sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Alegria para Almas Tristes


Título original: Joy and Gladness for Mourning Souls


Por J. C. Philpot (1802-1869)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra

“1 O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;
2 a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes;
3 a ordenar acerca dos que choram em Sião que se lhes dê uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de pranto, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado.” (Isaías 61.1-3)
Ao falar sobre o testemunho de Jesus Cristo, sobre o modo como esse testemunho é recebido, e como aqueles que o receberam testificaram que Deus era verdadeiro, eu poderia ter citado, se tivessem ocorrido em minha mente, estas palavras do Senhor Jesus Cristo, pois é de seus lábios que procedem. Isto é evidente não só pelo alcance geral do capítulo, mas também pela declaração expressa do próprio Senhor Jesus Cristo.
Vocês se lembrarão de que em certa ocasião, pouco depois de ter entrado em seu ministério, veio a Nazaré e, como era costume, entrou na sinagoga no dia de sábado e levantou-se para ler. E foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Ele abriu o livro no lugar onde estava escrito "O Espírito do Senhor está sobre mim" (Lc 4. 18). Então segue a passagem que acabamos de ler. Assim, sentando-se para expor as Escrituras segundo o seu costume, acrescentou "Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos" (Lc 4. 21). Agora, como poderia a Escritura ser cumprida em seus ouvidos, a menos que ele fosse a pessoa cujo ofício era confortar todos os que choram, e fazer toda a obra abençoada que é aqui falada?
Ao olhar para estas palavras, com a bênção de Deus, tentarei mostrar:
I. O caráter do enlutado espiritual, pois é de quem se fala aqui.
II. As doces e abençoadas promessas que Deus deu ao enlutado espiritual.
III. A glória que redunda assim para Deus.
I. O caráter do enlutado espiritual, pois é de quem se fala aqui. Agora, como para nos proteger de ver estas palavras em um sentido muito geral, o Senhor limitou seu significado no terceiro versículo; "a ordenar acerca dos que choram em Sião". A promessa, portanto não é para aqueles que choram em geral, mas para aqueles que choram de um modo especial; não para aqueles que estão em peso e tristeza de meros problemas mundanos, mas para aquelas pessoas que sob a doutrina de Deus, estão de luto em Sião. Ninguém pode estar enlutado em Sião, a menos que seja um participante da graça, regenerado e vivificado na vida divina pela operação do Espírito Santo no coração. Onde quer que a graça tome posse do coração de um homem, elevando nele uma vida que nunca pode morrer, isso o torna um enlutado espiritual. Até que essa obra seja realizada na alma, ela não tem lugar nas promessas, nenhuma situação marcada para ela na Palavra de Deus, nem está em um estado adequado para receber as consolações do evangelho.
(Nota do tradutor: Daí nosso Senhor afirmar no Sermão do Monte, que são bem-aventurados apenas os que choram, segundo o modo aqui apontado. Aqueles que lamentam por seus pecados e pela natureza corrompida pelo pecado que possuem, mas que buscam a regeneração e a renovação em Deus. Isto está claramente revelado em várias passagens bíblicas,  especialmente na seguinte promessa do Senhor em relação àqueles que seriam os únicos contemplados pelo seu favor nas coisas relativas à salvação “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o Senhor; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra.” (Isaías 66.2).
E ainda: “Porque assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade, e cujo nome é Santo: Num alto e santo lugar habito; como também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e para vivificar o coração dos contritos.” - Isaías 57.15)
Mas, eu não iria limitar os choros aqui falados apenas aos enlutados espirituais, pois se eu desenhasse essa linha muito estreita, quantas provações, sofrimentos e tristezas, eu passaria; por isso quase diria que tais aflições não precisavam de consolações divinas. Porém, embora eu limite os enlutados aos que choram em Sião, eu não limito o luto de Sião ao luto espiritual, mas me refiro a todos os sujeitos de provação e dor que só Deus, por seu Espírito e graça pode confortar e apoiar.
Como então, o Senhor prometeu que vai consolar todos os que choram, todos os enlutados espirituais que têm um caso de dificuldade e tristeza, e têm interesse nesta promessa?
Mas, para além das variadas fontes de angústia temporal que os filhos de Deus sentem com tanta agudeza, mais intensidade e profundidade do que as pessoas mundanas, como possuindo sentimentos mais ternos e requintados, têm problemas peculiares que os tornam particularmente notados em Sião. Estes têm um sofrimento interior, um coração ferido que os faz caminhar sobrecarregados, e às vezes pesadamente durante todo o dia. Onde quer que haja verdadeiras convicções de pecado, uma verdadeira ferida feita na consciência pelo Espírito de Deus, haverá luto.
O pecado é uma coisa tão vil em si mesmo; um objeto que Deus tão essencialmente e eternamente odeia, uma questão que estava sobre Jesus com peso e poder tão pesados, que foi uma fonte de intensa dor e angústia para o querido Filho de Deus, quando reclinou seu corpo e alma sagrados no jardim do Getsêmani e o teve pregado na cruz, que todo santo de Deus que se abriu em sua consciência com uma verdadeira convicção espiritual deve se tornar um enlutado espiritual.
Mas, além do peso das convicções angustiantes na primeira obra de graça na alma, quando este luto começa, olhe para um filho de Deus através de seu curso, até o dia em que recebe sua coroa imortal; este luto o acompanha por todo o deserto, a partir do momento em que a vida divina entra em sua alma até o final de seus dias, quando as ondas do Jordão estão à vista, e ele passa por suas inundações para os reinos da bem-aventurança. Quanto mais ele conhece o seu coração, quanto mais anda na vida divina, e quanto mais o pecado lhe é aberto à luz do semblante de Deus, mais ele será um enlutado espiritual. Às vezes ele vai chorar por causa dos males de seu coração, já que as suas concupiscências e corrupções são tão fortes, e ele tão fraco contra elas; às vezes sobre as tentações que Satanás colocou para seus pés, em que ficou enredado, e por elas foi derrubado; às vezes por causa da ausência de Deus, pela qual ele encontra tão pouco acesso à sua bendita Majestade. Às vezes, ele vai chorar por sentir quão pouca graça possui, e em outro momento se entristecerá por suas falhas e incapacidade de perceber aquela piedade vital em sua alma, que é carimbada pela aprovação de Deus. Às vezes, ele vai chorar por causa de suas apostasias, como se envolveu e deu lugar às suas concupiscências, como foi vencido por seu temperamento, como murmurou e se preocupou com os tratos de Deus com ele, de modo que às vezes estava quase pronto a cometer suicídio ou fazer algo desesperado.
Como estes, outros mil males são sentidos no coração de um homem, que o fazem chorar, e como o texto fala, têm cinzas para sua cobertura. Ele chora também por sua falta de frutificação, pois que não pode ser, fazer ou dizer o que quer. Ele tem fortes desejos de adornar a doutrina de Deus em todas as coisas, ter espiritualidade de mente e terna consciência, bem como levar uma vida de fé, oração e vigilância. Mas, é obrigado a confessar com o apóstolo: "Pois o que faço não é o bem que quero fazer, mas o mal que não quero fazer, este eu faço" (Romanos 7:19). Entretanto, muitas vezes sua mente está fazendo exatamente o contrário. Todas estas coisas combinadas com as poderosas tentações de Satanás e suas muitas dúvidas, em virtude da ocultação do rosto de Deus por causa de seus pecados, por sua completa incapacidade de afastar os fardos que o pressionam para o mal, o afundam profundamente.
