Título original: Faith
in Relation to justification
Por John Angell James
(1785-1859)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
Um criminoso perdoado que uma vez foi condenado pelas leis de
seu país a uma morte ignominiosa; é um objeto interessante a ser observado.
Vê-lo caminhando para o exterior, em plena posse da liberdade, que tinha sido
carregado recentemente de grilhões numa masmorra; desfrutando da luz do céu; depois
de ter sido envolto em trevas, aliviado apenas pelos poucos raios esporádicos
que atravessavam as grades de ferro de sua cela; examinando as belezas da
criação; em vez de olhar para as paredes frias e úmidas de sua prisão; regozijando-se
na consciência da liberdade e da vida; em vez de se preocupar com a forca e a
morte; deleitando-se na sociedade de sua família e amigos; em troca da conversa
maldosa de companheiros criminosos e carcereiros; sentindo, em suma, que ele
era novamente um cidadão, com todos os seus direitos e privilégios, como homem
e membro da comunidade; depois de ter sido despojado de todos eles.
Que mudança de circunstâncias! Que reverso inefavelmente
deleitoso! Quantas reflexões excita!
Pensamos no
seu pecado e miséria no passado, no caráter de um criminoso; da misericórdia do
soberano ao resgatá-lo; de sua própria felicidade em ser poupado; de sua
gratidão a seu perdão; de suas futuras obrigações de cumprir os deveres de um
bom cidadão .
Esse caso é a representação, ainda que fraca, da
situação de todo verdadeiro cristão. Ele também era um criminoso sentenciado; mas
agora é um criminoso perdoado. Ele pecou e foi condenado; mas se arrependeu, creu
e foi perdoado. Sua vida perdida foi restaurada. A fonte da misericórdia lhe
foi aberta; um indulto foi concedido. De um inimigo, um proscrito e um
criminoso contra Deus; ele se tornou um amigo, um servo, um filho de Deus. Que
transição; quão maravilhoso em si mesmo! Quanto mais maravilhoso no método de
realizá-lo! Que agora passamos a considerar.
O que é justificação? Esta é uma pergunta
indizivelmente importante. O próprio termo sugere isso; sua importação
ordinária é profundamente importante. Isso implica culpa; e expressa o perdão.
Sua importância é aprendida também a partir do grande espaço que ocupa e
preenche na página da Escritura. A mais valiosa de todas as epístolas de Paulo,
a dirigida aos romanos, e também a epístola aos gálatas, foram escritas para
desdobrá-la. Ninguém pode entender o Novo Testamento, ou o esquema do evangelho
da salvação, se não compreender o que é
a justificação. Imensa consequência, então, se atribui à pergunta: Qual é essa
justificação, que é o tema do ensino apostólico?
Justificação não é qualquer mudança em nossa
natureza moral; que é a regeneração. A justificação é uma mudança de nossa
relação com Deus. Nem é uma mudança pessoal em nosso ser, pois é admitido que
permanecemos pecadores, e, portanto, não podemos ser justos e injustos ao mesmo
tempo. Nem é nenhuma impressão ou persuasão em nossas próprias mentes que nós
somos justificados. Não é raro que uma certa classe de religiosos falem de
terem sido justificados em tal tempo e lugar, quando tudo o que eles querem
dizer é que, de vez em quando, eles obtiveram um sentimento de perdão.
A justificação não é algo que, de acordo com a
noção papista e puseísta, ocorra no batismo nas águas e pelo batismo. Não é
efetuada na fonte através das ministrações sacerdotais do sacerdote, quando,
como se diz, a culpa do pecado original é tirada pela graça sacramental
conferida com o fluido batismal. O Novo Testamento não transmite uma noção como
esta.
Justificação, dizemos de uma vez, é
substancialmente o mesmo que o perdão. As duas palavras transmitem a mesma ideia,
ou quase a mesma. O apóstolo parece usá-las de forma intercanbiável, onde diz:
"No entanto, para o homem que não trabalha, mas confia em Deus, que
justifica o ímpio, sua fé é creditada como justiça." Davi diz a mesma
coisa quando fala da bem-aventurança do Homem a quem Deus credita a justiça sem
as obras: “Porém ao que não trabalha, mas crê naquele que
justifica o ímpio, a sua fé lhe é contada como justiça; assim também Davi
declara bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras,
dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas, e cujos
pecados são cobertos."
(Rom 4: 5-8). "Nestes versículos", diz Wardlaw; "o perdão da
iniquidade, a cobertura da transgressão, a não imputação do pecado, são
evidentemente considerados como equivalentes à mesma coisa com a imputação da
justiça, e isso também é o mesmo que justificar o ímpio; porque Davi representa
descrevendo sob um conjunto de frases a bem-aventurança que o apóstolo expressa
pelos outros. Ainda assim, como os apóstolos na linguagem do Novo Testamento
empregam tão geralmente a palavra justificação em vez da palavra perdão, deve
haver alguma razão para isso, o que eu acho que é encontrado nas duas
considerações a seguir.
Primeiro; a palavra justificação, enquanto
significa perdão, é usada para transmitir a ideia do método pelo qual este
perdão é concedido; isto é, o perdão em um caminho de justiça. De modo que a
palavra abrange tanto a bênção e o caminho de sua doação, de acordo com as
exigências da lei.
Em segundo lugar; denota um estado geral e
permanente de perdão, e não meramente um ato particular. Por justificação somos
trazidos para uma relação nova e permanente; um estado de favor com Deus. A
justificação é a nossa introdução nesta condição permanente; de modo que,
embora o perdão possa ser necessário, e possa ser concedido a nós neste estado
de dia para dia; da justificação não pode ser dito ser repetida dia a dia. Por
justificação passamos do estado de um inimigo para o de um filho. Nessa
perspectiva, é equivalente à adoção, e nesta condição podemos receber o perdão
paternal dia a dia, embora não a liberação judicial.
