Este é um livro cuja leitura deveria ser recomendada como obrigatória a
todos os jovens, especialmente para os do nosso tempo tão confuso e tenebroso,
em que há tão pouca ou nenhuma orientação diretiva ou exemplos sólidos para a
construção de um caráter que possa adentrar em glória por toda a eternidade.
Título original: The foundation, construction, and eternity of character
Por John Angell James (1785-1859)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
O assunto que escolhi
é inteiramente de natureza prática. Pois vocês sabiamente decidiram, como uma
Associação de Jovens Cristãos, considerar temas morais e piedosos como uma
parte de seu objeto, desde que sejam de natureza que exclua a controvérsia; e
assim, enquanto perseguia a verdade, o fiz no espírito do amor cristão. E você
não precisa ser informado de que importantes como são as artes, ciência e
literatura; a religião e a moral são infinitamente mais do que elas; e isso não
só no que diz respeito à felicidade de outro mundo, mas da vida que agora é.
Meu assunto, então, é o Fundamento, a
Construção e a Eternidade do Caráter.
Diz-se, em geral, de Francisco I de França
que, depois da derrota desastrosa da batalha de Pávia pelo imperador da
Alemanha, ele anunciou a catástrofe à sua mãe da seguinte maneira: "Tudo
está perdido, menos minha honra ." O ditado era digno de um homem maior e
melhor. Semelhante a isto tem sido a reflexão e a expressão dos outros, em meio
às calamidades da vida humana: dos homens que, sentados no meio das ruínas de
suas fortunas, suas perspectivas e suas esperanças, enxugaram suas lágrimas e
se levantaram nobremente. Com a consciência de integridade acima de seus
infortúnios, disseram: "Eu perdi tudo, exceto meu caráter." E com
esta consciência, tais homens são menos, muito menos, dignos de compaixão, do
que aqueles que se levantaram sua riqueza sobre as ruínas de sua reputação. De
nenhum homem pode ser dito estar em pobreza abjeta quando ele é rico em tudo o
que é louvável e de boa fama. Enquanto, por outro lado, nem a riqueza, nem a
aprendizagem, nem a ciência, podem dignificar um homem sem caráter moral. Este
é o melhor capital com que começar a vida, que oferece a mais razoável
esperança de sucesso ao passar por ela, e que produzirá os mais doces reflexos
ao final.
Se lhe fosse concedido, às suas próprias
custas e sob as suas próprias direções, lançar as fundações e erguer os muros
de alguma magnífica estrutura que atraísse a admiração do mundo, que desafiasse
os assaltos do tempo e entregasse o seu nome para as idades futuras; que objeto
de ambição seria assim colocado ao seu alcance! Mas, quanto mais nobre em si,
quanto mais valioso para você, e quanto mais duradouro; é o que realmente lhe é
proposto pela vontade de Deus, e que deve ser colocado diante de você neste
discurso que lhe está sendo apresentado agora!
Por CARÁTER quero me referir às qualidades
prevalecentes e habituais ou disposições da mente, que se expressam na conduta de
forma apropriada, e distinguem seu possuidor de outros homens. A palavra
caráter é, portanto, expressiva de muitas espécies: como a literária,
científica, heroica, e muitas outras variedades. Em linguagem comum,
entretanto, a palavra costuma ser empregada para designar qualidades morais,
pois este é o significado da expressão: "Ele perdeu seu caráter".
Nesse sentido, considero-o como indicativo de hábitos morais e piedosos. Se a
minha descrição estiver correta, ela consiste em qualidades e disposições
prevalecentes e habituais; então, está claro, que um ato meramente ocasional,
por mais esplêndido que possa ser um exemplo de boa conduta, embora seja
repetido a intervalos longos, não constitui caráter.
Um avarento, por exemplo, pode, sob certas
circunstâncias muito peculiares, ser induzido a realizar um ato de liberalidade
até mesmo generosa; mas não é seu caráter ser liberal. Os homens às vezes fazem
atos tão diferentes de sua disposição prevalecente, que nos surpreendemos com
eles como fenômenos que nos deixam perplexos quando investigamos sua causa.
Mesmo os homens bons sob o poder da tentação ocasionalmente fazem coisas muito
diferentes de si mesmos, e contrárias ao seu caráter. Mas, nós encontramos
contudo aquilo que sobrevive ao choque destas aberrações.
A uniformidade geral, consistência e
perseverança na boa conduta, então, são essenciais ao caráter. Conheço casos em
que alguns atos simples de um homem mau têm, em toda a aparência externa, se destacado
em magnitude e esplendor em relação a qualquer dos únicos atos de um homem bom.
Mas, o primeiro era apenas uma virtude efêmera e espasmódica, que esgotou
imediatamente toda a força do autor; enquanto o último era a ação contínua e
natural de uma constituição saudável. Ou para mudar a metáfora, o primeiro era
o esplendor raro, mas imponente, do cometa ou do meteoro, que aparece, mas por
pouco tempo, e depois desaparece; enquanto o outro é a luz constante, contínua
e diretiva, embora possa ser menos imponente, da estrela polar. Uma
"virtude instável" é de pouco valor, e no entanto é tudo o que alguns
homens têm, que não pode ser totalmente abandonado a maus hábitos. Suas mentes
parecem estar sempre em uma febre intermitente, em que seus ajustes frios e quentes
estão em alternação constante.
Tendo, então, tentado mostrar o que quero
dizer com caráter, passo a falar sobre:
I. O FUNDAMENTO de caráter moral e piedoso.
Esta palavra é sugestiva. O fundamento de um edifício é colocado na terra.
