segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Espíritos Pobres e Contritos - o Objeto do Favor Divino

  
Título original: Poor and Contrite Spirits—the Objects of the Divine Favor

Por Samuel Davies (1724-1761)

Traduzido, Adaptado e
Editado por Silvio Dutra

 

“Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o Senhor; mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra.” (Isaías 66.2)

Como somos constituídos por corpos físicos,  bem como almas imortais; dotados de sentidos corporais, bem como de poderes racionais; Deus, que sabiamente adaptou nossa religião ao nosso estado, requer o culto corporal e espiritual; e nos ordena não somente exercitar os poderes interiores de nossa mente em atos apropriados de devoção, mas também expressar nossa devoção interior por ações externas adequadas, atendendo assim às ordenanças exteriores sensatas que Ele designou.
Assim, isto está sob o evangelho, mas era mais notável sob a lei, que, comparada com o culto puro e espiritual do evangelho era um sistema de ordenanças corporais, e exigia grande quantidade de pompa e grandeza externas e serviços corporais. Uma estrutura cara e magnífica foi erguida por direção divina no deserto, chamado o tabernáculo, porque era construído na forma de tenda, portátil, se movendo de um lugar para outro. Mais tarde, Salomão construiu um templo imponente, com custos imensos, onde o culto divino deveria ser declaradamente celebrado, onde todos os homens de Israel se reuniriam solenemente para esse propósito, três vezes por ano. Esses atos e recursos externos não pretendiam excluir o culto interno do coração, mas expressá-lo e auxiliá-lo.
Esses cerimoniais não deveriam ser colocados no lugar da moral e espiritualidade, mas observados como auxílios à prática delas, e prefigurar o grande Messias. Mesmo sob a dispensação mosaica, Deus tinha o maior respeito pela santidade de coração e uma vida santa, e o observador mais rigoroso das cerimônias não poderia ser aceito sem elas.
Mas, é natural para a humanidade degenerar e inverter a ordem das coisas, priorizando uma parte, a mais fácil e mais baixa da religião em relação ao todo, para descansar nos aspectos externos da religião como sendo suficientes, sem considerar o coração e depender do rigor farisaico nas observâncias cerimoniais, como desculpa para negligenciar os assuntos mais importantes da lei; a justiça, a misericórdia e a fé.
Este foi o infeliz erro dos judeus no tempo de Isaías, que o Senhor corrigiria nos primeiros versos deste capítulo. Os judeus se gloriaram em ter a casa de Deus entre eles, e sempre confiaram em palavras vãs: "Não confieis em palavras enganosas e digais: Este é o templo do Senhor, o templo do Senhor, o templo do Senhor!" (Jeremias 7: 4).
Eles encheram seus altares com sacrifícios onerosos; e neles confiaram para fazer expiação pelo pecado, e assegurar o favor divino.
Quanto a seus sacrifícios, Deus lhes fez saber que, embora não tivessem nenhum respeito pela lei moral escolheram seus próprios caminhos e suas almas se deleitaram com suas abominações, enquanto as apresentavam de maneira formal sem o fogo do amor divino. Seus sacrifícios estavam tão longe de conseguir Sua aceitação, que eram odiosos para Ele!
Ele considerava suas ofertas mais caras, como sendo abomináveis e profanas! "Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço a um cão; quem oferece uma oblação, como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso, como o que bendiz a um ídolo. Porquanto eles escolheram os seus próprios caminhos, e tomam prazer nas suas abominações!" (Isaías 66: 3).
Para remover esta confiança supersticiosa no templo, o Senhor lhes informou que Ele não tinha necessidade disso, pois mesmo sendo grande e magnífico, não era apto para contê-Lo; e que, ao consagrá-lo, não deveriam orgulhosamente pensar que lhe haviam dado algo a que não tinha direito prévio. "Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me edificaríeis vós? E que lugar seria o do meu descanso?” (Isaías 66.1)
O céu onde Eu reino na majestade visível e grandeza de um Deus, embora a terra não seja adornada com manifestações tão ilustres de minha presença imediata, e não brilhe em toda a glória do meu palácio real do Alto, todavia é uma pequena província no meu império imenso, e sujeita à minha autoridade – ela é o meu escabelo.