A justificação é o ato do juiz que nos livra da
sentença de condenação e nos leva a um estado de favor; e subsequentes atos de
perdão são as expressões do pai, em passar por nossas transgressões.
Ainda assim, repetimos, os dois termos significam
substancialmente a mesma coisa: a justificação é o perdão. Eles nunca são
enumerados juntos como duas bênçãos distintas. Nunca lemos o perdão e a
justificação. Sei que tem sido comum com alguns dos antigos teólogos
representá-los como distintos; para considerar a justificação como dado a nós
sobre a base da obediência ativa de Cristo, e o perdão com base em sua
obediência passiva, ou sofrimentos até a morte. Nenhuma distinção, porém, é
feita pelos apóstolos. Não há necessidade de sermos mais minuciosos em nossas
distinções do que esses homens inspirados. Nosso ser introduzido em um estado
de perdão por meio da expiação de Cristo, é justificação.
Tem sido comum chamar isso de transação legal; um
processo em um tribunal. Talvez fosse mais correto considerá-lo como um
exercício da realeza; a manifestação de uma prerrogativa real, em estender a
misericórdia a um sujeito rebelde; o ato do executivo no governo Divino de
liberar um criminoso por causa de algo feito para satisfazer a justiça pública.
Tal é, portanto, a justificação; o oposto da
condenação; o ato da infinita misericórdia de Deus em perdoar todas as
transgressões do crente penitente, por causa do sacrifício expiatório de seu
Filho amado; e restaurar o transgressor, uma vez culpado, para o favor de Deus
e a esperança da vida eterna. Bem Davi, em uma espécie de êxtase, exclama:
"Bem-aventurado", ou como o original o expressa mais enfaticamente:
"Oh, a bem-aventurança do homem a quem o Senhor não imputa a iniquidade,
cuja transgressão é perdoada e cujo pecado está coberto!"
Ao considerar este assunto com precisão e
totalidade, quatro coisas devem ser levadas em conta:
1. O significado da justificação, ou a bênção que
designa, o perdão.
2. O fundamento sobre o qual a justificação
prossegue; a morte de Cristo como um sacrifício expiatório pelo pecado.
3. A fonte da qual a justificação flui; a
misericórdia de Deus.
4. A causa instrumental ou meio de justificação; a
fé em Cristo.
Assim, temos a conexão da fé com a nossa
justificação.
Se quisermos ser perdoados de uma maneira justa; é
evidente que não podemos ser perdoados com base em uma justiça própria, pois
não temos uma partícula de justiça. Nada, senão uma obediência perfeita,
poderia ser aceito pela lei, como fundamento da justificação; e se tivéssemos o
que oferecer, não teria havido pecado e, portanto, nenhuma necessidade de
perdão. Onde não há pecado; mão pode haver perdão. Até o tempo de sua
justificação, o pecador deveria ter vivido em pecado e, portanto, não tem
nenhuma obra para oferecer como satisfação à justiça Divina, com base na qual
ele possa ser recebido em um estado de favor. Daí a reiterada declaração:
"Pelas obras da lei, nenhuma carne será justificada diante dele, pois pela
lei vem o conhecimento do pecado". (Rom 3:20). "Portanto, concluímos
que um homem é justificado pela fé sem as obras da lei." (Rom 3:28).
"Aquele que não trabalha; mas crê naquele que justifica o ímpio, sua fé é
contada para a justiça". (Rom 4: 5). "Sabendo que um homem não é
justificado pelas obras da lei, pois pelas obras da lei nenhuma carne será
justificada". (Gal 2:16). "Não de obras, para que ninguém se
glorie." (Ef 2: 9). "Não pelas obras de justiça que fizemos, mas
segundo a sua misericórdia, ele nos salvou". (Tito 3: 5). Em todas estas
passagens, e em outras que podem ser citadas, é mais clara e enfaticamente
declarado, que a justificação não se fundamenta em nossas obras.
Há somente um outro fundamento sobre o qual a
justiça pode prosseguir, e este é a FÉ. E isso é tão explicitamente declarado
como aquele outro. Citar todas as passagens da Palavra de Deus sobre este
assunto seria desnecessário. Além dos já dados nós podemos introduzir os
seguintes: "O justo viverá pela fé". (Rom 1:17). "Justificados
pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo". (Rom 5: 1).
"Pela graça sois salvos mediante a fé, e isso não vem de vós mesmos; é dom
de Deus." (Ef 2: 8). "É de fé, para que seja pela graça". (Rom 4:16).
É, portanto, impossível não ver o lugar alto que a fé ocupa no negócio da nossa
justificação. Mas o que é este lugar? Qual é o seu ofício? Como ela justifica?
Podemos colocar isto primeiro de tudo
negativamente, e mostrar como a fé NÃO justifica.
A fé não justifica por si mesma, como um ato de
nossa mente; como aquilo pelo qual, visto à luz de uma causa meritória, Deus
nos concede o perdão dos pecados. É mediante a fé, e não pela fé, que somos
justificados. Há uma expressão que parece como se a própria fé, como um ato
nosso, constituísse nossa justiça justificadora. "Pois o que diz a
Escritura? Abraão creu em Deus, e isto lhe foi contado como justiça". (ROM
4: 3). "Dizemos que a fé foi contada a Abraão por justiça". (ROM 4: 9).
"Ele não vacilou por incredulidade, antes foi
fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estando certíssimo de que o que Deus
tinha prometido, também era poderoso para o fazer. Pelo que também isso lhe foi
imputado como justiça."
