade vem somente no uso dos meios, então não é
imaginável nem real sem a prática.
Se é somente a parte prática da religião, que faz os homens eternamente
felizes e abençoados - então repreende vivamente aqueles que sabem muito – e ainda
não fazem nada. Eles falam de Deus, mas não andam com Deus. Os homens são todos
para o conhecimento, porque é contado como um ornamento. Eles seriam adornados
com esta flor alegre, mas uma folha da árvore da vida vale toda a árvore do
conhecimento. É melhor praticar uma verdade, do que conhecer todas as verdades.
Aqui a maioria dos cristãos são defeituosos; eles têm como Raquel, bons olhos,
mas eles são estéreis. Mefibosete caiu e ficou coxo nos seus pés, 2 Samuel 4:
4. Da mesma forma, desde a queda de Adão, os homens são coxos em seus pés. Eles
não andam nos caminhos da obediência.
Os homens sabem que a cobiça é um pecado. A palavra grega para cobiça
significa um desejo imoderado de conseguir, como Midas, que desejava que tudo
que ele tocasse pudesse ser transformado em ouro. As várias espécies de pecado
crescem sobre esta raiz de cobiça, 2 Timóteo 3: 2. No entanto, os homens vivem
neste pecado, e nada pode curá-los deste câncer de cobiça. Amós 2: 7, "pisam a cabeça dos pobres no pó da terra."
“Pois a terra está cheia de adúlteros; por causa da maldição a terra
chora, e os pastos do deserto se secam. A sua carreira é má, e a sua força não
é reta.”, Jeremias 23:10. “Perguntou-me
o anjo: Que vês? Eu respondi: Vejo um rolo voante, que tem vinte côvados de
comprimento e dez côvados de largura. Então disse-me ele: Esta é a maldição que
sairá pela face de toda a terra: porque daqui, conforme a maldição, será
desarraigado todo o que furtar; assim como daqui será desarraigado conforme a
maldição todo o que jurar falsamente.”
Zacarias 5: 2,3 - contudo eles não deixarão este pecado. Eles sabem que a
embriaguez é um pecado. Há morte no cálice, contudo o bêbado vai bebê-lo! Os
homens conhecem a imoralidade como pecado, Êxodo 20:14; desperdiça sua força,
mancha seu nome, fere sua consciência, ofende sua posteridade e amaldiçoa suas
almas! Apocalipse 22:15. Contudo eles seguirão este pecado e queimarão em
luxúria, embora queimem no inferno.
Os homens sabem que devem
ser alados com atividade, nos deveres da piedade, mas podem contentar-se em
deixar esses deveres sozinhos. Eles sabem que devem mortificar a carne, orar em
suas famílias, ser justos em suas negociações e dar esmolas aos pobres. Mas se
não houvesse outra Bíblia que nos ensinasse essas coisas do que a vida da
maioria, não saberíamos que havia tais deveres ordenados! Para a maior parte,
os homens não são mudados. O que eram vinte ou trinta anos atrás - eles são os
mesmos ainda - tão orgulhosos e não reformados como sempre. As melhores
ferramentas foram quebradas ou desgastadas em seus corações rochosos - ainda
assim elas estão tão sem corte do que nunca. Os foles são queimados, os pulmões
dos ministros de Deus são desperdiçados, contudo quanta prata reprovada ainda
permanece em muitas de nossas congregações! Se ninguém é eternamente feliz e
abençoado, senão os praticantes da Palavra, quão poucos serão salvos!
Por que poucos chegam à parte prática da religião? Certamente é:
1. Falta de prática, é por falta de HUMILIDADE profunda. Aquele que tem o
espírito de escravidão solto sobre ele apreende-se, por assim dizer, na
esperança desesperada. Ele vê o mar de seus pecados diante dele pronto para
engoli-lo, e a justiça de Deus por trás perseguindo e pronta para alcançá-lo!
Ele clama como Paulo, Atos 9: 6, "Senhor, o que queres que eu faça?"
Queres que eu me arrependa ou creia? O pecador humilde não disputa, mas
obedece. A semente que não tinha a profundidade da terra, secou e veio a nada,
Mateus 13: 5-6. A razão pela qual os homens não produzem os frutos da
obediência, é porque não têm profundidade de terra. Eles nunca foram
profundamente humilhados pelo pecado. Um homem orgulhoso jamais obedecerá. Em
vez de pisar seus pecados sob seus pés, ele pisoteia as leis de Deus sob seus
pés, Jeremias 43: 3-4. Aquele que se inclina na humildade é o mais provável para
colocar o pescoço sob o jugo de Cristo. Aquele que se vê dentro de uma polegada
do inferno, faz a pergunta do carcereiro, "o que eu devo fazer para ser salvo?"
Atos 16:30. O que um homem condenado não fará, por um perdão!
2. Falta de prática, é por falta de fé. Isaías 53: 1: "Quem creu na
nossa pregação?" Isso faz sermões serem como chuva caindo sobre uma rocha!
Eles não são apaziguados, nem frutificam, porque os homens são em parte,
infiéis. Preferem disputar do que acreditar. Os que vivem como céticos, morrem
como ateus. Se os homens realmente acreditassem que o pecado era tão amargo, e
que a ira e o inferno o seguiam - eles não tirariam esta serpente do seu seio?
Se eles realmente acreditassem que havia uma beleza em santidade, se eles
acreditassem que a piedade era ganho, que havia alegria no caminho para o céu
no final - eles não iriam voltar seus pés para o caminho de Cristo? Os homens
têm alguns pensamentos passageiros ligeiros dessas coisas, mas suas mentes não
estão totalmente convencidas, nem sua consciência cativada completamente na
crença delas. Esta é a obra-prima de Satanás, sua rede pela qual ele arrasta
milhões para o inferno, mantendo-os na incredulidade.
3. O atraso dos homens para a prática, é a DIFICULDADE da parte prática
da religião. É fácil ouvir uma verdade, dar algum assentimento, elogiá-la,
fazer uma profissão dela. Mas digerir uma verdade na prática é difícil, porque os homens estão cheios de preguiça!