Quanto trabalho é feito para cavar e jogar fora o solo, e obter uma trincheira
pronta para receber os materiais que são para compor o alicerce! Quanto
material é jogado na trincheira do fundamento, fora da vista dos observadores
ignorantes da estrutura! Quem, por exemplo, ao passar pela catedral de São
Paulo, admirando sua cúpula e sua cruz dourada, sonha com as massas de pedra
sobre as quais repousa o todo e sem as quais o edifício logo terá sido um monte
de ruínas? No entanto, há o fundamento, vasto e profundo, embora enterrado, escondido
e quase esquecido. Assim deve ser com caráter.
O fundamento do caráter deve ser colocado na
mente, no coração, na consciência e na memória. Deve haver um escavar na alma,
um jogar fora de muito do que deve ser retirado para que possa ser introduzido o
material que deverá dar sustentação ao edifício a ser erigido. Deve ser algo
forte, amplo, firme; e deve ser enterrado e escondido na alma. Uma
superestrutura elevada de caráter que deve permanecer e ser permanente, não
pode mais ser levantada, sem isso, do que um edifício imponente pode ficar
erguido sobre a superfície do solo, sem qualquer fundamento abaixo dele. A
alma, não apenas em seu aspecto intelectual e capacidade, mas em seu moral e
imortal; a alma com suas afeições, paixões e propensões; a alma como sede da
vontade e da consciência; a alma como o terreno no qual a base do caráter é
colocada; deve ser objeto de séria consideração.
Muitos homens carregam suas mentes com menos
solicitude do que fazem com seus relógios. Eles conhecem e se preocupam quase
tão pouco com as faculdades e os poderes da alma; em comparação com o que fazem
com o mecanismo do relógio. Isso não deve ser com aqueles que desejariam formar
um bom caráter. De que materiais então o fundamento do caráter deve ser
formado? Quais são as pedras poderosas e graníticas que devem ser depositadas,
para um caráter que está relacionado com a eternidade? Ciência? Literatura? As
artes? Não! Estes podem fazer algo para o caráter intelectual; mas não para o
caráter moral. Estes devem ser princípios - princípios morais. O caráter moral
não pode repousar em astronomia, geologia, química, eletricidade, magnetismo.
Essas coisas são admiráveis, úteis, nobres, sublimes. Mas, elas não podem fazer
mais para a base do caráter, do que a joia faria para a fundação de uma
pirâmide ou um templo.
Por PRINCÍPIOS não quero me referir apenas a
opiniões, mas a convicções; não a teorias especulativas sobre a moral, mas
conclusões práticas; sentimentos não flutuando na imaginação, mas enraizados no
coração. Vou enumerar alguns desses princípios eternos, necessários e imutáveis
- e não
apenas sentimentos convencionais.
A distinção entre o bem e o mal; o certo e o
errado.
A tendência invariável do que é bom para a
felicidade e do mal para a miséria.
A regra infalível do bem e do mal na Bíblia,
não fazer o certo e o errado, mas revelá-los e reconhecê-los.
A corrupção e a fraqueza da natureza humana
moralmente vistas.
A supremacia do amor a Deus e do amor ao
homem, sobre todos os outros motivos da conduta humana.
A necessidade de uma renovação do coração
humano, e a provisão feita no esquema da redenção do homem por Cristo, por
intermédio do Espírito Divino, para este propósito.
Estas coisas, e outras como estas, são as
pedras poderosas que, cavadas da pedreira da Bíblia, e colocadas no coração
humano pelo poder de uma fé viva, constituem o fundamento daquele caráter que almeja
exibir suas proporções bonitas na terra, subir ao céu, e durar por toda a eternidade!
Estes são os princípios que devem ser colocados nas profundezas da alma humana,
por uma apreensão inteligente de sua natureza, uma profunda convicção de sua
verdade e um impressionante senso de sua importância. Tentar formar um caráter
sem princípios estabelecidos é como erguer um edifício sem fundamento.
Mas, o caráter, como o edifício de pedras, não
é feito somente de fundação, há também uma superestrutura; e agora passarei a
considerar:
II. A CONSTRUÇÃO de um caráter moral e
piedoso. E observo que, no caso presente, se os princípios são a base do
caráter, as VIRTUDES são o edifício do caráter. Em outras palavras, a verdade
moral desenvolveu-se na ação moral. Basta olhar para as virtudes que constituem
os elementos de cada caráter bem formado.
1. A primeira é a piedade para com Deus, ou
a crença da primeira verdade, o gozo do bem principal, o reconhecimento de
nossas relações mais elevadas e a submissão à autoridade suprema. Este é o mais
alto alcance da virtude, a aspiração mais sublime da humanidade, a mais sublime
da excelência criada.
2. Então vem a prudência ou a sujeição de
todas as nossas palavras e ações às leis da sabedoria e uma justa consideração
às consequências que as ações trazem em razão delas, remotas e próximas, seja
como elas afetam nosso próprio conforto, ou o conforto de outros.
3. Inflexível integridade é necessária, que
nenhuma tempestade de adversidade pode dobrar ou quebrar, e nenhum sol de
prosperidade pode relaxar. Integridade que pode perseguir o que é certo, tanto
para Deus como para o homem; e porque está certo, pode enfrentar prisão e
morte.
4. Rígido autocontrole é indispensável. Este
é um poder que, sob a direção da sabedoria, pode conter os mais fortes impulsos
inatos, e salvar de ser acelerado para dentro da insensatez ou do vício. O
autocontrole pode dominar as tentações mais violentas, quer apelem à cobiça,
quer à ambição, quer à sensualidade. O autocontrole afirmará a liberdade da
alma contra as tentações dos apetites e das paixões, para trazê-los à
escravidão. O autocontrole pode suportar a abnegação mais heroica e tornar-se
um mártir do princípio, ao invés de fazer uma ação que, qualquer que seja o
ganho de prazer ou de riqueza, afunde o autor em sua própria estima.
É o autocontrole que salva um homem de ser um escravo, e o
torna mestre de si mesmo. Quantos nobres poderes e altos gênios foram
destruídos e arruinados por falta de autocontrole.