(ROM 4: 20-22). Agora, pode parecer a um leitor apressado e irrefletido que o
apóstolo pretendia por este modo de expressão transmitir a ideia de que a fé de
Abraão, por si só, constituía sua justiça; que sua forte confiança no
testemunho Divino foi aceita em lugar de Obras, e como equivalente a uma
completa obediência à lei Divina. Esta é a visão que Lutero parece tomar em seu
célebre comentário sobre a epístola aos Gálatas. Mas se isso é verdade em
relação a Abraão, é igualmente verdade em referência a todos os crentes que são
sua semente espiritual, e sua fé é também a sua justiça. E se isso for verdade,
parecerá que, como a fé é um ato nosso; e, portanto, uma obra nossa; somos
justificados pelas obras depois de tudo. É verdade, pode-se dizer, este é
apenas um trabalho mental. Não importa, ainda é um trabalho. Isso, com base em
princípios gerais, deixa claro que o apóstolo não poderia pretender que a
crença fosse aceita em vez de fazer, e constituísse a justiça na base da qual
Abraão foi justificado.
A preposição traduzida em nossa tradução
"para a justiça"; pode e deve ser tomado como "dentro da justiça". Ao crer em Cristo
como a justiça de Deus, ou o método de justificação de Deus, um homem torna-se
verdadeiramente justo; entra no estado de um homem justo ou justificado. Temos
a preposição assim entendida em vários lugares onde o mesmo assunto é
discutido. "O evangelho é o poder de Deus para a salvação". (ROM 1:16).
"Justiça de Deus, que é para todos os que creem". (ROM 3:22).
"Pois com o coração o homem crê para a justiça". (ROM 10:10). Esta é
a significação da frase no verso diante de nós, que deveria ter sido traduzida
da mesma maneira. A expressão "para a justiça" é elíptica, e
significa "para receber" a justiça, ou a fim de tornar-se justo. Nas
diferentes traduções em francês, o significado do original é devidamente
expresso; "uma justiça"; isto é, para a justiça. E da mesma forma na
Vulgata; "ad justitiam", para a justiça.
Que a própria fé, como um ato de nossa própria
mente, não é justiça justificadora, é manifestamente evidente a partir da
própria fraseologia de muitas passagens que falam de crença e justiça no mesmo
lugar; "justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos
os que creem."
(ROM 3:22). Aqui a justiça deve ser uma coisa e a fé outra. Justiça é o que
precisamos para justificação; a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, como
testemunhado no evangelho, é o meio pelo qual recebemos esta justiça.
Nossa crença, então, não é a justiça, mas é o meio
pelo qual nos tornamos justos. A linguagem pode mostrar mais explicitamente que
justiça e fé são duas coisas diferentes para dois propósitos diferentes, embora
ambos sejam desfrutados pelas mesmas pessoas, e ambos igualmente necessários?
Do mesmo modo, o apóstolo diz: "Porque com o coração se crê para a
justiça". (ROM 10:10). Aqui está necessariamente implícito que a fé não é
justiça; mas que é o meio pelo qual recebemos a justiça. Nada pode ser uma
corrupção maior da verdade do que representar a própria fé como aceita em vez
de justiça, ou ser a justiça que salva o pecador. (Veja a exposição de Haldane aos
Romanos.)
Também não devemos entender que a fé nos
justifica, como uma mera condição de perdão, da mesma forma que o
arrependimento é uma condição de perdão. Deus requer no homem que seria
perdoado e restaurado a seu favor; sincera contrição e confissão, e a renúncia
de seus pecados; "Deixe o ímpio abandonar o seu caminho, e o homem injusto
seus pensamentos, e que volte ao Senhor, e ele terá misericórdia dele, e do
nosso Deus, porque ele vai abundantemente perdoar." (Isaías 55: 7).
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os
nossos pecados". (1 João 1: 9). Ora, estas coisas são condições de perdão,
mas não podemos com propriedade e precisão dizer: "Somos justificados pela
confissão, tristeza e arrependimento". A justificação é o ofício e o
negócio da fé. Há uma aptidão, não realmente uma meritória; senão uma natural;
isto é, uma aptidão na natureza de crer, para realizar este grande fim; mossa
justificação diante de Deus. Observar a natureza da fé; é "a confiança das
coisas esperadas." Observamos então que,
1. A fé acredita em nossa NECESSIDADE de
justificação. Credita o testemunho de Deus a respeito de nossa condenação pela
lei. Nenhum homem se preocupará com o perdão até que esteja convencido do
pecado. Aqui está seu primeiro exercício, acreditar que "todo o mundo se
tornou culpado diante de Deus". "Que todos pecaram e destituídos
estão da glória de Deus". Que somos "todos por natureza filhos da
ira", que esta maldição de Deus sobre o pecado não é pequena; mas uma
eterna separação de sua presença. É somente pela crença na Palavra de Deus que
sabemos o que é o pecado; em sua natureza e consequências. A razão pode
discernir que nem tudo está certo conosco; que há alguma desordem na alma; mas
não sabe nada da causa, da virulência ou da extensão da doença. É a revelação
que nos abre tudo isso, que nos descobre toda a corrupção; que nos mostra nosso
estado alarmante, e nossa terrível necessidade de recuperação espiritual.
Eis aqui a primeira lição que a fé aprende, e a
mais humilhante é; que estamos em um estado de condenação terrível, pela lei
quebrada; que estamos expostos à ira vindoura, às amargas dores de Morte eterna;
e que precisamos de alívio imediato e adequado. É verdade que ela não é nesta
fase, a fé salvadora; e se tudo isso fosse um homem crer, ele nunca seria salvo
por ela. Muitos creem assim na lei, que nunca passam a crer no evangelho, e não
têm nada mais do que a fé dos demônios; que creem e tremem. Mas, embora isso
não seja um ato salvador, ele o precede. Um homem deve acreditar que está
perdido; antes de se preocupar em ser salvo.
