Título original: Poor and Contrite Spirits—the Objects of the Divine
Favor
Por Samuel Davies
(1724-1761)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas
elas foram feitas, diz o Senhor; mas para esse olharei, para o pobre e abatido
de espírito, e que treme da minha palavra.” (Isaías 66.2)
Como somos constituídos por corpos físicos, bem como almas imortais; dotados de sentidos corporais, bem como de poderes racionais; Deus, que sabiamente adaptou nossa religião ao nosso estado, requer o culto corporal e espiritual; e nos ordena não somente exercitar os poderes interiores de nossa mente em atos apropriados de devoção, mas também expressar nossa devoção interior por ações externas adequadas, atendendo assim às ordenanças exteriores sensatas que Ele designou.
Assim,
isto está sob o evangelho, mas era mais notável sob a lei, que, comparada com o
culto puro e espiritual do evangelho era um sistema de ordenanças corporais, e
exigia grande quantidade de pompa e grandeza externas e serviços corporais. Uma
estrutura cara e magnífica foi erguida por direção divina no deserto, chamado o
tabernáculo, porque era construído na forma de tenda, portátil, se movendo de um
lugar para outro. Mais tarde, Salomão construiu um templo imponente, com custos
imensos, onde o culto divino deveria ser declaradamente celebrado, onde todos
os homens de Israel se reuniriam solenemente para esse propósito, três vezes
por ano. Esses atos e recursos externos não pretendiam excluir o culto interno
do coração, mas expressá-lo e auxiliá-lo.
Esses
cerimoniais não deveriam ser colocados no lugar da moral e espiritualidade, mas
observados como auxílios à prática delas, e prefigurar o grande Messias. Mesmo
sob a dispensação mosaica, Deus tinha o maior respeito pela santidade de
coração e uma vida santa, e o observador mais rigoroso das cerimônias não
poderia ser aceito sem elas.
Mas, é
natural para a humanidade degenerar e inverter a ordem das coisas, priorizando
uma parte, a mais fácil e mais baixa da religião em relação ao todo, para
descansar nos aspectos externos da religião como sendo suficientes, sem
considerar o coração e depender do rigor farisaico nas observâncias
cerimoniais, como desculpa para negligenciar os assuntos mais importantes da
lei; a justiça, a misericórdia e a fé.
Este foi o infeliz erro dos
judeus no tempo de Isaías, que o Senhor corrigiria nos primeiros versos deste
capítulo. Os judeus se gloriaram em ter a casa de Deus entre eles, e sempre
confiaram em palavras vãs: "Não confieis em palavras enganosas e digais:
Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor!" (Jeremias
7: 4).
Eles encheram seus altares com
sacrifícios onerosos; e neles confiaram para fazer expiação pelo pecado, e
assegurar o favor divino.
Quanto a seus sacrifícios, Deus lhes
fez saber que, embora não tivessem nenhum respeito pela lei moral escolheram
seus próprios caminhos e suas almas se deleitaram com suas abominações,
enquanto as apresentavam de maneira formal sem o fogo do amor divino. Seus
sacrifícios estavam tão longe de conseguir Sua aceitação, que eram odiosos para
Ele!
Ele considerava suas ofertas mais
caras, como sendo abomináveis e profanas! "Quem mata um boi é como o que
tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço
a um cão; quem oferece uma oblação, como o que oferece sangue de porco; quem
queima incenso, como o que bendiz a um ídolo. Porquanto eles escolheram os seus
próprios caminhos, e tomam prazer nas suas abominações!" (Isaías 66: 3).
Para remover esta confiança
supersticiosa no templo, o Senhor lhes informou que Ele não tinha necessidade
disso, pois mesmo sendo grande e magnífico, não era apto para contê-Lo; e que,
ao consagrá-lo, não deveriam orgulhosamente pensar que lhe haviam dado algo a
que não tinha direito prévio. "Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e
a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me edificaríeis vós? E que lugar
seria o do meu descanso?” (Isaías 66.1)
O céu onde Eu reino na majestade
visível e grandeza de um Deus, embora a terra não seja adornada com
manifestações tão ilustres de minha presença imediata, e não brilhe em toda a
glória do meu palácio real do Alto, todavia é uma pequena província no meu
império imenso, e sujeita à minha autoridade – ela é o meu escabelo.