Preciso me referir a um grande poeta, à queda de quem cuja vida
foi o seu fracasso nesse aspecto. Sendo possuidor dos maiores dotes mentais, capacidade
para os sentimentos mais elevados, caiu sob o domínio dos apetites e paixões
carnais, e pereceu no meridiano da vida. Seus nobres poderes foram muitas vezes
prostituídos, antes de se extinguirem no que deveria ser o ponto mais alto de
culminação. Que queda, para tal alma afundar sob o domínio de apetites
sensuais, abnegar sua alta dignidade e se render ao mesmo tipo de forças que
movem o mero animal bruto.
5. Benevolência, ou uma consideração prática
para a felicidade dos outros, é um elemento primordial e glorioso de caráter.
Este é o temperamento dos anjos, a lei do céu, a mais brilhante, a mais
verdadeira, a primeira semelhança de Deus. O egoísmo é bestial, semelhante a um
demônio; mas a benevolência é semelhante a Deus. Omitir isso seria deixar de
lado a distinção mais rica da qual a humanidade é suscetível.
6. Para aludir ao último elemento de caráter
moral, posso mencionar um sentido prático do nobre e honrado. Não quero dizer
aquela sensação mórbida de ser facilmente ofendido, que se espalha por toda a
alma como uma membrana vasta, macia e doente, que é suscetível a insulto e dano
a cada toque, embora suave como a asa de um inseto; que faz um homem colérico,
ressentido, e pronto para chamar sua espada mesmo contra um amigo, para vingar
um insulto. Eu não recomendo tal honra como esta, um temperamento que se
alimenta da opinião, e é tão inconstante quanto seu alimento; que muitas vezes
persuade os homens a destruírem a sua paz, a fim de defender o seu orgulho, e
para derrubar sua casa para construir seu monumento.
Tais são os MATERIAIS, e outros poderiam ter
sido mencionados, a partir dos quais esse edifício nobre que chamamos de
caráter deve ser construído.
Mas, deixe-me agora considerar COMO a
construção do caráter moral e piedoso deve ser levada adiante; ou seja, que
regras devem ser observadas na sua construção.
1. Em primeiro lugar é necessário, focar em
seu objeto; determinar com você mesmo o que você deveria ser. O construtor de
uma casa tem todo o seu plano diante dele antes de colocar um tijolo ou uma
pedra; o poeta tem o plano de seu poema antes de escrever uma linha; e o pintor
e o escultor conhecem seu modelo antes de dar um golpe do lápis ou do cinzel.
Assim, se você alcançar um caráter bem formado, você deve primeiro resolver com
você mesmo o que você seria, e quais são os elementos reais de um bom caráter.
Um erro aqui é fundamental. De nenhum homem pode ser esperado que suba mais
alto do que seu próprio padrão de excelência. Digam a si mesmos então:
"Que devo ser eu, o que serei eu?" Resolva isso bem, com sabedoria e
firmeza.
2. É também um princípio necessário, que
cada homem deve ser, sob Deus, o construtor de seu próprio caráter; porque
nenhum homem pode fazê-lo para ele. Ele pode ter uma casa construída para si; mas
se ele deseja ter um caráter; ele deve construir para si mesmo. Deus
condescendeu em se tornar seu arquiteto, e estabeleceu um plano perfeito para
ele em sua Palavra, e outros por conselho e direção podem ajudá-lo; mas nenhuma
assistência desse tipo pode dispensar seu próprio trabalho. Ele pode ter
dinheiro para que, se possível, possa se tornar rico sem seus próprios esforços;
mas ninguém pode legá-lo a ele. Somente seu próprio trabalho pode obtê-lo.
3. Ao lado disto é de imensa importância
entender que, como nenhum outro pode construir o caráter para nós, tampouco
virá de si mesmo ou do acaso; mas deve ser o resultado do desígnio e do
esforço. Você pode esperar racionalmente que um palácio, ou um templo, ou um
castelo, se levantem por uma concussão fortuita de átomos; como que os bons
hábitos serão formados por uma contingente concorrência de ações ou eventos?
Não! Deve haver um plano estabelecido, um propósito formado, uma regra
observada e um fim invariavelmente procurado. Um mau caráter pode ser formado
sem desígnio; um homem só tem de entregar-se passivamente ao impulso de suas
tendências malignas inatas, e à força da tentação externa, para ser mau sem
esforço. Assim, como as ervas daninhas, amoras e urtigas selvagens crescem no
deserto sem cultura; enquanto as delicadas flores do jardim devem ter muito
trabalho dispendido sobre elas. Mas, não vale a pena o esforço? Uma boa
reputação compensará melhor os trabalhos concedidos a ela, do que qualquer
outra coisa que possa ser contemplada pela mente humana.
4. Para avançar um outro passo, posso
observar, que você não só deve, mas você pode construir o seu próprio caráter.
Tenha fé em Deus antes de tudo, que ele está disposto e esperando para
ajudá-lo, e que por sua bênção você pode ser algo, fazer algo e possuir algo,
neste mundo. Você não pode ser uma mera cifra, mas por sua própria escolha; e
por essa mesma escolha pode ser algo muito mais na aritmética da vida. Outros,
como eu disse, não podem fazer isso por você, mas você pode fazê-lo por si
mesmo. Pode parecer uma afirmação ousada, mas é verdadeira, você pode ser
moralmente o que você resolver ser. Deus não estabeleceu limites para a
obtenção da excelência moral; nem nós devemos estabelecê-los, pois a RESOLUÇÃO
é quase onipotente.