E, quando ele não pode perceber nenhuma manifestação do amor de Deus; tudo é escuro e desolado, lhe parece como se nunca tivesse conhecido qualquer bem, estando pronto para se excluir como um hipócrita ou um professante morto. Além de tudo isso, ele também pode ter experiência de perseguição por causa da verdade daqueles que talvez lhe sejam próximos e queridos; de modo que não é apenas um, porém muitos sofrimentos para suportar, com o sentimento, às vezes, de ser dentre todos os homens, o mais miserável.
1. Mas o Senhor, falando deste lamentador, deu certas MARCAS definidas pelas quais ele pode ser mais claramente e distintamente conhecido. Ele fala, por exemplo, de "cinzas" em conexão com este enlutado espiritual, pois prometeu dar-lhe "uma coroa no lugar de cinzas". Para entender essa alusão, precisamos ver qual é o significado bíblico desse emblema. Nos tempos antigos as cinzas eram um sinal exterior de luto, assim como as roupas negras são para nós em nossa cultura. Mas elas também transmitem uma sensação de profunda humilhação. Jó, na sua aflição, assentou-se entre as cinzas. Saco e cinzas são muitas vezes acoplados na Escritura, como marcas de luto, como Jó fala "Aborreço-me, e me arrependo no pó e na cinza" (Jó 42: 6). Quando Tamar sofreu desonra de seu irmão, rasgou suas roupas e colocou cinzas em sua cabeça, como uma marca externa de luto por sua degradação e humilhação.
Há muito significado no emblema. As cinzas são apenas o resíduo queimado e o resíduo escuro do que antes era brilhante e justo. Assim, as cinzas, como falado em relação ao enlutado espiritual implicam que, o que antes era justo e bonito em seus olhos, quando consumidos na fornalha, torna-se apenas um remanescente escuro e miserável. O ato de espalhar cinzas sobre a coroa de sua cabeça parece implicar que, o enlutado espiritual não poderia tomar um lugar muito baixo, para que pudesse esconder seu rosto na poeira, e espalhar sobre si mesmo toda a sua glória jactanciosa que sentiu uma vez, pois a humilhação que sentiu presentemente em sua alma diante de Deus, fez com que se percebesse em sua própria visão como um miserável, um pecador de fato.       
2. Outra marca que o Senhor dá sobre enlutado espiritual em Sião, é que ele está vestido com espírito angustiado. Há algo muito expressivo nesta figura. A força do coração é comparada a um manto enorme ou vestuário exterior, que não só o cobre em toda a volta, mas repousa sobre ele com um peso que deprime seu espírito até a poeira. Quantas coisas há para produzir em uma alma crente, um espírito pesado, angustiado! Alguns do povo de Deus parecem quase constitucionalmente dispostos ao abatimento da mente, sensações e apreensões sombrias, tanto na providência como na graça. Nuvens escuras e sombrias passam continuamente por cima de sua mente, e Satanás ajudando a acelerar sua angústia, levanta diante de seus olhos mil males que talvez nunca aconteçam, mas são tão temidos como se fossem reais e ainda mais dolorosamente sentidos. Esta depressão mental os veste como com uma peça de vestuário que se fecha em cada lado, dificultando cada movimento com suas dobras aparentemente inextricáveis.
Esses entristecidos espirituais são então, as pessoas para quem o Senhor tem um respeito especial. Estes são aqueles a quem o Senhor Jesus Cristo foi ungido pelo Espírito Santo para consolá-los. Isso nos leva ao nosso segundo ponto, que é mostrar:
II. As doces e abençoadas PROMESSAS que Deus deu ao enlutado espiritual. Ele foi especialmente designado para os que choram em Sião, e foi ungido com o propósito expresso de lhes dar "uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de pranto, vestes de louvor em vez de espírito angustiado".
Tudo isto observado, é de ordenação divina. Nós nunca podemos aquilatar devidamente estas ordenanças de Deus, como o grande governante, diretor e controlador de todas as coisas. Não devemos olhar para os variados acontecimentos que estão ocorrendo neste mundo como uma mera questão de acaso, uma mistura confusa, como se essas circunstâncias multiformes fossem todas jogadas como bolinhas de gude em um saco, e jogadas fora sem qualquer ordem ou arranjo.
Deus é um Deus de ordem. No mundo natural, o mundo da criação, tudo está em ordem. No mundo espiritual, o mundo da graça, tudo está em ordem; e no mundo providencial, o mundo da providência, também tudo está em ordem. Em nossa mente, na verdade, tudo parece desordem, mas isso surge de nossa ignorância,  não vendo o todo como um plano definitivamente arranjado. Se você visse um tecelão trabalhando em um tear e não visse nada, exceto os fios e agulhas em contínuo movimento, você não veria nada além de confusão, tampouco poderia formar a mais leve concepção do padrão que estava sendo trabalhado. Mas, quando o todo foi concluído e a seda tirada do rolo, então veria um padrão arranjado em ordem bonita, cada linha concorrendo para formar um design harmonioso. Porém, tudo isso era conhecido de antemão pelo artista que desenhou o padrão, e todo arranjo foi feito em estrita subserviência a ele.
Mas, se este é o caso das nomeações de Deus na providência, quanto mais é verdade de seus projetos gloriosos em graça. Todo julgamento e tentação, aflição e tristeza são apenas o resultado de um plano definido na mente eterna. No entanto, muitas vezes tudo parece como confusão para nós! Esta confusão não é tanto nas coisas em si, mas em nossa mente. Jó, cercado de angústia, gritou: "Estou cheio de confusão" (Jó 10.15).
No entanto, podemos ver ao ler sua história que todas as suas provações estavam trabalhando em direção a um fim designado. Assim, cada tentação, provação, ou aflição, que já se apresentou ou que sempre se apresentará em seu caminho; se você é um filho de Deus, você foi marcado por uma sabedoria infinita e infalível.
A estrada mais comum, não está disposta de acordo com um plano definido, quando o  topógrafo traçou cada quilômetro em seu devido lugar? Então, o Senhor não apresenta de antemão o caminho pelo qual o seu povo deve andar? Ele não coloca uma tribulação aqui, uma tristeza ali, uma aflição nesta esquina e uma cruz naquele canto, mas cada um definitivamente não é posto em infinita sabedoria, para trazer o viajante seguro para casa em Sião?
Mas,  como o Senhor designou o luto, o peso e a cinza, assim ele designou o Senhor Jesus Cristo, para que possa administrar consolo aos enlutados espirituais. E você não pensa que quando Deus em sua infinita sabedoria escolheu seu próprio Filho querido, ele escolheu alguém que era apto para a obra? Quem mais estava apto para isso? Pois os que estão de luto em Sião têm tentações e dores que precisam de um apoio e uma consolação, que só o Filho de Deus pode dar; nenhum homem, nenhum ministro, nem mesmo um anjo do céu sem uma comissão especial para esse propósito poderia consolá-los, porque precisam de um libertador Onipotente; e sendo seus problemas principalmente espirituais, eles precisam de alívio espiritual para chegar à raiz do caso, de modo a tornar o remédio adequado para a doença.
Quando Deus então, em sua infinita sabedoria designou seu querido Filho para consolar todos os que choram, ele designou alguém capaz de fazer a obra; não somente Aquele cujo coração e afeições estavam engajados nela, não só Alguém disposto, mas forte para fazê-lo, tendo em sua Pessoa gloriosa a força infinita e poder de Deus. Por isso o Senhor disse: "Naquele tempo falaste em visão ao teu santo, e disseste: Coloquei a coroa num homem poderoso; exaltei um escolhido dentre o povo." (Salmos 89:19).
Então, Ele veio no tempo designado por Deus, o Espírito Santo repousou sobre ele sem medida, e o ungiu para pregar estas boas-novas;  “O espírito do Senhor DEUS está sobre mim; porque o SENHOR me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos;" (Is 61.1).