Se, então, o céu é o meu trono, e a terra é o meu escabelo, se toda a criação é meu Reino, onde fica a casa que você me edifica, onde fica o seu templo que parece tão majestoso a seus olhos, o qual se desvanece, e é afundado em nada? É capaz de conter aquele Ser infinito a quem toda a terra é apenas um humilde escabelo do pé, e o vasto céu, senão um trono? Podes imaginar em vão que a minha presença pode confinar-se nos estreitos limites de um templo, quando o céu e o céu dos céus não me podem conter? Onde está o lugar do meu repouso? "Você pode fornecer um lugar para o meu repouso, como se eu estivesse cansado? Ou, a minha presença pode ser restringida a um lugar, incapaz de agir além dos limites prescritos?
Não! Somente o espaço infinito pode igualar o meu ser e as minhas perfeições; apenas o espaço infinito é uma esfera suficiente para minhas operações! Você pode imaginar que pode subornar o meu favor e dar-me algo que Eu não tinha direito antes, por todos os edifícios majestosos que você pode criar para o meu nome? O universo não é meu? Pois todas estas coisas a minha mão tem criado a partir do nada, e todas elas foram ou ainda existem com o apoio da minha mão que tudo preserva; e que direito pode ser mais válido e inalienável do que aquele fundado sobre a criação? Sua prata e ouro são meus, e meus são o gado sobre mil colinas! E, portanto você me dá, o que é meu! Diz o Senhor.
Estas são as muitas tensões majestosas da linguagem, como são dignas de um Deus. Assim, convém-Lhe avançar acima de toda a criação e afirmar sua propriedade absoluta e independência do universo. Se Ele tivesse apenas voltado para nós o lado brilhante de seu trono, que nos deslumbra com esplendor que é tão grande não é possível ser suportado por nós; se Ele tivesse mostrado sua majestade sem aliar a graça e a condescendência em linguagem como esta, Ele teria nos condenado e lançado no mais abjeto desânimo, como os excluídos de sua providência sob seu conhecimento. Podemos temer que Ele nos negligenciasse com majestoso desdém, como as pequenas coisas que são chamadas de "grandes" pelos mortais. Estaríamos prontos para dizer com ansiedade desesperada "Toda esta terra que para nós parece tão vasta, que está dividida em "mil reinos poderosos", como os chamamos, é tudo, exceto o humilde banquinho de Deus? Dificilmente digno de suportar os seus pés?
O que, então, eu sou; uma partícula de um mundo atômico? Um indivíduo insignificante de uma raça insignificante? Posso esperar que Deus se importe com uma coisa tão insignificante como eu? Vastos assuntos do céu e da terra estão sob seu comando e ele está empenhado nas preocupações do vasto universo - e ele pode encontrar prazer em se preocupar comigo e meus pequenos interesses?
Um rei, deliberando sobre as preocupações das nações, interessar-se em favor do verme que rasteja em seu banquinho? Se o magnífico templo de Salomão era indigno do divino habitante, Ele vai me admitir em sua presença, e me dar uma audiência? Como posso esperar? Isto parece ousado e presunçoso; esperar tal condescendência, e então me desespero da graciosa consideração do meu Criador.
Não! Criatura desanimada, vil e indigna como tu és; ouve a voz da condescendência divina, assim como da majestade: "A este homem olharei, para aquele que é pobre, e contrito de espírito, e que treme da minha palavra!" Embora Deus não habite em templos feitos com mãos, embora derrame desprezo sobre os príncipes, e despreza-os em toda a sua glória altiva e majestade afetada, ainda há pessoas que o seu olho gracioso vai considerar!
O alto e sublime que habita a eternidade, no lugar alto e santo, Ele olhará para baixo através de todas as fileiras brilhantes de anjos, para quem? Não para os orgulhosos, os altivos e presunçosos, mas para o pobre e contrito de espírito, que treme da sua Palavra. A este homem olhará do trono de sua majestade, por mais baixo que possa ser! Este homem é um objeto que pode, por assim dizer, atrair os olhos do Deus de todas as glórias do mundo celestial, de modo a considerar um verme humilde e abaixo de si mesmo! Este homem nunca poderá ser perdido ou esquecido entre a multidão de criaturas, mas os olhos do Senhor o descobrirão na maior multidão, seus olhos fixarão graciosamente este homem em particular, mesmo que existisse apenas um deles na  criação, ou se ele fosse banido para o canto mais remoto do universo, como um diamante em um monte de lixo, ou no fundo do oceano!