O poder da vontade do homem é maravilhoso. A
maior dificuldade reside em ter poder de vontade, não no poder da vontade. Esta
é uma das grandes diferenças entre homem e homem; não apenas uma diferença
quanto ao domínio do intelecto, mas do poder da vontade. Muitos podem ver tão
claramente como os outros, mas eles não podem querer tão resolutamente. Por
isso, é importante cultivar a vontade, assim como o intelecto, o coração e a
memória. Determine ser algo no mundo; e você será algo. Aponte para a
excelência; e a excelência será alcançada. Quem pensa: "Eu não
posso", nunca conseguiu nada. Mas, "Eu vou", alcançou
maravilhas. É surpreendente ver como as dificuldades se afastam diante do poder
subjugador da vontade de alguns homens e como todas as coisas caem em seus
esquemas; não, não caem, mas são pressionadas, por eles. Isto é verdade em
referência a quase todas as coisas, à riqueza, à ambição, ao conhecimento; mas
é a mais verdadeira de todas em relação ao caráter. Deveria haver alguém que me
ouvisse neste momento, que ainda não atingiu altos graus de excelência moral; que
ainda não formou uma resolução para alcançá-lo; que talvez tenha cedido a uma
apreensão desesperada de que está fora de seu alcance; deixe-o apenas assumir
agora, como ele é autorizado, sim, comandado a fazer-se totalmente conquistador
- "Eu vou; por ajuda de Deus", e é feito o começo de excelência moral;
de um caráter bom e nobre. Isto é o que o mais eloquente dos ensaístas modernos
exibiu com tanta força e beleza em seu Ensaio sobre a "Decisão do
caráter".
Oh, que eu pudesse inspirar vocês, meus
jovens amigos, no início da vida com um entusiasmo sobre este assunto! Ó, que
eu possa despertar, ou promover, se já for implantado, o elevado propósito de
formar um caráter que a terra admirará, e o céu aprovará! Oh, que eu pudesse
respirar dentro de você o propósito, não de forma precipitada ou ligeira, mas
deliberada e determinada; de ser e fazer algo neste mundo de sua morada e
durante esta curta vida de sua continuidade nele! Eu vejo a carreira de
excelência ilimitada abrindo-se diante de você, e só precisando da poderosa
vontade de buscá-la com sucesso. Não me falem de desencorajadoras ou de
poderosas tentações. Conheço-as, senti-as e, pela graça de Deus, as venci, e o
que eu fiz, vocês podem fazer. Foi entre essas mesmas tentações, e alguns
desânimos, quando mais jovem do que a maioria de vocês, que este conferencista
se decidiu, não de fato ser um grande homem, pois uma aspiração ou ideia tão
ambiciosa nunca se aproximou do horizonte de sua mente; mas ao desejo mais
humilde, como pode ser pensado por alguns, de ser um homem piedoso. Foi na
juventude que ele resolveu construir um caráter piedoso, e começou o esforço.
Até onde ele conseguiu, deixa aos outros determinarem. Seja como for, por essa
resolução ele deve, a Deus, a honra de dirigir-se a vocês na ocasião presente.
5. É de imensa importância lembrar que circunstâncias,
acontecimentos e influências comparativamente minúsculos contribuem para a
formação do caráter. Os homens são muito lentos para aprender o poder e a
importância de pequenas coisas, e o valor cumulativo de bagatelas aparentes. No
mundo da moral; nada é pequeno. Um olhar, uma abertura momentânea do ouvido, um
único pensamento que passa pela mente com a rapidez do relâmpago, se for
indulgente em relação a um assunto proibido, pode deixar um traço que nunca
poderá ser apagado, e causar um prejuízo por toda a eternidade! No quadro
corporal, um simples arranhão pode levar a uma infecção fatal; e a morte pode entrar
pela pestilência invisível.
Não é de outra forma com a nossa constituição moral. Grandes
eventos e poderosas causas ocorrem apenas em longos intervalos. Os pequenos
estão sempre acontecendo, e estão sempre depositando seus efeitos. É bem
verdade que a primeira concepção ousada e o contorno do caráter, como o retrato
do artista, são desenhados por um único esforço, talvez um traço audacioso de
seu pincel; mas o preenchimento do esboço é o resultado de inúmeros pequenos
pontos e traços; e cada ponto e cada curso é o resultado da deliberação e do
projeto. Um ou dois pontos ou traços de cor errada, ou a colocação em um lugar
errado, arruinaria o todo. Não muito diferente disto é o processo que estamos
considerando agora.
Muitas vezes é uma resolução para a conduta futura formada,
adotada e fixada em uma hora, sim um minuto; que compreende em si a formação de
um caráter, a história de uma vida, a existência moral de uma eternidade; a decisão
daquele breve momento. Mas, então, vem o preenchimento do quadro, para isso, os
pequenos acontecimentos que estão ocorrendo todos os dias e em todos os
lugares, estão contribuindo com uma influência. Nem se deve esquecer, quanto um
ou dois atos impróprios, podem impedir a formação correta, ou desfigurar a
beleza, do retrato moral do caráter. Quanto tempo e mão-de-obra isso pode
exigir para neutralizar a má influência que foi assim exercida!
Às vezes acontece que um único evento, é a dobradiça sobre a
qual o caráter inteiro de um homem gira. Uma tentação violenta, conforme é resistida
ou cumprida com êxito, pode ter o efeito de uma determinação fixa para o bem ou
para o mal. Você provavelmente vai se lembrar do exemplo que Foster dá em seu
Ensaio "Sobre decisão de caráter", do jovem que havia desperdiçado
sua propriedade paterna por sua prodigalidade e que, ao examinar a propriedade
perdida de uma colina vizinha, chegou à determinação de recuperá-la novamente.
A resolução foi formada, e ele imediatamente começou a colocá-lo em execução, e
conseguiu.
6. O que é dito das pequenas coisas, também
pode ser dito do tempo. O caráter não é algo a ser formado, mas está sempre
sendo formado. Não é apenas um futuro, mas um processo presente. Ele está
evoluindo de cada evento ocorrido, e é suspenso em cada momento que passa.
