Título original: Contentment
Por
Wilhelmus à Brakel (1635-1711)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
Introdução do Tradutor
Já ouvi várias vezes ser pronunciado que o verdadeiro
contentamento é algo impossível, pelo menos enquanto vivermos neste mundo de
trevas e pecado.
Quantas vezes, eu mesmo abriguei em meu coração expectativas de ser
alegrado e ficar satisfeito em determinados projetos, que no fim deram em
grande frustração.
Todavia, estes eventos são uma causa real para a anulação de um
verdadeiro contentamento?
Creio que esta pergunta será plenamente respondida à medida que o leitor
se dedicar em meditar nas verdades que são reveladas neste livro.
Não a título de antecipação, mas para expor minha própria experiência,
tenho aprendido ao longo dos anos que quanto mais colocamos nossa esperança de
contentamento na criatura, é quase certo que sempre seremos frustrados no
processo.
A Bíblia e especificamente o ensino de nosso Senhor Jesus Cristo e dos
Seus apóstolos revelam claramente, que é em Deus somente que deve ser colocada
a nossa expectativa de contentamento, e esta deve excluir totalmente o
tratamento que recebemos de pessoas ou das circunstâncias que tenhamos que
enfrentar.
Quando nosso Senhor estava consolando os apóstolos com suas últimas
palavras em Seu ministério terreno, Ele lhes disse que, para que a alegria
deles fosse completa deveriam começar a se dirigir ao Pai fazendo-lhe petições.
Veja que Ele associou o contentamento, à relação deles com Deus e não a
qualquer outro motivo.
O apóstolo Paulo afirma, que é no Senhor que deve estar o motivo da nossa
alegria.
Em muitas outras passagens encontramos a mesma orientação para o referido
propósito.
Então, enquanto ficamos entristecidos ou frustrados e descontentes pelas
circunstâncias, ou pelas criaturas em nosso relacionamento com elas, é porque
ainda não aprendemos a grande lição de estarmos contentes em toda e qualquer
situação, porque o nosso foco de alegria deve estar direcionado somente para
Deus e nada mais.
Viver de expectativas de alegrias terrenas, e de cavarmos aqui o nosso
contentamento, certamente trará muito abatimento e descontentamento de
espírito, que muitas vezes impedirá que continuemos na prática do bem com o
coração aberto e alegre, amando até mesmo os que nos frustram ou maltratam, em
razão do nosso foco no amor de Deus e em nosso dever de dar um bom testemunho
de fé, de amor e alegria em tudo o que possamos estar sofrendo neste mundo.
É por isso que a ordenança bíblica pode ser “alegrai-vos sempre no
Senhor”, e também, “em tudo dai graças”, pois se dependêssemos de
circunstâncias favoráveis e agradáveis para sermos encontrados contentes em
espírito, tal ordenança seria simplesmente impossível de ser vivida, pois somos
afligidos por diversas provações.
Somos ordenados a fazer todas as coisas com amor e não como para os
homens, mas para Deus, ou seja, para agradar a Deus e não aos homens, e nem
mesmo para buscarmos agrado para nós mesmos.
Se Noé fosse construir a arca naqueles 120 anos contando com o
aplauso, a gratidão ou a aprovação dos
homens, é bem certo que jamais a teria construído, pois deve ter sofrido
oposição até mesmo dentro de sua família, por ter se entregado à realização de
um projeto que aos olhos de todos parecia uma loucura.
Assim, também nós se formos esperar sermos reconhecidos, amados, e ter o
agradecimento e a aprovação dos homens nos projetos que realizamos para Deus é
bem certo que iremos parar no meio do caminho, porque toda obra que proceda
verdadeiramente de Deus sempre fica sujeitada a grandes oposições, porque é uma
lei; que onde há a fé, esta deve sempre ser provada.
Mas, deixemos a palavra com Wilhelmus à Brakel para sermos melhor
instruídos neste fascinante e tão proveitoso caminho, que tem muito a ver com
nossa vida real e cotidiana, se é nosso desejo viver de modo esclarecido e
aprovado diante de Deus e dos homens.
Introdução do Autor
Uma vez que a profissão da verdade geralmente
tem um efeito adverso sobre as questões temporais que impedem tantos de serem
ousados em sua
profissão, é necessário, portanto que resistamos a essa adversidade e estejamos satisfeitos
com a vontade de Deus em relação às circunstâncias temporais. Isso vamos
discutir agora.
A palavra "contentamento" em hebraico é “dai”, isto é, “plenitude,
abundância e suficiência”. Frequentemente esta palavra é atribuída a Deus. O
Senhor se chama (El Shaddai), isto é, o Deus que possui tudo e a todos.
É capaz de trazer tudo de Sua plenitude. É geralmente traduzido como
"o Todo-Poderoso". Em grego, a palavra é (autarkeia), que é composta
por duas palavras: ser suficiente e – si mesmo. Isto, é indicativo
de ter suficiência por nós mesmos ou para nós mesmos, pois ninguém pode se
contentar se não tiver o suficiente, e nós temos bastante se já não desejarmos
qualquer coisa. Assim, “contentamento” não consiste na multidão de posses, mas
no cumprimento do desejo. Se o desejo é grande, então muito é necessário para a
realização deste desejo; se for pequeno, só um pouco será suficiente. Um pouco
vai encher uma pequena garrafa, e muito é necessário para encher um grande
barril. O homem precisa senão de pouco para viver no serviço de Deus, e se seus
desejos são proporcionais com o que precisa, um pouco é suficiente para
preencher seus desejos e seu estômago.
O contentamento é uma virtude cristã consistindo numa correspondência
entre o desejo dos filhos de Deus e as suas circunstâncias presentes - isto é
verdade, porque é a vontade de seu Deus em Cristo, de acordo com Sua soberana determinação.
Nisto descansam com alegria, em confiança tranquila com alegria e gratidão,
confiando que o Senhor fará com que o presente e o futuro se transformem em
vantagem. Isso faz com que eles utilizem sua condição atual para o avanço de
sua vida espiritual e para a glória de Deus.
O contentamento é uma virtude cristã dos filhos de
Deus. Os não convertidos são reprovados para todas as boas obras e não são familiarizados
com a natureza dessa virtude. Quando percebem isso nos filhos de Deus, eles o
desprezam como tendo um nível baixo de inteligência, sonhadores, de
insensibilidade estoica, e nos consideram impróprios para assuntos mais
elevados - sendo este um tesouro que está escondido para eles. Os filhos de
Deus, no entanto têm esta virtude em princípio, e eles percebendo a beleza
desta virtude fazem diligente esforço para possuí-la em maior medida. O coração
é o verdadeiro assento dessa virtude. O contentamento não é questão de
palavras. Não é de natureza obrigatória, nem consiste em abster-se de perseguir
o que é necessário no mundo. Não é uma determinação mental para manter-nos
satisfeitos, mas é uma disposição da alma. O intelecto, a vontade, e as
afeições estão em uma disposição satisfeita, e a partir desta propensão ações
surgem que são consistentes com essa disposição. Essa disposição só pode ser
encontrada nos filhos de Deus – naqueles que são de fato piedosos. “Mas a
piedade com contentamento é de grande ganho." (1 Tim 6: 6).
(Nota do tradutor: Esta disposição de estar
contente em todas as circunstâncias é aprendida pela instrução e poder operante
do Espírito Santo, e o seu fundamento é a justificação pela fé em Cristo,
motivo pelo qual não pode ser achada no não convertido - naquele que rejeita a
Cristo e a Sua salvação.)