Vocês ouvem isto, vocês que são pobres, contritos de espírito, e tremem da sua Palavra? Você que, acima de todos os outros, é mais propenso a temer que será desprezado por Ele, porque de todos é o mais profundamente sensível como indigno; saiba que você é de sua graciosa observação. Deus, o grande, o glorioso, o Deus temível olha para baixo com olhos de amor, e tanto mais afetuosamente, quanto mais baixo você está em sua própria estima! Você não está maravilhado e grato clamando "Pode ser? Pode ser? É realmente possível? É verdade?"
Sim! Você tem a Sua própria palavra para isso, contudo não acha que seja uma boa notícia para ser verdade, mas acredite, e se alegre, e dê glória ao Seu nome. Não tema o que homens ou demônios possam lhe fazer!
Isto, meus irmãos, é uma questão de preocupação universal. É o interesse de cada um de nós saber, se somos assim graciosamente considerados por esse Deus, de quem nosso próprio ser e toda nossa felicidade dependem inteiramente. E como o saberemos? De nenhuma outra maneira do que descobrindo se temos o caráter desse homem feliz a quem Deus condescende olhar. Estes não são caráteres pomposos e elevados, não são formados pelas riquezas terrenas, pela aprendizagem, pela nobreza e pelo poder, "Mas a este homem olharei", diz o Senhor, "para o pobre e contrito, e que treme da minha Palavra." Vamos investigar a característica deste caráter.
I. Este é o homem POBRE a quem a Majestade do céu condescende olhar. Isto não se refere principalmente aos que são financeiramente pobres neste mundo, pois embora seja comum que "os pobres deste mundo sejam escolhidos para serem ricos em fé e herdeiros do reino", (Tiago 2: 5); contudo infelizmente não é uma regra universal para muitos que são pobres neste mundo, mas não são ricos para com Deus, nem ricos em boas obras; portanto devem perecer pela eternidade em necessidade, sem remédio e em miséria!
Mas, os pobres aqui significam, como Cristo os caracteriza mais plenamente, como sendo os pobres de espírito (Mateus 5: 3). Este caráter implica as seguintes características:
1. O homem pobre, a quem Jeová olha é profundamente sensível de sua própria insuficiência, e nada senão o prazer de Deus pode fazê-lo feliz. O pobre sente que não é autossuficiente, mas é dependente de Deus. Ele é sensível à fraqueza e pobreza de sua natureza, e que não está dotado de um estoque suficiente de riquezas em sua criação, para apoiá-lo através da eternidade para a qual ele foi formado, ou mesmo por um único dia.
A fraca vinha não adere mais estreitamente ao olmo, do que ele faz ao seu Deus. Ele não é mais sensível à insuficiência de seu corpo para existir sem ar, ou sem alimento e água do que sua alma pode sobreviver - sem o seu Deus, e o prazer de seu amor. Em suma, ele é reduzido ao seu devido lugar no sistema do universo; baixo e médio em comparação com os seres superiores da ordem angélica, especialmente em comparação com o grande Pai.
Ele sente ser o que realmente é; uma criatura pobre, impotente, dependente, que não pode viver, nem se mover, nem existir sem Deus. Ele é sensato de que sua suficiência é de Deus, (2 Coríntios 3: 5), e que todas as fontes de sua felicidade estão nEle. Este senso de sua dependência de Deus é acompanhado de uma sensação de incapacidade de todos os prazeres terrenos para fazê-lo feliz e encher as vastas capacidades de sua alma, que foram formadas para o desfrute de um bem infinito. Ele tem gosto pelas bênçãos desta vida, mas é atendido com o senso de sua insuficiência, e não exclui um gosto mais forte para os prazeres superiores da religião verdadeira. Ele não é precisamente um eremita, ou um ascético amargo por um lado e, por outro lado, não é um amante do prazer mais do que um amante de Deus. Se ele não desfruta de grande parte dos confortos desta vida, não trabalha para isto, nem deseja que isto seja a sua felicidade suprema; ele está bem seguro de que nunca pode responder a este fim.
É para Deus, é para o Deus vivo, que sua alma tem mais anseios! Na maior necessidade, ele sente que o gozo do amor de Deus é mais necessário à sua felicidade do que a posse de todas as bênçãos terrenas. Ainda, ele é sensato, pois se é miserável na falta destas bênçãos, a principal causa é a ausência de seu Deus. Oh! Se fosse abençoado com o perfeito gozo de Deus, poderia dizer, com Habacuque: "Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas vides; ainda que falhe o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado da malhada e nos currais não haja gado. todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação.” (Hab. 3:17, 18).