Eles se odeiam por se colocarem em atividade em demasia, "A preguiça traz um
sono profundo". Provérbios 19:15. Podem os homens cavar para o ouro e não
para a pérola de grande preço! Podem eles ter dores na perseguição de seus
pecados - e eles não estarão em nenhuma dor para a salvação de suas almas! Eu
ouso dizer, que custa a muitos pecadores mais suor e trabalho em labutar por
suas luxúrias - do que custa a um santo servir ao seu Deus!
4. Falta de prática, é porque o MUNDO entra e dificulta. Os espinhos
sufocam a semente da Palavra. Os homens gastam tanto no mundo, que não têm
tempo para praticar coisas melhores! O mundo é como um moinho alto - faz tal
barulho em corações carnais, que afoga o som da trombeta de prata de Deus. As
afeições dos homens às vezes são acesas pela pregação da Palavra, e começamos a
esperar que a chama da piedade brote em suas vidas; mas então vem a terra - e
apaga este fogo! Quantos sermões estão enterrados nos corações terrenos!
Oh, que a falta de prática nesta época, foi mais por falta de coração!
Esta é uma lamentação: muitos professantes são todo ouvidos. Se víssemos uma
criatura composta de nada além de ouvidos, seria um monstro na natureza!
Quantos monstros existem em nossas igrejas? Eles ouvem e ouvem, e nunca são
melhores!
Alguns se satisfazem com ter ordenanças. Juízes 17:13: “Então disse Mica:
Agora sei que o Senhor me fará bem, visto que tenho um levita como meu
sacerdote.” Mas o que é o remédio, se não for aplicado? O que é ter o som da
Palavra em nossos ouvidos, a menos que tenhamos o Salvador em nossos corações?
Será pouco conforto para os homens em seus leitos mortais, pensar que Cristo
foi pregado em suas ruas, e eles foram levados para o céu nos governos do
Evangelho, quando sua consciência lhes disser que foram profanos e não
reformados. Eles entraram na casa de Deus como os animais fizeram na arca: eles
vieram impuros e saíram da arca imundos.
Isso exorta todos a se tornarem praticantes da religião. Há três etapas
que levam ao céu: conhecimento, assentimento e prática. Não é dar os
dois primeiros passos - mas o terceiro passo que o fará eternamente feliz e
abençoado. A obediência é o grande preceito da lei e do evangelho. Nisto está o
dever de um cristão, nisto consiste a sua felicidade. 1 Samuel 15:22,
"Obedecer é melhor do que sacrificar." É grato a Deus, e gracioso
para um cristão.
Qual é a excelência de uma coisa, senão sua praticidade e utilidade? Que
são as belas penas de um pássaro se não pode cantar? O que é uma planta, embora
adornada com folhas, se não der fruto? O que recomendamos em um cavalo, seus
olhos ou sua boa índole? Cantares 5: 5, "as minhas
mãos destilavam mirra." Não só os
lábios de um cristão devem deixar cair o conhecimento, mas suas mãos e seus
dedos devem deixar cair a mirra, isto é, trabalhando as obras da obediência.
Deixe-me usar alguns MOTIVOS divinos para atrair os cristãos para a parte
prática da piedade:
1. Obediência ao Evangelho é uma prova de sinceridade. Como nosso
Salvador Jesus Cristo disse em outro sentido, João 10:25: "As obras que
faço, dão testemunho de Mim". Embora nenhum homem jamais tenha falado como
Cristo - contudo, quando vier se submeter a uma provação, ele não será julgado
por suas palavras, mas por suas obras. "Elas dão testemunho de Mim".
Assim também, não são as palavras de ouro dos cristãos, senão suas obras que
testificam dele. Salmos 119: 59, "Voltei os meus pés para os teus
estatutos." Davi não só voltou seus ouvidos para o testemunho de Deus, mas
voltou seus pés para eles - ele andou neles. Nós não julgamos a saúde de um
homem, por sua cor, mas pelo pulso do braço onde o sangue opera principalmente.
Exatamente assim, não julgamos a solidez de um cristão por seu conhecimento ou
expressões altas. O que é isso, senão cores? Saul pode estar entre os profetas,
mas a estimativa de um cristão deve ser tomada por suas ações em obediência
para com Deus.
2. Ser praticantes da religião não só nos torna bons, mas também aos
outros. Isto honrará a religião e a propagará.
Honrará a religião. O evangelho pode ser comparado a uma bela rainha. As
vidas frutíferas dos professantes são as muitas joias, que adornam esta rainha
e a fazem brilhar em maior glória e magnificência. Que honra era para a
piedade, quando o Apóstolo poderia dizer que a fé dos romanos foi trombeteada
em todos os lugares! Romanos 1: 8, "Primeiramente
dou graças ao meu Deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o
mundo é anunciada a vossa fé."
Isto é, a fé florescendo em obediência. 1 Tessalonicenses 1: 2-3, "Sempre
damos graças a Deus por vós todos, fazendo menção de vós em nossas orações, lembrando-nos
sem cessar da vossa obra de fé, do vosso trabalho de amor e da vossa firmeza de
esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, diante de nosso Deus e Pai." Os cristãos deveriam ser ambiciosos
para manter o crédito da religião.
A prática dessas verdades que conhecemos, irá propagar grandemente a
religião. A prática é o melhor argumento que podemos usar, para prevalecer com
os outros. Isso os confirmará na verdade da religião. O imperador Joviniano
disse aos cristãos: "Não posso julgar sua doutrina, mas posso julgar suas
vidas". Sua prática pregaria mais alto. Se os outros nos veem fazer uma
profissão, e ainda viver em uma contradição com o que professamos; se eles
ouvirem a voz de Jacó, mas virem as mãos de Esaú - eles acharão que a religião
não é mais que uma farsa devota. Por que o pai proíbe seus filhos de jurar -
quando ele próprio jura? Você ganharia muitos prosélitos à religião? Sejam
praticantes da Palavra. Digam como Abimeleque disse aos seus companheiros:
"O que me vistes fazer, apressai-vos a fazê-lo
também.", Juízes 9:48. Vocês
seriam como ímãs para atrair seus filhos e servos para o céu? Estabeleça a
prática da santidade. Basílio observa que a religião cristã floresceu
grandemente pela santidade e liberalidade daqueles que a professaram.