2. Pela fé, o pecador olha para fora de si mesmo;
para longe de si mesmo, para o fundamento de sua justificação. Este é o segundo
passo da fé, ou ofício. Desvia nossa atenção de nós mesmos. Enquanto um homem
está apenas olhando para si mesmo, para descobrir o que ele pode encontrar lá,
para ficar entre ele e Deus a quem ele tem ofendido, ele não tem uma partícula
de verdadeira fé nele. Enquanto ele está dizendo, o que eu posso fazer, ele
está se afastando do testemunho do evangelho. Aqui devemos recorrer ao que já
foi dito; que a fé é objetiva em sua natureza. Ele vira o olho para fora, não
para dentro. Sua consideração não é o que ela pode extrair da alma; mas o que
ela pode atrair para ela. Quando Noé foi chamado para ser salvo das águas do
dilúvio, ele deveria desviar o olhar de seus próprios recursos; quando o
homicida fugiu do vingador do sangue, foi chamado a desviar os seus próprios
meios de defesa; quando os israelitas mordidos pela serpente foram salvos do
veneno das serpentes venenosas, foram chamados a desviar o olhar de sua própria
habilidade na arte de curar; quando o aleijado que estava à Porta Formosa do
templo pediu esmolas a Pedro e João, ele foi chamado a desviar o olhar de sua
própria miséria. Precisamente assim é com o pecador buscando justificação, ele
deve olhar para longe de si mesmo; e é o negócio especial da fé, afastá-lo de
si mesmo.
Se a justificação era pelas obras, ele deve estar
atento a si mesmo; olhar para sua alma; calcular seus recursos; medir sua
capacidade. Este é o curso das multidões; até que elas cheguem a ter uma visão
mais clara da maneira de Deus salvá-las. Toda a sua atenção está concentrada em
si mesmos, eles não pensam em nada além de si mesmos. Mas quando são ensinados
pelo Espírito de Deus, tudo é mudado, eles agora veem e sentem que eles nada
são, e nada podem fazer por sua própria justificação. Eles acham que estão em
dívida por milhões, e não têm nada para pagar; que eles são condenados pela
lei, e não têm meios de evitar a sentença; que têm fome e não têm pão; doentes
e sem remédio. Esta é uma realização gloriosa da fé, a de revelar ao pecador a
sua absoluta pobreza e desamparo; tirá-lo de toda a sua soberba autossuficiência
e independência; para levá-lo a um profundo sentimento de sua impotência e
desesperança.
Mas deixe-se ainda lembrar, que ele não é salvo
ainda quando trazido até este ponto. Ele pode crer em tudo isso e perecer
depois de tudo. Isto é fé; mas de uma natureza vaga, geral, incompleta; e se
ele parar aqui, não seria uma recepção real do evangelho.
3. A fé confia plenamente e sem hesitação em
Cristo. Ele não só vê que não há justiça em nenhum outro lugar; mas vê que há
justiça em Cristo. A fé não só leva o homem a desviar o olhar de si mesmo, mas
a olhar para Cristo. Noé não só olhou para longe de seus próprios recursos; mas
ele olhou para a arca e entrou nela com confiança, porque ele acreditava na
palavra de Deus. O homicida não só desviou o olhar de sua própria força, mas
olhou para a cidade de refúgio, e fugiu para ela com confiança de segurança. Os
israelitas mordidos pela serpente não só desviaram os olhos de sua própria
habilidade na arte de curar, mas olharam para a serpente de bronze com
confiança. O aleijado não só desviou o olhar de si mesmo, mas deu ouvidos a
Pedro e João, esperando com confiança receber esmolas. Em todos esses casos,
havia confiança, expectativa; em suma, uma crença verdadeira e firme da
realidade e da suficiência do alívio prometido. Não apenas um sentimento de
necessidade, de total impotência e desesperança em si mesmos, mas uma
dependência segura, esperançosa e que dá paz à provisão da misericórdia de Deus
em Jesus Cristo.
Assim é com quem realmente acredita no evangelho;
ele olha para longe de si mesmo, e concentra toda sua atenção em Cristo. Há em
sua mente tal crença do divino testemunho a respeito dele, como o leva por um
ato da vontade, a entregar sua alma com perfeita confiança nas mãos de Cristo!
Tal confiança não só renuncia à própria justiça do pecador; mas recebe e
depende de Cristo! Não só diz: "Não posso ser aceito por minhas próprias
obras", mas; "Eu posso ser aceito no amado". Ao afastar-se de si
mesmo e rejeitar toda autojustiça; está em desolação vazia, em ignorante
solicitude, em desespero; procurando aqui e ali, em vão, uma torre de ajuda.
Mas vê diante de seus olhos a cruz de Cristo nascendo em toda a sua grandeza e
glória, como único meio de reconciliação com Deus! Ele ouve a voz de amor e
misericórdia que emana dela: "Olhe para mim e seja salvo!" Sente esperança,
brotando em seu interior, de aceitação com Deus, exultando: "É uma palavra
fiel e digna de toda aceitação que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os
pecadores!" "Ele é capaz de salvar ao máximo todos os que por ele se
aproximam de Deus". "Sei em quem tenho crido, e estou persuadido de
que ele é capaz de guardar o que agora lhe entrego." Isto é fé; fé que
justifica; a salvação da fé. Confiando a alma a Cristo; a confiança em Cristo.
Assim, a alma vai para fora de si mesma; em Cristo.