O Objeto do Contentamento
O
objeto do contentamento é nossa condição atual. Sendo crentes e permanecendo no
estado de graça, ainda encontram muitas coisas relativas aos desejos da alma e
do corpo. Às vezes, a condição de ambos concorda em um sentido geral com seus
desejos, e às vezes há uma discrepância muito grande entre os dois. É fácil se
contentar, se o Senhor conceder o desejo do coração. Se, entretanto nossas
circunstâncias não concordarem com nossos desejos será uma tarefa difícil
trazer nossos desejos em harmonia com nossas circunstâncias. O cristão é exercitado
quanto a isso.
As
posses não produzem contentamento. O homem pode ser descontente ou satisfeito,
independentemente de ser rico ou pobre. Alguém que é rico ou de posses medianas
deve se esforçar tanto para ser contente com seu estado, quanto o pobre no seu.
Não devemos nos esforçar para estarmos em circunstâncias diferentes, pensando
que estaremos melhor; pelo contrário devemos trabalhar para estarmos bem, na
condição em que nos encontramos. Um pobre pensa: "Se eu fosse apenas da
classe média..."; um da citada classe pensa: "se eu fosse rico...";
uma pessoa rica: "se eu tivesse mais"; uma pessoa solteira pensa
quanto ao contentamento: Se eu fosse casado...; e uma pessoa casada: se eu
fosse solteiro...; um marinheiro: se eu só tivesse uma ocupação em terra...”; um artesão: se eu fosse um homem de
negócios; etc. Estes são pensamentos tolos. O contentamento não consiste nisso,
mas em sentir que a condição em que nos encontramos é a melhor para nós.
A exortação é a seguinte: “Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes;
porque ele mesmo disse: Não te deixarei, nem te desampararei." (Heb 13: 5).
A Natureza do Contentamento
A
natureza dessa virtude consiste em haver harmonia entre nossos desejos e nossas
circunstâncias atuais.
O
homem não é naturalmente autossuficiente; ele é apenas um vaso no qual algo
pode ser inserido. E, para ser preenchido ele tem desejos que - como mãos – se estendem
para o que ele julga necessitar.
Após
a queda, nossos desejos se tornaram desordenados tanto em relação aos assuntos
desejados que não podemos cumprir, bem como à maneira desejada, fazendo isso
com muita veemência e paixão. Este vício ainda está parcialmente presente nos
filhos de Deus após a regeneração, e lhes dá muito sofrimento. Ainda que eles saibam
que devem ser opostos a isso, também desejam muito. Eles desejam que tudo
esteja bem, de acordo com suas aspirações, no entanto eles não as podem
preencher com o que é terreno, porém seus desejos devem ser moderados, de
acordo com o que possuem- seja muito ou pouco.
Não devemos eliminar todos os desejos, como se a
ausência de desejo constituísse a verdadeira satisfação. Isso seria desumanizar
o homem e torná-lo menos que um animal. Nossos desejos devem ser contrários ao
que é mau. O que é mal deve ser um fardo para nós, deve nos afligir, deve-se
sentir dor sob ele, e ter o desejo de ser livrado dele. O que é bom deve ser
desejável para nós e nossos desejos devem ser focados em seu prazer. Devemos
perseguir esses desejos usando os meios que estão subordinados a isso. Assim, a
satisfação não exclui os desejos nem o uso dos meios, mas exclui todos os
desejos que se concentram em assuntos pecaminosos. Isso se refere a todos os
desejos para tudo o que excede nossas necessidades; todos os desejos veementes
e apaixonados por algo que normalmente poderia ser legalmente desejado, todas
as angústias mentais, mágoas e desânimos se as coisas não seguirem nosso
caminho.
No entanto, tudo isso ainda não constitui o contentamento.
O contentamento consiste na correspondência de nossos desejos com nossas condições,
e numa disposição para estar nas circunstâncias em que estamos, e em nenhuma que
seja correspondente a outras pessoas. Antes de estar em tais circunstâncias,
podemos realmente ter desejos (uma questão que consideramos essencial), contudo
devemos fazê-lo com um julgamento verdadeiro e justo. Além disso, se entramos
em circunstâncias difíceis, então realmente desejamos ser libertados delas e
vir a circunstâncias melhores. Isso não é contrário a ser satisfeito. No
entanto, enquanto estamos em nossas circunstâncias presentes - sejam boas ou
más - devemos nos contentar com o presente, e regular nossos desejos em harmonia
com as condições em que estamos vivendo atualmente. Mesmo os homens naturais, que
aderem a um stoicum fatum (ou seja, “isto deve ser assim; não há nada a ser
feito sobre isso”), enquanto na verdade
permanece descontente quanto ao desejo que foi apenas sublimado. Já, no caso do
contentamento cristão, a grande diferença está em que o crente se gloria
inclusive nas próprias necessidades, e assim demonstram que o contentamento
consiste em uma correspondência entre desejos e circunstâncias atuais. Os
piedosos têm muito mais razão para regular seus desejos de acordo com suas
circunstâncias, e fazer com que sua vontade esteja em harmonia com isto - sendo
a vontade de Deus.
Isto não é apenas aplicável ao físico, mas também
ao espiritual. Estar contente quando as coisas não vão de acordo com nossos
desejos é uma tarefa difícil em ambos os aspectos, entretanto isto é muito mais
verdadeiro no reino espiritual. Se estamos em trevas espirituais sofrendo de
deserção espiritual, sendo espiritualmente agredidos e estando sujeitos ao
poder da corrupção, então também devemos estar satisfeitos e regular nossos desejos
de acordo com nossas circunstâncias. Devemos
fazê-lo, não porque tais circunstâncias são desejáveis para nós ou poderiam ser, e não porque não devemos nos esforçar para estar contentes, mas
porque é a vontade de Deus não nos dar mais graça presentemente, uma vez que
lhe agrada conduzir-nos sob provação no caminho para a salvação e a
glorificação de Seu Nome.
(Nota do tradutor: Este último ponto pode ser
exemplificado por condições em que mesmo estando cumprindo fielmente a obra de
Deus, somos atingidos por espinhos na carne, conforme sucedeu com o apóstolo
Paulo na experiência relatada por ele em II Coríntios 12, e somos chamados a
contar somente com a graça de Jesus, de maneira que possamos até mesmo nos
gloriar nas tribulações, nas perseguições, nas angústias, nas necessidades, por
causa do nosso amor por Cristo.
Este espinho na carne pode vir a nós sob variadas
formas, quer em ataques espirituais diretos dos poderes das trevas, ou através
da instrumentalidade de pessoas que nos sejam até mesmo muito queridas, em
demonstrações de provocação, ingratidão, injustiça, confrontação,
desmerecimento, calúnia, injúria, maledicência ou em qualquer outra forma que
vise anular o nosso contentamento.
Caso estejamos buscando o favor dos homens, de
sermos amados ou aprovados e elogiados por eles, é bem certo que ficaremos
desanimados, entristecidos, magoados, caso sejamos decepcionados por eles, mas
se estivermos buscando fazer tudo somente para a glória de Deus, para o Seu
agrado em cumprimento à Sua vontade, e na plena convicção de estarmos cumprindo
a mesma, nada poderá nos deter no caminho da prática do amor e do bem, por
maiores que sejam as injustiças e perseguições que possamos sofrer da parte dos
homens. De igual forma, nada poderá tirar o nosso contentamento em Deus, pois é
a certeza de que Deus está contente conosco, pelo nosso bom testemunho e
procedimento, que é a nossa força, como se afirma na Palavra que “a alegria do
Senhor é a nossa força”.)
O Fundamento do
Contentamento
O
fundamento sobre o qual nossas circunstâncias atuais são baseadas, e pelo qual
estamos satisfeitos com elas é porque tal é a vontade de nosso Deus em Cristo
Jesus, e Ele tem dirigido estas circunstâncias para serem assim.