3. Assim mostramos o nosso amor a Cristo. João 14:21: "Aquele que
tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama". Costumávamos
dizer: "Se você me ama, faça tal coisa". Este deve ser um grande
argumento para a obediência. Pelo amor que você tem a Jesus Cristo - obedeça
Sua Palavra. Seria pensado de todo homem que ame a Cristo, sim, mas experimente
o seu amor por esse teste - você é lançado em um molde do Evangelho? Você
obedece? É uma coisa vã para um homem dizer que ama a pessoa de Cristo, quando
despreza seus mandamentos.
4. Sem prática você ficará aquém daqueles que ficaram aquém do céu.
"Herodes fez muitas coisas", Marcos 6:20. Ele era, em muitas coisas,
um praticante do ministério de João. Aqueles que descansam na parte
especulativa da religião, não são tão bons quanto Herodes.
5. Que conforto indizível a obediência produzirá tanto na vida como na
morte!
Em vida. Não é um consolo para um homem quando ele
está lançando suas contas, para descobrir quanto ele ganhou em seu comércio?
Vocês vêm aqui no uso das ordenanças, a Palavra e a oração, para negociar com o
céu. Agora, se você encontrar em uma verdadeira conta que você ganhou no
comércio da piedade e está cheio com os frutos do Espírito - isso não será um
grande conforto para você? Aquele que está cheio de boas obras, Deus colherá o
fruto e abençoará a árvore!
Na morte. A obediência dá conforto à morte. Que alegria
foi para Paulo, quando ele veio a morrer, que ele poderia fazer esse apelo
doce, 2 Timóteo 4: 7, "Eu tenho guardado a fé!" Isto é, Paulo tinha
mantido a doutrina da fé, e tinha vivido a vida da fé. Oh, que consolo para um
cristão deitar sua vida para baixo, quando ele colocou sua vida no serviço de
Deus! Este era um leito de morte cordial ao rei Ezequias. Isaías 38: 3,
"Lembra-te, Senhor, rogo-te como andei em verdade diante de ti." Um
homem pode arrepender-se de seu conhecimento infrutífero, mas nunca algum homem
se arrependeu de sua obediência quando veio a morrer! Nunca algum cristão que vai
descansar com Deus, arrepende-se de ter andado com Ele.
6. Qual é a finalidade de todas as administrações de Deus, senão
obediência? Quais são todas as promessas de Deus, senão persuasões para a
obediência? Qual é o fim de todas as ameaças de Deus, que permanecem como o
anjo com uma espada flamejante em sua mão, senão para nos levar à obediência!
Deuteronômio 11:28, "A maldição se você não obedecer." Que é a voz da
misericórdia, senão para nos chamar ao dever? O pai dá dinheiro a seu filho
para incentivá-lo à obediência. O fogo das misericórdias de Deus, é para fazer
com que a água doce da obediência destile de nós. "Misericórdia",
como disse Ambrósio, "é um remédio que Deus nos aplica para curar nossa
esterilidade". Quais são todos os exemplos da justiça de Deus sobre os
outros, senão alarmes para nos despertar do leito da preguiça e nos colocar em
uma postura de serviço? A vara de Deus sobre os outros, é uma vara para nos
apontar para a obediência. Se Deus não tem Seu fim no que diz respeito ao dever,
não podemos ter nosso fim com respeito à glória.
7. Considere o que é uma desobediência de pecado! Jeremias 44:16 é uma
triste Escritura: "Quanto à palavra que nos falaste em nome do Senhor, não
faremos".
1. A desobediência é um pecado contra a razão. Somos capazes de resistir
a ele, em desafio a Deus? 1 Coríntios 10:22, "Ou provocaremos a zelos o Senhor? Somos, porventura, mais fortes do que
ele?" É como se os espinhos se
colocassem em batalha contra o fogo! O pecador vai medir braços com o grande
Deus! O que Salomão disse do riso, Eclesiastes 2: 2, o mesmo pode ser dito da rebelião, "é loucura".
2. A desobediência é um pecado contra a equidade. Temos a nossa
subsistência de Deus, "nele vivemos, nos movemos e temos nosso ser".
Não é justo e apropriado que, enquanto vivemos sobre Ele, devemos viver para
Ele? Não é justo e apropriado que, como Deus nos dá o nosso subsídio, devemos
dar-lhe a nossa fidelidade? Se o general dá o pagamento ao seu soldado, o
soldado deve marchar a seu comando, pela lei da equidade.
3. A desobediência é um pecado contra a consciência. Deus, pela criação,
é nosso Pai, de modo que a consciência liga-se ao dever. Malaquias 1: 6:
"Se eu sou Pai, onde está a minha honra?"
4. A desobediência é um pecado contra nossos votos. Nós fizemos o
juramento de lealdade, "Vossos votos estão sobre mim, ó Deus", Salmo
65:12. Nós temos muitos votos sobre nós - nosso voto batismal, nosso
sacramental, nosso nacional, e nossos votos do doente. Aqui estão quatro cordas
para nos chamar à obediência, e se nós deslizarmos nesses nós sagrados e
lançarmos estas cordas de nós, Deus não virá sobre nós por perjúrio? Se nossos
juramentos não nos amarrarem, Deus tem correntes que o farão!
5. A desobediência é um pecado contra as nossas orações. Oramos:
"Que a Vossa vontade seja feita". De modo que, por não-obediência,
nos confundimos e vivemos em contradição com nossas próprias orações. Aquele
homem que é autoconfuso, é autocondenado.
6. A desobediência é um pecado contra a bondade de Deus. É um grande
pecado; é um retrocesso contra o amor de Deus, um desprezo das riquezas de Sua
bondade, Romanos 2: 4. Portanto, o Apóstolo liga estes dois pecados juntos, 2
Timóteo 3: 2, desobediência e ingratidão; e isso tinge um pecado com uma cor
carmesim. Um chama-se ingratidão, o seminário de todo o pecado. A ingratidão de
Brutus foi mais profunda para o coração de César, do que a facada.
7. A desobediência é um pecado contra a natureza. Toda criatura em sua
espécie obedece a Deus. Criaturas animadas o obedecem. Deus falou ao peixe para
pôr Jonas em terra, e o fez imediatamente, Jonas 2:10. Quais são os hinos
agradecidos dos pássaros, como Ambrósio os chama, senão tributos de obediência?