Tanto sua nomeação para o cargo, como o seu cumprimento são semelhantes à graça. A criatura não tem posição aqui, nem leio uma única palavra sobre o seu mérito ou suas boas obras. Eles choram, é verdade, mas Deus não vê mérito em lágrimas, nem em luto, nem em sofrimento, nem em tristeza. Se seus olhos fossem uma fonte de lágrimas, não poderia lavar um só pecado. Se, então, o Senhor olha com piedade para estes choros, é somente por sua graça.
Seus olhos estão fixos em suas provações, e seu coração simpatiza com suas tentações, porque ele próprio nos dias da sua carne foi semelhantemente tentado, e tem uma simpatia de sentimento com eles em todas as suas aflições, pois ele também era "um homem de dores, familiarizado com o sofrimento" (Isaías 53: 3). Mas ele não somente tem compaixão; a misericórdia sem ajuda é senão um trabalho frio. Ele, portanto ajuda, bem como se compadece.
1. Assim, ele lhes dá "uma coroa no lugar de cinzas". Nós os vemos sentados em cinzas, lamentando seus pecados e tristezas, escrevendo coisas amargas contra si mesmos como vendo em seu interior apenas a miséria e a morte. Então Ele vem, e pelo seu Espírito abençoado fala uma palavra de perdão ou de paz em seu coração e consciência. Quando essa palavra vem com um poder divino em suas almas, ela tira as cinzas, isto é, remove o sentido que têm de ruína e miséria, tira sua lamentação e tristeza, e faz seu rosto brilhar. Isso lhes dá beleza. Mas que beleza? Não a sua própria, mas a dele. Mas como pode dar-lhes  sua beleza – ela é comunicável?
Sim, dando-lhes uma visão de si mesmo, de acordo com sua promessa, "Seus olhos verão o Rei em sua formosura" (Isaías 33:17). Quando então, seus olhos veem o Rei em sua beleza, quando vislumbram seu rosto bonito, aquela beleza é refletida de seu rosto para o deles. Assim foi com Moisés. Ele subiu as escarpas do Sinai carregado e abatido com os pecados do povo, sobre o qual Deus o tinha feito cabeça. Mas, quando chegou lá, ele se comunicou com Deus; e vendo sua beleza e glória incriadas, assim se refletiu sobre ele e seu rosto ficou tão resplandecente com a glória de Deus, que o povo não pôde olhar para ele. Por isso lemos que Moisés tomou um véu e o pôs sobre o rosto. Havia tal contraste entre a beleza e a glória de seu rosto, e a escuridão e carnalidade de suas mentes, que eles não podiam suportar a visão.
Perto da beleza do Senhor, nada é tão bonito como a graça. É bonito como sendo glória começada, glória no broto. Na verdade, até que possamos ver e sentir o quanto a graça é bela mesmo em nosso estado neste tempo presente, ainda não temos nenhuma concepção do que a glória será em um estado eterno. Admirar a beleza é natural para nós, pois que naturalmente admiramos a beleza humana, um rosto bonito, uma figura graciosa.
Na verdade, toda a criação de Deus é cheia de beleza, desde o sol que brilha no céu até o inseto que rasteja no chão. Um homem não pode ter olhos que não vejam beleza em cada criação da mão de Deus. Na verdade, neste mundo não há nada realmente deformado ou feio, senão o pecado e o que foi produzido por ele. Mas, toda a beleza criada fica aquém da beleza incriada; quero dizer, a beleza da graça, a imagem de Cristo na alma. Esta é a verdadeira beleza que a Escritura chama de "a beleza da santidade".
"O teu povo apresentar-se-á voluntariamente no dia do teu poder, em trajes santos; como vindo do próprio seio da alva, será o orvalho da tua mocidade." (Salmo 110: 3).
O povo de Deus é aqui representado, como saindo do ventre da madrugada, embrulhado, por assim dizer, com o orvalho refletindo em cada gota, as belezas da santidade do Sol da Justiça. Mas, há essa característica peculiar na beleza espiritual - uma pessoa nunca a vê em si mesma; não, porque aquele que tem mais graça vê-se mais pecador, portanto não pode ver a beleza que a graça coloca sobre ele. Esta beleza não habita exteriormente no rosto ou no comportamento, mas no homem interior do coração, e consiste na reflexão da imagem de Cristo.
Desta beleza, a humildade é a característica mais marcante, de modo que quanto mais o Senhor entra na alma de um homem nas manifestações de seu amor e graça, e quanto mais ele vê a beleza e santidade de Deus, mais se aborrece no pó e aborrece a si mesmo por causa de suas abominações. Mas toda graça do Espírito se combina com um todo belo; e ainda assim é uma reflexão imperfeita da beleza consumada do Senhor Jesus Cristo, que, como diz a noiva, é "alvo e corado, o principal entre dez mil" (Cântico dos Cânticos 5: 10).
Então, esta é a beleza que ele dá para as cinzas da humilhação em que o filho de Deus se senta; essas cinzas negras se encaixam no emblema da queima da justiça da criatura. O Senhor tira essas coisas e coloca sobre ele a sua própria beleza incriada, o vestido glorioso da justiça imputada, que ele executou, com o qual veste a alma crente; e para isso ele acrescenta a sua própria imagem, aquele novo homem da graça que segundo Deus foi criado em justiça e verdadeira santidade.
Agora, não é este um intercâmbio glorioso – o de remover a cinza para colocar beleza; remover a si mesmo e colocar Cristo; remover a miséria e colocar misericórdia; colocar fora os panos de saco e ser vestido com alegria?
2. A segunda coisa que o Senhor dá é "o óleo da alegria". Há algo muito notável nessa expressão. O Senhor não só dá alegria à seu filho de luto, mas o óleo da alegria. Alegria, mera alegria, não é suficiente quando não acompanhada com o óleo de alegria, pois parece muito superficial para uma alma de luto. Há algo no coração de um crente, uma santa sabedoria e cautela, que rejeita a superficialidade; uma ternura sagrada do sentimento divino, que vê e rejeita o que quer que use a aparência de excitação natural. Flashes de alegria natural são muito vazios, demasiado superficiais para ele. Ele as rejeita, portanto, como lisonjeiras e ilusórias, como antes acendendo a mente carnal e estimulando o espírito natural, do que regando e abençoando a alma.
Um crente pode muito bem suspeitar do valor real do produto. Um comerciante que entende seu negócio não é enganado com uma superfície lustrosa colocada sobre os bens, mas examina como todo o artigo foi elaborado, de que materiais originais ele consiste e como foram trabalhados. É somente o ignorante que é enganado por uma superfície lisa e um exterior reluzente. Assim, um filho de Deus, que há muito tempo foi pressionado por provações, tentações, e teve que provar sua religião uma e outra vez, não é enganado com a aparência exterior das coisas, mas o que ele olha é a realidade, algo sólido e permanente, algo divino e espiritual, recomendado à sua consciência como o verdadeiro dom de Deus.