Se ele se agrada de uma riqueza de bênçãos terrenas, ainda mantém um sentimento de sua necessidade de gozo de Deus. Estar descontente e insatisfeito é o destino comum dos ricos, assim como dos pobres; já que ainda estão ansiando, desejando algo desconhecido para completar sua felicidade. A alma, formada para o gozo do Bem Supremo, secretamente se afasta no meio de outros prazeres, sem conhecer sua cura. É o gozo de Deus sozinho, que pode satisfazer seus desejos ilimitados! Mas, infelizmente, não tem prazer, nem sede; ainda está clamando, "Mais, mais das delícias do mundo!" Como um homem com febre ardente procurando água fria, que inflamará sua doença, e ocasionará um retorno mais doloroso da sede.
Mas, os pobres de espírito sabem onde está sua cura. Eles não perguntam com incerteza: "Quem nos mostrará algum tipo de bem?" Mas suas petições centram-se nisso como o grande constituinte de sua felicidade: "Senhor, ergue a luz do teu rosto sobre nós!" Isto coloca em seus corações mais alegria do que a abundância de trigo e vinho; salmo 4: 6, 7.
Esta foi a linguagem do salmista: "A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; do meu coração, porém, Deus é a fortaleza, e o meu quinhão para sempre.” Salmo 73:25, 26.
E, como esta disposição se estende a todas as coisas terrenas, assim faz em relação a todos os prazeres criados, mesmo para aqueles do mundo celestial! O pobre é sensato, pois sabe que não poderia ser feliz mesmo lá no céu, sem o gozo de Deus. Sua linguagem é "Quanto a mim, em retidão contemplarei a tua face; eu me satisfarei com a tua semelhança quando acordar." (Salmos 17:15).
2. Esta pobreza espiritual implica profunda humildade e auto-humilhação. O homem pobre a quem o Deus do céu condescende olhar é humilde em suas próprias apreensões; ele não se considera um ser de grande importância. Ele não tem alta estima de suas boas qualidades, mas isto é pouco aos seus próprios olhos. Ele não é capaz de dar a si mesmo a preferência em vez dos outros, mas está pronto para dar lugar a eles como seus superiores. Ele tem uma generosidade para contemplar suas qualidades, e cegueira louvável para com suas imperfeições. Mas ele não é rápido para discernir suas próprias excelências, nem poupa suas próprias fraquezas. Em vez de ficar deslumbrado com o esplendor de suas próprias doações ou aquisições, ele é capaz de negligenciá-las com uma negligência nobre, e é sensível de sua fraqueza e defeitos.
E quanto às suas qualidades graciosas, elas parecem pequenas, muito pequenas para ele! Quando considera o quanto ficam aquém do que deveriam ser, é como se fossem desaparecer, e se encolhem em nada! Quão frio o seu amor lhe parece em seu maior fervor! Quão fraca sua fé em sua maior confiança! Como superficial seu arrependimento em sua maior profundidade! Quão orgulhosa é sua humildade! E quanto às boas ações que tem realizado; ai, quão poucas, quão mal feitas, quão pequenas parecem diante do seu dever! Depois de ter feito tudo, ele se considera um servo inútil! E está mais apto para adotar a linguagem do publicano do que a do fariseu, "Deus seja misericordioso comigo - um pecador!"
Nas suas mais altas realizações, não é capaz de admirar a si mesmo, como se fossem de sua própria lavra, e é muito mais natural para ele cair no extremo oposto, e se considerar como o menor; sim, menos do que o menor de todos os outros santos sobre a face da terra! E se ele contender por qualquer preferência, é para o lugar mais baixo na lista de cristãos.
Esta disposição foi exemplificada de modo marcante no apóstolo Paulo, que provavelmente tinha feito maiores avanços em santidade do que qualquer outro santo que jamais foi recebido no céu a partir deste mundo culpado.