O
homem não pode amar o que é doloroso e desejá-lo como tal. Em vez disso existe
uma razão diferente para que os crentes estejam contentes em circunstâncias que
são maléficas e graves - a razão é porque assim agrada a Deus. É uma coisa para
que simplesmente coloquemos em prática o princípio de buscar o fortalecimento
da graça, e somente dela tal como o apóstolo havia experimentado com seu
espinho na carne, de maneira que nossa condição seja de acordo com a vontade de
Deus, porque todos devemos ceder ao
poder e à mão de Deus. Então não há um desejo sequer do qual se possa dizer que
não deve corresponder às circunstâncias. Pelo contrário, é um ser obrigado a
consentir, e isso não difere muito do destino pagão. É algo bastante diferente abraçar
a vontade de Deus como sendo a mais eminente em si, e desejável para eles, porque
para que a vontade de Deus seja eficaz para o contentamento, devemos considerar
Deus como nosso Deus - nosso Deus reconciliado em Cristo Jesus. O exercício da
fé é de grande significado aqui, seja ao receber expressamente Jesus como
oferecendo a Si mesmo, e assim vindo a Deus, ou seja que a fé é operada
reflexivamente e com segurança sobre nosso estado de graça. O exercício da fé
também é de grande significado, quando se pode considerar como sendo
reconciliado somente em virtude da propensão da fé, além de uma manifestação
renovada de segurança, e quando alguém se apega somente a Jesus para ter uma
participação nEle, assim vindo a Deus
através dEle enquanto exercita a esperança. Quanto mais forte for a fé, maior
será o contentamento com a vontade de Deus.
Esta
disposição crente gera amor para com Deus, e o amor reconhece Sua majestade e a
adequação da sujeição. O amor engendra um deleite na vontade de Deus, e assim o
amor pela vontade de Deus conquista e prevalece sobre o amor por si mesmo. O
amor para com o bom prazer de Deus faz com que os desejos do crente correspondam
às suas circunstâncias. Ele desejará que seja assim, mesmo que com lágrimas nos
olhos, porque o Senhor deseja que assim seja. Esta vontade é preciosa para os
crentes acima de tudo o mais, e faz tudo o que é amargo se tornar doce, e o que
é pesado, leve. Observe isso no perfeito exemplo do Senhor Jesus: "Porque
desci do céu, para não fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que
enviou." (João 6:38); “todavia, não seja como eu quero, mas como tu
queres." (Mateus 26:39).
(Nota do tradutor: é por este motivo que podemos
entender melhor o significado das seguintes palavras do apóstolo Pedro:
” 15 Porque assim é a vontade de
Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos,
16 como
livres, e não tendo a liberdade como capa da malícia, mas como servos de Deus.
17 Honrai a
todos. Amai aos irmãos. Temei a Deus. Honrai ao rei.
18 Vós,
servos, sujeitai-vos com todo o temor aos vossos senhores, não somente aos bons
e moderados, mas também aos maus.
19 Porque
isto é agradável, que alguém, por causa da consciência para com Deus, suporte
tristezas, padecendo injustamente.
20 Pois, que
glória é essa, se, quando cometeis pecado e sois por isso esbofeteados, sofreis
com paciência? Mas se, quando fazeis o bem e sois afligidos, o sofreis com
paciência, isso é agradável a Deus.
21 Porque
para isso fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós,
deixando-vos exemplo, para que sigais as suas pisadas.” (I Pedro 2.15-21).
E também:
“12 Amados,
não estranheis a ardente provação que vem sobre vós para vos experimentar, como
se coisa estranha vos acontecesse;
13 mas
regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também
na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis.
14 Se pelo
nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa
o Espírito da glória, o Espírito de Deus.
15 Que
nenhum de vós, entretanto, padeça como homicida, ou ladrão, ou malfeitor, ou
como quem se entremete em negócios alheios;
16 mas, se
padece como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome.” (
I Pedro 4.12-16).
O apóstolo
havia aprendido isto do exemplo do próprio Senhor Jesus Cristo e da ordem
expressa que ele deixou para ser cumprida na vida de todos os crentes:
“10
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o
reino dos céus.
11
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo,
disserem todo mal contra vós por minha causa.
12
Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim
perseguiram aos profetas que foram antes de vós.” (Mateus 5.10-12).
Os Efeitos
ou Frutos do Contentamento
Os efeitos ou frutos do contentamento são:
(1) Estar satisfeito com determinadas
circunstâncias, uma vez que é a vontade de Deus. “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas
perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco,
então é que sou forte."
(2 Cor 12:10).
(2) Uma confiança tranquila. Este não é um ser
descuidado e insensível, mas um abraço ativo da vontade de Deus que faz com que
os crentes fiquem em silêncio - não com relutância ou desânimo, mas crendo na
submissão. “Emudecido estou, não abro a minha boca; pois tu és
que agiste,"
(Salmos 39: 9).
(3) Uma disposição alegre. Isso não se refere às
tribulações como tal. “Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser
motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de
justiça nos que por ela têm sido exercitados." (Heb 12:11).
A
vontade de Deus torna aquilo que é amargo doce, portanto, o apóstolo diz: "Também nos
gloriamos nas tribulações" (Rom 5: 3);
“Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias
provações,"
(Tiago 1: 2).
(4)
Gratidão. Um cristão vê a mão de Deus como sendo a mão de um pai amoroso. Ele
sabe por experiência própria, que é bom ser afligido e que Deus aflige em
fidelidade. Assim sendo, ele dá graças a Deus em tudo (1 Tessalonicenses 5:18),
e diz com Jó: "O Senhor deu, e o Senhor tomou; bendito seja o nome do
Senhor." (Jó 1:21).
(5) Descansar e confiar na providência do Senhor.
Uma pessoa contente encontra tal prazer na vontade de Deus, que não tem
preocupação com o presente nem com o futuro, pois acredita que Deus é seu Pai,
portanto tudo o que Deus trouxer sobre ele será para seu bem e sua vantagem. E,
em consequência fica confiante e bem satisfeito.
“1 Aquele que habita no
esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará.
2 Direi do
Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio." (Sl 91: 1-2).
(6) Crescimento espiritual. Por meio do
contentamento escaparemos a muitos obstáculos que nos impedem de praticar a piedade.
O mal engendra muitos pecados e nos mantém em uma condição pecaminosa, ou
impede a prática de muitas virtudes. Por meio do contentamento, nós iremos
afastar cada peso e o pecado que tão facilmente nos aflige; Ele nos capacitará
a "correr com paciência a carreira que está diante de nós" (Heb
12:10).
Somente quando carregamos nossa cruz com
contentamento, a cruz será para nosso benefício e seremos santificados por ela.
Se pudermos nos gloriar na tribulação, então a tribulação vai trabalhar a
paciência; e a paciência, a experiência; e a experiência, a esperança." (Romanos
5: 3-4). Assim, a cruz se torna uma escola. “Bem-aventurado é o homem a quem tu
castigas, ó Senhor, e a quem ensinas a tua lei." (Sal 94:12).
(Nota do tradutor: para tal viver é essencial que
nos exercitemos a identificar em todas as circunstâncias que nos sejam
desagradáveis, a mão de Deus nos provando, para que possamos saber o quanto
ainda estamos depositando nossa confiança em estarmos contentes nas
circunstâncias e pessoas que nos sejam favoráveis, ou sempre e somente no
Senhor independentemente do que sejam tais circunstâncias. Se ficamos
desanimados, abatidos, magoados ou irados, é sinal que não aprendemos ainda
como o apóstolo Paulo havia aprendido a estarmos contentes em toda e qualquer
situação.)