Se, então, o céu é o meu trono, e
a terra é o meu escabelo, se toda a criação é meu Reino, onde fica a casa que
você me edifica, onde fica o seu templo que parece tão majestoso a seus olhos, o
qual se desvanece, e é afundado em nada? É capaz de conter aquele Ser infinito
a quem toda a terra é apenas um humilde escabelo do pé, e o vasto céu, senão um
trono? Podes imaginar em vão que a minha presença pode confinar-se nos
estreitos limites de um templo, quando o céu e o céu dos céus não me podem
conter? Onde está o lugar do meu repouso? "Você pode fornecer um lugar
para o meu repouso, como se eu estivesse cansado? Ou, a minha presença pode ser
restringida a um lugar, incapaz de agir além dos limites prescritos?
Não! Somente o espaço infinito
pode igualar o meu ser e as minhas perfeições; apenas o espaço infinito é uma
esfera suficiente para minhas operações! Você pode imaginar que pode subornar o
meu favor e dar-me algo que Eu não tinha direito antes, por todos os edifícios
majestosos que você pode criar para o meu nome? O universo não é meu? Pois todas
estas coisas a minha mão tem criado a partir do nada, e todas elas foram ou
ainda existem com o apoio da minha mão que tudo preserva; e que direito pode
ser mais válido e inalienável do que aquele fundado sobre a criação? Sua prata
e ouro são meus, e meus são o gado sobre mil colinas! E, portanto você me dá, o
que é meu! Diz o Senhor.
Estas são as muitas tensões
majestosas da linguagem, como são dignas de um Deus. Assim, convém-Lhe avançar
acima de toda a criação e afirmar sua propriedade absoluta e independência do
universo. Se Ele tivesse apenas voltado para nós o lado brilhante de seu trono,
que nos deslumbra com esplendor que é tão grande não é possível ser suportado
por nós; se Ele tivesse mostrado sua majestade sem aliar a graça e a
condescendência em linguagem como esta, Ele teria nos condenado e lançado no
mais abjeto desânimo, como os excluídos de sua providência sob seu
conhecimento. Podemos temer que Ele nos negligenciasse com majestoso desdém,
como as pequenas coisas que são chamadas de "grandes" pelos mortais.
Estaríamos prontos para dizer com ansiedade desesperada "Toda esta terra
que para nós parece tão vasta, que está dividida em "mil reinos
poderosos", como os chamamos, é tudo, exceto o humilde banquinho de Deus?
Dificilmente digno de suportar os seus pés?
O que, então, eu sou; uma partícula
de um mundo atômico? Um indivíduo insignificante de uma raça insignificante?
Posso esperar que Deus se importe com uma coisa tão insignificante como eu?
Vastos assuntos do céu e da terra estão sob seu comando e ele está empenhado
nas preocupações do vasto universo - e ele pode encontrar prazer em se
preocupar comigo e meus pequenos interesses?
Um rei, deliberando sobre as
preocupações das nações, interessar-se em favor do verme que rasteja em seu
banquinho? Se o magnífico templo de Salomão era indigno do divino habitante, Ele
vai me admitir em sua presença, e me dar uma audiência? Como posso esperar? Isto
parece ousado e presunçoso; esperar tal condescendência, e então me desespero
da graciosa consideração do meu Criador.
Não! Criatura desanimada, vil e
indigna como tu és; ouve a voz da condescendência divina, assim como da
majestade: "A este homem olharei, para aquele que é pobre, e contrito de
espírito, e que treme da minha palavra!" Embora Deus não habite em templos
feitos com mãos, embora derrame desprezo sobre os príncipes, e despreza-os em
toda a sua glória altiva e majestade afetada, ainda há pessoas que o seu olho
gracioso vai considerar!
O alto e sublime que habita a
eternidade, no lugar alto e santo, Ele olhará para baixo através de todas as
fileiras brilhantes de anjos, para quem? Não para os orgulhosos, os altivos e
presunçosos, mas para o pobre e contrito de espírito, que treme da sua Palavra.
A este homem olhará do trono de sua majestade, por mais baixo que possa ser!
Este homem é um objeto que pode, por assim dizer, atrair os olhos do Deus de
todas as glórias do mundo celestial, de modo a considerar um verme humilde e
abaixo de si mesmo! Este homem nunca poderá ser perdido ou esquecido entre a
multidão de criaturas, mas os olhos do Senhor o descobrirão na maior multidão,
seus olhos fixarão graciosamente este homem em particular, mesmo que existisse
apenas um deles na criação, ou se ele fosse
banido para o canto mais remoto do universo, como um diamante em um monte de
lixo, ou no fundo do oceano!