A alegria, portanto que o Senhor dá é "o óleo da alegria", porque cai com poder ungido na alma, espalhando e comunicando seus efeitos de suprimento, suavizando cada parte, e penetrando nas profundezas da consciência culpada e sobrecarregada. Não se deixe enganar com uma alegria falsa. Recorde que há a alegria do hipócrita, que lemos sobre aqueles que "receberam a palavra com alegria" (Lc.8: 13). Essas pessoas estavam certas? Não! Pois em tempo de tentação eles caíram; tiveram alegria, mas não o óleo de alegria; as cascas, mas não o grão de alegria. Não havia unção, nem poder, nem profundidade, nem realidade, nem felicidade em sua alegria; era um mero flash que veio e se foi em um momento. Não é a alegria como este óleo de alegria, mas aquela excitação carnal que as emoções muitas vezes produzem entre o seu povo através de melodias animadas, pregações trovejantes excitando seus ouvintes a explodirem em exclamações de graça e glória, enganando-os na crença de que receberam o perdão de seus pecados. Um pregador carnal pode dessa forma, dispersar a alegria entre os punhados de uma congregação, e as pessoas podem ser tão iludidas a ponto de pensar que isso é "alegria e paz na fé" (Romanos 15:13).
Mas, todo esse incêndio é uma coisa muito diferente do óleo da alegria, que vem com suavidade e quietude na alma, como dos lábios de Jesus; aqueles lábios nos quais Deus derramou sua graça, pois o ungiu com o óleo de alegria acima de seus companheiros (Salmos 45: 17). Assim, lemos sobre o precioso unguento que estava sobre sua cabeça, que escorreu sobre a barba, até a barba de Aarão, e desceu até as orlas das suas vestes. Esta foi a unção que foi dada a Cristo pelo Espírito Santo, quando o ungiu para pregar boas novas aos mansos, que é a mesma unção chamada no texto de o "óleo de alegria", que flui de Cristo para a alma de um crente.
Examine, portanto suas alegrias. Então, se obtém alguma coisa ao ouvir a Palavra, ao ler as Escrituras, ou em uma oração secreta que parece uma alegria, examine-a bem, se Satanás não pode tentar colocar em você alguma moeda falsa da sua lavra; veja se contém a imagem e a inscrição do rei estampadas nela pela lavra do céu. O que é real sempre suportará o exame.
Mas, quando o crente é realmente favorecido e abençoado, Satanás ainda pode trabalhar em sua mente para descrer seu poder e realidade, e você pode ser persuadido às vezes, a considerar tudo isto. Mas, quando o Senhor voltar com algumas gotas da mesma unção divina, você pode olhar para trás e ver pelos efeitos doces que produz, que era o óleo da alegria e não as cascas de alegria, que você desfrutou antes. Na verdade, para que os enlutados espirituais possam se satisfazer senão apenas com o verdadeiro óleo da alegria, e para que possam aprender a distingui-lo e valorizá-lo, é a razão pela qual o Senhor os coloca em uma fornalha tão quente. Se não fossem santos espirituais, com cinzas em suas cabeças, eles poderiam ser enganados por qualquer coisa, mas eles são muito aguçados para serem enganados agora.
(Nota do tradutor: Este livro é de uma preciosidade muito grande em relação a nos alertar sobre a natureza e essência da genuína vida espiritual, pois é uma experiência sentida e provada por todos os que têm uma participação comum em tudo isto que está sendo exposto, que de fato Deus sempre traz a alma, à tristeza e ao luto pelo pecado, produzindo dores na consciência pelo que somos ou fazemos, que seja contrário à Sua vontade, antes que ele possa nos ungir com o santo óleo da alegria celestial. Isto tem muito a ver com a vida espiritual que é prometida, e que se segue sempre ao arrependimento.
Portanto, pessoas que vivem de modo mundano com uma mente carnal, não podem participar das bênçãos desta promessa, mesmo que sejam crentes animados em suas igrejas, por todo o aparato dos louvores e das pregações extasiantes às quais o autor alude de forma muito sábia e apropriada.)
Se um homem está deitado sob um peso de cem libras, não é o dedo de uma criança que pode tirá-lo. A criança pode brincar com ele, mas não pode levantar o peso. Assim, se uma alma está realmente pesada e carregada pelo pecado e tristeza, tentação e medos, não é para uma criança brincar com ela, para que possa levantar a carga pesada, mas é o próprio Cristo que vem com o poder divino, que tira a carga da consciência do pecador e, quando o faz, dá-lhe "o óleo da alegria no lugar do luto".
3. A terceira bênção que Cristo é ungido para dar é "a veste de louvor para o espírito angustiado ou pesado". Quando consideramos quantas coisas há para sobrecarregar a consciência e angustiar a mente, vemos quantas vezes um crente é pressionado com o espírito de angústia. Isso o envolve como um manto, mas quando o Senhor vier e tirá-lo dele, o vestirá com um manto suave; e isto, por fazê-lo louvar e bendizer o seu santo nome, é chamado de "veste de louvor". Mas, como o tempo não permitirá que nos aprofundemos mais neste ponto; eu passo, portanto, para mostrar:
III. A GLÓRIA que redunda para Deus a partir desta obra do abençoado Salvador. Crentes tão altamente favorecidos devem ser chamados  de "árvores de justiça, plantados pelo Senhor, para que ele possa ser glorificado".
Aqui, Deus tem comparado seu povo com árvores, mas árvores de um tipo peculiar, árvores de justiça. O que há na figura de uma árvore que parece suportar a experiência de um filho de Deus? Existe alguma coisa que parece ter mais vida do que uma árvore?
Olhe para uma árvore na primavera. Como parece estar surgindo na vida! Como a seiva está inchando cada botão, e empurrando adiante cada folha em verdura e beleza! Que emblema da vida de Deus, na alma recebida, da plenitude de Cristo! Assim, um filho de Deus se assemelha a uma árvore por possuir um fluxo de vida divina em sua alma.
Mas, novamente, uma árvore cresce a partir de um pequeno começo, como uma semente, um cone ou um grão, mas se expande até crescer a ponto de ser o monarca da madeira. Assim, em um filho de Deus, há um crescimento na graça e no conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo. Um filho de Deus não cresce como a aboboreira de Jonas, nem se torna um gigante em um dia. Um carvalho exige um século para trazê-lo à maturidade. Aquele carvalho tem resistido a muitas tempestades, muitos ventos do leste que são cortante e uivam através de seus ramos, muitos grumos de neve têm descansado sobre seus ramos, muito granizo tem derrubado suas folhas, e também muitos raios do sol brilharam sobre ele. Mas, todos eles contribuíram para o seu crescimento, e trouxeram-no para a sua maturidade presente. Assim, um filho de Deus tem muitas tempestades para suportar, bem como para desfrutar o vento quente do sul e os raios ardentes do sol, mas todos se combinam para fortalecê-lo e fazê-lo crescer no conhecimento do único Deus verdadeiro, e de Jesus Cristo, a quem ele enviou.
No entanto, quão gradual é o crescimento de uma árvore! Não as vemos crescer pontualmente, contudo se voltarmos depois de alguns anos para vê-las, nossa primeira exclamação é, "como as árvores estão crescidas!" Assim na graça. Geralmente não podemos ver se crescemos ou não. Não, em nossos próprios sentimentos, muitas vezes parecemos estar paralisados, ou mesmo, devo dizer, muitas vezes nos parece como se nós recuamos em vez de ir para a frente, que estamos caindo e decadentes, em vez de crescer e florescer. No entanto, há um crescimento se  sentimos mais de nossa pecaminosidade profunda e desesperada, e se vemos mais da adequação do Senhor Jesus para todas as nossas necessidades. Se sentimos que a salvação é inteiramente de graça, e lançamos nossa alma mais crente e sem reservas sobre ela, há um crescimento. Embora nós não possamos vê-lo, outros podem vê-lo para nós, e em nós.
Mas, uma árvore tem botões, folhas, flores e frutos. Então, quando um cristão  recebe a seiva da plenitude de Cristo e esta flui em sua alma, ele lança os botões da esperança; que enquanto incham e se espalham, produzem as folhas verdes de uma profissão consistente. No devido tempo as flores do amor se penduram nos ramos, e são seguidos pelos frutos de uma vida consistente e piedosa.