(7) Que
Deus é glorificado por isso, pois os crentes demonstram assim, que o Senhor é
soberano e pode fazer com Sua criatura segundo o Seu bom prazer. Eles
manifestam que Deus é todo suficiente e que, ao ter Deus, nós podemos perder
tudo o mais. Então se tornará manifesto que Deus é bom, fiel, verdadeiro, sábio
e onipotente. “Para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o
ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra
na revelação de Jesus Cristo;" (1 Pe 1: 7).
“Mas, se padece como cristão, não
se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome.” (1 Ped 4.16).
A verdade que apresentamos e explicamos é
apropriada para convencer os não convertidos de sua má condição, e os crentes
de sua deficiência e pecado.
O descontentamento é uma característica dos não
convertidos, pois em muitos casos, com eles...
(1) Algo está sempre errado. Eles não têm filhos
ou têm muitos. Eles aprenderam o comércio errado; se eu fosse um lojista, se soubesse
um ofício, ou tivesse tal ou tal habilidade, então eu estaria muito melhor. Em
tudo o que eu começo, eu contra a corrente; onde terminarei finalmente? Procuro
agradar a todos e desfrutar de seu amor e estima; no entanto, eles viram as
costas para mim. Todo mundo se opõe a mim, e lidam comigo e minha família de
uma maneira injusta. Eles me caluniam, roubam-me da minha honra e todos estão me
perseguindo. Eles estão sempre rodeados por ursos, para que nem de dia, nem de noite
possam encontrar descanso devido a uma agitação externa e interna.
(2) Outra pessoa pode ser letárgica e preguiçosa,
portanto insensível.
(3) Outra pessoa tem uma disposição doce, suave e
pode suportar tudo.
(4) Outros usam a razão e percebem como as coisas
são, ou então percebem que não há saída. Assim sendo, são pacientes à força, isto
é, não há nada a ser feito sobre isso. Ou eles se engajarão de tal maneira que
tudo correrá bem.
(5) Outros, quando a coisa principal escapa,
agarram-se a um remendo flutuante e se ocupam com uma coisa ou outra.
(6) Outros ficam completamente desencorajados,
desanimados e estariam inclinados a pendurar-se para trazer seu sofrimento ao
fim.
(7) Outros, embora possam lidar com o presente,
estão preocupados com o futuro. Todo o mau suposto faz com que eles tremam,
roubando-lhes o gozo pacífico do presente.
(8) Outros querem encontrar sua satisfação em
comer e beber, gastar dinheiro, ter prestígio e gratificar suas concupiscências
pecaminosas.
(9) Outros
procuram gratificação no trabalho de suas mãos, ou o procuram nos homens, sendo
obsequiosos, lisonjeiros, e adorando-os para ganhar seu favor. Toda pessoa não
convertida procura descansar desta maneira sem encontrá-lo, e seu contentamento
não é nada, senão agitação.
(10) Outro fará um pouco melhor e, segundo o seu
dito está satisfeito com a vontade de Deus, embora nunca tenha buscado nem
obtido reconciliação com Deus e, portanto não pode esperar a ajuda ou o favor
de Deus.
Todos aqueles cuja disposição concorda com o que
acaba de ser dito devem saber:
(1) Que você está sem Deus e Cristo, e que Deus
não é por você, mas contra você. Se Ele agita as coisas, quem então vai
silenciar as questões? Se Ele te desamparou, o que te ajudará? Então você não
pode deixar de ser cheio de medo por dentro e por fora.
(2) Que todos os seus movimentos, e todo o seu
contentamento e descontentamento não são senão pecaminosos. Isso faz você, cada
vez mais abominável aos olhos de Deus. E se você imaginar que suas circunstâncias
atuais sejam satisfatórias ou insatisfatórias, o resultado de tudo o que
persegue terá consequências para você e não produzirá senão descontentamento,
tristeza, terror, apreensão, bem como a condenação roubará tudo o que você procura
até certo ponto. A ira de Deus e o fogo do inferno te envolverão para sempre, portanto
volte-se para o Senhor e busque a reconciliação com Deus, em Cristo. Ele vai ser
a sua satisfação, e estando satisfeito Nele, todas as coisas cooperarão para o
bem.
O Piedoso: Também Sujeito
ao Descontentamento
Agora
vou dirigir-me aos piedosos. É triste que aqueles que têm Deus, como um Deus
reconciliado, que O escolheram para ser Sua porção única e suficiente (ao mesmo
tempo em que rejeitam tudo o que não é Deus), que têm tanto descontentamento,
porque tanto de acordo com o corpo e a alma, não agem neste mundo como a sua nova
natureza gostaria de agir.
(1) Seus olhos e coração olham demais para o que é
do mundo, isto é, para aquilo que é elevado e
belo, bem como para comida, bebida, vestuário, e toda sorte de aquisição
de bens terrenos, como se isso pudesse lhes render qualquer satisfação.
(2) Eles também querem agir a seu modo, e se isso
não ocorrer e os homens não cederem a eles, ficam tristes, irritados e magoados.
(3) Eles comem o pão com descontentamento, pois a
quantidade e o sabor não são como gostariam que fosse.
(4) Eles temem e tremem, tanto quanto o futuro
está em causa. Eles dizem: "O que devemos comer e vestir?"
(5) A ansiedade aflige o coração, e as preocupações
afastam a alegria da vida.
(6) Eles vacilam em relação à providência de Deus.
(7) Eles imediatamente percebem Deus como estando
irritado com eles.
(8) Eles rejeitam seu estado espiritual.
(9) Eles se tornam vulneráveis aos assaltos do diabo, que
então facilmente se apodera deles, jogando-os para lá e para cá.
(Nota do tradutor: o descontentamento espiritual,
a falta de satisfação em Deus em todas as circunstâncias faz com que o crente
se torne, por outro lado, iracundo, ingrato, amargo, insensível, sem afeto
natural, e sujeito a tudo que se refira às obras da carne, que são ampliadas
pela atuação de demônios que lhe oprimem. E, caso não se arrependa e se volte
para Deus para achar libertação, sua condição se agravará e considerará tudo e
todos como culpados pela sua condição infeliz, ou buscará alento e
contentamento nas coisas que são do mundo; e não achando paz para sua alma em
suas próprias iniciativas, a tendência é que fique ainda mais descontente.)
(10) A vida espiritual perderá seu vigor, e se o
Senhor não fosse fiel e imutável, eles seriam corrompidos em corpo e alma; e tão
severamente as tribulações mundanas poderiam feri-los. Em tal condição eles se
deliciam em desejar serem consolados, mas de uma maneira que concorde com o atendimento
de seu desejo – então eles seriam encorajados. A tristeza deve primeiro
desaparecer, a matéria deve primeiro ser atingida, eles devem primeiro ver e possuir
aquilo que vão viver, e então o conforto terá um efeito. Assim poderiam viver
despreocupados e servir o Senhor.
O Piedoso Exortado a Não
Ser Irritável
O que
eu devo dizer? Que eu devo ter pena de você? Isso eu terei, mas de tal maneira
que não prejudicarei nem incentivarei você em seu pecado. Em vez disso, eu o farei
agitando-o para superar essas ansiedades improdutivas, este ímpio descontentamento,
e essas preocupações que o arrastam para baixo.
Primeiro, quando descobrimos tudo isso, você mesmo
perceberá que ainda é muito carnal e que tem dado sua atenção a coisas que são
insignificantes. Você ainda é deste mundo como outros são, cuja porção está
nesta vida? Aquilo que é do mundo é capaz de satisfazê-lo? Quando você entrou
no pacto da graça, não estipulou que o que quer que lhe acontecesse seria para
seu bem e sua satisfação? Ou você mudou seu modo de pensar em relação a isso?