Vocês ouvem isto, vocês que são
pobres, contritos de espírito, e tremem da sua Palavra? Você que, acima de
todos os outros, é mais propenso a temer que será desprezado por Ele, porque de
todos é o mais profundamente sensível como indigno; saiba que você é de sua
graciosa observação. Deus, o grande, o glorioso, o Deus temível olha para baixo
com olhos de amor, e tanto mais afetuosamente, quanto mais baixo você está em
sua própria estima! Você não está maravilhado e grato clamando "Pode ser?
Pode ser? É realmente possível? É verdade?"
Sim! Você tem a Sua própria
palavra para isso, contudo não acha que seja uma boa notícia para ser verdade,
mas acredite, e se alegre, e dê glória ao Seu nome. Não tema o que homens ou
demônios possam lhe fazer!
Isto, meus irmãos, é uma questão de preocupação
universal. É o interesse de cada um de nós saber, se somos assim graciosamente
considerados por esse Deus, de quem nosso próprio ser e toda nossa felicidade
dependem inteiramente. E como o saberemos? De nenhuma outra maneira do que
descobrindo se temos o caráter desse homem feliz a quem Deus condescende olhar.
Estes não são caráteres pomposos e elevados, não são formados pelas riquezas
terrenas, pela aprendizagem, pela nobreza e pelo poder, "Mas a este homem
olharei", diz o Senhor, "para o pobre e contrito, e que treme da
minha Palavra." Vamos investigar a característica deste caráter.
I. Este é o homem POBRE a quem a Majestade do céu
condescende olhar. Isto não se refere principalmente aos que são
financeiramente pobres neste mundo, pois embora seja comum que "os pobres
deste mundo sejam escolhidos para serem ricos em fé e herdeiros do reino",
(Tiago 2: 5); contudo infelizmente não é uma regra universal para muitos que
são pobres neste mundo, mas não são ricos para com Deus, nem ricos em boas
obras; portanto devem perecer pela eternidade em necessidade, sem remédio e em miséria!
Mas, os pobres aqui significam,
como Cristo os caracteriza mais plenamente, como sendo os pobres de espírito (Mateus
5: 3). Este caráter implica as seguintes características:
1. O homem pobre, a quem Jeová
olha é profundamente sensível de sua própria insuficiência, e nada senão o
prazer de Deus pode fazê-lo feliz. O pobre sente que não é autossuficiente, mas
é dependente de Deus. Ele é sensível à fraqueza e pobreza de sua natureza, e
que não está dotado de um estoque suficiente de riquezas em sua criação, para
apoiá-lo através da eternidade para a qual ele foi formado, ou mesmo por um
único dia.
A fraca vinha não adere mais
estreitamente ao olmo, do que ele faz ao seu Deus. Ele não é mais sensível à
insuficiência de seu corpo para existir sem ar, ou sem alimento e água do que
sua alma pode sobreviver - sem o seu Deus, e o prazer de seu amor. Em suma, ele
é reduzido ao seu devido lugar no sistema do universo; baixo e médio em comparação
com os seres superiores da ordem angélica, especialmente em comparação com o
grande Pai.
Ele sente ser o que realmente é; uma
criatura pobre, impotente, dependente, que não pode viver, nem se mover, nem
existir sem Deus. Ele é sensato de que sua suficiência é de Deus, (2 Coríntios
3: 5), e que todas as fontes de sua felicidade estão nEle. Este senso de sua
dependência de Deus é acompanhado de uma sensação de incapacidade de todos os
prazeres terrenos para fazê-lo feliz e encher as vastas capacidades de sua
alma, que foram formadas para o desfrute de um bem infinito. Ele tem gosto
pelas bênçãos desta vida, mas é atendido com o senso de sua insuficiência, e
não exclui um gosto mais forte para os prazeres superiores da religião
verdadeira. Ele não é precisamente um eremita, ou um ascético amargo por um
lado e, por outro lado, não é um amante do prazer mais do que um amante de
Deus. Se ele não desfruta de grande parte dos confortos desta vida, não
trabalha para isto, nem deseja que isto seja a sua felicidade suprema; ele está
bem seguro de que nunca pode responder a este fim.
É para Deus, é para o Deus vivo, que
sua alma tem mais anseios! Na maior necessidade, ele sente que o gozo do amor
de Deus é mais necessário à sua felicidade do que a posse de todas as bênçãos
terrenas. Ainda, ele é sensato, pois se é miserável na falta destas bênçãos, a
principal causa é a ausência de seu Deus. Oh! Se fosse abençoado com o perfeito
gozo de Deus, poderia dizer, com Habacuque: "Ainda que a figueira não
floresça, nem haja fruto nas vides; ainda que falhe o produto da oliveira, e os
campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado da malhada
e nos currais não haja gado. todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no
Deus da minha salvação.” (Hab. 3:17, 18).