Está assim unida a ele; e em virtude dessa união abençoada, obtém interesse em
tudo o que há nele, para a salvação de seu povo. Agora, o mérito da obediência
de Cristo até a morte, passa para a conta e benefício da pessoa que é assim
levada em união vital com ele. Agora, o membro recebe toda a influência vital
da Cabeça Divina à qual está unido. Agora, o ramo deriva a vida da videira
verdadeira em que é enxertado. Agora, a pedra recebe o apoio da fundação segura
em que repousa.
Estas são suas ações, a fé concedida pelo céu!
Estes são os seus triunfos e os seus troféus; a preciosa fé, o maravilhoso dom
de Deus! A porta da prisão foi quebrada; o grilhão foi retirado do condenado; a
sentença de morte foi cancelada; a clemência real foi concedida; e o homem
perdoado, redimido pela graça soberana, caminha no exterior, cantando:
"Agora não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, pois, sendo
justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, através
do qual temos acesso pela fé a esta graça, na qual agora nos alegramos com a
esperança da glória de Deus!"
Estamos agora preparados para ver a força, bem
como o significado, da linguagem do apóstolo já citada: "Portanto, é da
fé, para que ela seja pela graça". (ROM 4:16), e também da passagem
paralela: "Pela graça sois salvos mediante a fé". (Ef 2: 8). Graça
significa favor livre da parte de Deus; em oposição à dívida. O que é devido no
caminho da justiça, não pode ser dado no caminho da graça
A salvação é toda graça do começo ao fim. É graça
vista como um todo, e graça em todos os seus detalhes. A eleição é de graça. A
regeneração é de graça. Santificação é de graça. A preservação é de graça. A
justificação é de graça. Assim diz o apóstolo: "Que sendo justificados
gratuitamente pela sua graça, seremos feitos herdeiros segundo a esperança da
vida eterna". (Tito 3: 7). Quão clara e expressiva é a graça que aparece
neste método do nosso perdão, e a recepção ao favor de Deus; pela mera crença
da Divina Misericórdia; o mero ato de confiar-nos nas mãos de Cristo. Esse ato
de confiança faz e marca a maravilhosa transição de um estado de condenação
para um estado de justificação!
Nenhum serviço prolongado levado a cabo por uma
série de anos de peregrinações; nenhuma maceração corporal; nenhuma oferta;
nenhumas performance ascética; nenhuma moralidades elevada; nenhuma autonegação
rígida, em que a mente pode se gabar e dizer: “Eu fiz por merecer o favor de
Deus!"
Não! Nada do tipo; "SÓ ACREDITAR" é a
linguagem de Cristo. Pode haver algo menos meritório; qualquer coisa que
demonstre mais claramente que é toda graça, do que esta condição não meritória
de nossa aceitação com Deus? E ainda, alguma coisa pode mais honrar a Deus? Que
confiança em sua veracidade, misericórdia e amor, implica esse ato de empenho.
Para lançar-nos sobre a sua promessa, qualquer que tenha sido o número e
agravamento de nossos pecados; mesmo na última hora; pode ser depois de uma
longa vida começada e continuada no crime, como a do ladrão penitente na cruz;
para acreditar que a misericórdia de Deus pode e vai chegar até lá; para ter
certeza de que;
"A culpa de duas vezes dez mil pecados
Em um momento tira!"
Que confiança triunfante na misericórdia de Deus e
na eficácia do sangue do Salvador! Ela exalta Deus tão alto; assim como coloca
o pecador baixo!
(Nota do tradutor: De fato todo o mérito é da
graça, e toda a operação é mediante a fé na nossa justificação; pois nem sequer
imaginávamos, quando fomos justificados e salvos por Cristo, o quanto estava
envolvido no ato de termos crido com a fé salvadora. Não imaginávamos o quanto
havia ainda de pecado em nossa natureza, não pensávamos o quanto ainda tínhamos
que aprender sobre as virtudes de Cristo a serem implantadas e crescidas em
nossa nova natureza. Todavia, tudo isto estava implicitamente envolvido naquela
fé que recebemos como um dom de Deus, na conversão, e pelo qual Ele sabia que
não somente aceitaríamos todas estas revelações da verdade ao nosso espírito,
como nós as amaríamos e nos aplicaríamos em vê-las sendo aplicadas em nós pelo
Seu poder.)
Mas aqui nós apenas paramos para encontrar e
remover uma objeção. "Como a justificação pode ser de graça, se é
concedida a nós por uma expiação?"
A ideia de uma satisfação para a justiça de Deus
não destrói a ideia de graça? De modo nenhum. Se a expiação fosse feita pelo
ofensor ele mesmo suportando a penalidade completa da lei, sua libertação seria
uma questão de direito, e não haveria graça nela. Ou se os sofrimentos de outro
poderiam servir para o ofensor, e ele próprio deveria fornecer o substituto, e
era um substituto que a parte ofendida estava sob qualquer obrigação de
receber, e não poderia honrosa ou equitativamente recusar sua libertação nesse
caso, também poderia ser matéria de direito, e não haveria graça nisto. Ou, se
Deus fosse por qualquer consideração de justiça obrigado a fornecer um
substituto, e enviar seu Filho para morrer como uma expiação por nós, a graça
seria excluída.
Mas, quando todo o plano de salvação era uma
questão de pura benevolência Divina; quando Deus poderia ter castigado o
pecador em sua própria pessoa, e não ter permitido substituição; quando ele o
deu livremente para morrer na cruz por nós; e quando isso não era em nenhum
sentido destinado a torná-lo apaziguado; mas apenas para harmonizar sua
misericórdia com sua justiça, a graça é tão rica, tão cheia, tão livre, como se
nenhuma expiação tivesse sido necessária. Não, a graça brilha, mil vezes mais
brilhante através do meio da cruz, do que teria feito sem ela. Quão maravilhosa
é aquela misericórdia que, quando não parecia haver manifestação coerente senão
pela morte de Cristo, "não o poupou, mas livremente o entregou por todos
nós". A cruz de Jesus, enquanto é a glória meridiana da justiça divina,
não é menos o esplendor do meio-dia da Divina misericórdia também.