Por que haveria mais preocupação por seu corpo, do que por sua alma? Por que
deveriam as deficiências corporais serem mais dolorosas do que as deficiências
da alma? Tenha vergonha diante de Deus e do homem, que você seja assim tão
carnal.
Em segundo lugar, você não percebe que isso é
idolatria? Há nisso um afastamento secreto de Deus, uma negligência de Sua dependência,
e uma negação secreta da providência de Deus. Existe uma acusação secreta de
crueldade e falta de cuidado por você, de mutabilidade e de não ser fiel às
Suas promessas. Sob a pretensão de estar preocupado com necessidades há o
desejo de confiar em coisas temporais e viver apenas de pão; e mesmo se não, sua
confiança nas coisas temporais é parcialmente verdadeira. Deus e as coisas
deste mundo juntos devem realizar a sua satisfação; ou você serve a Deus para
que Ele lhe dê coisas temporais? Que disposição má é esta! Quão longe isso está
da disposição do salmista: "A quem tenho
eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha
carne e o meu coração desfalecem; do meu coração, porém, Deus é a fortaleza, e
o meu quinhão para sempre.” (Salmo 73: 25-26)!
Ao chegar diante de Deus tenha vergonha da sua
disposição pecaminosa.
Em terceiro lugar, essas preocupações e ansiedades
que fazem estremecer provêm de um coração orgulhoso relativo tanto a Deus, quanto
ao homem. É orgulho relativo a Deus, pois implica que alguém é digno de alguma
coisa, e que Deus é obrigado a nos tratar de acordo com nossos desejos. Se
alguém fosse verdadeiramente consciente de sua pecaminosidade e culpa, e refletisse
sobre isso, ele chegaria a um lugar inferior e afundaria em espanto, que Deus
ainda o suportou e lhe deu muito acima de outros que têm muito menos do que ele,
considerando que pecamos gravemente, e talvez sejamos ainda mais pecaminosos do
que pensamos.
É também uma manifestação de orgulho em relação ao
nosso próximo, pois olhamos para aqueles que são superiores a nós e perguntamos:
"Por que eu não tenho tanto como ele?" Muito raramente a preocupação
pertence verdadeiramente ao que está presentemente em necessidades temporais, pois
pouco é suficiente. Em vez disso pertence ao nosso desejo de possuir, de ter
tanto quanto o outro, e a busca de dignidade para não sermos desprezados, por
sermos pobres e ter que depender da igreja ou de outros. É verdade que isso,
quando considerado em si mesmo, não deve ser uma questão de indiferença para
nós. É a vontade de Deus que tenhamos desejos relativos ao nosso bem-estar e
que nossa jornada por este mundo seja com dignidade, no entanto devemos negar
esses desejos quando Deus deseja nos humilhar e nos manter humildes. Portanto,
escondido sob a capa de estar preocupado com as necessidades, com a dignidade e
ser capaz de servir a Deus, está o orgulho.
Deus deseja ser servido por alguém enquanto tendo
uma posição mais elevada no mundo, e por outro enquanto em uma posição mais
humilde. A vontade de Deus deve ser nosso prazer em qualquer circunstância em que
estejamos. O desânimo de estar em uma posição mais baixa, não é nada além de
orgulho.
Portanto, torne-se humilde e você será libertado
de muitos cuidados não lucrativos.
Em quarto lugar, todas as suas preocupações são em
vão e você não vai ganhar um centavo por elas. Deus já decretou desde a eternidade
quanto você terá. Há uma porção "conveniente" (Provérbios 30: 8) que
Deus designou para todos, e que Ele dá em Seu tempo. Ninguém tirará esta porção
de você, nem será diminuída. Com todas as suas preocupações e ansiedade você
não vai adicionar nem um níquel, nem quebrar ou mudar o conselho determinado de
Deus. Havia Israelitas cobiçosos que ajuntaram muito maná, contudo quando
chegaram em casa, não tiveram mais do que a sua medida.
Havia outros que devido à falta de força, ou por estarem
em um local onde não havia caído muito maná, haviam juntado pouco. Mas quando
chegaram em casa, sua medida também estava cheia. O primeiro não teve sobras e
o outro não teve falta. (2 Cor 8, 15).
“25 Por isso
vos digo: Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer,
ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de
vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?
26 Olhai para
as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso
Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?
27 Ora, qual
de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
28 E pelo
que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo,
como crescem; não trabalham nem fiam;
29 contudo
vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.
30 Pois, se
Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno,
quanto mais a vós, homens de pouca fé?
31 Portanto,
não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber?
ou: Com que nos havemos de vestir?
32 (Pois a
todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que
precisais de tudo isso."
(Mt 6:25, 27, 32).
Em quinto lugar, você desonra a Deus e se
prejudica, pois por meio destas preocupações mostra que não tem somente a Deus
como sua porção, e que não pode ser satisfeito com Ele a menos que tenha tantos
bens temporais quanto você julgar necessário. Não seria uma desonra para um Pai
que tem riqueza suficiente, se permitir que seus filhos sofram necessidade,
apesar de seus gritos e súplicas? Você também não é a causa para que outros,
por meio de sua insatisfação e preocupações infrutíferas, comecem a pensar no
Senhor dessa maneira, como se Ele não tivesse amor, misericórdia e compaixão?
Você o glorificaria, pelo contrário, se ficasse satisfeito com suas
circunstâncias atuais e se sua felicidade consistisse no gozo do próprio Deus.
No que diz respeito a si mesmo, se permanecer em inquietação,
apreensão, medo e ansiedade; você se rouba de prazer e alegria em Deus. Você impede
seu crescimento, uma vez que a sua disposição desagrada a Deus, e o torna
impróprio para usar adequadamente os meios para crescimento espiritual. Suas
preocupações farão com que a Palavra e seus bons movimentos interiores sejam
sufocados, tornando-os assim Infrutíferos (Mt 13:22). A incredulidade tem
oportunidade de aparecer, e lançará a alma ansiosa de um lado para outro. O
desejo do exercício religioso diminui e o livre acesso a Deus é dificultado. Os
pensamentos que essas adversidades vêm sobre você sob a ira de Deus, faz com
que a alma trema. Assim, em grande parte a quietude, a dependência de Deus, uma
confiança infantil nEle, e andar com Ele desaparece. Você perderia tudo isso
por uma quantidade maior ou menor de pão, o caminho para sua própria honra e
para o futuro, do qual você não sabe como será? Oh, esses assuntos também são insignificantes
para permitir que o bem-estar de sua alma se dissipe.
(Nota do tradutor: esta insatisfação motivada por
desejos inadequados por coisas materiais pode ser estendida a todos os demais
motivos, inclusive a todas as circunstâncias em que nos sintamos sendo
contrariados por 0utros, ou até mesmo por motivo de complexos de inferioridade.
Em suma, tudo o que nos leve para longe de um contentamento permanente em Deus
pode comprovar para nós mesmos o quanto ainda somos carnais, e não plenamente
confiantes e satisfeitos no Senhor.)
Em sexto lugar, depois que o Senhor te livrar da
tua perplexidade - o que certamente fará em Seu tempo - então, devido à sua
insatisfação anterior e resmungos, você terá se tornado incapaz de ser
verdadeiramente grato ao Senhor, e um sentimento de vergonha sobre a sua
desconfiança anterior fará com que sua alma sinta uma nova tristeza. Também
pode acontecer que o Senhor, ao ter
cumprido seu desejo desordenado enviará uma magreza em sua alma. Então, você
será confundido e desejará que estivesse em uma condição espiritual melhor.
Assim sendo, conduza-se bem enquanto estiver em uma escola em que pode aprender
muito daquilo que não poderia aprender em um tempo de prosperidade. Tome
cuidado, portanto e esteja em guarda para não ser murmurador e queixoso sobre
sua condição, enquanto andando de acordo com suas concupiscências (Judas 16).