3. Aquele que é pobre em espírito, tem também um senso humilhante de sua própria pecaminosidade. Sua memória se lembra rapidamente de seus pecados passados, e é muito perspicaz para descobrir as corrupções remanescentes de seu coração e as imperfeições de seus melhores deveres. Ele não é rápido para desculpá-los, mas vê-los imparcialmente em todas as suas deformidades e agravamentos. Ele duvida sinceramente se existe um santo sobre a terra tão excessivamente corrupto quanto ele mesmo! E embora possa estar convencido de que o Senhor começou uma obra de graça nele e, consequentemente, que está em um estado melhor do que aqueles que estão sob o domínio prevalecente do pecado; ainda assim, realmente questiona se existe uma criatura tão depravada no mundo como ele se vê.
Ele é capaz de se considerar o principal dos pecadores, e o mais endividado à graça livre - do que qualquer outro.
Ele está intimamente familiarizado consigo mesmo, mas vê apenas o exterior dos outros, e conclui ser tão deficiente quanto os demais; por isso aborrece a si mesmo por todas as suas abominações. (Ezequiel 36:31).
A auto-humilhação lhe agrada. Sua humildade não é forçada; ele não acha grande coisa que venha a afundar tão baixo. Ele se vê claramente como uma criatura vil, pecadora, e excessivamente pecaminosa, portanto está certo de que não é condescendência, mas a coisa mais razoável do mundo é que pense humildemente de si mesmo e se humilhe.
Não é natural para alguém que se considera um ser de grande importância, inclinar-se, mas é fácil para uma pobre criatura humilde fazer isso, que olha para si mesmo, e se sente, como sendo tal.
4. Aquele que é pobre em espírito é profundamente sensível à sua própria indignidade. Ele vê que em si mesmo não merece nenhum favor de Deus por todo o bem que já tenha feito, mas que Ele pode, afinal, rejeitá-lo. Ele não se orgulha de seu bom coração, nem de boa vida, mas cai no pó diante de Deus e lança toda a sua dependência em sua livre graça!
5. O homem que é pobre em espírito, é sensível à sua necessidade das influências da graça divina para santificá-lo e enriquecê-lo com as graças do Espírito. Ele é sensível à falta de santidade, que decorre necessariamente do seu senso de corrupção e da imperfeição de todas as suas graças. A santidade é a única coisa necessária para ele, a qual deseja e anseia  acima de todos as outras coisas; ele é profundamente sensível que não pode trabalhar em seu próprio coração por sua própria força. Ele sente que sem Cristo não pode fazer nada, e que é Deus quem deve trabalhar nele, tanto para querer quanto para fazer. Por isso, como um homem pobre que não pode existir por si mesmo, depende inteiramente da graça de Deus para operar todas as suas obras nele, e capacitá-lo a trabalhar sua salvação com temor e tremor.
6. Ele é profundamente sensível da necessidade absoluta da justiça de Cristo para sua justificação. Ele não se julga rico em boas obras para subornar seu juiz e obter a dispensa, mas como um pobre criminoso que não tendo nada para comprar o perdão, nada para promover sua própria defesa, lança-se à mercê da Corte celestial, colocando toda a sua dependência na livre graça de Deus através de Jesus Cristo. Ele pleiteia somente a justiça de Cristo, e confia somente nela. O rico desdenha de ser devedor do cuidado de Deu,; mas os pobres, que não podem existir de si mesmos, receberão isto alegremente.
7. E, finalmente, o homem que é pobre em espírito é um importuno mendigo no trono da graça. Ele vive da caridade, das gratificações do céu; e, como estas não podem ser obtidas sem mendigar, ele está sempre agradecido ao Pai por todas estas misericórdias.
Ele atende às ordenanças de Deus, como Bartimeu ao lado do caminho, para pedir a caridade dos passageiros. A oração é a linguagem natural da pobreza espiritual. "Os pobres", diz Salomão, "usam súplicas", Provérbios 18:23; enquanto aqueles que são ricos em sua própria presunção podem viver sem oração, ou contentar-se com a execução formal e descuidada da mesma.
Este é o caráter habitual desse homem pobre a quem a Majestade do céu concede o favor de seu amor. Às vezes, de fato, ele tem pouco sentido dessas coisas, mas está desconfortável, e trabalha para reobtê-lo, e às vezes é realmente abençoado com isto.
E, não há nenhum pobre homem ou mulher nesta assembleia? Espero que haja. Onde estão vocês, pobres criaturas? Levanta-te e recebe as bênçãos do teu Redentor! "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus!"
Aquele que tem o seu trono no alto do céu, e para quem esta vasta terra é apenas um escabelo, olha para ti com olhos de amor!