(Nota do tradutor: É pela obediência que se consuma a conformação à
santidade de Deus, de modo a satisfazer aquela justiça perfeita à qual nos
referimos na parte introdutória deste livro. Não está portanto em foco uma
obediência servil, mas filial, uma obediência que nos leva a ser como é o nosso
Pai, o padrão segundo o qual devem estar ajustadas as nossas ações, pensamentos
e palavras. Assim como Ele é e age, também devemos ser nós, pois foi para este
propósito que fomos criados por Ele.
Em sendo uma obediência de caráter filial, ela deve ser por conseguinte
voluntária e por amor. Amor sacrificial ao pai e aos irmãos. Deus é amor, e
sendo a fonte do amor, não se poderia esperar de seus filhos que não vivessem
no mesmo amor do Pai.
Não se pense portanto no mero cumprimento de deveres, quando se fala em
obediência, pois isto não deve ser entendido segundo o homem natural, senão por
aquele que agora não é mais carne, senão espirito, pois tem a habitação, a
direção, a instrução, a unção, a manifestação, o poder do Espírito Santo
operando tudo isto em sua vida, para conduzi-lo a viver no centro da vontade de
Deus.)
Criaturas inanimadas obedecem a Deus. "As estrelas em seu curso
lutaram contra Sísera", Juízes 5. "O vento e o mar obedecem a
Ele", Marcos 4:41. As próprias pedras, se Deus lhes dá uma comissão,
clamarão contra os pecados dos homens. Habacuque 2:11, "pois a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do
madeiramento." Se os homens se
calassem - as pedras, de alguma maneira, teriam testificado de Cristo, Lucas
19:40. Na paixão de Cristo as rochas se fenderam, Mateus 27:51; que retórica retumbante
foi aquela voz para dizer ao mundo que o Messias estava agora crucificado. Toda
criatura deve obedecer a Deus, menos o homem? Oh, homem, pense assim consigo
mesmo: "Se Deus me tivesse feito uma pedra, eu teria obedecido a Ele, e
agora que Ele me fez ser racional, eu me recusarei a obedecer?" Isso é
contra a natureza. Não há quem desobedeça a Deus, senão o homem e o diabo. Não
podemos encontrar ninguém com quem se juntar, senão o diabo?
8. A desobediência é um pecado contra a autopreservação. A deslealdade é
traição, e por traição o pecador está preso à ira de Deus. 2 Tessalonicenses 1:
7-9, " e a vós, que sois atribulados, alívio juntamente
conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder
em chama de fogo, e tomar vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não
conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus; os
quais sofrerão, como castigo, a perdição eterna, banidos da face do senhor e da
glória do seu poder." Aquele que
se recusar a obedecer à vontade de Deus ao comandar, certamente obedecerá Sua
vontade ao punir. O pecador, enquanto pensa em desatar o nó da obediência,
torce o cordão de sua própria condenação!
Assim vistes o pecado de desobediência exposto nas suas cores sangrentas.
"Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos
instruir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e regozijai-vos com
tremor. Beijai o Filho, para que não se ire, e pereçais no caminho; porque em
breve se inflamará a sua ira. Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam." (Salmo 2: 10-12).
8. Outro motivo, é o benefício da obediência. Salmo 19:11:
"Cumprindo os Seus preceitos há grande recompensa." A obediência é
coroada de felicidade! Assim o texto diz, "feliz é você." Se esse
argumento não prevalecer, o que será?
QUESTÃO. Mas de que felicidade você está falando?
RESPOSTA. Todos os tipos de bênçãos são derramados
sobre a cabeça da obediência, como o óleo precioso foi derramado sobre a cabeça
de Arão.
1. Bênçãos temporais. "E todas estas
bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, se ouvires a voz do Senhor teu Deus: Bendito
serás na cidade, e bendito serás no campo. Bendito o fruto do teu ventre, e o
fruto do teu solo, e o fruto dos teus animais, e as crias das tuas vacas e das
tuas ovelhas. Bendito o teu cesto, e a tua amassadeira. Bendito serás quando
entrares, e bendito serás quando saíres. O Senhor entregará, feridos diante de
ti, os teus inimigos que se levantarem contra ti; por um caminho sairão contra
ti, mas por sete caminhos rugirão da tua presença. O Senhor mandará que a
bênção esteja contigo nos teus celeiros e em tudo a que puseres a tua mão; e te
abençoará na terra que o Senhor teu Deus te dá. O Senhor te confirmará para si
por povo santo, como te jurou, se guardares os mandamentos do Senhor teu Deus e
andares nos seus caminhos." (Deuteronômio
28: 2-9). Aquele que tem coração frutífero, terá uma colheita frutífera. Deus o
fará prosperar em sua propriedade; e seu cesto não será apenas cheio, mas
abençoado. Deus abençoará o que tem. Aqui está não só o saco cheio de trigo,
mas o dinheiro na boca do saco.
2. Bênçãos espirituais. Êxodo 19: 5, "Agora, pois,
se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a
minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra." Tu serás Minha porção, Minhas joias, a
menina dos Meus olhos. Eu vou dar reinos para o teu resgate. Jeremias 7:23:
"Obedeça, e eu serei o teu Deus." Eu me entregarei a você por uma
ação de dom. Que misericórdia superlativa soberana é esta! Salmo 14: 4,
"Feliz é o povo cujo Deus é o Senhor."
3. Bênçãos eternas. Hebreus 5: 9, "Cristo tornou-se o autor da
eterna salvação, para todos os que obedecem a Ele.” Oh, então, quem não estaria
apaixonado pela obediência! Enquanto agradamos a Deus, nós nos deleitamos.
Vocês veem, irmãos, que vocês não são perdedores pela obediência.
Vou estabelecer algumas regras para ajudar os cristãos em sua obediência,
que pode ser o sacrifício de um doce aroma para Deus. A obediência deve ter
esses quatro ingredientes nela:
1. A obediência deve ser CORDIAL. Deuteronômio 26:16: "Neste dia o Senhor teu Deus te manda observar estes estatutos e
preceitos; portanto os guardarás e os observarás com todo o teu coração e com
toda a tua alma.” Romanos 6:17,
"Vocês obedeceram de coração". Obediência sem o coração, é como fogo
no altar sem incenso. O coração é a fonte do amor, e é o amor que perfuma todos
os deveres. O coração torna o serviço uma oferta livre, ou então é apenas um
dever morto. Caim trouxe seu sacrifício, não seu coração. Obediência sem o
coração é hipocrisia! "Como você pode dizer 'Eu te amo”, quando seu
coração não está comigo?" Juízes 16:15.