Em vez disso, possua a sua alma em paciência e fique satisfeito com o presente.
Você então estará apto a servir ao Senhor em prosperidade ou em adversidade.
Exortação para Lutar pelo Contentamento
Portanto,
filhos de Deus, ou ricos, ou da classe média, de meios limitados,
insignificantes, pobres, oprimidos ou atirados com a tempestade - quem quer que
você seja e quaisquer que sejam suas circunstâncias, todos precisam de uma exortação,
pois nenhuma circunstância por si só produz satisfação. Aprenda a ajustar seus
desejos às suas circunstâncias, independentemente do que possam ser, e não se
esforce para ajustar suas circunstâncias aos seus desejos, pois não haveria fim
para isso. Mantenha a insatisfação longe de você como sendo uma pestilência
prejudicial para sua vida espiritual, e possua a sua alma em contentamento.
Para isso, primeiro você deve meditar sobre todas
as exortações vigorosas. Ouça-as da boca do Senhor, que lhe fala desta maneira:
"Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele
tudo fará."
(Sl 37: 5); "Lança o teu fardo sobre o Senhor, e ele te susterá;
nunca permitirá que o justo seja abalado." (Sl 55:22); "Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes;
porque ele mesmo disse: Não te deixarei, nem te desampararei." (Heb 13: 5);
" Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que
comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas
coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que
necessitais de todas estas coisas; (Mt 6: 31-32);
“Este habitará nas alturas; as
fortalezas das rochas serão o seu alto refúgio; dar-se-lhe-á o seu pão; as suas
águas serão certas."(Isaías
33:16); “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque
ele tem cuidado de vós."
(1 Pe 5: 7).
Não passe depressa esses textos, mas preste
atenção a cada um; sim, a cada Palavra individual. Tome nota dessas palavras
como sendo dirigidas a você pelo Deus do céu. Ele não apenas lhe ordena que deve
pensar, mas também se contentar. O comando de Deus não é suficiente para
motivá-lo a se tornar obediente? Sua exortação não é suficiente para te incentivar?
Tome nota também, das promessas que o Onipotente, bom e verdadeiro Deus faz
além disso: Ele o fará acontecer; Ele te sustentará; Ele não te desamparará; o seu
Pai celestial sabe que tem necessidade de todas estas coisas; e Ele cuida de
você.
As promessas de Deus não são o suficiente para
você? Ele diria isso e não o faria? Portanto, fique satisfeito, deleite-se e se
regozije em Suas promessas que certamente serão cumpridas. É verdade que o
Senhor nem sempre promete aquilo que julgamos que é mais adequado para nós, no
entanto o Senhor certamente o fará em Seu tempo. Isto é assim melhor se não as
recebermos em nosso tempo; ainda há algo a ser aprendido e devemos primeiro,
ser capazes de usar bem as promessas. É a sabedoria e bondade do Senhor que faz
com que Ele adie o assunto, entretanto o cumprimento está fora de dúvida. Ele
não prometeu lhe dar certa quantidade, mas tanto quanto vai precisar, que deveria
ser suficiente para você, e Ele certamente lhe dará. Portanto, embora demore,
espere por ela, “porque certamente virá, não tardará "(Hab 2: 3). Mesmo se
você não perceber qualquer meio pelo qual, ou de onde ela virá, Ele é Todo-Poderoso.
Ele também pode fazê-lo sem meios, e sustentar você e seus filhos sem comida.
Ou então, Ele proverá os meios - mesmo que os corvos tivessem que trazê-lo a
você, mesmo se Ele fizesse com que o pão chovesse do céu, mesmo se Ele tivesse
que multiplicar farinha e óleo, ou mesmo se Ele tivesse que fechar a boca dos leões
e fazer com que o fogo não tenha poder. Portanto, fiquem quietos e vejam a
salvação do Senhor.
Em segundo lugar, não é Deus, que é seu Pai
soberano? Você gostaria que Ele não fosse assim? Você certamente responderá, -
Não, estou feliz que Ele seja assim e não quero ficar acima dEle. Eu aprovo Sua
soberania, e mesmo se Ele fosse matar-me, eu adoraria Sua soberana majestade.
"No entanto, aqui a vontade de Deus se opõe à sua vontade”. Você diz:
"Eu desejo ter isto", e Deus diz: "Eu não quero dar isto a você;
tal e tal é a medida que terá". De quem é, no entanto a vontade superior; a
de Deus ou a sua? Desde que sabe que não pode prevalecer contra Deus, você se
preocupará e murmurará, como às vezes as crianças fazem com seus pais? Isso
seria um esforço contra Deus. Desde que é soberano, entretanto Sua vontade é
suprema, e você a aprova com prazer, sujeitando-se à Sua vontade, e fazendo o
que Ele quiser. Deleite-se em suas circunstâncias, pois é a vontade de Deus a
respeito de você, especialmente porque Deus é seu Pai a quem você ora
diariamente, “seja feita a Tua vontade”. Desde que você se submete à Sua
vontade em oração, também não se sujeitará à Sua vontade em Seus tratos com
você, mesmo que eles não estejam de acordo com seus desejos? Submeta-te,
portanto a Deus e glorifique-O ao fazê-lo.
Em terceiro lugar, Deus não disse: "Eu sou o
seu Deus"? Faça com que Ele seja a sua porção para que possa desfrutar de
toda a felicidade nEle! Se você tem o Todo-Suficiente como sua salvação, ainda
está em necessidade de qualquer outra coisa? Não é Ele melhor para você do que
mil mundos, uma quantia de dinheiro ou um pedaço de pão? Portanto, fale e
pratique o que o piedoso fez. “O Senhor é a minha porção, diz a minha alma; por
isso espero nele." (Lam 3:24).
Como você considera Deus, o único Deus bendito, o
Deus da salvação completa para ser sua porção, volte-se para Ele em tempos de
angústia, busque refúgio nEle, deleite-se nEle pela fé, mesmo que Lhe agrade
não dar a medida que você deseja. Isto é posto para você na eternidade. Delicie-se
em tê-Lo como sua porção, e deixe isto satisfazê-lo, enquanto renunciando às
coisas do mundo que gostaria de ter. Para isso mantenha diante de si o exemplo
de Habacuque: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto
nas vides; ainda que falhe o produto da oliveira, e os campos não produzam
mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado da malhada e nos currais não
haja gado. Todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha
salvação."
(Hab 3: 17-18).
Em quarto lugar, o próprio Deus que lhe deu o que
é mais precioso para Ele, a saber, Seu próprio Filho Jesus Cristo, a fim de
livrá-lo de seu estado miserável e trazê-lo para a glória eterna (que Ele
colocou como uma Herança para você (Rm 8:32). Ele permitiria que você realmente
tivesse falta de alguma coisa, tanto quanto as necessidades de seu corpo? “Quem
não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não dará
também com ele livremente todas as coisas "(Rm 8:32). Eis que Cristo vos
foi dado como Salvador, e participais de todos os benefícios do pacto da graça,
e a salvação é a vossa eterna herança. Isso não é suficiente para você? Deve uma
quantia de dinheiro e um pedaço de pão ainda ser adicionado a isso antes que fique
satisfeito? Tenha vergonha de que tenha tais pensamentos. Será que Ele, quem te
deu o que é superior e eterno, te nega o que é necessário para o teu corpo? Aquele
que te deu a vida e teu corpo, também não te dará comida e roupa? “Não é a vida
mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?" (Mt 6:25). Como
você se atreve a pensar tal coisa? Portanto, esteja satisfeito com as suas presentes
circunstâncias, e você será contente. Ajuste seus desejos às suas
circunstâncias.