Esta pobreza espiritual é uma riqueza maior do que todos os tesouros do universo! Não vos envergonheis, pois de possuí-la homens pobres, se sois os tais.
Que Deus assim nos empobreça a todos, e nos despoje de toda a grandeza e riqueza imaginária, e nos reduza a pobres mendigos à sua porta! Mas é hora de considerar o outro caráter do homem feliz, a quem o Senhor do céu olhará graciosamente. Isso é:
II. Contrição de espírito.
A este homem eu olharei; o que é de espírito contrito. A palavra “contrito” significa “alguém que é batido ou machucado com golpes duros, ou com um objeto pesado”; como também pertence ao penitente de luto, cujo coração está quebrado e ferido pelo pecado. O pecado é uma carga intolerável que o esmaga e machuca, fazendo-o sentir-se dorido e sofrido sob ele. Seu velho coração pedregoso, que não podia ser impressionado, mas sim repelir o golpe, é tirado; agora ele tem um novo coração de carne, facilmente ferido. Seu coração nem sempre é duro e sem sentido, superficial e insignificante, mas tem sensações ternas. Ele é facilmente susceptível de tristeza pelo pecado, é humilhado sob o senso de suas imperfeições, e fica realmente dolorido e angustiado porque não pode servir melhor ao seu Deus, senão pecar diariamente contra Ele.
Este caráter também pode concordar com a alma pobre e ansiosa, que é quebrada com medos cruéis de seu estado. O corajoso pode aventurar seu eterno tudo em incertezas e satisfazer esperanças agradáveis ​​sem examinar ansiosamente seu fundamento. Mas, aquele de espírito contrito é ternamente sensível à importância do assunto, e não pode ser precipitado sem alguma boa evidência de segurança.
Tais suposições chocantes como estas, muitas vezes o assustam e cortam seu próprio coração "E se eu finalmente me enganasse, e afinal fosse banido daquele Deus em quem reside toda a minha felicidade?"
Estas são suposições cheias de terror insuportável quando aparecem, mas possíveis, e muito mais quando parece haver razão para elas. Tal zelo piedoso habitual como este é um bom sintoma; e para sua agradável surpresa, cristãos duvidosos, posso dizer-lhes que a Divina Majestade, que temem que venha a lhes desprezar, olha para vocês com piedade! Levantem, pois seus olhos para Ele com admiração e confiança alegre. Vocês não são tão negligenciados como imaginam. A Majestade do céu não acha que olhando debaixo de Si, veja todas as ordens gloriosas dos anjos, e através de mundos interpostos, olha para você, na profundidade de seu autoaborrecimento! Deixe-nos,
III. Considerar o caráter remanescente do homem feliz a quem o Senhor olhará: “aquele que treme da minha Palavra”. Esse caráter implica um senso de ternura para com as grandes coisas da Palavra, e um coração facilmente impressionado com elas, como as realidades mais importantes. Isso foi notavelmente exemplificado no terno rei Josias. 2 Crôn. 34: 19-21, 27.
Para quem estremece da Palavra divina, suas ameaças não aparecem em vãos terrores, nem grandes palavras de vaidade, mas as realidades mais tremendas! Tal pessoa não pode suportar sob elas - mas tremerá, e cairá, e morrerá - se não for aliviada por alguma feliz promessa de libertação.
Aquele que treme com a Palavra de Deus não é um estúpido ouvinte ou leitor. Esta, alcança e perfura seu coração como uma espada afiada de dois gumes, pois que carrega o poder juntamente com ela, de modo que ele sente ser a Palavra de Deus e não dos homens, mesmo quando é falada por fracos mortais. Assim, ele não apenas treme com o terror, mas com a autoridade da Palavra.
Ele treme com veneração filial da majestade de Deus falando em sua Palavra. Ele a considera como a sua voz que falou todas as coisas, cuja glória é tal que uma solenidade profunda deve ser produzida naqueles que são admitidos para ouvi-lo falar.
Quão oposto é isto em relação ao temperamento das multidões que consideram a Palavra de Deus não mais do que a palavra de uma criança ou um tolo! Eles terão seu próprio caminho, fale Deus o que disser. Eles persistem no pecado em desafio de suas ameaças. Eles se sentem tão descuidados e insensatos sob sua Palavra, como se fosse alguma história velha, maçante, insignificante! Raramente faz impressões sobre seus corações pedregosos; estes são os homens corajosos, imperturbáveis ​​do mundo, que se endurecem contra o medo do futuro. Mas, criaturas infelizes! O Deus do céu despreza dar-lhes um olhar gracioso, enquanto fixa os olhos sobre o homem que "é contrito, e que treme da sua Palavra."