2. Obediência deve ser
EXTENSIVO. Deve alcançar todos os mandamentos de Deus, 1 Reis 9: 4, Lucas 1: 6.
QUESTÃO. Mas quem pode chegar a isso?
RESPOSTA. Embora não possamos manter legalmente todos
os mandamentos de Deus - contudo podemos evangelicamente:
Um verdadeiro cristão consente à equidade de toda a lei. Romanos 7:12:
"A lei é santa, justa e boa". Ele fixa seu selo em todas as leis.
Um verdadeiro cristão tem consciência de toda lei. Davi respeitou todos
os mandamentos de Deus, Salmo 119: 6; seu olho estava sobre todos os preceitos.
Cada comando tem tal autoridade sobre um cristão, que ele não pode dispensar.
Embora ele falhe em cada dever, ainda não se atreve a negligenciar qualquer
dever.
O filho de Deus deseja guardar todos os mandamentos. Salmo 119: 5,
"Oh, sejam os meus caminhos dirigidos de maneira que eu
observe os teus estatutos!" O que
um filho de Deus carece de força - ele compensa em vontade. Romanos 7:18,
"o querer está em mim." O regenerado permanece dobrado a todos os
preceitos de Deus.
A alma graciosa lamenta que não possa fazer melhor. Quando ele falhar,
ele clama: "Ó homem miserável que eu sou!" Romanos 7:24. "Oh,
este coração incrédulo, como estou obstruído pela corrupção!" Assim, um
filho de Deus lamenta as suas falhas e julga-se por elas, e isto é, no sentido
evangélico, guardar toda lei.
Corações insensíveis, como eles são leves em sua obediência - assim eles
são parciais em sua obediência. Eles dispensarão alguns deveres; para
satisfazer alguns pecados. "Que o Senhor me perdoe nesta única
coisa", 2 Reis 5:18. O hipócrita andará em alguns dos estatutos de Deus,
não em todos. Ele é como um cavalo coxo, que não põe todos os pés no chão. Há
cristãos coxos que se detêm e mancam e se favorecem em algumas coisas, embora
seja para o perigo de suas almas. Herodes morreria tão cedo quanto deixaria seu
incesto. Mas a verdadeira obediência é universal. Devemos ao nosso Deus uma
obediência ilimitada.
3. O terceiro ingrediente na obediência é a FÉ. Hebreus 11: 6, "Sem
fé é impossível agradar a Deus"; portanto, é chamada a obediência da fé,
Romanos 16:26. De Abel é dito ter oferecido pela fé, um sacrifício melhor do
que Caim. A fé é um princípio vital; sem fé todos os nossos serviços estão
mortos. Portanto, a Escritura fala de obras mortas, Hebreus 6: 1.
QUESTÃO. Mas por que esse fio de fé de prata atravessa
toda a obra da obediência?
RESPOSTA. Porque a fé olha para Cristo em cada dever, e
assim a pessoa e a oferta são aceitas. Efésios 1: 6, "Ele nos aceitou no
amado". Não somos aceitos por nossos deveres, mas por meio do Amado. A fé
olha para o mérito de Cristo para tirar a culpa, e o Espírito de Cristo para
tirar a sujeira que se fecha aos serviços mais angélicos. Assim, ela adquire
aceitação.
Não, a fé não olha somente para Cristo, mas une-se a Cristo. Os crentes
são parte de Cristo. Cristo e os santos formam um só corpo. Não é de admirar,
então, se Deus lança um aspecto favorável sobre os serviços que os crentes lhe
apresentam.
4. A obediência deve ser CONSTANTE. Apocalipse 2:26, "Ao que
vencer, e ao que guardar as minhas obras até o fim, eu lhe darei autoridade
sobre as nações." A fé deve
liderar a caravana e a perseverança deve proteger a retaguarda.
Há algo que ainda resta para um cristão fazer, e ele não deve deixar o
trabalho até que a noite da morte venha. "Um antigo discípulo", Atos
21:16. Que honra é que sejamos loucos de piedade. Que crédito quando se deve
dizer dele: "Suas últimas obras são melhores do que as primeiras!"
Apocalipse 2:19. Um bom cristão é como o vinho que é bom até a última gota. Um
artista faz seu último trabalho mais completo e hábil. Bem-aventurado aquele homem
que, quanto mais próximo está da morte, move-se mais rápido para o céu!
Nota do
tradutor: não poderíamos perder a
oportunidade de agregar a este sermão de Thomas Watson, o breve sermão de
William Bacon Stevens intitulado A Lei de Crescimento Espiritual que trata do
mesmo tema da prática da Palavra, pois se em Watson temos os argumentos em
relação ao dever da prática, em Stevens, temos o modo como deve ser realizada.
"Exercita-te
pessoalmente na piedade." (1 Timóteo 4: 7)
No
texto Paulo coloca diante de nós um grande alvo: a piedade.
O
meio pelo qual pode ser obtida: por exercício.
E
nosso dever pessoal de lutar para obtê-la, pela exortação: "Exercita-te na
piedade".
O
homem que se contenta em passar uma existência sem objetivo; ou que procura
apenas suprimentos para as necessidades diárias, sem olhar esperançosamente
para o futuro, e nunca procurando vencer; faz injustiça à sua natureza
superior, e se arrasta em um plano, senão pouco elevado acima das exigências da
existência animal.
Nenhum
objetivo pode assim chamar todos os poderes da mente humana, e da alma, como o
da busca de Deus. Pois, o que é a piedade? Não é semelhança com Deus? Alguém
que procura ser como Deus? No entanto, a questão surge imediatamente: como o
homem pode ser como Deus?
Deus
é infinito - o homem é finito.
Deus
enche a imensidão - o homem está em um pequeno mundo.
Deus
habita a eternidade - o homem tem o seu hálito nas narinas, florescendo como a
relva de hoje, e amanhã é cortado e secado.
No
entanto, com toda esta disparidade, a Bíblia nos exorta a colocar o Senhor
sempre diante de nós, e a crescer em Sua semelhança.