O ponto de vista que temos tomado da justificação
nos permite corrigir alguns erros que foram entretidos sobre o assunto. Vemos o
absurdo da noção antinomiana de justificação eterna. Um crente, eles dizem, é justificado
desde toda a eternidade, porque ele é eleito para este estado. Nesse princípio
ele foi criado desde a eternidade. Esta é uma confusão tão completa dos
propósitos de Deus e seus atos, que é uma maravilha que tal prole da loucura
humana deveria ter existido. Se somos justificados pela fé, como podemos ter
sido justificados diante dele? (Nota do tradutor: ou seja, como poderíamos
estar justificados aos olhos de Deus quando ainda vivíamos nas trevas? Quando
não havíamos ainda sido regenerados pelo Espírito Santo?)
Igualmente errôneos são aqueles que, em qualquer
sentido, teriam o "mérito das ações humanas" à vista de Deus, como é
o caso da Igreja Católica Romana. Os seguintes são os decretos do Concílio de
Trento, o último Concílio Geral da Igreja Católica Romana e, portanto, a lei
perpétua daquela religião apóstata: "Se alguém disser que os homens são
justificados pela imputação da justiça de Cristo somente, ou somente pela
remissão dos pecados, com exclusão da graça e da caridade, que é derramada em
seus corações pelo Espírito Santo, e que é inerente a eles, ou que a graça pela
qual somos justificados é o favor de Deus sozinho, ele seja amaldiçoado! "
"Se alguém disser que as boas obras de um
homem justificado são, em tal sentido, o dom de Deus, que não são também os
seus méritos dignos, ou que ele é justificado por suas boas obras, que são
operadas por ele através da graça de Deus e do mérito de Jesus Cristo, de quem
é um membro vivo, não merece realmente o aumento da graça, a vida eterna, o
gozo dessa vida eterna, se ele morrer em estado de graça, e até mesmo um aumento
de glória; que ele seja amaldiçoado! "
Tão terrível e ousada é a contradição dessa
terrível religião; em relação à letra simples e o espírito penetrante da
Palavra de Deus. Esta é a pedra angular na fundação daquele enorme tecido de
falsidade e erro!
Talvez alguns pensem que a linguagem do apóstolo
Tiago, em que parece contradizer Paulo, sustenta a doutrina da igreja de Roma.
Em resposta a isto dizemos, se ambos foram inspirados, não pode haver nenhuma
contradição real entre eles. Deve haver um meio para ser encontrado em algum
lugar. É verdade que Paulo diz: "Um homem é justificado pela fé sem as
obras da lei"; e igualmente verdadeiro que Tiago diz: "Que pelas
obras um homem é justificado, e não somente pela fé". Será percebido
imediatamente por qualquer mente reflexiva que os dois apóstolos têm duas
classes diferentes de pessoas em vista. Um deles; a classe a quem Paulo se
dirige; consistia dos fanáticos judaizantes que perverteram o evangelho
insistindo nas obras da lei como fundamento da justificação. A outra classe; a
quem Tiago se dirigiu; consistia naqueles que abusavam da doutrina da
justificação somente pela fé, para sancionar a negligência do dever e a
realização de boas obras. E, além disso, como os dois escritores lidam com duas
classes de pessoas, então eles discutem dois assuntos; Paulo está falando da
justificação de um pecador; Tiago, da justificação de um cristão. Paulo usa a
palavra justificação em seu próprio significado geralmente aceito de receber o
pecador em um estado de favor e aceitação com Deus; Tiago o usa em aplicação ao
cristão no sentido de ser aprovado como crente. Paulo mostra como um homem se
justifica; Tiago mostra a necessidade de obras para provar a realidade de sua
fé, ou para demonstrar que um homem é um crente justificado. De modo que não há
contradição; mas a harmonia mais completa entre eles; e nem Paulo nem Tiago dão
qualquer vislumbre ao erro fundamental e destrutivo da Igreja de Roma; que o
perdão de um pecador é pelas obras da lei. (Nota da tradutor: Acrescente-se a
isto que o motivo da descida de Paulo a Jerusalém no que temos do relato em
Atos 15 deveu-se exatamente ao ensino errôneo de judaizantes que afirmavam
terem sido enviados pela Igreja da Circuncisão para ensinarem aos gentios que a
salvação era decorrente das obras da Lei. O próprio Tiago deliberou no final
daquele Concílio que Paulo estava correto em afirmar que a justificação é
somente pela graça, mediante a fé, sem o concurso das obras da Lei.)
Mas, a visão dada da justificação pela fé revela
também o erro Puseísta da justificação batismal. Isto, como já sugerimos, é uma
opinião comumente recebida entre o partido Tratariano, que a graça comunicada
por mãos sacerdotais no batismo, transmite a remissão dos pecados, bem como a
regeneração. No entanto, é um pouco difícil conceber como os pecados podem ser
remidos antes de serem cometidos, exceto o pecado original. Submeto com
deferência se a justificação batismal não está implicada necessariamente no
serviço da Igreja Anglicana, como executado no batismo dos infantes. Nesse
serviço, o patrocinador personifica a criança, e acredita para, ou em nome da
criança. A criança acredita assim por procuração; em outras palavras, ela
exerce a fé através de seu representante. Ora, a Palavra de Deus assegura-nos
que a fé e a justificação estão sempre unidas; consequentemente, a criança é
justificada em todos os casos, assim como regenerada no batismo. O sacerdote
obtém e confere regeneração, enquanto o patrocinador obtém e confere a justificação.
Pelo menos, é assim que me parece.