Se ele se agrada de uma riqueza
de bênçãos terrenas, ainda mantém um sentimento de sua necessidade de gozo de Deus.
Estar descontente e insatisfeito é o destino comum dos ricos, assim como dos
pobres; já que ainda estão ansiando, desejando algo desconhecido para completar
sua felicidade. A alma, formada para o gozo do Bem Supremo, secretamente se
afasta no meio de outros prazeres, sem conhecer sua cura. É o gozo de Deus
sozinho, que pode satisfazer seus desejos ilimitados! Mas, infelizmente, não
tem prazer, nem sede; ainda está clamando, "Mais, mais das delícias do
mundo!" Como um homem com febre ardente procurando água fria, que
inflamará sua doença, e ocasionará um retorno mais doloroso da sede.
Mas, os pobres de espírito sabem
onde está sua cura. Eles não perguntam com incerteza: "Quem nos mostrará
algum tipo de bem?" Mas suas petições centram-se nisso como o grande
constituinte de sua felicidade: "Senhor, ergue a luz do teu rosto sobre
nós!" Isto coloca em seus corações mais alegria do que a abundância de trigo
e vinho; salmo 4: 6, 7.
Esta foi a linguagem do salmista:
"A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além
de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; do meu coração, porém, Deus é
a fortaleza, e o meu quinhão para sempre.” Salmo 73:25, 26.
E, como esta disposição se
estende a todas as coisas terrenas, assim faz em relação a todos os prazeres
criados, mesmo para aqueles do mundo celestial! O pobre é sensato, pois sabe
que não poderia ser feliz mesmo lá no céu, sem o gozo de Deus. Sua linguagem é
"Quanto a mim, em retidão contemplarei a tua face; eu me satisfarei com a
tua semelhança quando acordar." (Salmos 17:15).
2. Esta pobreza espiritual
implica profunda humildade e auto-humilhação. O homem pobre a quem o Deus do
céu condescende olhar é humilde em suas próprias apreensões; ele não se considera
um ser de grande importância. Ele não tem alta estima de suas boas qualidades, mas
isto é pouco aos seus próprios olhos. Ele não é capaz de dar a si mesmo a
preferência em vez dos outros, mas está pronto para dar lugar a eles como seus
superiores. Ele tem uma generosidade para contemplar suas qualidades, e
cegueira louvável para com suas imperfeições. Mas ele não é rápido para
discernir suas próprias excelências, nem poupa suas próprias fraquezas. Em vez
de ficar deslumbrado com o esplendor de suas próprias doações ou aquisições,
ele é capaz de negligenciá-las com uma negligência nobre, e é sensível de sua
fraqueza e defeitos.
E quanto às suas qualidades
graciosas, elas parecem pequenas, muito pequenas para ele! Quando considera o
quanto ficam aquém do que deveriam ser, é como se fossem desaparecer, e se
encolhem em nada! Quão frio o seu amor lhe parece em seu maior fervor! Quão
fraca sua fé em sua maior confiança! Como superficial seu arrependimento em sua
maior profundidade! Quão orgulhosa é sua humildade! E quanto às boas ações que tem
realizado; ai, quão poucas, quão mal feitas, quão pequenas parecem diante do
seu dever! Depois de ter feito tudo, ele se considera um servo inútil! E está
mais apto para adotar a linguagem do publicano do que a do fariseu, "Deus
seja misericordioso comigo - um pecador!"
Nas suas mais altas realizações,
não é capaz de admirar a si mesmo, como se fossem de sua própria lavra, e é
muito mais natural para ele cair no extremo oposto, e se considerar como o menor;
sim, menos do que o menor de todos os outros santos sobre a face da terra! E se
ele contender por qualquer preferência, é para o lugar mais baixo na lista de
cristãos.
Esta disposição foi exemplificada
de modo marcante no apóstolo Paulo, que provavelmente tinha feito maiores
avanços em santidade do que qualquer outro santo que jamais foi recebido no céu
a partir deste mundo culpado.