O
que pode ser chamado de atributos físicos de Deus, aqueles que pertencem a Ele
como Criador de todas as coisas - Governante sobre a estrelas e sistemas, o
Sustentador do universo; estes, o homem não pode compreender nem copiar, eles
estão além de seu alcance, e é sobre eles, que a Bíblia pergunta: "Quem
por procurar pode descobrir Deus?"
São
as qualidades morais de Deus que devemos copiar e emular. Estas são reveladas a
nós em Sua santa Palavra; e embora estas, como os outros atributos de Deus,
sejam infinitos, contudo são colocadas diante de nós como padrões para
admirarmos e copiarmos.
Todos
os atributos morais de Deus, estão compreendidos em Sua santidade. Pois a santidade
é a perfeição moral. Aplicada a Deus, a santidade significa a totalidade e
completude da natureza divina, da qual nada pode ser tomado, e à qual nada pode
ser acrescentado. Inclui, portanto, a verdade, o amor, a misericórdia, a
bondade e coisas semelhantes; porque a ausência de qualquer um marcaria a falta
de integridade e da completude do caráter divino. A presença de toda virtude é
necessária para tornar completo o círculo da santidade, e todas elas são
encontradas em perfeita plenitude em Deus.
Quando
Deus então nos ordena na Bíblia: "Sede santos, porque eu sou santo";
quando somos exortados a "seguir a santidade, sem a qual ninguém verá o
Senhor"; quando de nós é expressamente dito que "Deus não nos chamou
à impureza, mas à santidade"; devemos saber que por estas palavras, que
Ele nos chama à piedade, ou semelhança com Deus, para sermos como Ele em todas
essas qualidades morais, pelas quais podemos andar nos Seus caminhos, e copiar
Seus atos, e manifestar Seu espírito.
Na
linguagem do salmista, o Senhor está sempre colocado diante de nós, assim como
o artista sempre coloca seu modelo diante dele; e, dia a dia, com um processo
lento e cuidadoso, trabalha sua pintura, ou sua estátua, à forma e ao espírito
do original.
O
homem, então, que coloca diante de si o objetivo de ser como Deus, coloca sobre
si o objetivo mais grandioso que uma mente criada pode alcançar. Ele nunca
pode, de fato, alcançá-lo plenamente; contudo, como o apóstolo Paulo,
"esquecendo-se das coisas que ficam para trás e avançando para aquelas que
estão adiante", ele se encaminha para o alvo de seu alto chamado.
Quanto
maior o objetivo, maior a aspiração. Quanto mais puro o objeto da ambição do
coração, mais puro se torna o coração que o busca. Daí a importância dos
objetivos sagrados, do exercício de si mesmo para a piedade.
A piedade, então, como falada no texto, é apenas outro nome para a santidade em ação, isto é, a Piedade Prática. E, de fato, em um lugar nos Atos dos Apóstolos, a palavra é traduzida santidade.
A piedade,
então, ou a santidade, é aquilo que cada ser humano deveria buscar e se
esforçar para obter. Em sua pureza, supera todos os objetivos humanos, pois só
ele é perfeitamente santo. Em seu poder de elevação sobre pensamento e coração,
ele supera todos os chamados de ambição terrena. Na grandeza das bênçãos que
resultam de buscá-la, ultrapassa tudo o que o mundo pode oferecer aos seus mais
ilustres devotos. A duração da bem-aventurança que ela comunica, vai muito além
do que a terra pode oferecer, como a eternidade em si mesma estende os limites
do tempo.
Mas, você
pode dizer que esta santidade, ou piedade, não é atingível. Não é, em toda a
extensão do Original que você é chamado para copiar, porque há dois elementos
na santidade de Deus que nunca podem existir no homem, enquanto ele
tabernacular na carne, a saber, a completa ausência de pecado, e a completa
perfeição de cada virtude. Não é assim com o homem; ele é sempre uma vítima do
pecado, e nunca apresenta um conjunto completo de virtudes. Algumas ou mais
virtudes sempre faltam, mesmo nos mais perfeitos caracteres humanos. Algumas ou
mais virtudes são sempre desproporcionais, ou imperfeitamente desenvolvidas, de
modo que o círculo não é completo em todas as suas partes, nem harmonioso em
todas as suas operações. E assim o homem nunca pode ser como Deus.
No entanto,
há um sentido, e um mais importante, no qual podemos ser como Deus. Se não
fosse assim, a exortação do texto seria uma zombaria. Esse sentido é que,
tomando os elementos do caráter moral de Deus como os encontramos na Bíblia -
Sua verdade, Seu amor, Sua pureza, Sua misericórdia, Sua bondade, Sua
longanimidade, etc, esforcemo-nos para torná-los os princípios orientadores de
nossas vidas.
A própria
contemplação desses atributos de Deus, faz com que o pecado pareça
excessivamente pecaminoso; porque lança a pura luz da santidade de Deus nas
câmaras cheias de pecado do coração, e revela seus horrores e sua vergonha!
Enquanto a
tentativa de imitar essas excelências, fortalece todo o sentido moral, dá tom e
vigor a cada colocação do poder espiritual, e torna a alma, uma vez fraca que
afundou diante de cada provação, se levanta e luta virilmente em uma força não
propriamente sua, e assim ganha vitórias onde até agora tinha encontrado apenas
derrotas. Isso dá a um homem um caráter divino, e eventualmente o coroa com
piedade. Isto é aquilo pelo que todos podem lutar, e guardar.
Paulo exorta
Timóteo a "seguir a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a
mansidão". Pedro nos diz para "ter toda a diligência para acrescentar
à nossa fé a virtude, e à virtude, o conhecimento, e ao conhecimento, a
temperança, à temperança, a paciência, à paciência, a piedade, à piedade, a
fraternidade, e à fraternidade o amor.
No Antigo Testamento, pela boca do profeta, Deus diz do homem: "Eu o
formei para a minha glória". No Novo Testamento, o apóstolo diz:
"Glorifiquem a Deus, portanto, em seu corpo e em seu espírito, que são de
Deus". E Jesus Cristo declara: "Nisto é glorificado o meu Pai, em que
deis muito fruto".