E, onde está aquele homem feliz? Onde nesta assembleia, onde está o espírito contrito? Onde o homem que treme da Palavra?
Vocês estão todos prontos para pegar o caráter, mas não seja presunçoso por um lado, nem excessivamente temeroso do outro. Pergunte se este é o seu caráter predominante. Se assim for, então reivindique-o e se regozije nele, embora não o tenha em perfeição. Mas, se não o fizer, não o apreenda como seu próprio. Embora você tenha ficado às vezes angustiado com um sentimento de pecado e perigo, e a Palavra aterroriza seu coração, contudo, a menos que você seja habitualmente de um espírito terno e contrito, não deve reivindicar o caráter aqui citado no texto.
Mas, vocês, pobres e contritos de espírito, que tremem diante da Palavra do Senhor entram profundamente no significado dessa expressão, de que o Senhor olha para vocês. Ele não olha como um espectador descuidado, que não se preocupa, nem se importa com o que acontecerá com vocês, mas Ele se considera um pai, um amigo, um benfeitor; seus olhares são eficazes para o seu bem.
Ele olha para você com aceitação, e está satisfeito com a visão, pois ama vê-lo trabalhando para Ele, e o vê como o objeto de seu amor eterno, adquirido pelo sangue de seu Filho. Ele está bem satisfeito com você por causa de Sua justiça. Por isso, o que olha para o pobre e investiga a causa da justiça, evita a Sua ira contra os ímpios e seus sacrifícios, versículo 3 e 4: “Quem mata um boi é como o que tira a vida a um homem; quem sacrifica um cordeiro, como o que quebra o pescoço a um cão; quem oferece uma oblação, como o que oferece sangue de porco; quem queima incenso, como o que bendiz a um ídolo. Porquanto eles escolheram os seus próprios caminhos, e tomam prazer nas suas abominações,  também eu escolherei as suas aflições, farei vir sobre eles aquilo que temiam; porque quando clamei, ninguém respondeu; quando falei, eles não escutaram, mas fizeram o que era mau aos meus olhos, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer.”
E Aquele a quem você tem ofendido tanto, Aquele cuja ira você teme acima de todas as outras coisas; Ele está realmente reconciliado a ti, e se deleita em ti? Que causa de alegria, de louvor e de admiração está aqui!
Mais uma vez, Ele olha para tomar nota particular de você. Ele vê todo o funcionamento de seu coração para com ele, e se compadece de seus honestos, embora fracos conflitos com o pecado interior. Ele observa todos os seus esforços fiéis, embora fracos, para servi-Lo. Seus olhos penetram seus próprios corações, e o menor movimento lá não pode escapar de sua atenção. Isso, na verdade, poderia fazer você tremer, pois se Ele olhasse para você com os olhos de um juiz; oh, quantas abominações deveria ver em você! Mas, tenha bom ânimo, Ele olha para você com os olhos de um amigo, com aquele amor que cobre uma multidão de pecados. Ele olha para você com os olhos de compaixão em todas as suas calamidades. Ele olha para que você não seja dominado e esmagado.
Davi, que passou por muitas tribulações e aflições como qualquer um de vocês, poderia dizer de sua feliz experiência: "Os olhos do Senhor estão sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor!" (Salmo 34:15).
Finalmente, Ele olha para cuidar de você, como fazemos com os doentes e fracos. Ele olha para provê-lo. Ele lhe dará graça e glória, e nada de bom lhe será recusado, Salmos 84:11.
Você não está seguro e feliz sob a vigilância de um pai e um amigo? Deixe um pouco de coragem humilde animá-lo em meio a seus muitos abatimentos, e confie no cuidado do qual você se sente ser tão indigno.
Aqui pode não ser errado observar, o que deve lhe dar nenhum pequeno prazer, que aquelas mesmas pessoas que, segundo a estimativa dos homens são as mais prováveis ​​de serem negligenciadas, são aquelas que Deus graciosamente considera. As pessoas são capazes de clamar "Eu ficaria feliz se pudesse crer que o Deus do céu me olha com graça, mas, infelizmente, sinto-me uma pobre e indigna criatura, sou uma coisa trêmula, quebrada de coração à vista de tão grande Majestade!”