3. Aquele que é pobre em
espírito, tem também um senso humilhante de sua própria pecaminosidade. Sua
memória se lembra rapidamente de seus pecados passados, e é muito perspicaz
para descobrir as corrupções remanescentes de seu coração e as imperfeições de
seus melhores deveres. Ele não é rápido para desculpá-los, mas vê-los
imparcialmente em todas as suas deformidades e agravamentos. Ele duvida
sinceramente se existe um santo sobre a terra tão excessivamente corrupto
quanto ele mesmo! E embora possa estar convencido de que o Senhor começou uma
obra de graça nele e, consequentemente, que está em um estado melhor do que
aqueles que estão sob o domínio prevalecente do pecado; ainda assim, realmente
questiona se existe uma criatura tão depravada no mundo como ele se vê.
Ele é capaz de se considerar o principal
dos pecadores, e o mais endividado à graça livre - do que qualquer outro.
Ele está intimamente
familiarizado consigo mesmo, mas vê apenas o exterior dos outros, e conclui ser
tão deficiente quanto os demais; por isso aborrece a si mesmo por todas as suas
abominações. (Ezequiel 36:31).
A auto-humilhação lhe agrada. Sua
humildade não é forçada; ele não acha grande coisa que venha a afundar tão
baixo. Ele se vê claramente como uma criatura vil, pecadora, e excessivamente
pecaminosa, portanto está certo de que não é condescendência, mas a coisa mais
razoável do mundo é que pense humildemente de si mesmo e se humilhe.
Não é natural para alguém que se
considera um ser de grande importância, inclinar-se, mas é fácil para uma pobre
criatura humilde fazer isso, que olha para si mesmo, e se sente, como sendo
tal.
4. Aquele que é pobre em espírito
é profundamente sensível à sua própria indignidade. Ele vê que em si mesmo não
merece nenhum favor de Deus por todo o bem que já tenha feito, mas que Ele
pode, afinal, rejeitá-lo. Ele não se orgulha de seu bom coração, nem de boa
vida, mas cai no pó diante de Deus e lança toda a sua dependência em sua livre
graça!
5. O
homem que é pobre em espírito, é sensível à sua necessidade das influências da
graça divina para santificá-lo e enriquecê-lo com as graças do Espírito. Ele é
sensível à falta de santidade, que decorre necessariamente do seu senso de
corrupção e da imperfeição de todas as suas graças. A santidade é a única coisa
necessária para ele, a qual deseja e anseia acima de todos as outras coisas; ele é
profundamente sensível que não pode trabalhar em seu próprio coração por sua
própria força. Ele sente que sem Cristo não pode fazer nada, e que é Deus quem
deve trabalhar nele, tanto para querer quanto para fazer. Por isso, como um
homem pobre que não pode existir por si mesmo, depende inteiramente da graça de
Deus para operar todas as suas obras nele, e capacitá-lo a trabalhar sua
salvação com temor e tremor.
6. Ele
é profundamente sensível da necessidade absoluta da justiça de Cristo para sua
justificação. Ele não se julga rico em boas obras para subornar seu juiz e
obter a dispensa, mas como um pobre criminoso que não tendo nada para comprar o
perdão, nada para promover sua própria defesa, lança-se à mercê da Corte
celestial, colocando toda a sua dependência na livre graça de Deus através de
Jesus Cristo. Ele pleiteia somente a justiça de Cristo, e confia somente nela.
O rico desdenha de ser devedor do cuidado de Deu,; mas os pobres, que não podem
existir de si mesmos, receberão isto alegremente.
7. E,
finalmente, o homem que é pobre em espírito é um importuno mendigo no trono da
graça. Ele vive da caridade, das gratificações do céu; e, como estas não podem
ser obtidas sem mendigar, ele está sempre agradecido ao Pai por todas estas
misericórdias.
Ele
atende às ordenanças de Deus, como Bartimeu ao lado do caminho, para pedir a
caridade dos passageiros. A oração é a linguagem natural da pobreza espiritual.
"Os pobres", diz Salomão, "usam súplicas", Provérbios 18:23;
enquanto aqueles que são ricos em sua própria presunção podem viver sem oração,
ou contentar-se com a execução formal e descuidada da mesma.
Este é
o caráter habitual desse homem pobre a quem a Majestade do céu concede o favor
de seu amor. Às vezes, de fato, ele tem pouco sentido dessas coisas, mas está
desconfortável, e trabalha para reobtê-lo, e às vezes é realmente abençoado com
isto.
E, não
há nenhum pobre homem ou mulher nesta assembleia? Espero que haja. Onde estão
vocês, pobres criaturas? Levanta-te e recebe as bênçãos do teu Redentor!