Frutificação
espiritual, fruto da justiça, frutos do Espírito, demonstração de amor,
alegria, paz, longanimidade, mansidão, bondade, fé, temperança – é nestas
coisas, que manifestamos a nossa piedade, e glorificamos a Deus. Estes são
objetivos que podemos atingir; alturas, que podem ser escaladas e alcançadas. .
.
Pelo olho
que olha para Jesus,
Pelo pé que
se prende na fenda da Rocha,
E pela mão
da fé, que nunca deixa ir seu alcance do crucificado.
O resultado
dessa piedade se manifestará de várias maneiras.
Isso dará a
um homem a vitória sobre si mesmo. A autoconquista é a mais dura de todas as
conquistas. Isso decorre do fato de que nunca podemos realmente nos conhecer,
porque nossos corações são "enganosos acima de todas as coisas". Daí
a frase de ouro, "Conhece-te a ti mesmo", inscrita no templo de
Delfos, foi dito ser o fundamento de toda a sabedoria humana. Nenhum homem pode
jamais conhecer a si mesmo como um ser moral, enquanto ele se mede pelo padrão
de sua própria consciência não esclarecida; ou compara-se com seus semelhantes;
ou anula a lei de Deus. Somente o homem que se exercita na piedade, e olha para
o seu caráter à luz da Palavra de Deus, mede-se pelo padrão da santa lei de
Deus, e vendo quais são seus defeitos, e aprendendo como somente eles podem ser
remediados - ele procura o Agente divino, por cujo poder somente podemos
alcançar qualquer bondade, por aquela força e graça, que o capacita a
dominar-se e guiar-se, de modo que ande retamente e com segurança no caminho do
Senhor.
O cultivo
dessa santidade permitirá ao homem vencer o mundo. Não no sentido de
conquistadores humanos, vencendo exércitos, nações, territórios, e levantando
tronos, e balançando cetros, e dominando sobre o povo subjugado. Tais
conquistas, tão ansiosamente procuradas e compradas com tanto trabalho, e
coragem, sacrifício e talento, não são o que o homem piedoso procura.
Suas
vitórias sobre o mundo são morais - sobre suas armadilhas, suas seduções, suas
tentações, suas variadas influências para o mal, que o cercam de todos os
lados; e persistem em seus ataques com uma energia incansável que não conhece
cansaço ou relaxamento.
Ele olha
para o mundo à luz do semblante de Deus. Ele mede suas honras pela linha de
medição da lei de Deus. Ele pesa suas riquezas nos saldos do santuário. Ele o
examina, não como se vê nas luzes espalhafatosas e falsos refletores que o
Príncipe deste mundo estabelece para atrair e enganar; mas no exame calmo e
claro de uma mente cheia de pensamentos elevados e santos, consciente de sua
glória futura, e sabendo que o mundo e tudo o que está nele logo será queimado
na conflagração final.
Assim, a fé
em Jesus Cristo, o grande princípio fundamental de toda piedade, permite-lhe
vencer o mundo. Ele encontra a verdade das palavras de Paulo, que "a
piedade tem a promessa da vida que agora é, assim como da que está por
vir".
Esta
piedade, tão grande em si mesma, e em seus resultados, pode ser assegurada,
apenas por se exercitar para alcançá-la. Não vem. . .
Por si só,
Nem por
meditação,
Nem por
oração fervorosa,
Nem pela
diligente leitura da Palavra de Deus.
Todas estas
coisas são socorros e adjuntos - mas nenhuma delas, nem todas combinadas, nos
darão piedade. É o resultado de princípios morais colocados em exercício ativo,
e exige o esforço pleno e extenuante da mente.
Há muito sentido
na palavra original que o apóstolo aqui usa, e que é traduzida por
"exercício". A tradução literal é - seja ginasta em piedade. É uma
palavra da qual o termo gymnasium é desenvolvido. Segundo Platão, a ginástica,
ou o mero exercício e cultivo do poder muscular, constituía uma terceira parte
da educação grega. Não havia, provavelmente, qualquer cidade grega que não
tivesse seu ginásio; e nenhum menino grego saudável, que não foi disciplinado
em seu exercício severo. O ponto culminante desta disciplina encontrou seu
expoente nas festividades nacionais da Grécia, os jogos de Istmo perto de
Corinto, e as competições mais comemoradas de Olímpia.
Paulo,
durante sua morada em Corinto, tinha sido trazido em estreito contato com essas
cenas, e viu com seus próprios olhos, quanta labuta e sacrifício os homens
suportariam para ganhar a notoriedade de ser um conquistador no Istmo, ou em
Olímpia. Dia após dia, semana após semana e mês após mês - esses aspirantes à
honra dedicar-se-iam à luta, ao boxe, à corrida, ao salto e a qualquer outro
exercício de ginástica, com paciência, em meio a privações; sem queixa de sua
severidade de disciplina; sem hesitação para suportar sua dureza; na esperança
de que o arauto um dia gritaria seus nomes como vencedores para as multidões
reunidas e ligaria seus nomes à Olimpíada em que eles foram vencedores.
A ideia,
então, do apóstolo é que, para alcançar a piedade, devemos ser ginastas morais,
dispostos a usar disciplina severa; dispostos a sofrer privações dolorosas;
dispostos a suportar como um exercício torturante de carne e sangue; como fez o
ginasta, que treinou para ganhar a coroa de hera no festival de Istmo, ou a
guirlanda de oliva que coroou o conquistador em Olímpia.
E por que
não deveríamos? Os objetivos e as recompensas são infinitamente maiores. A
arena em que devemos realizar este exercício, é na Igreja de Deus. Os métodos
pelos quais devemos fazê-lo são tão diferentes como os nossos vários
temperamentos, gostos, posições, talentos e oportunidades. Não há ninguém que
não possa fazer algo; e sobre todos é estabelecido o dever de viver para a
glória de Deus.
Assim, a
verdadeira religião é uma coisa muito pessoal e prática. Pessoal, porque é você
mesmo que deve fazer o exercício; é um ato individual, e nenhuma quantidade de
exercício feito por aqueles ao seu redor na mesma família, na mesma igreja;
pode aproveitar para seu benefício. É você quem deve ser o ginasta moral neste
combate espiritual.