Como os homens, por suas tradições, anularam as
ordenanças de Deus. Em que nuvens e trevas velaram sua gloriosa doutrina da
justificação pela fé. Como os sistemas humanos foram empurrados entre o pecador
e a cruz, e o olho que não deveria ver senão o último, foi feito para descansar
sobre o primeiro; e a alma pobre e abandonada é deixada no caminho para a
eternidade para tropeçar sobre os erros que foram lançados em seu caminho por
aqueles que devem ser seu guia para a vida eterna.
Quanto esta grande e fundamental doutrina cristã
protestante merece nossa atenção. Este foi o meio pelo qual os apóstolos
converteram o mundo no início da era cristã. Foi a perversão desta verdade que
provocou aquele anátema terrível do apóstolo: "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho
além do que já vos pregamos, seja anátema. Como antes temos dito, assim agora
novamente o digo: Se alguém vos pregar outro evangelho além do que já
recebestes, seja anátema.” (Gál 1: 8, 9). Por que esses trovões de santa indignação; por
que esses raios reluzem de zelo excitado; senão para aterrorizar e explodir, e
matar o homem que pervertesse a doutrina da justificação, que Paulo assim
identifica com o evangelho de Cristo?
O apóstolo, enquanto ele abre a porta a qualquer
um que viesse à árvore da vida com fé simples, coloca este querubim com uma
espada flamejante para repelir o atrevido intruso que se aproximasse para
derrubá-la e plantar a "árvore venenosa do erro" no seu lugar. Esta
foi a doutrina com a qual Lutero, mais do que por qualquer outro meio, efetuou
a Reforma do século XVI. Esta era a doutrina tão querida aos nossos
antepassados puritanos e não-conformistas;
uma doutrina que receio que alguns entre nós começam a pensar que pertencia
mais a uma era puritana do que à nossa. No sentimentalismo religioso; no
formalismo supersticioso; no misticismo subjetivo; na teologia especulativa; na
exigência e na homenagem ao talento e ao gênio, que caracterizam nossa época,
há o perigo de perder esta gloriosa verdade. Os protestantes, em alguns casos,
estão ficando cansados ou envergonhados de seu
protestantismo. Os descendentes dos puritanos estão descartando seu puritanismo;
não apenas sua fraseologia grosseira, sua escolástica, seu mau gosto e seus
credos formais; mas suas doutrinas substanciais, sua piedade vital e sua
devoção sincera. O próximo passo nesta declinação é que os cristãos superem seu
cristianismo.
Temos uma subjetividade moderna que, como já
observamos, tem como objetivo substituir uma consciência intuitiva pela fé
simples e nos dar uma luz interior, em lugar da glória objetiva do Sol da
Justiça. Os homens estão descartando a antiga nomenclatura da Bíblia, e com a
terminologia, logo abandonarão a teologia que ela expressa.
Não somos defensores de muito que seja antiquado
nos teólogos do século XVI e XVII. Mas ainda quanto da sã teologia, da doutrina
apostólica, da verdade bíblica, é encontrada sob aquele vestido antiquado. Os
pensamentos nobres e as visões sublimes de homens como Lutero e Melancton,
Calvino e Knox, Cartwright e Ainsworth, Howe e Owen; não devem ser deixados de
lado como homens inúteis e infantis que estudaram a Bíblia em circunstâncias
que, se não tão favoráveis como a nossa própria para a exegese crítica, eram
eminentemente propícias à sua obtenção de visões amplas e abrangentes,
experiência profunda e vida séria; homens a quem provavelmente o segredo do
Senhor, a mente do Espírito; foram amplamente transmitidos. Guardemos, pois, as
verdades substanciais que esses homens possuíam, não porque as sustentaram, mas
porque são as verdadeiras palavras de Deus.
Não há apenas certas doutrinas com as quais não
podemos separar, senão certos termos nos quais elas são expressas, que devemos
sempre reter; e entre estas está a palavra grande e gloriosa, ou melhor, a
frase, JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ. Oh, não pode haver entre nós, quem, nestes dias
modernos, esta grande verdade protestante, quando soada do púlpito, não comece
a saborear um puritanismo antiquado, e que pensaria que eles estavam retraindo
seus passos até a idade dos Covenanters, e ser encontrado lendo ou escrevendo
um tratado sobre este tema importante.
Como pode o pecador viver agora; como pode o
crente andar agora, exceto pela fé? A santidade, a justiça e a misericórdia de
Deus; a autoridade da lei divina; a natureza do pecado; a mediação de Cristo; a
justificação; a santificação; permanecem nas páginas da revelação como o sol, e
a lua, e as estrelas nos céus do Céu; e os montes, e os rios, e os mares, e os
vales sobre a terra, o mesmo por todas as mudanças da sociedade e todas as
revoluções do tempo. A piedade daquela idade irá partir, em que a justificação
pela fé e santificação pelo Espírito deixará de ser a vida das almas dos
homens. Estes são o pão da vida, e como o pão de nossos corpos, embora possa
ser um pouco melhorado na preparação, mais separado da palha e mais finamente
amassado, contudo deve ser o mesmo trigo, no entanto a sua moagem pode ser
alterada para melhor.