De modo que se você perguntar, "ONDE é que
é dado forma ao caráter?" Eu
respondo: "Em todo lugar!"
Se você perguntar: "QUANDO o caráter
deve ser formado?" Eu respondo: "Sempre!"
Se você perguntar: "Por que meios o
caráter deve ser formado?" Eu respondo, "por todos os meios!"
O que deveríamos ser em geral – o que
deveríamos ser em cada particular. O que deveríamos ser em grandes coisas - o
que deveríamos ser nas pequenas. O que deveríamos ser através de todo o futuro
- o que deveríamos ser no momento presente.
7. Cuidado com a excentricidade e
esquisitices. Temos todos os caracteres conhecidos, até mesmo os muito bons e
louváveis, infelizmente desfigurados por elas. Havia algo tão estranho e
simplesmente ridículo sem ser de todo perverso, que parecia, perdoar o símile,
como "olhos vesgos" no que teria sido de outra maneira um rosto
realmente bonito; ou como um grande tumor saindo de uma forma justa e
simétrica. Estou ciente de que algumas pessoas têm procurado ser peculiares, e
ao invés de ser como outras pessoas, gostariam de ser distinguidos por alguma
estranheza em seu caráter. Despreze essa afeição tola, e esteja contente com as
excelências comuns a todos os caracteres encantadores, em vez de cobiçar
distinguir-se pelo que é desagradável, embora possa ser apenas risível.
8. E como há excentricidades a serem
evitadas, também há "ornamentos de caráter" a serem estudados e
adquiridos. Para anunciar novamente a construção de um edifício, ele pode ser
feito de materiais substanciais, e pode ter muitos bons cômodos, e responder
bastante bem ao propósito de uma habitação, mas o todo pode ter uma aparência
de celeiro e nenhum ornamento belo, nenhuma graciosidade, nenhuma elegância,
nem mesmo simplicidade. Ou para se referir à forma humana, um homem pode ter
simetria, força, até beleza, mas seu porte pode ser vulgar, suas maneiras
repulsivas, e sua conversação cansativa.
Não é às vezes assim com o caráter? Pode
haver a posse de integridade, e grande valor moral; em suma, de todas as coisas
que são verdadeiras, e honestas, e puras, e justas; mas não das coisas que são
adoráveis. Falta o temperamento amável, a conversação cortês, a atração da
bondade. É um corpo fino em um vestido desagradável; é um pedaço de ouro, mas
não moldado e não polido; é um diamante não cortado e piscando com todos os
matizes do arco-íris, mas maçante e coberto com suas incrustações terrosas.
O caráter é a melhor coisa na terra; por que
não então investir nele com todos os encantos de que é suscetível, e obrigar os
homens a amá-lo e admirá-lo como fazem com uma joia; tanto para o seu próprio
bem, e por causa do seu belo cenário também? O caráter de cada homem, muito
mais do que sua riqueza, é sua melhor posse, e deve ser exibido não só para
atrair a atenção, mas para excitar admiração e emulação. Devemos esforçar-nos
para tornar a virtude amada, assim como estimada.
Converse com os melhores modelos, vivos ou a
serem encontrados em livros. Pintores, escultores e arquitetos, que se
destacam, estudam as produções dos melhores mestres e não pensam nos gastos e
no trabalho de uma viagem a Atenas, Roma ou Florença para beber na inspiração
produzida pela contemplação das obras de Raphael, Reubens, Fídias e Michelangelo.
Um efeito similar é produzido em uma mente sedenta pela excelência moral, pela
leitura das vidas de homens distinguidos por sua piedade e virtude. O heroísmo
é imbuído diante das estátuas dos heróis: o patriotismo diante dos patriotas; e
a piedade e a virtude diante dos cristãos e moralistas. E se os túmulos dos
"mortos ilustres" nos ajudarem no cultivo de suas virtudes, quanto
mais a comunhão com pessoas vivas de distinta excelência! Qual é o efeito de
nossas próprias lembranças, de uma estátua ou de um quadro; em comparação com
os padrões vivos, falantes, e de distinta piedade e virtude. Oh, você diz, ter
passado um dia com Howard, ou Wilberforce, ou um dos mártires, ou reformadores,
e ter ouvido as expressões de sua piedade, ter visto a beleza de sua virtude,
como teria nos ajudado em nossas tentativas da busca da excelência moral!
Talvez não tanto a sua comunhão com alguns outros caracteres a quem eu poderia
referir-me, quero dizer, aqueles de sua idade, sexo e circunstâncias, que
mantêm a sua integridade, e são padrões de toda excelência; que são provados
com suas provações, assaltados por suas tentações, e ainda são crentes entre
escarnecedores, puros entre os licenciosos, diligentes entre os ociosos e
honestos entre os ladrões.
Quem anda com sábios será sábio. Fogueiras
vizinhas alimentam a chama umas das outros, as árvores em uma plantação ajudam mutuamente
o crescimento, e tanto a virtude como o vício ganham coragem na companhia. O
preceito é a regra para a formação do caráter; o exemplo é o poder plástico que
o molda. Daí as vantagens imensas e óbvias de associações como aquela que tenho
o prazer de abordar agora.
É verdade que há algo que partilha da moral
sublime em um exemplo de eminente piedade singular e virtude, firme e incorruptível,
em meio à corrupção circundante; resistindo igualmente à influência silenciosa,
mas poderosa do exemplo, às artes da persuasão e ao franzir da testa da
autoridade. Tal exemplo assemelha-se a uma nobre coluna erguida em meio a
ruínas, ou ao carvalho alto e majestoso florescendo na solidão em meio a um
deserto, forte sem companheiros, e desprovido de proteção e desafiando a fúria
dos elementos. Mas, quantas árvores, se plantadas numa situação tão exposta, poderiam
ficar eretas, crescer e prosperar! Quanto a generalidade precisa do apoio e proteção
da influência do bosque ou da plantação!