Em
quinto lugar, o que é o mundo para você? O que é que você está tão desejoso dele?
O que é para que você esteja tão preocupado com ele? Não é tudo transitório?
Você mesmo não permanecerá aqui eternamente, e assim como tudo o que existe no
mundo, senão existem por um momento. Por que então, se preocupa tanto com isso?
Quando a morte vier, não lamentará que você tenha tido muito pouco nesta vida,
nem lhe dará alegria se tivesse uma abundância; você não vai morrer mais
pacificamente por causa disso. Se fosse considerar todos os dias como sendo o
seu último e estivesse imaginando continuamente que está atualmente morrendo,
você não ficaria preocupado se tem mais ou menos, do que está tendo atualmente.
Portanto, permaneça focado na natureza transitória de sua existência e na insignificância
de tudo o que é do mundo. Concentre-se simultaneamente nas promessas de Deus;
Ele, como um benefício adicional lhe dará das coisas do mundo conforme
necessitar delas. Você então aprenderá a estar contente.
Em
sexto lugar, alguma pessoa piedosa nunca teve alguma coisa? Se você ler toda a
Bíblia, não encontrará um único exemplo.
Considere
o seu próprio caso. Deus cuidou de você quando era pequeno. Ele forneceu roupas
para sua conveniência, seios para ser amamentado, pais para que pudesse ser
amado, pão e roupas quando cresceu, e
tem nutrido você desde o momento de sua existência até agora. E quando você
entrou em circunstâncias desconcertantes, Ele não o livrou frequentemente?
Seria então que Deus cessará neste momento?
Aquele
que concede alimento aos filhotes quando clamam a Ele, fornece comida para os pássaros
do céu, sustenta tudo o que vive, e concede o alimento ao próprio ímpio; Ele te
esqueceria? Ele se recusaria a dar-lhe o que precisa?
Portanto,
esteja contente, confie Nele e esteja satisfeito com sua despensa, pois mesmo
que a medida não seja de acordo com seus desejos, será tanto quanto você
precisa. Isso é suficiente e deveria ser suficiente para você.
Os Benefícios Abençoados
que Emanam do Contentamento
Em
sétimo lugar, o contentamento gera muitas coisas boas. “E sabemos que todas as
coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus." (Rm 8:28).
(1) Haverá um espírito calmo, que é de grande valor
aos olhos de Deus (1 Pe 3: 4).
Haverá um grande deleite. Uma pessoa satisfeita
atropela tudo que é do mundo, vive acima daquilo que é visível e está além do alcance
de todas as flechas dos inimigos.
(2) Haverá alienação do mundo. O homem, por
natureza está muito ocupado com seu corpo e provisão para isso, por meio de
coisas temporais. Ainda há muito a ser encontrado disso em uma pessoa regenerada.
Se, entretanto ele se torna satisfeito com a vontade de Deus, então começa a se
dissociar do mundo e não busca gratificação nele, mas permanece nele como um
estranho.
(3) É um estado em que há oração e comunhão com
Deus. Uma vez que Deus é a parte do crente, ele se deleita e observa a mão de dEle
em tudo o que encontra, acreditando que é para sua vantagem, mesmo quando uma
faca de poda é usada para cortar. Se necessita de alguma coisa, ora com fé e
crê, e antecipa o que ele precisa.
(4) Há uma experiência frequente da ajuda de Deus.
Perceber que Deus olha para ele, ouve a sua oração e o livra, é dez vezes mais
precioso para um crente, dando-lhe incomparavelmente mais alegria do que se
fosse resultante de um estado de extrema pobreza, para extrema riqueza. Essa
experiência o fortalece no Senhor e também irá livrá-lo uma e outra vez no
futuro. Aquele que me livrou do urso e do leão também me livrará deste
filisteu. Aquele que me livrou de seis tribulações, não me abandonará na sétima.
(5) Haverá gratidão. Se tivermos falta de tudo e
não vemos nenhuma maneira de escape, no entanto Deus nos concede Sua ajuda; um
pedaço de pão vai ter maior sabor do que todas as iguarias desfrutadas em
prosperidade. Assim, um abrigo atrás do qual há refúgio contra a chuva e o
vento é mais agradável do que um castelo
antes habitado. A alma se eleva ao Senhor, reconhecendo-O como o Doador, regozijando-se
nEle e reconhecendo que não é digna da menor de todas as Suas misericórdias. A
confissão será, “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças
de nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades,
quem sara todas as tuas enfermidades, quem redime a tua vida da cova, quem te
coroa de benignidade e de misericórdia," (Sl 103: 2, 4).
(6) Há um anseio pelo estado de glória. Então o
crente perceberá que não se encontra aqui embaixo, mas no céu. Por isso, ele não
estará ansioso para partir e a estar com Cristo. Ele se consolará com essa
expectativa, e assim será fortalecido e encorajado a suportar todas as
tribulações. Ele se alegrará que o descanso tenha sido estabelecido, e se
apressará em entrar nesse descanso.
(7) Há a manifestação da santidade. Como os
cuidados deste mundo são os espinhos que sufocam a boa semente, o contentamento
também faz um ajuste para negar a si mesmo, ser humilde, confiar e deleitar-se
em Deus como sendo sua porção, a possuir livremente a causa do Senhor, e
demonstrar que há uma suficiência total em Deus. Aqui está a fonte de toda
piedade.
Objeção: Alguns talvez digam:
"Eu realmente estaria contente se soubesse que era um filho de Deus, que o
Senhor estava perto de mim, e que Ele me faria sentir a Sua bondade."
Resposta: Isto é tanto como dizer,
"Se eu estivesse apenas no céu, eu ficaria satisfeito." Nós devemos
encontrar satisfação aqui embaixo, na vontade de Deus pela fé. A descrença em
relação ao seu estado surge do descontentamento e não da sua falta. Enquanto
você não estiver satisfeito, a não ser que seu desejo seja cumprido, tanto tempo
também será lançado para lá e para cá, como seu estado espiritual e sua alma
serão como "uma onda do mar movida pelo vento." (Tiago 1: 6).
Para que a fé seja exercida, você deve se
contentar com o presente, e ao ficar satisfeito deve exercer a fé; estes dois se
pertencem mutuamente. Que o Senhor lhe conceda a ambos!
Objeção: Outros dirão: "O
Senhor não me ouve, eu não sou livrado, e minha perplexidade se torna maior a
cada hora. Como posso então me contentar?"
Resposta: Você vê agora que seu
contentamento é contingente em possessão? Não possuir e ainda estar satisfeito
com a vontade de Deus, confiando que haverá libertação, que é a verdadeira satisfação. A razão pela
qual o Senhor não dá a você é porque ainda não precisa dEle. O Senhor quer
ensinar você a se contentar somente com Ele. Ele deseja guiá-lo no uso adequado
do que é bom. Ele deseja confortá-lo e ajudá-lo de maneira diferente daquilo
que você prescreveria a Deus em sua loucura.
Diretrizes para Aprender
Como Ser Contente
Se
você deseja aprender a ser contente, então pratique o seguinte:
(1) Considere sempre o que você merece, e então
será feliz porque você ainda não está no inferno.
(2) Olhe para os outros, e não vai querer trocar
sua condição com a deles. Alguém terá muito menos, e será mais miserável do que
você é, materialmente falando, mas será um exemplo para você quanto ao contentamento.
A outra pessoa ficará sem graça, e você certamente não gostaria de trocar de
lugar com ela.
(3) Viva somente cada dia e não tome sobre você as
dificuldades de dois, dez ou cem dias. Este seria um fardo muito grande para
você. O suficiente para cada dia é o seu mal.