Quão inteiramente, quão satisfatoriamente e quão
deliciosamente este assunto responde à grande questão que, em todas as épocas,
deixou perplexa a consciência perturbada, agitou o coração ansioso e confundiu
os juízos ignorantes da raça humana: "Como o homem será justo com
Deus?" Para encontrar uma resposta a esta pergunta todos os tipos de
dispositivos foram inventados. Até mesmo os pagãos tiveram noções de culpa, e
colocavam seus escorpiões em seus seios, pois sabiam que "faziam coisas
dignas da morte". Os pressentimentos misteriosos do juízo vindouro,
igualmente intoleráveis e inescrutáveis, têm angustiado sua alma e lhes
forçado
à solene pergunta: "Com que me apresentarei diante do Senhor, e me prostrarei
perante o Deus excelso? Apresentar-me-ei diante dele com holocausto, com
bezerros de um ano? Agradar-se-á o
Senhor de milhares de carneiros, ou de miríades de ribeiros de azeite? Darei o
meu primogênito pela minha transgressão, o fruto das minhas entranhas pelo
pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o
Senhor requer de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benevolência, e
andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6: 6-8). E eles responderam à pergunta de
acordo com a sugestão de seus próprios medos; e daí a longa série de ritos
sangrentos, penitências e sacrifícios que a superstição inventou, e as nações
idólatras praticaram; mas sem outro efeito, que torná-los ainda mais culpados e
mais miseráveis.
Mas, logo que abrimos as Escrituras da verdade e
consultarmos o oráculo de Deus, toda essa ignorância é removida de nossa mente;
os anseios de nosso coração estão satisfeitos; as perturbações de nossa
consciência são acalmadas; e nós somos restaurados à paz. E esperamos por essa
maravilhosa linguagem; "Sendo justificados gratuitamente
pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs
como propiciação, pela fé, no seu sangue, para demonstração da sua justiça por
ter ele na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos; para
demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e
também justificador daquele que tem fé em Jesus." (Romanos 3: 24-26). Lá o grande e
solene problema é resolvido; resolvido de uma maneira que dissipa todo medo, e
coloca o coração ansioso em repouso. Lá, Deus aparece como justo para si mesmo,
como ele é misericordioso para conosco; enquanto ele perdoa todos os nossos
pecados, nos recebe a seu favor e nos trata como justos. Oh, a profundidade das
riquezas, tanto da sabedoria e do conhecimento de Deus, naquele esquema
maravilhoso, do qual a cruz é o centro e o símbolo. O homem, embora um pecador,
justificado diante de Deus; e ainda ao
mesmo tempo, a lei magnificada; o governo moral sustentado em toda a sua
perfeição; e os atributos de Deus de verdade, santidade e justiça, não menos
manifestados, nem menos brilhantemente glorificados do que a sua misericórdia.
Como é feliz, ou pode ser, o homem justificado.
Que melodia, passando todo o poder da música, seja da terra ou do céu, está ali
nas palavras já citadas: "Justificados pela fé, temos paz com Deus, por
nosso Senhor Jesus Cristo, por quem também temos acesso por fé a essa graça em
que estamos firmes, e nos regozijamos na esperança da glória de Deus." Paz
com Deus agora; a glória de Deus no futuro; e o presente regozijo da esperança
na perspectiva do futuro maravilhoso, inefável, inconcebível! Tais privilégios
são demasiado profundos para soar com linhas mortais; muito escuras, e tendo
excesso de brilho, para ser visto com fraco sentido. Não só não aparece ainda o
que seremos; mas o que somos. Podemos tão pouco compreender todo o presente,
como podemos conhecer todo o futuro. Que linguagem pode nos ajudar a extrair
todos os privilégios contidos nessa única palavra; JUSTIFICAÇÃO; que frase; um
herdeiro de Deus; que bênção - PAZ COM DEUS!
Você que lê essas páginas, você está justificado?
Você tem boas razões para acreditar que este é o seu estado? Então regozije-se;
que poderiam os mundos da riqueza fazer por você no caminho de torná-lo mais
rico ou mais feliz do que é sendo justificado? Quão insignificantes, quão sem
valor, todos os objetos da ambição humana ou da avareza parecem quando
colocados ao lado dessas bênçãos espirituais nas coisas e lugares celestiais em
Cristo Jesus.
E quais são todas as suas tristezas, seus cuidados
e suas perdas; quando vistos à luz dessa feliz condição? Diga-me de sua pobreza
e muitas privações; e eu responderei, "Sim, mas então, pense na sua
justificação!" Fale-me de suas esperanças decepcionadas e esquemas
choramingados; "Sim, mas pense em sua justificação!" Fale-me de sua
mudança de circunstâncias e do contraste doloroso do presente com o passado, e
tudo o que você esperava para o futuro; "Sim, mas pense em sua
justificação!" Diga-me de seus amigos que partiram, e sua condição agora
solitária e desolada, "Sim, mas pense em sua justificação!"
Assim, a cada conto de carência ou aflição, onde
esse conto vem dos lábios de um crente em Cristo, trarei essa melodia suave e
reconfortante para o espírito conturbado: justificação pela fé! Coloque o que
quer que possamos na escala de nossas aflições; é apenas a pequena poeira do
equilíbrio, quando posto contra esse peso eterno de bem-aventurança que
preenche o outro prato da balança. Aquele que é realmente perdoado, recebido no
favor de Deus, libertado da ira vindoura e com direito à vida eterna, deve se
envergonhar de imaginar que há ou pode haver uma lágrima nos olhos, que esta
bênção não possa limpar; ou uma dor no coração, que não possa aliviar. Um
criminoso perdoado; um homem que acaba de sair da prisão e da forca, e
levantado para a esperança de alguma glória futura e honra que estão diante dele,
não pode ser suposto pensar muito de algumas privações presentes e
inconvenientes; tudo é misericórdia para com ele.
Tal, crente, é a sua condição; e além disto, você está
passando da paz de Deus agora; para a glória de Deus no futuro! Esta é a sua
canção agora em sua cansada peregrinação; "Graça, graça!" A cada
passo, renove essa doce melodia! Logo, mesmo essa canção abençoada será
derrubada, para uma ainda mais abençoada, e você irá percorrer a eternidade,
cantando: "Glória, glória!"
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