E não é assim com os jovens, no que diz
respeito à formação de seu caráter? Não necessitam de associação, de
camaradagem e de toda a influência diretiva e sustentadora da companhia? Por
isso, repito, o valor de instituições como esta, em que as mudas da raça humana
protegem, apoiam e se ajudam, sob o patrocínio dos veteranos da floresta, que
exibem modelos para seu crescimento, os cobrem com o escudo de seus topos
nobres, e espalham sobre eles seus ramos para defendê-los do calor do sol, e da
força do furacão.
Avanço agora com uma observação que merece a atenção mais
concentrada e séria de toda esta assembleia, como de importância capital. O caráter,
quer seja bom ou mau, é geralmente formado na juventude, e formado, em seguida,
para ambos os mundos. Admito que nem sempre é esse o caso. Às vezes, as
transformações acontecem mais tarde, tão grandes e impressionantes como
inesperadas e belas. Homens perversos, despudorados e sem misericórdia são
transformados em padrões de castidade, temperança e benevolência; uma mudança
tão grande como se um templo se erguesse sobre as ruínas de um bordel, um
palácio no local de barracas, uma mansão de paz doméstica onde havia uma cova
de animais selvagens, e uma morada de anjos onde havia um ajuntamento de
demônios. Mas, esses casos são raros.
O caráter, repito, é geralmente formado na juventude. De
quatorze a vinte e um anos é a crise do ser, a dobradiça do destino, a era da
eternidade. Na infância, a alma é tenra demais para receber impressões
piedosas. Na velhice, é muito difícil receber impressões piedosas. Mas, a
juventude é apenas aquele estado moldável que a recebe e a retém. Há um certo
estágio no início do crescimento de uma maçã ou de uma árvore, quando, se os caracteres
são desenhados sobre sua casca ou caule, eles não somente permanecerão, mas se
desenvolverão com seu crescimento e isto será perpetuado através de toda a existência
do fruto ou da árvore. Assim é com a mente, o que ela recebe na juventude será
o que geralmente manterá durante todo o período de sua futura existência.
III. Mas, isso leva à terceira parte deste discurso, que é
considerar a ETERNIDADE do caráter moral e piedoso. Não está no poder do
intelecto humano, nem do divino, conceber qualquer coisa em relação a este
assunto mais importante ou mais sublime do que isso; a declaração que eu quase
desejo que eu pudesse fazer com a voz do arcanjo e a trombeta de Deus. Não
entrarei aqui em nenhuma prova da imortalidade da alma, e um futuro estado de recompensa
e punição. Considerarei essas verdades momentâneas e solenes como garantidas.
Tampouco me debruçarei sobre a ideia inefavelmente sublime da eternidade,
aquela duração infinita da existência que se burla do poder da aritmética para
calcular e da mente humana ou angélica para compreendê-la. A eternidade é uma
ideia que não pode encontrar espaço para se expandir em toda a sua altura,
profundidade, comprimento e amplitude, mas na mente infinita daquele que
somente no sentido pleno do termo é eterno ou de eternidade a eternidade . A
futura eternidade, se me permite o paradoxo de assim falar do que não tem
relação com o tempo, pertence ao homem, e é a medida de sua existência. O que
eu olho ao redor, ao examinar o público que está diante de mim? Não os seres
efêmeros, as sombras vacilantes, que, como criaturas moribundas, podem parecer
ser. Não! Há sobre cada homem o selo da imortalidade! Há um espírito que vai
voar para além dos limites flamejantes do espaço e do tempo.
As estrelas desaparecerão, o próprio sol
Diminuirá com o tempo, e a natureza afunda
com o passar dos anos,
Mas você florescerá na juventude imortal,
Em meio à guerra dos elementos,
Do naufrágio da matéria e do estrondo dos
mundos.
Não se trata apenas de um derramamento nobre
de poesia, mas da declaração desse precioso volume que abole a morte e traz à
luz a vida e a imortalidade; uma declaração que levanta o assunto da
imortalidade acima dos sonhos da imaginação, das especulações da filosofia e
dos anseios pela existência, inseparável da natureza do homem; a coloca entre
as realidades da verdade, os objetos da fé e as antecipações da esperança.
Tal é a possessão gloriosa, jovens, da qual
a infidelidade e a falsa filosofia a roubariam; e por esse terrível crime lhe
reduziriam à sua miserável mendicância, sem perspectiva senão da sepultura, e
nenhum objeto de esperança senão a aniquilação. Tal a dignidade de que ele iria
expulsá-lo para a degradação de morrer como um cão, depois de viver como um
homem. Deus eterno, o que intentam os seus inimigos! Quão insano projeto! Quão
grande zelo parricida! Para cobrir o teu trono e a nossa sepultura com a
mortalha funerária da morte perpétua, enterrar a tua Divindade e a nossa
humanidade em uma sepultura eterna, e silenciar o teu nome e os nossos
louvores, no silêncio ininterrupto da noite eterna. Vã tentativa! Esforcem-se
por extinguir o sol e aniquilar os planetas; seria uma tarefa fácil em
comparação com o seu empenho em arrancar da alma do homem as suas convicções da
existência de Deus e a esperança de sua própria imortalidade.
Agora, através da eternidade, deve haver
algum caráter. Ninguém pode ser uma mera coisa em branco lá, mais do que aqui. Sempre
somos criaturas racionais e, naturalmente, sempre somos chamados a participar
de algumas qualidades morais; e essas qualidades são adquiridas neste mundo.