(4) A sua dificuldade talvez não seja tão grande
quanto a imagina - isto em consequência de seu desejo ser excessivo. Portanto,
você deve fazer mais esforço para ajustar seu desejo às suas circunstâncias
considerando qual seja a vontade de Deus, em vez de procurar melhorar suas
circunstâncias de acordo com seu desejo.
(5) Utilize os meios com toda diligência e fidelidade
para que sua consciência não o acuse, e deixe o resultado para o Senhor. Confie
na Sua promessa e Ele a cumprirá bem.
(6) Permaneça com seu foco continuamente sobre o
céu, e considere a insignificância de tudo o que há na terra. Quanto mais próximo
você estiver de Deus, mais estará à distância da criatura. Tudo passará, mas
aquele que faz a vontade de Deus habitará seguro para sempre.
Nota do tradutor: Apesar
de que muitas outras considerações pudessem ter sido apresentadas pelo autor
quanto a esta questão relativa ao contentamento, cremos que ele bem resumiu o
fundamento para o verdadeiro contentamento, e a principal causa para o
descontentamento.
Tendo escrito no século XVII,
não havia no tempo do autor a multiplicidade de bens, até mesmo virtuais que
atiçam a cobiça da quase totalidade da humanidade em nossos dias. Assim,
multiplicando-se os bens multiplicam-se também os desejos, e vimos que à medida
que estes não podem ser ajustados às circunstâncias, a consequência imediata é
o descontentamento.
Não admira que tantos estejam
descontentes em nossos dias, quando se pode dizer deles, que são muito mais
ricos do que os que foram considerados ricos no passado, quando não havia
sequer energia elétrica, e todos os confortos que podem ser por ela fornecidos;
como
também quando não havia o avanço tecnológico e
científico do qual temos sido testemunhas em nossa própria época. Enfim, há
muito para se desejar, como não havia no passado, mas o mais carente de bens
não está em condições tão precárias, assim como
muitos que no passado remoto não dispunham de todas as facilidades que temos
presentemente.
Mas, a grande razão para o
descontentamento reside em se não estar plenamente conformado à vontade de
Deus, quer no que tange à provisão material, quanto à espiritual.
É para lamentar o estado da
igreja atual em busca de prosperidade material, como se esta fosse a grande
conquista da fé em Jesus Cristo.
Quão afastados caminham daquela
condição de ser luz do mundo e sal da terra, pelo bom testemunho de se estar
contente em todas as circunstâncias, com gratidão no coração, todos os que não
aprenderam ainda a fazer do Senhor a razão suficiente de todo o seu
contentamento.
Isto se aplica até mesmo ao modo
de se agir na obra do evangelho, pois é possível que o contentamento de muitos
se encontre, não em promover o reino de Deus e a Sua justiça, mas em achar
prazer nas atividades que desenvolvem em si mesmas, de modo que quando são
contrariados ou sentem que os resultados não são os esperados quanto ao sucesso
que deveriam ter, conforme sua imaginação, tornam-se desanimados,
insatisfeitos, e não dispostos a levar a obra adiante. O foco estava incorreto
e daí a razão da sua frustração. Se estivesse corretamente no Senhor, ficariam
satisfeitos por terem agido com obediência e fidelidade a Ele, deixando os
resultados em Suas mãos divinas, pois se colhessem pouco ou muito em seus
esforços, estariam contentes por saberem e sentirem em espírito, que Deus
estava agradado da fidelidade deles.
Afinal, tudo o que podemos fazer
é semear e regar, pois o resultado do crescimento depende exclusivamente da
aplicação do poder de Deus, e da forma como as pessoas recebem nosso testemunho
de Cristo e da Sua Palavra.
Quanto a isto, se Paulo e todos
os apóstolos fossem dirigir seus esforços em razão da plena aceitação por
todos, da Palavra que pregaram, é bem certo que teriam abandonado o ministério
logo no início, porque não foram poucos os que não somente resistiram à
pregação, como os perseguiram.
Que cada um se dedique com zelo
e fidelidade ao ministério que recebeu do Senhor para cumprir, e que permaneça
na sua realização com contentamento e gratidão em seus corações, mesmo que
sejam rejeitados, perseguidos; tanto eles, quanto a Palavra que pregam e
ensinam.
Afinal, está determinado por Deus
que a obra do evangelho deve prosseguir em meio a resistências e fortes
oposições. Então, todos os seus ministros devem estar armados em pensamento que
deverão suportar oposições com alegria e contentamento, pelo privilégio de
servirem a Deus.
Sendo humanos, estamos sujeitos
a nos entristecer ao recebermos oposição por causa do nosso amor ao Senhor e ao
evangelho, mas não devemos ficar desanimados a ponto de desistir de amar os
pecadores e batalhar pela salvação de suas almas, intercedendo em favor deles
junto ao Senhor em oração incessante.
A graça do Senhor nos
fortalecerá em todas as circunstâncias, caso seja achada em nós esta disposição
de permanecermos fiéis em tudo o que possamos ter que sofrer e suportar.
O Espírito Santo fortalecerá e
alegrará o coração abatido pelo sofrimento, e renovará a nossa esperança e fé,
de modo que levemos a obra de evangelização adiante, sem nos importar com o que
nos façam de bem ou mal, com a aprovação ou rejeição que recebamos, pois não
estamos trabalhando para a nossa própria glória, mas para a do Senhor.
Temos um firme fundamento para
esta confiança, na justificação pela fé, da qual poderíamos dizer também, que é
a nossa fé na justificação que nos possibilita nos aproximarmos do trono da
graça para recebermos o renovo espiritual sempre que dele necessitarmos.
Não somos aceitos por Deus em
nenhuma outra base, senão na única, da nossa justificação por causa da morte e
ressurreição de Jesus. É sempre pelo sangue que Ele derramou por nós que
podemos nos aproximar de Deus e sermos aceitos por Ele.
Apesar de a justificação nos ter
sido atribuída de uma vez para sempre no dia da nossa conversão, é pela
continuidade dos seus benefícios que podemos ter comunhão com Deus ao longo de
toda a nossa vida.
É por confiarmos em Cristo, no
perdão que Ele obteve para nós na Cruz do Calvário, na satisfação plena da
justiça de Deus que Ele fez pela oferta de Si mesmo, como sacrifício
expiatório, que podemos continuar sendo abençoados por Deus, desde que nos
arrependamos e confessemos os nossos pecados.
Este é, portanto o grande
fundamento para o nosso contentamento, pois uma vez tendo sido renovados pela
graça que está em Jesus podemos continuar na prática do bem, desenvolvendo a
nossa salvação em santificação.
Não podemos estar contentes se
não estivermos santificados, mas convém lembrar que podemos sempre nos
santificar por termos sido justificados.
Mas, como temos ainda em nós uma
velha natureza, corrompida pelo pecado, necessitamos de esforço contínuo, de
oração e vigilância incessantes para guardarmos a santificação que tivermos
alcançado, pois como temos visto é impossível estar contente (pleno, satisfeito
em Deus) sem santificação.
Todavia, em todo o caso, o
grande motivo para o nosso contentamento está resumido nas palavras que nosso
Senhor dirigiu aos apóstolos quando estes vieram ter com ele exultando pelo
fato de os demônios se lhes sujeitarem:
“Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os
espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus.”
(Lucas 10.20)
Em sentido geral, não é nem
mesmo o nosso sucesso espiritual na obra de Deus, ou o grau de nossa
santificação, o principal motivo de estarmos contentes, mas o fato de termos
sido tornados filhos de Deus, tendo nossos nomes escritos nos céus.
Esta é a grande razão para o
crente estar contente em toda e qualquer circunstância, e não outra. Ele foi
reconciliado com Deus por meio do sangue de Jesus, e ninguém poderá anular esta
condição abençoada.
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