Mas, um crente é chamado no texto, de "uma árvore de justiça". Em três sentidos, um crente é uma árvore de justiça. Primeiro, pela imputação da justiça do Senhor Jesus Cristo, que é por ele e para ele. Em segundo lugar, pela implantação de uma natureza santa, por meio da qual ele é interiormente justo. E em terceiro lugar, pela produção dessas obras de justiça, que por Cristo Jesus são para a glória de Deus.
Mas, dele também é dito ser "plantado pelo Senhor, para que Deus seja glorificado". O homem não tem sua mão na obra de Deus; tudo o que ele pode fazer é prejudicá-la. Você pode ver talvez, um engenhoso e hábil jardineiro plantando uma árvore. Agora, suponha que algum sujeito estúpido, completamente ignorante da jardinagem, viesse a ele e dissesse "Deixe-me ajudá-lo mestre, acho que posso fazer melhor do que você", agarrando o caule. Seus dedos não seriam mais susceptíveis de mover a árvore da situação em que o hábil jardineiro a tinha posto, e estragado completamente a obra, do que lhe fazer qualquer bem real?
Um sujeito que não fosse capaz de segurar uma pá, seria muito presunçoso se interferisse desse modo.
Assim na graça. A árvore da justiça é plantada pelo Senhor. Você não acha que o Senhor sabe plantar suas árvores? Ele não conhece o solo certo para colocá-las, a profundidade em que plantá-las, que tipo de cerca para colocar em volta delas a fim de manter fora o gado ou outros animais prejudiciais? O Senhor não sabe de quanta chuva elas precisam, e quantos dias de sol brilhante, para levá-las à beleza e fecundidade? Não é, então, um insulto a Deus considerar necessário o auxílio do homem, como se Deus não fosse suficiente para sua própria obra?
Tal interferência certamente parece desprezar o Deus de toda graça.
Mas por que tudo isso? Não é "para que Deus seja glorificado?"
Sim! O todo é para sua própria glória declarativa. Por que o mundo foi chamado à existência? Para a glória de Deus.
Por que Adão foi criado? Para a glória de Deus. Por que você nasceu? Para a glória de Deus. Mas você diz, "Talvez eu possa ser condenado." Mesmo isso seria para a glória de Deus, pois embora seja um pensamento alarmante, contudo é perfeitamente verdade que a justiça de Deus é glorificada na condenação dos pecadores. Quais foram suas palavras para Faraó? "Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra." (Romanos 9:17).
Se não fosse assim, a glória de Deus não seria vista em todas as coisas.
Portanto, mesmo naqueles que perecem em seus pecados, a glória da justiça de Deus é manifestada. De outro modo, como poderiam os justos consentir na ruína daqueles que lhes eram próximos e queridos? A esposa no inferno, o marido no céu! Ou o reverso. O pai nos domínios da bem-aventurança, o filho na morada da miséria! Aqueles que se uniram nos laços mais ternos, rasgados em pedaços, nunca mais se encontraram. Uma eternidade de alegria para um, uma eternidade de desespero para o outro.
Agora, como os justos poderiam concordar, se não vissem nisso a glória manifesta de Deus?
Seriam capazes de prejudicar os hinos de felicidade se eles pudessem olhar para baixo do céu, para o abismo abafado do inferno, e lá ver a mãe, a esposa, ou o filho condenados, e eles mesmos salvos, a menos que sentissem uma santa aquiescência na vontade de Deus .
Estas são profundidades tremendas, eu admito, e a alma pausa com sentimento solene, mas a natureza humana é silenciada quando a glória de Deus é vista. Arão sentiu isso quando seus filhos foram mortos no altar, e calou-se; Davi, quando Absalão foi tirado dele no meio de sua rebelião, e Jó sentiu o mesmo quando perdeu os filhos de uma só vez. Suas palavras foram "O Senhor deu, e o Senhor tirou, bendito seja o nome do Senhor" (Jó 1:21). Até chegarmos aqui, somos rebeldes contra Deus sob tais dispensações aflitivas. É realmente difícil para carne e sangue; parece cortar a alma até o centro, e fazê-la tremer como sob a faca afiada. Ainda assim, a alma deve se submeter a tudo isso sabendo que Deus deve ser glorificado.
Mas, a glória de Deus resplandece especialmente nas árvores da justiça. Este ponto, certamente você vai admitir, se não pode ir comigo para as profundezas de que tenho falado, e está pronto para dizer "Eu nunca posso pensar que Deus pode ser glorificado na miséria dos condenados". Eu não peço que você pense assim agora, mas o tempo certamente virá, se você é um filho de Deus, quando você será levado a reconhecê-lo.
Mas, você certamente admitirá que Deus será glorificado na salvação dos eleitos. Todas as suas tristezas, tentações e aflições que passam pela providência e pela graça, com todas as suas consolações, esperanças e prazeres, são para este fim; para que Deus seja glorificado. Agora, não é tudo o que a alma pode desejar? Em que você acha que consiste a felicidade dos anjos? Que Deus seja glorificado.
Quando Deus enviar um anjo da sua presença para cortar um rei, afligir uma cidade com pestilência, enviar guerra e espada para os cantos da terra, afogar armamentos poderosos, ou executar qualquer um desses ofícios que são  obras dos anjos, ele parará e dirá "Eu não posso fazer isso?"
Ele deixaria de ser um anjo imediatamente, se parar e não executar a vontade de Deus. Essa pausa iria transformá-lo em um demônio do inferno, e destruiria sua natureza de um ser angélico.
Alguns de nossos antigos teólogos, não permitiriam que um homem pudesse ter uma libertação, até ser trazido para glorificar a Deus em sua própria condenação; tão convencidos estavam de que até chegar a este ponto, um homem não sentia completamente sua condição perdida.
Aqui, então, fechamos nosso assunto, atribuindo aos santos sofredores na terra, e aos espíritos glorificados no céu, louvor, honra e glória a Deus e ao Cordeiro!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Mente de Cristo


Título original: The Mind of Christ
  
Por John Angell James (1785-1859)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra

 

"Que haja em vós, a mesma mente que havia em Cristo Jesus." (Filipenses 2: 5)

(Nota do tradutor: as versões inglesas trazem “mente” em vez de “sentimento”, como nas versões portuguesas. A versão inglesa está mais de acordo com o termo usado no original grego “fronéo”, que significa ter a mesma mente, o mesmo parecer, o mesmo pensamento.)

Vocês sabem muito bem que a sede de toda religião verdadeira está na alma, que forma o caráter e guia a conduta pelo poder de um princípio interior da vida espiritual. A verdadeira piedade é, em suma, ser de uma mente correta. Uma questão, no entanto surge sobre o que é realmente uma mente correta, e que tipo de disposição predominante o evangelho requer naqueles que professam nele crer. Isto é respondido pelo apóstolo, onde diz: "Que esta mente esteja em vós, a que também estava em Cristo Jesus".
Então, ele vai mostrar o que era a mente de Cristo. Toda esta passagem merece a sua maior atenção, tanto pela sua verdade doutrinária como pela sua prática, pois mostra de forma muito marcante a íntima conexão entre a verdade e a prática cristãs; e como a verdade é empregada pelos escritores sagrados para impor a prática cristã. As doutrinas mais sublimes de nossa santa religião cristã são práticas em seu desígnio e tendência; não são meras teorias ou acadêmicas, mas todas elas são "a verdade que é de acordo com a piedade". Se há algum mistério de religião que seja grande e elevado acima dos pensamentos dos homens e dos anjos, é sem dúvida, a encarnação do Filho de Deus; e se há algum lugar onde esta importante verdade é clara e magnificamente representada é nesta passagem. Os termos são ao mesmo tempo tão sublimes e majestosos, que é impossível dizer algo mais sublime ou majestoso; o significado é tão nobre e tão bem estabelecido, que nada mais poderoso poderia ser imaginado.