"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos
céus!"
Aquele
que tem o seu trono no alto do céu, e para quem esta vasta terra é apenas um
escabelo, olha para ti com olhos de amor!
Esta pobreza espiritual é uma riqueza
maior do que todos os tesouros do universo! Não vos envergonheis, pois de possuí-la
homens pobres, se sois os tais.
Que Deus assim nos empobreça a
todos, e nos despoje de toda a grandeza e riqueza imaginária, e nos reduza a
pobres mendigos à sua porta! Mas é hora de considerar o outro caráter do homem
feliz, a quem o Senhor do céu olhará graciosamente. Isso é:
II. Contrição de espírito.
A este homem eu olharei; o que é
de espírito contrito. A palavra “contrito” significa “alguém que é batido ou
machucado com golpes duros, ou com um objeto pesado”; como também pertence ao
penitente de luto, cujo coração está quebrado e ferido pelo pecado. O pecado é
uma carga intolerável que o esmaga e machuca, fazendo-o sentir-se dorido e
sofrido sob ele. Seu velho coração pedregoso, que não podia ser impressionado, mas
sim repelir o golpe, é tirado; agora ele tem um novo coração de carne,
facilmente ferido. Seu coração nem sempre é duro e sem sentido, superficial e
insignificante, mas tem sensações ternas. Ele é facilmente susceptível de
tristeza pelo pecado, é humilhado sob o senso de suas imperfeições, e fica
realmente dolorido e angustiado porque não pode servir melhor ao seu Deus, senão
pecar diariamente contra Ele.
Este caráter também pode
concordar com a alma pobre e ansiosa, que é quebrada com medos cruéis de seu
estado. O corajoso pode aventurar seu eterno tudo em incertezas e satisfazer
esperanças agradáveis sem examinar
ansiosamente seu fundamento. Mas, aquele de espírito contrito é ternamente
sensível à importância do
assunto, e não pode ser precipitado
sem alguma boa evidência de segurança.
Tais suposições chocantes como
estas, muitas vezes o assustam e cortam seu próprio coração "E se eu
finalmente me enganasse, e afinal fosse banido daquele Deus em quem reside toda
a minha felicidade?"
Estas são suposições cheias de
terror insuportável quando aparecem, mas possíveis, e muito mais quando parece
haver razão para elas. Tal zelo piedoso habitual como este é um bom sintoma; e para
sua agradável surpresa, cristãos duvidosos, posso dizer-lhes que a Divina
Majestade, que temem que venha a lhes desprezar, olha para vocês com piedade!
Levantem, pois seus olhos para Ele com admiração e confiança alegre. Vocês não
são tão negligenciados como imaginam. A Majestade do céu não acha que olhando debaixo
de Si, veja todas as ordens gloriosas dos anjos, e através de mundos
interpostos, olha para você, na profundidade de seu autoaborrecimento!
Deixe-nos,
III. Considerar o caráter
remanescente do homem feliz a quem o Senhor olhará: “aquele que treme da minha
Palavra”. Esse caráter implica um senso de ternura para com as grandes coisas
da Palavra, e um coração facilmente impressionado com elas, como as realidades
mais importantes. Isso foi notavelmente exemplificado no terno rei Josias. 2
Crôn. 34: 19-21, 27.
Para quem estremece da Palavra
divina, suas ameaças não aparecem em vãos terrores, nem grandes palavras de
vaidade, mas as realidades mais tremendas! Tal pessoa não pode suportar sob elas
- mas tremerá, e cairá, e morrerá - se não for aliviada por alguma feliz
promessa de libertação.
Aquele que treme com a Palavra de
Deus não é um estúpido ouvinte ou leitor. Esta, alcança e perfura seu coração
como uma espada afiada de dois gumes, pois que carrega o poder juntamente com
ela, de modo que ele sente ser a Palavra de Deus e não dos homens, mesmo quando
é falada por fracos mortais. Assim, ele não apenas treme com o terror, mas com
a autoridade da Palavra.
Ele treme com veneração filial da
majestade de Deus falando em sua Palavra. Ele a considera como a sua voz que
falou todas as coisas, cuja glória é tal que uma solenidade profunda deve ser
produzida naqueles que são admitidos para ouvi-lo falar.