E é prático,
porque as coisas em que devemos nos exercitar para a piedade estão em toda a
nossa vida diária. Devemos exercitarmo-nos em restringir um temperamento
violento, em verificar a impaciência, em frear a língua, em governar o
espírito, em erradicar defeitos pessoais da mente e do coração; na superação
das tentações à luxúria, do orgulho, da inveja, do ódio e da contenda; em
suportar as fraquezas dos outros, em ser manso em censura, em não murmurar nas
dispensações de Deus, em subjugar o pecado interior.
E a este
trabalho repressivo, que exige um exercício constante, deve-se acrescentar uma
obra agressiva - uma observação das oportunidades para o bem, uma saída para o
campo do esforço cristão ativo, uma entrega de alguma parte do tempo às obras
do amor e do dever cristãos; a prontidão para dar liberalmente, para ensinar
amorosamente, para sacrificar alegremente o nosso conforto, para fazermos bem
aos pobres, aos ignorantes, ao proscritos, ao prisioneiros, ao doentes, aos
aflitos. E se não pudermos fazer mais, podemos dar um copo de água fria a algum
dos que sofrem e que são de Cristo, e que "não perderá a sua
recompensa".
Poderes
morais, como os músculos do corpo, são desenvolvidos pelo exercício.
O braço não
usado se encolhe;
A mão não
utilizada perde sua destreza;
O cérebro
não utilizado perde sua força.
A lei do
crescimento físico e da força, é o exercício.
A lei do
crescimento espiritual e da força são exercícios espirituais - fazendo com o
nosso poder o que nossas mãos encontram para fazer, trabalhando com toda a
diligência para tornar nosso chamado e eleição seguros, trabalhando enquanto é
dia e dando nossos corpos para serem "sacrifícios vivos, santos,
aceitáveis a Deus."
Nosso
caráter moral é uma coisa de crescimento, e de crescimento lento; primeiro a
haste, depois a espiga, depois o grão cheio na espiga. O caráter é um princípio
posto em prática, e desenvolvido em provações. Esta luta com as dificuldades,
com as tentações, com as decepções - desenvolve a força e brio da mente; e faz
forte e firme, as afeições do coração. É uma sucessão de. . .
Pequenas
vitórias diárias sobre pequenas provas diárias;
Pequenas
resistências diárias a pequenas tentações;
Pequenos
exercícios diários de esforços sérios e verdadeiros para o bem,
Que vão
compor um caráter bem desenvolvido.
O escultor,
na vivacidade de sua imaginação, descreve mentalmente a figura que ele vai
esboçar no bloco de mármore diante dele; mas antes que seu ideal se torne
realidade, antes que sua mão modele o que sua imaginação retratou - quantas
semanas e meses ele deve "se exercitar" em sua arte, com um paciente
martelo, com um formão hábil, com mão cautelosa - antes que o mármore respire
com a vida do artista, e a pedra fale dos pensamentos do escultor.
Assim é com
a produção da piedade. Não é o produto de um dia, o trabalho de algumas
resoluções mentais. É o resultado do exercício extenuante - o trabalho
silencioso, sério, persistente, inflexível e cotidiano do coração que anseia
pela glória de Deus, lutando para se tornar como Deus.
O treinamento
do soldado que lhe convém para a luta, é um exercício preciso e diário de
evolução e manipulação de armas, cada um por si só, sendo do caráter mais
trivial. As batalhas do soldado são poucas - mas seu treinamento é em todos os
dias. É este treinamento diário em pontos pequenos, que o habilita para a
batalha; e ele nunca poderia estar preparado para a guerra, senão por esta
disciplina diária no manual de armas, e nas táticas do campo.
Assim também
com a vida cristã. Tem poucas épocas grandes, e quando estas ocorrem, nunca
podem ser encontradas com sucesso, a menos que tenha havido exercício diário na
prática da piedade. Não é muito, talvez, que ele possa fazer qualquer dia; mas
é o paciente fazendo de muitas coisas pequenas que se multiplicam dia a dia, para
o que é grande e influente.
Quanto desse
tipo de exercício de si mesmo, é exigido pela exortação, "carregai os
fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo". Que
autoexercícios estão envolvidos aqui, para suportar o fardo de pobreza, de aflição,
de doença, de desapontamento! Em cada um deles para um irmão que está sofrendo,
prova-se o coração fervoroso e a mão forte de um irmão.
Exercitamo-nos
em ajudar uns aos outros espiritualmente. Ajudando...
O pecador,
quanto a vencer a sua pecaminosidade;
O buscador
de Cristo, para encontrar a Cristo;
O penitente,
ao grande Doador de perdão;
A
consciência perturbada, ao Consolador.
Ajude seu
irmão. . .
Para lançar
fora suas dúvidas e incredulidade;
Voltar-se de
suas apostasias e negligência do dever;
de sua
mornidão e indiferença.
Ajudem-no .
. .
Para andar
no caminho do dever,
Para
aprender a vontade de seu Mestre,
Para vencer
suas propensões ao mal,
Para afastar
hábitos errados,
Para conter
a língua,
Para
governar seu espírito.
Ajudem-no .
. .
Em oração,
Em boas
obras,
No cultivo
das graças do Espírito.
Tome uma
extremidade de todos os seus fardos, e ajudem-no a carregá-los por amor de
Jesus.
Exercite-se.
. .
Em oração,
Em autoexame
estrito,
Em esmolas
conscientes,
Na leitura
diligente da Palavra de Deus,
Em trabalhos
pessoais para a salvação das almas.
Exercite-se
em ministrações diárias para os pobres, doentes e aflitos.
Exercite a
si mesmo em copiar linha por linha, e característica por característica, as
virtudes de Jesus, que andou fazendo o bem, de modo que. . .
Sua vida
possa moldar sua vida,
Seu espírito
guiar seu espírito,
Suas
palavras moldarem suas mentes,
Suas ações
estimularem seus atos;
E assim,
como um espelho terrenal mantido ao sol do meio-dia - você possa refletir a
partir da superfície de sua graça, o coração polido, a luz e a glória, reduzida
de fato em tamanho e em força, mas ainda a luz refletida e a glória do Sol da
justiça.
Assim,
exercitando a si mesmo para a piedade, você se torna cada vez mais apto para a
herança dos santos na luz; e antes de muito tempo, entra naquele mundo de luz
onde tudo é puro, e verdadeiro, e bom, porque é a morada de um Deus Santo!
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