O projeto da passagem é reforçar as frases dos versos precedentes, ou seja, reprimir todas as considerações egoístas de nossos próprios direitos, interesses, dignidade, e no exercício de uma consideração amável e condescendente para o bem-estar dos outros, a fim de renunciar à  vantagem, à qual poderíamos reivindicar como sendo nossa. "Não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros." A disposição que o apóstolo ordena é aquela espécie particular de virtude cristã que se opõe a uma manutenção rígida e tenaz de distinções externas, de direitos pessoais, de posição social e precedência, consistindo em uma mansa humildade e benevolente condescendência para promover o conforto e os interesses de nossos irmãos cristãos. E porque esta é a lição mais difícil para nossos corações orgulhosos e egoístas de aprender na escola de Cristo, ele o impõe pelo poder do exemplo mais convincente e esplêndido que o universo contém, quero dizer, o de nosso Senhor Jesus Cristo.
Seja qual for, portanto a visão correta da passagem, deve necessariamente conter um exemplo, por parte de Cristo, de grande e marcante condescendência e de profunda humildade, ou não seria relevante para a ocasião. O que quer que seja, que deixe isto de fora, não pode ser correto.
Quem quer que atentamente, e sem o preconceito de noções ou sistemas preconcebidos considere esta passagem, observará que o apóstolo aponta três estados ou condições diferentes de nosso Senhor Jesus Cristo;
1. O primeiro é um estado de dignidade e glória antecedente infinita, expressado nas palavras: "o qual, subsistindo em forma de Deus".
2. O segundo é um estado de humilhação subsequente, descrito assim, "mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens".
3. O terceiro é um estado de exaltação consequente, estabelecido no que se segue: "Portanto, Deus o exaltou sobremaneira".
Agora, o desígnio óbvio do argumento do apóstolo é provar a humildade benevolente e condescendente de Cristo, descendo do primeiro desses estados para o segundo. Se não houvesse dignidade e glória anteriores, não poderia haver nenhuma condescendência subsequente, porque a condescendência envolve necessariamente a ideia de uma inclinação ou descida de alguma dignidade ou elevação anterior; uma renúncia de alguma reivindicação a uma condição superior, um precedente de alguma vantagem ou preeminência. E, ao mesmo tempo, é necessário que tal humilhação seja perfeitamente voluntária. De modo que, no caso de nosso Senhor, se houvesse alguma condescendência, ele deveria ter tido uma existência anterior e digna, da qual se inclinou para se tornar homem,  em que ele deve ter agido com perfeita liberdade de escolha, sem estar sob qualquer outra obrigação que a da restrição de sua própria benevolência. Se não houvesse estado de glória anterior; se ele estivesse sob qualquer obrigação em fazer o que fez, quer de autoridade ou justiça; não poderia ter havido nenhuma benevolente condescendência.
Deve-se observar também, que seu estado de glória anterior e de exaltação adquirido posteriormente são dois estados perfeitamente distintos e separados. Os oponentes da divindade verdadeira de nosso Senhor pensam o suficiente para dizer em resposta a todos os argumentos para essa verdade trazida da glória, e poder atribuídos a ele, que recebeu tudo isso em sua ressurreição e ascensão, e que este poder e glória não são as suas perfeições naturais, mas suas honras adquiridas, de data não mais antiga do que a obra da redenção. "Mas, isso é para confundir os distintos estados de glória que lhe pertencem; a glória que ele teve com o Pai antes do mundo era e a glória que recebeu do Pai na redenção do homem; uma, a glória da natureza, a glória do eterno Logos ou Palavra; que deve ser considerada juntamente com a glória do Filho do Homem, em suma, a glória de sua eterna Divindade; e a outra a glória de sua Pessoa mediadora, Deus-homem. "
Vejamos agora uma breve exposição das diferentes partes desta maravilhosa passagem.
"Quem está na forma de Deus." O que significa a forma de Deus? Não, como alguns afirmam, seu poder de fazer milagres. Este poder não é em parte alguma mais assim chamado; se este era o seu significado, os apóstolos estariam tão verdadeiramente na forma de Deus como o próprio Cristo, pois eles também fizeram milagres, assim como ele. O que quer que signifique, era possuído antes de assumir a semelhança dos homens, e foi deixado de lado quando se tornou na forma como homem, mas Cristo estava na semelhança dos homens trinta anos antes de fazer qualquer milagre. Além disso, como a "forma de servo" e "a forma de um servo e a semelhança de homens", significam a verdadeira humanidade; a forma de Deus, à qual essas expressões são colocadas em contraste, deve significar a própria Divindade verdadeira. Refere-se, então, à manifestação visível da glória Divina no céu, similar, mas transcendentemente superior, à Shekiná, ou símbolo da Divina presença, no Lugar Santíssimo, no propiciatório, entre os querubins.
"Não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar" - não considerou usurpação receber as honras, e exercer os direitos da Deidade. Esta expressão é dada por alguns expositores assim: "Ele não cobiçou aparecer como Deus". Se esta é a verdadeira interpretação, ela fortalece mais do que enfraquece o argumento para a Divindade de Cristo, pois se ele não era Deus, que condescendência estaria nele, como homem, para não cobiçar aparecer como Deus?
"Mas se fez sem reputação", ou como as palavras literalmente traduzidas significam, "ele se esvaziou ou se despojou" dessa manifestação de sua glória; ele o colocou de lado, como um monarca poria as vestes e regalia de seu estado, como um soberano. De sua natureza Divina, Cristo não poderia se despojar de si mesmo; de seu estado ou manifestação Divina, ele poderia.
"E tomou sobre ele a forma de um servo", servindo não só a Deus, mas a outros.
"Ele foi feito à semelhança dos homens". Em vez de aparecer como Deus, ele veio como homem; ser feito à semelhança dos homens significa que ele era verdadeiramente humano.
E ser encontrado na forma de homem. De que maneira deveria, ou poderia ser encontrado, se ele fosse apenas homem? O que havia de maravilhoso, ou digno de observação nisso, se não poderia ter aparecido de alguma outra forma?
Ele se humilhou. Como? Ao tornar-se "obediente até a morte". Aqui está a prova e a demonstração da sua humildade, do seu ser obediente até à morte, do seu querer morrer e submeter-se ao golpe da mortalidade. Sua morte foi um ato voluntário; ele escolheu morrer, e havia condescendência nele para assim fazer. Mas, pode ser perguntado "Se ele não fosse nada além de homem, que escolha ele tinha no assunto, ou que condescendência exibiu em se submeter ao Pai?"
Se ele fosse apenas homem, a mortalidade era sua sorte, sua condição, e em nenhum sentido sua escolha, portanto não poderia ser qualquer humildade voluntária. Como isso poderia ser humildade em Cristo, já que é uma condição comum do ser humano? Somente no fundamento, de que enquanto em uma visão de sua Pessoa ele é verdadeiramente e propriamente homem, em outro ponto de vista ele é mais do que homem.
Até a morte da cruz. A crucificação era o método de execução mais torturante e degradante, sendo amaldiçoado pela lei dos judeus, e ignominioso pela dos gentios; o castigo dos mais baixos escravos, e do pior dos criminosos.