Quão oposto é isto em relação ao
temperamento das multidões que consideram a Palavra de Deus não mais do que a
palavra de uma criança ou um tolo! Eles terão seu próprio caminho, fale Deus o
que disser. Eles persistem no pecado em desafio de suas ameaças. Eles se sentem
tão descuidados e insensatos sob sua Palavra, como se fosse alguma história
velha, maçante, insignificante! Raramente faz impressões sobre seus corações
pedregosos; estes são os homens corajosos, imperturbáveis do mundo, que se endurecem contra
o medo do futuro. Mas, criaturas infelizes! O Deus do céu despreza dar-lhes um
olhar gracioso, enquanto fixa os olhos sobre o homem que "é contrito, e
que treme da sua Palavra."
E, onde está aquele homem feliz?
Onde nesta assembleia, onde está o espírito contrito? Onde o homem que treme da
Palavra?
Vocês estão todos prontos para
pegar o caráter, mas não seja presunçoso por um lado, nem excessivamente temeroso
do outro. Pergunte se este é o seu caráter predominante. Se assim for, então
reivindique-o e se regozije nele, embora não o tenha em perfeição. Mas, se não
o fizer, não o apreenda como seu próprio. Embora você tenha ficado às vezes
angustiado com um sentimento de pecado e perigo, e a Palavra aterroriza seu
coração, contudo, a menos que você seja habitualmente de um espírito terno e
contrito, não deve reivindicar o caráter aqui citado no texto.
Mas, vocês, pobres e contritos de espírito, que
tremem diante da Palavra do Senhor entram profundamente no significado dessa
expressão, de que o Senhor olha para vocês. Ele não olha como um espectador
descuidado, que não se preocupa, nem se importa com o que acontecerá com vocês,
mas Ele se considera um pai, um amigo, um benfeitor; seus olhares são eficazes
para o seu bem.
Ele olha para você com aceitação, e está satisfeito
com a visão, pois ama vê-lo trabalhando para Ele, e o vê como o objeto de seu
amor eterno, adquirido pelo sangue de seu Filho. Ele está bem satisfeito com
você por causa de Sua justiça. Por isso, o que olha para o pobre e investiga a
causa da justiça, evita a Sua ira contra os ímpios e seus sacrifícios,
versículo 3 e 4: “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem
sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço a um cão; quem oferece uma
oblação, como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso, como o que
bendiz a um ídolo. Porquanto eles escolheram os seus próprios caminhos, e tomam
prazer nas suas abominações, também eu
escolherei as suas aflições, farei vir sobre eles aquilo que temiam; porque
quando clamei, ninguém respondeu; quando falei, eles não escutaram, mas fizeram
o que era mau aos meus olhos, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer.”
E Aquele a quem você tem ofendido
tanto, Aquele cuja ira você teme acima de todas as outras coisas; Ele está
realmente reconciliado a ti, e se deleita em ti? Que causa de alegria, de
louvor e de admiração está aqui!
Mais uma vez, Ele olha para tomar
nota particular de você. Ele vê todo o funcionamento de seu coração para com ele,
e se compadece de seus honestos, embora fracos conflitos com o pecado interior.
Ele observa todos os seus esforços fiéis, embora fracos, para servi-Lo. Seus
olhos penetram seus próprios corações, e o menor movimento lá não pode escapar
de sua atenção. Isso, na verdade, poderia fazer você tremer, pois se Ele
olhasse para você com os olhos de um juiz; oh, quantas abominações deveria ver
em você! Mas, tenha bom ânimo, Ele olha para você com os olhos de um amigo, com
aquele amor que cobre uma multidão de pecados. Ele olha para você com os olhos
de compaixão em todas as suas calamidades. Ele olha para que você não seja
dominado e esmagado.
Davi, que passou por muitas
tribulações e aflições como qualquer um de vocês, poderia dizer de sua feliz
experiência: "Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos
estão abertos ao seu clamor!" (Salmo 34:15).
Finalmente, Ele olha para cuidar
de você, como fazemos com os doentes e fracos. Ele olha para provê-lo. Ele lhe
dará graça e glória, e nada de bom lhe será recusado, Salmos 84:11.
Você não está seguro e feliz sob
a vigilância de um pai e um amigo? Deixe um pouco de coragem humilde animá-lo
em meio a seus muitos abatimentos, e confie no cuidado do qual você se sente
ser tão indigno.
Aqui pode não ser errado
observar, o que deve lhe dar nenhum pequeno prazer, que aquelas mesmas pessoas
que, segundo a estimativa dos homens são as mais prováveis de serem negligenciadas, são aquelas
que Deus graciosamente considera. As pessoas são capazes de clamar "Eu
ficaria feliz se pudesse crer que o Deus do céu me olha com graça, mas,
infelizmente, sinto-me uma pobre e indigna criatura, sou uma coisa trêmula,
quebrada de coração à vista de tão grande Majestade!”