Toda a informação positiva que podemos adquirir sobre este assunto deve ser
obtida a partir da revelação bíblica. No entanto, até a razão sugere a
probabilidade de uma eternidade de caráter; ou seja, a perpetuidade pela
eternidade do caráter que adquirimos neste mundo. Devemos ter uma presunção
disto, se nós raciocinamos apenas a partir de analogia. É verdade que a morte
separa os dois estados, e alguns podem pensar que fará uma diferença
considerável e radical na condição da alma. Mas por que? A morte é totalmente
uma mudança física, operando apenas, tanto quanto sabemos, sobre a parte
material de nossa natureza, o derrubar os muros da prisão para deixar o cativo
escapar. A doença por si só não causa mudança moral, e por que a morte causaria?
A consciência moral permanece em existência contínua e inalterada. Não só as
mesmas faculdades continuam, mas as mesmas qualidades morais. (Nota do
tradutor: nesta citação se vislumbra quão mais excelente é a alma do que o
corpo. Não somente pelo fato de que o corpo se desfará, mas a alma não, mas
especialmente por se poder dotar a alma de faculdades e de um caráter eterno do
qual o corpo não pode participar.)
Mas, o que a razão torna provável, a revelação
torna certo. Cada parte do volume sagrado representa este mundo como um estado
de disciplina e provação para o próximo, como tendo a mesma relação com um
mundo futuro que a infância e a juventude fazem para a maturidade plena. Deus
nos colocou aqui na terra, para adquirir um caráter moral eterno. E ele nos dá
a oportunidade de fazê-lo. E nós na realidade o fazemos. Podemos, se quisermos,
obter um mau; há incentivos e tentações que levam a ele se cedermos a eles. Mas,
há também oportunidades e facilidades, se quisermos usá-los, para o oposto. O
tempo decide para a eternidade. A provação termina com a vida, e a morte
estabelece o selo não só no destino, mas no caráter. A partir daquele momento
os bons são bons, e os maus são ruins; para sempre! Os bons são removidos do
mundo, como eles são, em um estado onde a excelência moral não terá mais
controle para o seu desenvolvimento, nem mais tentações para corrompê-los. E
aqueles que são maus, para um estado onde o pecado não terá meios para sua
resistência ou supressão. Todos passam, então, sob a sentença: "Aquele que
é injusto, seja ainda injusto, e o que é imundo, que ainda seja imundo, e quem
é justo, seja justo ainda, e aquele que é santo, seja santo ainda."
A imagem do celeste é assim carimbada sobre
a alma na terra, e a semelhança do eterno no tempo. O último propósito moral do
cristianismo é produzir um caráter eterno e, para isso, conferir os elementos
dele neste mundo, originar na história e no ser moral de cada homem uma série
infinita de ações morais; para iniciar uma progressão sem fim na conduta santa,
e uma prática eterna e gozo de tudo o que é verdadeiro, belo e bom. O presente
é assim o pai do futuro: o caráter na terra é o broto do caráter no céu. Todos
os elementos morais da eternidade são adquiridos e encontrados na alma durante
sua permanência temporária aqui. Cada homem anda na terra como um serafim
incipiente; ou um demônio iniciante. Toda coisa moral que fazemos se estende
muito além da esfera de sua ação; pois configuram em si mesmas uma causa para a
eternidade. As questões eternas são o resultado de cada ação, a encarnação de
cada pensamento, o eco de cada palavra. O que somos agora, é a predição do que
seremos para sempre. Toda ação que participa da qualidade moral, seja de um bom
ou de um mau homem, deixa sobre a tábua da alma, uma marca que será legível lá,
por milhões de anos. O caráter moral trabalha seus próprios resultados; escava
seu próprio inferno, ou constrói seu próprio céu. Em cada caso, é em outro
mundo, a consumação natural e necessária do eu presente do homem nisso. Ele
despoja o mortal e se põe no imortal; mas como é o mortal; tal também é o
imortal. O homem é chamado uma sombra quanto à sua existência transitória, mas
quanto ao seu caráter, ele é a sombra que a eternidade que vem lança diante
dela.
Quanto há na história do homem que não é
eterno; dons, riqueza, posição, fama, conexões; são todos da terra e perecem no
uso. Fazem parte da moda deste mundo, aquela festa alegre e brilhante que logo
passa. Mas o caráter permanece! O que não é eterno, o caráter é. Qualquer outra
coisa que pudermos deixar cair nas fronteiras da sepultura, isso levaremos
conosco, em nós, a qualquer estado em que entrarmos. Não pode ser separado de
nós mesmos, pois somos nós mesmos. Se o amarmos e respeitarmos, conservaremos
para sempre o objeto de nosso afeto; e se o odiarmos e o desprezarmos, devemos
retê-lo para sempre. Quão instrutivo e impressionante é isto para cada homem,
de cada idade e cada condição da vida; mas especialmente para os jovens. Pois,
como é na juventude que o caráter é formado para a maturidade e toda a vida
futura, então é claro que a juventude é o período de formação para a
eternidade.
Feliz será para vocês, meus jovens amigos, se esta noite sua
atenção for atraída para este tema momentoso. O caráter, no que diz respeito a
este mundo, é de indizível importância para si mesmo. Você pode possuir
qualquer autorrespeito sem ele? Quão terrível é ser desprezado, ser vil em
nossa própria estima, ser objeto de desprezo para nós mesmos! Mas, por outro
lado, quão agradável é possuir essa autoestima que está tão longe de orgulho e
autopresunção por um lado, como é de modéstia por outro! Não é a humildade, mas
a ignorância que priva o homem do gozo da retidão consciente. A verdadeira
humildade consiste em pensar em nós mesmos nem mais alto nem mais baixo do que
devemos fazer. Nem é necessário ao exercício desta virtude que nos privemos de
todos os prazeres de uma boa consciência.