Agora, então, olhe para a mente de Cristo como estabelecido nesta transação mais maravilhosa. Aquele que era verdadeiramente Deus, que se manifestou por uma luz gloriosa e visível no céu, e recebeu a adoração das hostes celestiais, em vez de descer sobre a Terra para nossa redenção no esplendor da Divina Majestade, tomou sobre si uma condição servil, e mostrou sua condescendência tornando-se homem, mas embora fosse homem, sendo ainda o Senhor de todas as coisas, ele era superior à necessidade de morrer, e ficou sujeito à morte apenas porque escolheu morrer. Morrer era, portanto uma humildade espantosa, mas o clímax de toda esta estupenda condescendência foi a sua submissão à morte da cruz. Se levarmos em consideração, então a Deidade de Cristo, o argumento do apóstolo é conclusivo, e seu exemplo completo, mas sem isso você dificilmente encontrará seu argumento, ou a humildade de Cristo Jesus.
"A divindade de Jesus Cristo é no sistema da graça, o sol, ao qual todas as suas partes estão subordinadas e todas as suas estações da graça estão relacionadas, o que as une em concórdia sagrada e lhes transmite resplendor, vida e vigor; da qual se este luminar central, e sua glória fossem embora, suas harmonias santas seriam quebradas, os elementos se precipitariam para o caos, e a luz da salvação se extinguiria para sempre ". (Mason)
Antes de chegar à aplicação prática da passagem, vou apresentar um resumo das evidências bíblicas do fato da verdadeira e apropriada Divindade de Cristo. O argumento é este; visto que todos os títulos, atributos, obras e honras pertencentes à Divindade são sem limitação ou reserva atribuídos a Cristo na Escritura, ele, além de seu ser em uma visão verdadeira e propriamente humana, deve ser verdadeira e propriamente Deus. Ele é, portanto Deus e homem em uma Pessoa misteriosa.
TÍTULOS da Deidade atribuídos a Cristo:
Jeová - Isaías 6 comparado com João 12:41. Isaías 45: 22-25, em comparação com Romanos 14: 10-12; Jer. 23: 6.
Deus - João 1: 1-4.
Deus conosco - Isaías 7:14.
Poderoso Deus - Isaías 9: 6.
Deus sobre tudo - Romanos 9: 4.
Deus manifestado na carne - 1 Tim 3:16.
Bom Deus - Tito 2:13.
Verdadeiro Deus - 1 João 5:20.

ATRIBUTOS da Deidade em Cristo:
Eternidade - Isaías 9: 6. João 8:58. Heb 1:12; 13: 8; Apo 1: 8.
Onipresença - Mateus 18:20.
Onipotência - Mateus 28:18; Heb 1: 3; Apo 1: 8.
Onisciência - Apocalipse 2:23, comparado com Jeremias 17:10.

OBRAS da Divindade em Cristo:
Criação - João 1: 3-10; Col 1:16; Heb 1: 2.
Preservação de todas as coisas - Heb. 1: 3.
Governo do universo - Dan. 2: 9-14; Mat 28:18. 1 Cor. 15: 24-27; Efésios 1:20 23; Filipenses 2: 9-11.
Regeneração - João 5:25, 26.
Ressurreição dos mortos - João 5:28; 11:25.
Sentença Geral - João 5:22; Atos 17:31; Rom 14: 9-10. 2; Cor. 5:10.

HONRAS da Deidade em Cristo:
Chefe final da Criação - Col 1:15.
Adoração, Oração - Atos 7:59; 2 Cor. 13: 8; Rom 1: 7; e as bênçãos e saudações, no início e conclusão da maioria das epístolas.
Louvor e Adoração - Apocalipse 5.
Estas são apenas uma seleção das passagens da Escritura que afirmam e provam a Divindade de nosso Senhor. De fato, esta grande verdade está tão entrelaçada com a própria textura da revelação, e ocorre incidentalmente em tantos lugares, que me parece impossível separá-la sem destruir o todo. Que essas passagens sejam bem estudadas e armazenadas com precisão na mente, tanto em suas próprias palavras quanto em seu significado. Volto agora à passagem que foi o assunto da observação anterior; "Que haja em vós, a mesma mente que havia em Cristo Jesus".
Jesus Cristo é o único Mestre que sempre fez de uma similaridade de disposição em relação a si  mesmo; um teste distintivo de discipulado. Ele não é apenas o professor, mas o padrão de sua própria religião. Seu exemplo é uma parte essencial de seu sistema. Um homem pode ser um filósofo de qualquer escola, se apenas abraça os princípios de seu mestre, embora com temperamento e espírito ele possa ser o oposto em relação ao seu líder, como o leste é do oeste. Mas isso não é suficiente para constituir um homem cristão, pois não só deve receber as doutrinas de nosso Senhor, mas deve se revestir do seu próprio espírito. Ele não deve apenas acreditar em tudo o que ele ensinou, mas deve viver como ele viveu, pensar como pensava e sentir como sentia. A mente de Cristo deve estar na sua mente, tanto quanto possa contê-la, e o coração de Cristo deve estar em seu coração. Eu realmente não conheço nada mais instrutivo, ou mais solenemente impressionante do que isso. Para ser cristão, não só é necessário adotar as doutrinas de Cristo, cumprir com suas ordenanças, observar seus sacramentos, associar-se à sua igreja e abraçar sua causa; não, nem mesmo se conformar externamente à sua conduta, mas devemos ter sua própria mente em nós. O espírito prevalecente e disposição de sua mente, deve ser o nosso também; e a menos que o olho do homem veja a imagem de Cristo em nosso caráter, e o olho de Deus veja a mente de Cristo em nossa alma, não somos reconhecidos como verdadeiros cristãos.
E qual era a mente de Cristo? Quem o descreverá? Somente os apóstolos que escreveram sua vida. Quão santa era sua mente! Nem uma sombra do pecado, nem a menor mancha de mal moral passaram por ela para envenenar ou poluir sua imaculada pureza. Sua mente era o assento da benevolência mais inefável. Seu coração era o próprio templo do amor; nada malévolo, vingativo ou cruel jamais encontrou um lugar lá. Todas as suas ações, palavras e sentimentos eram o funcionamento de um amor incomparável. Sua humildade era igual à sua pureza e benevolência; e é mais especialmente a estas últimas características que o apóstolo se refere quando diz "Que esta mente também esteja em você". É a condescendência do Salvador que é especialmente recomendada à nossa atenção e imitação. E ninguém deve ser tão distinto por essa virtude como os defensores da Divindade de Cristo, pois vem sobre eles com o peso de uma obrigação peculiar. É seu dever apropriado, e deve ser sua distinção.
Vejam meus queridos amigos, o que é a verdadeira religião; não, como tive ocasião frequente de observar, mera igreja ou dissidência; nem episcopado, presbiterianismo, independência, metodismo ou batista; nem ortodoxia de credo, ou magnificência de cerimônia; nem uma questão de governo da igreja, ou de organização espiritual. Não! Não! A verdadeira religião é ter a mente de Cristo. Alguma vez lhe ocorreu examinar o pouco que é dito pelos escritores sagrados sobre a observação do sábado e dos sacramentos, sobre adoração pública e cerimônias religiosas, comparado com o que é dito sobre santidade, benevolência e humildade?
Mas, infelizmente! Ai! Quanto mais ávidas são as multidões de professantes sobre uma coisa do que sobre a outra, invadindo a ordem de Cristo e estabelecendo formas acima do espírito, só porque é muito mais fácil e agradável com todos os sentimentos de nossa natureza orgulhosa e corrupta ouvir um sermão, observar um sacramento e descansar para a segurança sobre a veracidade da nossa igreja, do que mortificar as corrupções de nossa própria mente, e transplantar nela as virtudes e as graças da mente de Cristo.