E você é mesmo assim? Então eu
posso converter sua objeção em um encorajamento. Você é a própria pessoa a quem
Deus olha! Seus olhos estão correndo para a frente e para trás através da terra
em busca de tais como você é; e Ele os encontrará entre a multidão inumerável
da humanidade!
Você estava cercado de multidões
de reis e nobres, mas seus olhos passariam por todos eles para se fixarem em
você! Que artifício glorioso é este, se assim posso dizer; apanhar e converter
o desânimo da pessoa em um fundamento de coragem! Para produzir aquele caráter
dos favoritos do céu, que eles mesmos olham como marcas de sua negligência!
"Ai!" Diz o pobre
homem, "se eu fosse objeto de repreensão divina, Ele não me permitiria
continuar tão pobre e de coração quebrantado". Mas você pode raciocinar
diretamente o contrário; Ele te faz assim, pobre em espírito, sensível de tua
pecaminosidade e imperfeições, porque graciosamente te considera. Ele não vai
permitir que você seja inchado com sua bondade imaginária como o resto do
mundo, porque ama você mais do que Ele os ama!
No entanto, por mais inexplicável
que este procedimento possa parecer, há muito bom motivo para isso. Os pobres de
espírito são as únicas pessoas que apreciam o gozo de Deus e valorizam seu amor;
só eles são capazes da felicidade do céu, que consiste na perfeição da
santidade.
Para concluir, vejamos a
perfeição e a condescendência de Deus, como ilustrado por este assunto.
Considere você, pobre de espírito, e Aquele que se inclina a olhar para coisas
tão pequenas como você! É Aquele cujo trono está no céu mais alto, rodeado de
miríades de anjos e arcanjos! É Aquele cujo escabelo é a terra, que sustenta
toda a criação nEle! É Aquele que é exaltado acima das bênçãos e louvores de
todos os exércitos celestiais, e que não pode, sem condescendência, ver as
coisas que são feitas, vendo-as a partir do céu! É Ele quem olha para baixo para
tais vermes pobres como você!
E, que inclinação é esta! É Aquele
que olha para você em particular, que cuida de todos os mundos que fez. Ele
administra todos os assuntos do universo; cuida de cada indivíduo em sua vasta
família; provê todas as suas criaturas, e, no entanto tem prazer em vê-las
especificamente. Ele tem particular atenção sobre você, como se fosse sua única
criatura! Que perfeição é essa! Que alcance infinito de pensamento! Que poder
ilimitado!
E que condescendência também! Mas,
considere o que uma pequena figura como você faz no universo dos seres. Você
não é, em comparação com a multidão infinita de criaturas da natureza, como um
grão de areia está para toda areia que existe no mar.
E, no entanto, aquele que cuida
de todo o universo, tem especial atenção em você, que é apenas uma bagatela em comparação com seus
semelhantes; e que se fosse aniquilado, dificilmente deixaria um espaço em
branco na criação! Considere isso e admire-se da condescendência de Deus; considere
isso e reconheça sua própria vileza; você não é nada, não só comparado com
Deus, mas você é como nada no sistema da criação!
Vou acrescentar, senão esta única
reflexão natural: se é tão grande a felicidade de ter o grande Deus para ser o
nosso patrono; então o que é estar fora de seu favor? Ser ignorado por Ele?
Penso que um tremor unido pode apoderar-se desta assembleia na própria
suposição.
Existe tal criatura no universo
nesta condição miserável? Eu penso que toda a criação também deve ter pena
dele.
Onde está o ser miserável a ser
encontrado? Devemos descer ao inferno para encontrá-lo? Não, infelizmente! Há
muitos dos tais na terra! Não, eu devo me aproximar ainda de você, há muitos dos
tais nesta assembleia! Todos os que estão entre vocês são os tais, desde que
não são pobres e contritos de espírito, e que não tremem da Palavra do Senhor.
E você não é um deste número
miserável, oh homem?
Desconsiderado pelo Deus que lhe
criou! Não favorecido com um olhar de amor pelo autor de toda a felicidade! Ele
olha para você de fato, mas com olhos de
indignação, marcando-o por vingança!
E você pode ser insensível nesse
caso? Você não trabalhará para empobrecer a si mesmo, e ter seu coração
quebrado, para que possa tornar-se o objeto de sua graciosa consideração?
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