O caráter será um escudo em alguns casos contra a tentação,
pois onde ele é muito eminente, o sedutor vai achar que é muito alto demais, ou
demasiado impenetrável para ser invadido. Em outros casos, constituiu uma
defesa contra a difamação, colocando o seu possuidor acima de suspeita. Muitas
vezes é tomado de uma vez como uma garantia para a inocência contra a
difamação. Um homem de reputação bem estabelecida é seguro na confiança
daqueles que o conhecem. Eles o absolvem sem julgamento, e acreditam em sua
inocência sem o julgamento de um tribunal. A calúnia pode, de fato, fixar suas
presas por um momento sobre um caráter impecável; mas tal caráter tem dentro de
si um antídoto para o veneno, e se cura da ferida temporária com força
revigorada e beleza iluminada.
O caráter assegura a estima do sábio e do bom; e mesmo os
homens maus pagam-lhe o tributo de sua admiração, e o elogio de sua
"inveja". Um desejo desmedido por aplausos é uma condição mórbida da
alma, a sede febril da doença; mas uma justa apreciação da estima não desejada
daqueles cujo elogio discriminativo e judicioso nunca é concedido, senão sobre
o que merecem, é ao mesmo tempo um exercício e recompensa da virtude. O caráter
ajudá-lo-á em seu esforço para fazer o bem e para obter sua posição apropriada
na sociedade. "O caráter é poder, o caráter é influência".
Os homens são movidos não somente pelo que é dito, mas pelo
que as pessoas dizem. A reputação dá peso ao conselho, inspira confiança e
atrai cooperação. O sucesso na vida depende disso. O caráter, se não de forma
principal, muitas vezes fornece o lugar dele. O caráter divino é uma das
escadas de ascensão à riqueza e respeitabilidade. Não é apenas um benefício
para vocês mesmos, mas para os outros. É uma rica contribuição para o conforto
doméstico; um elemento essencial para o funcionamento suave e fácil do grande
sistema comercial; o quebra-mar que resiste aos maremotos e às tempestades
oceânicas do mal moral, que ameaçam sempre inundar os interesses da sociedade;
uma repreensão aos maus, um incentivo ao bem, um modelo de imitação para a
geração atual, um rico legado e um benefício póstumo para a geração vindoura. O
caráter de um homem sobrevive a si mesmo e dura tanto quanto seu nome. É seu
monumento mais duradouro e sua mais verdadeira história; e, portanto, todos
estão sob a solene obrigação de consultar seu poder póstumo de fazer o bem ou o
mal. As reminiscências de suas virtudes ou de seus vícios podem murchar ou
promover os interesses da sociedade quando estiver dormindo em sua sepultura.
Mas retornemos, em conclusão, ao aspecto
eterno do caráter. Quão preocupados, quão cuidadosos e laboriosos foram alguns
homens, para construir uma reputação que a posteridade deve conhecer e admirar!
Quando o poeta foi censurado pela lentidão de seus versos, quão impressionante
e digna foi sua resposta: "Escrevo para a imortalidade". Jovens,
vocês estão vivendo, falando, agindo pela imortalidade, sempre e em toda parte
construindo um caráter que durará pela eternidade. É um pensamento solene, sob
o peso do qual a mente mais poderosa pode cambalear, na contemplação de que o
mais ousado pode tremer, e na compreensão de que o mais ambicioso poderia
encontrar um alcance ilimitado para suas aspirações e suas perseguições.
É sábio, às vezes, fazer a nós mesmos a
pergunta, "o que nós seremos em seguida?" Quão logo isso é dito - mas
quem responderá? Pense quão profundamente esta questão, este mistério, nos
preocupa; em comparação com todas as outras questões que a curiosidade ou a
ciência possam perguntar? Qual a nossa futura carreira de acontecimentos, ou o
progresso de estados e impérios, ou a história do nosso globo, ou de todo o
nosso universo material? O que seremos, nós mesmos, é questão de interesse
infinito. Como somos dominados por tentativas de perceber nosso pensamento, o
que, no entanto, será? "Eu que sou o homem, que está aqui, que é assim; o
que eu vou ser, e onde e como, quando este vasto sistema da natureza falecer? O
que eu serei; depois de mais anos do que há folhas ou lâminas de grama em toda
a superfície deste globo, ou átomos em sua enorme massa, terem expirado? Por
todo esse período inconcebível, essa duração infinita e eterna, ainda haverá o
Eu consciente. Pode ser possível então que não devêssemos agora perguntar:
"Que eu serei?" "Que caráter devo carregar?" (Veja a
conferência de Foster sobre nossa ignorância sobre nosso futuro modo de
existência.)
Certamente não pode ser muito exigente,
diante dos membros de uma Associação Cristã dos Jovens, recomendar para tal
objeto o devoto estudo das Sagradas Escrituras, e uma oração fervorosa pela
ajuda do Espírito Santo! Esse volume precioso é o melhor molde em que o caráter
pode ser lançado, mesmo para o tempo; e é o único em que pode ser lançado para
a eternidade. Converse muito com sua Bíblia. Ela é o selo do Espírito de Deus.
Transmita sua mente para a fé de suas doutrinas. Renda seu coração, suavizado
pelo poder da oração à impressão de seus preceitos. Dê sua vida à influência de
seus exemplos; pois ao fazê-lo receberá um caráter que, depois de ter obtido
muitas das vantagens e muito da felicidade da terra, e depois de ter
constituído sua mais rica honra e distinção mais nobre entre seus companheiros
mortais, o acompanharão até o Paraíso de Deus; onde o broto de toda virtude, agora
frequentemente exposto a explosões hostis e geadas, florescerá em beleza
inabalável, além do alcance da tentação e da impureza da corrupção.
Ou, para mudar a figura, onde esse caráter,
aqui desenhado agora, embora imperfeitamente, dos atributos morais de Deus,
será perfeito mesmo como Ele é perfeito. E, ao florescer em beleza imortal, cumprirá
o assunto desta palestra; que a eternidade será a duração desse caráter que é
fundado em princípios piedosos e construído por virtudes cristãs.
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