E você é mesmo assim? Então eu posso converter sua objeção em um encorajamento. Você é a própria pessoa a quem Deus olha! Seus olhos estão correndo para a frente e para trás através da terra em busca de tais como você é; e Ele os encontrará entre a multidão inumerável da humanidade!
Você estava cercado de multidões de reis e nobres, mas seus olhos passariam por todos eles para se fixarem em você! Que artifício glorioso é este, se assim posso dizer; apanhar e converter o desânimo da pessoa em um fundamento de coragem! Para produzir aquele caráter dos favoritos do céu, que eles mesmos olham como marcas de sua negligência!
"Ai!" Diz o pobre homem, "se eu fosse objeto de repreensão divina, Ele não me permitiria continuar tão pobre e de coração quebrantado". Mas você pode raciocinar diretamente o contrário; Ele te faz assim, pobre em espírito, sensível de tua pecaminosidade e imperfeições, porque graciosamente te considera. Ele não vai permitir que você seja inchado com sua bondade imaginária como o resto do mundo, porque ama você mais do que Ele os ama!
No entanto, por mais inexplicável que este procedimento possa parecer, há muito bom motivo para isso. Os pobres de espírito são as únicas pessoas que apreciam o gozo de Deus e valorizam seu amor; só eles são capazes da felicidade do céu, que consiste na perfeição da santidade.
Para concluir, vejamos a perfeição e a condescendência de Deus, como ilustrado por este assunto. Considere você, pobre de espírito, e Aquele que se inclina a olhar para coisas tão pequenas como você! É Aquele cujo trono está no céu mais alto, rodeado de miríades de anjos e arcanjos! É Aquele cujo escabelo é a terra, que sustenta toda a criação nEle! É Aquele que é exaltado acima das bênçãos e louvores de todos os exércitos celestiais, e que não pode, sem condescendência, ver as coisas que são feitas, vendo-as a partir do céu! É Ele quem olha para baixo para tais vermes pobres como você!
E, que inclinação é esta! É Aquele que olha para você em particular, que cuida de todos os mundos que fez. Ele administra todos os assuntos do universo; cuida de cada indivíduo em sua vasta família; provê todas as suas criaturas, e, no entanto tem prazer em vê-las especificamente. Ele tem particular atenção sobre você, como se fosse sua única criatura! Que perfeição é essa! Que alcance infinito de pensamento! Que poder ilimitado!
E que condescendência também! Mas, considere o que uma pequena figura como você faz no universo dos seres. Você não é, em comparação com a multidão infinita de criaturas da natureza, como um grão de areia está para toda areia que existe no mar.
E, no entanto, aquele que cuida de todo o universo, tem especial atenção em você, que é  apenas uma bagatela em comparação com seus semelhantes; e que se fosse aniquilado, dificilmente deixaria um espaço em branco na criação! Considere isso e admire-se da condescendência de Deus; considere isso e reconheça sua própria vileza; você não é nada, não só comparado com Deus, mas você é como nada no sistema da criação!
Vou acrescentar, senão esta única reflexão natural: se é tão grande a felicidade de ter o grande Deus para ser o nosso patrono; então o que é estar fora de seu favor? Ser ignorado por Ele? Penso que um tremor unido pode apoderar-se desta assembleia na própria suposição.
Existe tal criatura no universo nesta condição miserável? Eu penso que toda a criação também deve ter pena dele.
Onde está o ser miserável a ser encontrado? Devemos descer ao inferno para encontrá-lo? Não, infelizmente! Há muitos dos tais na terra! Não, eu devo me aproximar ainda de você, há muitos dos tais nesta assembleia! Todos os que estão entre vocês são os tais, desde que não são pobres e contritos de espírito, e que não tremem da Palavra do Senhor.
E você não é um deste número miserável, oh homem?
Desconsiderado pelo Deus que lhe criou! Não favorecido com um olhar de amor pelo autor de toda a felicidade! Ele olha para você de fato,  mas com olhos de indignação, marcando-o por vingança!
E você pode ser insensível nesse caso? Você não trabalhará para empobrecer a si mesmo, e ter seu coração quebrado, para que possa tornar-se o objeto de sua graciosa consideração?


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