Para o quê quatro canetas diferentes foram empregadas pela mão da inspiração, escrevendo os Evangelhos, senão para nos mostrar a mente de Cristo para nossa imitação, bem como sua obra expiatória para a nossa salvação, e por essa delimitação quádrupla de sua bela Pessoa, nos impressionar não só com seus encantos, mas com a necessidade de nos assemelharmos a ele?
Veja como a vida de piedade deve ser promovida; lendo os Evangelhos e não só para aprender como o pecado deve ser perdoado, mas o que é a santidade e como ela deve ser promovida. A religião em nós não é um esboço extravagante, nenhuma imagem original, mas uma cópia, pois Cristo é o original. A isso devemos nos sentar, com a determinação e a esperança de produzir, com a ajuda da graça Divina, algo semelhante a ele em nós mesmos; e como artistas que mantêm seus olhos constantemente sobre o original que estão copiando, não para o propósito de admirá-lo meramente, embora façam isso, e sua admiração ajuda seu objetivo em copiar, mas com o propósito de produzir uma semelhança tão perfeita quanto possível. Assim, ao ler os Evangelhos devemos manter nossa mente fixa na conduta e no espírito de Jesus, não apenas para ver e dizer "Como é belo!" Mas para copiá-lo!
Se nada menos que isso é verdadeira religião, quão comparativamente pouco dela existe em nosso mundo. Se a mente de Cristo em nós for necessária para fazer nossa reivindicação ao caráter de um cristão, quantos devem renunciar à honra? Isto nos tremer. Onde e em quem deve ser vista a união de santidade, benevolência e condescendência, que formou o caráter do Salvador? Essa santidade deve ser encontrada naqueles professantes, que embora livres do vício externo e da imoralidade permitem que as corrupções de seu coração se irrompam, e satisfazem, em vez de crucificar as paixões e concupiscências da carne?
Sua benevolência é encontrada naqueles que são tão apaixonados pelo mundo, tão agarrados, que pouco ou nada pode ser tirado de suas mãos relutantes para a salvação dos pecadores, e para a glória de Deus? E então, onde está sua humildade que deve ser vista em seus seguidores?
Encontra-se naqueles que nunca renunciarão a um único ponto de precedência, ou a um pontilho de etiqueta; que terão todos os seus direitos, a qualquer custo de princípio ou de paz; que são tão aferrados a tudo o que lhes pertence, não só em termos de propriedade, mas de influência e respeito, que não irão ter o menor ódio, ou ressentir-se da menor possível negligência de suas reivindicações ou violação de sua prerrogativa, ou oposição à sua vontade, com todas as marcas de orgulho ferido, e vaidade mortificada?
Estão tão cheios de altas noções e admiração excessiva de sua própria grandeza e excelência, que, se não forem lisonjeados e acariciados sentirão como se lhes fossem roubados seus direitos e se afastariam com indignação e nojo.
Oh, esta é a mente que estava em Cristo? Não é de surpreender que os povos do mundo não demonstrem o temperamento cristão, mas que os professantes discípulos de Cristo devem estar tão faltosos nisto, é tão surpreendente quanto doloroso. Podia-se esperar que na escola de tal Mestre, a abnegação e a humildade fossem consideradas por seus discípulos virtudes cardeais; que todos começariam a cultivar essas virtudes cristãs no momento em que tomassem o seu lugar aos seus pés; e que o cargo de honra e ambição com eles seria o mais baixo, em vez do lugar mais alto. No entanto, quão diferente é o caso. Pareceria como se os homens tivessem ainda de aprender o que a mente de Cristo realmente é, ou que esta mente estava ligada a eles; e como se o projeto do cristianismo fosse formar o professante eclesiástico orgulhoso, intolerante e egoísta, em vez do cristão santo, manso e humilde.
Pareceria do espírito e da conduta de alguns, como se fossem fanáticos de um credo ou de uma igreja, que estes fossem os verdadeiros sinais do discipulado, em vez do temperamento de Jesus. E ainda um apóstolo nos disse, que "se alguém não tem o Espírito de Cristo, ele não é dele" (Rom 8: 9).
Muitos tinham necessidade de estudar de novo os princípios elementares de nossa santa religião, de aprender o que ela realmente consiste. E se eles permitem que Cristo e seus apóstolos os ensinem, em vez de pais e doutores, conselhos e convocações, aprenderiam que os credos e as cerimônias da igreja são substitutos pobres para a mente de Cristo.
Portanto, meus queridos amigos, imploro que cultivem o temperamento cristão, procurem o espírito de Cristo, e não se contentem com nada menos que a mente que estava nele. Deixe-me suplicar-lhes para contemplá-lo; primeiro sobre o trono de glória, adorado por anjos; e depois sobre a cruz do Calvário, desprezado, rejeitado, insultado, assassinado pelos homens; e quando se encherem de espanto diante da graça que o induziu assim a humilhar-se, examinem-se a respeito do que sabem da santa e humilde benevolência que ditou esta maravilhosa, sim, esta condescendência inefavelmente misteriosa. Limite sua atenção por um tempo a este único ponto de indagação, deixe todo o resto por uma temporada; os credos, os sacramentos, os sábados, as ordenanças, as esmolas, e foque diretamente para sua consciência perguntando "O que eu tenho da mente de Cristo?"
O meu coração responde e a minha disposição corresponde à mente santa, mansa, humilde, perdoadora, benevolente, paciente e abnegada de Cristo?
Os homens que conhecem a beleza e a glória do original, conforme está delineado na página do evangelho, quando me veem, dizem "Esta é a imagem de Cristo?"  Ou olham com ceticismo, e depois de ficarem em silêncio por algum tempo professam que podem ver pouca ou nenhuma semelhança? Você pode levantar seu espírito e disposição para o mundo, e dizer "Eis a mente de Cristo?" Cristo reconhecerá sua mente como sendo sua mente?
Oh, fique satisfeito com nada menos do que com uma cópia do coração de Cristo no seu. Você deve ir mais baixo, mais baixo, mais baixo ainda no serviço abnegado para Deus e seus santos.
Preciso apenas lhe mostrar novamente a íntima conexão entre os princípios práticos do cristianismo e as grandes doutrinas do cristianismo. Tire a encarnação de nosso Senhor, seu sacrifício na cruz e sua morte expiatória, e o evangelho perde suas gloriosas peculiaridades. E se você apaga sua Divindade, sua expiação perde a eficácia, e seu exemplo seu poder. "Se tirarmos a sua divindade", diz Hall, "este grande exemplo se reduz a nada, rouba-o de sua divindade, e você o despoja de sua humildade. É isso que torna seu sacrifício de valor infinito, sua cruz tão terrível e interessante, e ao seu povo, tão inefavelmente precioso. A cruz de Jesus Cristo é encontro apropriado, o encontro designado do céu e da terra; o lugar de encontro entre Deus e o pecador. Remova Jesus Cristo de sua divindade, e todos estas importantes verdades se reduzem a futilidades inexprimíveis... Doutrinas destinadas a aquecer e acender nossos corações, nos enchem de perplexidade... Quando procuramos um mistério glorioso, não encontramos nada além da obscuridade que faz com que os homens criem sua invenção para descobrir o significado dessas passagens, em que está claro que o apóstolo se derrama em um fluxo de afeto e prazer requintado."
E nunca, nunca se esqueçam, meus amados amigos, de que a Divindade de Cristo, por mais firme que seja, nunca é devidamente sentida, nunca melhorada, nem verdadeiramente desfrutada, até ser experimentada como uma doutrina que preenche a alma com uma viva semelhança com aquela santidade, benevolência e humildade, que foram tão visivelmente exibidas por Ele "que, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz."