Título original: The Word of God”s Grace
Por J. C. Philpot (1802-1869)
Traduzido,
Adaptado e Editado por Silvio Dutra
"Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e
à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança
entre todos os santificados." (Atos 20:32)
Eu não conheço uma parte mais afetuosa da Palavra
de Deus do que a que está contida em Atos 20:17-38.
Há dois versículos
especialmente que um dos ternos sentimentos mal consegue ler sem que as
lágrimas lhe cheguem aos olhos; "E todos choraram, e caíram sobre o
pescoço de Paulo, e o beijaram, pesarosos pelas palavras que ele falou, que não
veriam mais o seu rosto.” Que carinho afetivo é exibido em ambos os lados! Que
sinceridade brilha por todo o discurso de Paulo! Que nobre simplicidade! Que
zelo pela glória de Deus! Que desejos reais para o bem-estar espiritual
daqueles com quem ele estava se separando! Certamente, se a vergonha pudesse
cobrir a sua face, a infidelidade deve ser levada ao rubor, se ela pudesse ler
esta impressionante parte da Palavra de Deus e então negar que está marcada
nela toda marca de genuinidade e indescritível veracidade e realidade, que tão
fortemente brilham através de cada linha.
Mas, há algo muito mais profundo no discurso de Paulo aos anciãos da Igreja
em Éfeso do que o caminho natural, ou mesmo o nobre altruísmo que forma nele
uma característica tão proeminente, que devemos pensar que até um homem natural
com sentimentos ternos poderia mal ler suas palavras de despedida sem alguma
emoção em seu coração. Além de tudo isto, embora em si mesmo inefavelmente
belo, quando o lemos à luz do Espírito, vemos contido nele um fundo de verdade
espiritual e experimental, e especialmente nos versos que formam o meu texto.
Dessa forma, então, com a bênção de Deus, considerarei as palavras diante
de nós esta noite; não fazendo divisões formais, mas tomando-as como elas se
apresentam diante de mim, e olhando para o Senhor para que ele seja para mim
boca e sabedoria, e me capacite para falar a partir delas, para que Deus possa
ter a glória, e seu povo o benefício e o conforto.
I. "Eu vos recomendo a Deus." Por três anos o apóstolo Paulo
trabalhou em Éfeso; e durante esse tempo ele exortou os discípulos noite e dia
com lágrimas. Ele assim claramente manifestou que seus interesses espirituais
estavam muito perto de seu coração; que ele estava ligado a eles pelos laços
mais fortes de união e afeto. Carregando, então, em seu próprio peito, um profundo
sentimento de sua fraqueza e corrupção de sua natureza; mas ao mesmo tempo conhecendo
experimentalmente os ricos suprimentos da graça de Deus, e como a força de
Cristo se aperfeiçoa na fraqueza; enquanto ele se entristece ao ver com antecipação as armadilhas, provações,
aflições e tentações que estavam em seu caminho, mas foi encorajado por
conhecer as ricas provisões da misericórdia e do amor da aliança.
Chegando,
pois, a Mileto, a caminho de Jerusalém, envia mensageiros a Éfeso a cerca de
trinta milhas de distância, e chama os anciãos da igreja, desejando colocar
diante deles as coisas de Deus. Estes anciãos eram os pastores, ou ministros,
que "o Espírito Santo tinha feito superintendentes" literalmente,
"bispos" sobre o rebanho, "para alimentar a igreja de Deus que
ele tinha comprado com seu próprio sangue". Mas, Paulo olhava para o
futuro com olhos proféticos, e viu que "depois de sua partida, entrariam entre eles lobos vorazes que não
poupariam o rebanho". Ele viu a nuvem de perseguição que estava prestes a
estourar sobre eles; ele ouviu os uivos distantes de "lobos vorazes",
que logo "entrariam entre eles", aqueles lobos que por algum tempo
foram retidos por uma mão divina, mas estavam prontos a saltar sobre o rebanho
e, se Deus não se interpusesse, os rasgaria em pedaços.
Mas, havia
algo que se encontrava ainda mais perto do seu coração. Não apenas viu os
perigos externos que os aguardavam; seu olho profético não só percebia a forma
escura de lobos vorazes nas montanhas distantes, mas olhava para o próprio
centro, o próprio corpo da própria igreja. E que visão encontrou seu olho! Ele
viu que mesmo deste corpo pequeno; deste rebanho fraco, a maioria seria cortada!
“Dentre eles mesmos homens se levantariam falando coisas perversas", e seu
objetivo seria o de "atrair os discípulos para segui-los".
Olhando
assim para a igreja de Éfeso, e vendo os perigos externos e internos
aproximando-se, ele sabia e sentiu que nada, senão o poder de Deus poderia guardá-los.
Sentindo, então seu interesse tão quente em seu coração, ele diz.
"Portanto, vigiai e lembrei-vos de que, no espaço de três anos, não deixei
de exortar todos vós dia e noite com lágrimas." Portanto, atendei a vós
mesmos e a todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos fez
superintendentes, a igreja de Deus que ele comprou com seu próprio
sangue". Mas esse sentimento, sem dúvida, estava em sua mente: "De
que servem as minhas exortações, elas podem guardá-los, podem lhes vigiar, podem
lhes conservar, podem proteger o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos
constituiu bispos? Não!"
Profundamente
familiarizado com o desamparo da criatura, ele se afastou como se fosse deles,
e como se desesperando de toda a força ou sabedoria humana, tomou-os em seus
braços e os colocou aos pés do próprio Deus. Quando ele os advertiu ao máximo
de seu poder; depois que as lágrimas fluíram copiosamente em sua face; depois
de ter esgotado todos os tópicos da exortação; então, sentindo a nulidade de
todos sem a bênção especial de Deus, ele acrescenta ternamente: “Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e
à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança
entre todos os santificados."
O apóstolo
estava bem familiarizado com a pecaminosidade da criatura. Ele conhecia, por
experiência dolorosa e pessoal, a fonte do mal que habita no seio de um pecador
e como aquela fonte maligna envia perpetuamente seus fluxos corruptos. Ele conhecia,
portanto, que este fluxo interior do mal, se não fosse pela graça de Deus,
estouraria e varreria toda barragem que pudesse ser formada contra ele em suas
próprias forças. E não é este nosso sentimento também, se tivermos algum
conhecimento da fonte de iniquidade que carregamos em nosso interior? Não
rompeu todas as resoluções, todas as lágrimas, todos os suspiros, todos os
votos, todas as promessas? O pecado não foi tão forte em nossa mente carnal
como eficazmente para quebrar toda parede que a natureza poderia construir e
fluir sobre cada barragem que o braço humano poderia construir? Conhecendo,
então, a sua pecaminosidade como criaturas corrompidas, ele os coloca no
escabelo da graça soberana.
Ele também
conhecia seu total desamparo; não apenas que eles eram pecadores, profundamente
pecadores; maus, desesperadamente perversos; mas desamparados, completamente
desamparados. Ele sabia que ele poderia adverti-los noite e dia com lágrimas;
que ele poderia gastar seu fôlego e vida exortando-os a viverem para a glória
de Deus, e para vigiarem contra todo inimigo interior e exterior. Mas, ele
estava bem convencido, por experiência pessoal, do desamparo da criatura; e,
portanto, como a mãe ternamente toma seu bebê indefeso, e o coloca no berço de
que não pode cair, então ele os toma em seus braços, e os coloca no berço da
misericórdia, na arca da aliança; tão seguro como a arca de Noé, quando "o
Senhor a tinha fechado".
Ele sabia
também que eles eram, em sua maioria, pouco familiarizados com o engano do
inimigo; que tinham pouca experiência das armadilhas que Satanás estava
colocando para os seus pés; muito pouco conhecimento do poder e da prevalência
dos pecados assediadores. Conhecendo, portanto, por sua própria experiência os
perigos da batalha espiritual; não sendo "ignorante dos ardis de
Satanás", ele os encomenda de modo especial aos olhos e ao coração do
grande Capitão de sua salvação, colocando-os como que em sua tenda e sob sua
bandeira.
Mas,
deixando esta linguagem figurativa, podemos indagar, como ele os encomendou a
Deus?
1. Em
primeiro lugar, como a um Pai amoroso. Onde a criança deve ser levada, senão
aos braços do pai? Não é o pai seu guardião natural, ligado a ela pelos laços
mais próximos, mais fortes? O olho do pai, o coração do pai, o braço do pai,
todos concordam em sua proteção. O laço terrenal do pai e da criança, com todo
o seu terno amor afetuoso, é apenas uma representação do vínculo celestial
entre Deus e seu povo. Ele é seu Pai e seu Deus. E assim o Senhor enviou a
seguinte mensagem para confortar seus discípulos de luto: "Vai a meus
irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, e para o meu Deus e vosso
Deus" (João 20:17).
2. Ele os
recomendaria também a seu olho onisciente. Sabemos pouco de nós mesmos, e menos
um do outro. Não conhecemos as nossas próprias necessidades, o que é para o
nosso bem, o que se deve evitar, de que perigos escapar. Nosso caminho é cheio
de dificuldades, cercado de tentações, rodeado de inimigos, cercado de perigos.
A cada passo há uma armadilha, a cada passo um inimigo espreitando. O orgulho
escava o poço, o descuido ataca os olhos, as drogas da carnalidade intoxicam os
sentidos, a luxúria da carne seduz, o amor do mundo atrai, a incredulidade e a
infidelidade paralisam a mão combativa e o joelho de oração, o pecado enreda os
pés A consciência, e Satanás acusam a alma. Quem, em tais circunstâncias, pode
sair vivo da batalha? Quem pode "suportar cada tempestade e viver
finalmente?" Somente aquele que anda sob aquele olho que tudo vê, que
nunca adormece nem dorme, "o Senhor o guarda; eu o regarei a cada momento;
para que ninguém o machuque, eu o guardarei noite e dia". "Guardado
pelo poderoso poder de Deus." "O Senhor é o seu guardião". "Aquele
que guarda Israel não dormirá nem dormitará".
3. Ele os recomendou mais à sua mão todo-poderosa. O olho para vigiar, a
mão para guiar e proteger. "Ensinei a Efraim a andar, tomando-o pelos
braços." "Quando eu disse meu pé desliza, sua misericórdia me
segurou. "Por baixo estão os braços eternos. Não podemos ficar sozinhos.
Não podemos dar um passo certo, a não ser que seja sustentado e guiado pelo
poder todo-poderoso. Isso fez com que os santos de antigamente clamassem:
"Salva-me, e serei salvo". "Guarda-me como a menina do seu
olho." "Não deixe minha alma nas profundezas." Ao recomendá-los,
portanto, a Deus, ele os encomenda não apenas aos olhos que nunca dormem, mas à
mão que nunca falha.
4. Mas, acima de tudo, ele os recomendaria ao coração afetuoso e amoroso
de Deus. Daí vem o olho atento, daí a mão protetora. Amor, amor eterno, amor
imutável, é a fonte de onde todos os fluxos de misericórdia e graça fluem para
a igreja, e para cada membro individual dela. "Eu te amei com um amor
eterno, por isso com benignidade te atraí." "O amor nunca
falha." Paulo poderia afastar-se, surgirem lobos, heresias prevalecerem,
os apóstatas podem vir, nuvens espessas podem cobrir a igreja, tudo pode ser
confusão dentro e fora. Mas, uma coisa não falharia com os eleitos de Deus; o
amor que os abraçou de eternidade a eternidade. Ao recomendá-los a Deus, ele os
recomendaria, portanto, ao amor que não conhece nem princípio nem fim, aumento,
decadência ou variação.
Assim Paulo os recomendou a Deus; e nisto deve todo ministro do evangelho
imitá-lo. Todo servo do Senhor, corretamente ensinado, quando acolhe ou deixa
um povo, jamais ouse pensar por um momento de que tudo o que ele possa dizer
pode beneficiar suas almas. Ele vem, se ele vem corretamente, dependendo de
Deus para uma bênção para seguir a palavra; e ele sai, se ele sair
corretamente, suplicando ao Senhor que uma bênção possa seguir o que foi dito
na fraqueza. Assim, nenhum servo do Senhor corretamente ensinado pode ousar ir
entre o povo de Deus confiando em sua própria sabedoria ou habilidade; mas,
deseja conduzi-los em seus braços diante do Todo-Poderoso, e olhar com um olho
de fé que o Senhor abençoaria a palavra. Em seus pensamentos internos, ele os
"recomendaria" a Deus como o único capaz de trabalhar naqueles que são
agradáveis à sua vista.
II. Mas não somente Paulo os "recomendou" a Deus, mas também os
recomendou de modo especial "à palavra da sua graça". Há uma
diferença entre "graça". E "a palavra da sua graça". Nada
além da graça pode salvar a alma; nada, além da superabundante graça pode apagar
e esconder do ponto de vista da justiça as nossas graves iniquidades. Mas,
"a palavra da sua graça" é aquela palavra que traz esta graça ao
coração; que comunica vida e poder à alma; que o Espírito, por meio de seu
ensinamento interior e testemunho, sela na consciência; e pela qual ele revela
e derrama no exterior aquele favor do qual ele dá testemunho. Isto é o que o
povo do Senhor precisa. É "a palavra da graça" que alcança sua alma.
Não é leitura da graça na Palavra de Deus que traz a paz em seus corações; é
"a palavra da sua graça", quando ele se alegra de falar essa palavra
com um poder divino para suas almas, que traz a salvação com ela.
Agora, o
povo do Senhor está continuamente naqueles estados e circunstâncias difíceis,
dos quais nada pode libertá-los senão "a palavra da graça de Deus".
Se a alma tem que passar por provações severas, não é o ouvir a graça que pode
libertá-la delas. Se ele é cercado por poderosas tentações, não é ler sobre a
graça que pode quebrá-las em pedaços. Mas "a palavra da sua graça",
quando o próprio Senhor se alegra em falar com os seus próprios lábios
abençoados, e aplicar alguma promessa com o seu próprio poder divino, dando
suporte na provação, e livrando da tentação, quebra as armadilhas, aplaina os lugares
ásperos, e livra o prisioneiro da
prisão, e quebrando o jugo por causa da unção.
Assim,
quando o apóstolo havia dito: "Eu vos recomendo a Deus", ele não os
deixa ali; mas ele os leva para o lugar onde eles teriam alguma comunicação da
graça de Deus ao seu coração, onde haveria alguma manifestação de seu favor
para suas almas, algumas relações especiais com suas consciências. É como se
ele não estivesse satisfeito em colocá-los aos pés de Deus. Recomenda-os à sua
"graça", e especialmente à "palavra de sua graça" em suas
almas.
Se eu posso
usar tal figura, podemos imaginar uma mãe em circunstâncias aflitivas; eu
condeno a ação, embora eu use a ilustração; que não seja capaz de sustentar seu
bebê; ela o toma, portanto, e o coloca em frente ao portão de um homem rico.
Ela não tem alívio até que ela veja o servo vir e levar o bebê em segurança.
Enquanto a criança está deitada lá fora, a ansiedade enche seu coração; mas
quando a porta é aberta e a criança seguramente abrigada, o objeto de sua
maternal solicitude é realizado. Assim, o apóstolo toma a igreja, como a mãe
pode tomar seu bebê, e coloca-a aos pés do Senhor. Mas, "a palavra da sua
graça" leva o menino para dentro da sua casa e do seu coração, abre a
porta do seu seio, e estende a veste do amor sobre o bebê lançado no campo
aberto no dia em que nasceu.
Vocês,
tremendo, no escabelo da misericórdia, não é isso que suas almas estão
desejando? Ser apenas trazido ao escabelo da misericórdia não satisfaz você.
Ser meramente encomendado em oração a Deus não alivia seu coração ansioso. Mas,
quando "uma porta de esperança" é aberta no vale de Acor; quando o
Senhor fala uma palavra de paz à tua alma, aplica as suas promessas graciosas
ao teu coração; através da palavra da vida comunica a graça, e abençoa a alma
com um gosto de seu favor e misericórdia, então seu desejo é realizado.
III. Mas,
falando dessa "palavra da sua graça", o apóstolo diz que é
"capaz de lhes edificar". Um fundamento tinha sido colocado em seus
corações; eles haviam sido trazidos do fundo arenoso do ego; sua justiça de
Babel tinha sido quebrada em pedaços, e seu tijolo e limo espalhados aos quatro
ventos do céu. Cristo foi posto, pelo Espírito abençoado, como fundamento em
suas almas. A ele vieram como pobres e miseráveis pecadores; sua
Pessoa que eles tinham visto pelo olho da fé viva; o sangue que sentiam ser extremamente precioso; sob a sua justiça haviam se abrigado; uma medida de seu amor moribundo havia sido
derramada em seus corações. Isso os colocou sobre uma base sólida; a Rocha das
Eras! Sobre ele, pois, levantaram-se, e "da sua plenitude receberam graça
sobre graça".
Eles
deveriam então ser edificados sobre isso. E havia apenas uma coisa que poderia edificá-los;
"a palavra da graça de Deus". Por quê? Porque nós realmente não temos
nada em nossos corações que seja espiritualmente bom, mas o que "a palavra
da graça de Deus" comunica. É pela "palavra da graça de Deus"
que somos trazidos pela primeira vez do fundamento arenoso; é pela
"palavra da graça de Deus" que somos colocados sobre a Rocha das
Eras; é pela "palavra da graça de Deus" que cada pedra é fixada no
edifício espiritual; e é pela "a palavra da graça de Deus" que a
lápide é finalmente colocada com gritos de "Graça, graça a ela!"
Agora, esta
é uma lição, que geralmente temos que aprender muito dolorosamente. Estamos
muito ansiosos para colocar “nossas mãos” para trabalhar. Como Uzá, devemos
sustentar a arca quando a vemos tropeçar; quando a fé se agita, devemos dar uma
mãozinha. Mas isso é um obstáculo para a obra de Deus sobre a alma. Se o todo é
para ser um edifício espiritual; se formos "pedras vivas" construídas
sobre uma cabeça viva, cada pedra naquele templo espiritual deve ser colocada
por Deus, o Espírito. E se assim for, tudo da natureza, da criatura, do eu,
deve ser efetivamente posto abaixo, para que Cristo seja tudo; que Cristo, e
somente Cristo possa ser formado em nosso coração, a esperança da glória.
Quantas provações alguns de vocês passaram! Quantas tribulações afiadas e cortantes!
Quantas tentações assediantes! Quantos afundamentos de coração! Quantos dardos
ardentes do inferno! Quantas dúvidas e medos! Quanta escravidão dura! Quantas
amarras! Quantas vezes o próprio ferro entrou em sua alma! Por quê? Para que
você possa ser impedido de adicionar uma pedra por suas próprias mãos no
edifício espiritual.
O apóstolo
nos diz, que "outro fundamento não pode o homem pôr além daquele que já está
posto", o próprio Jesus Cristo. Ele então fala daqueles que construíram
com "madeira, feno e restolho", bem como daqueles que usaram
"ouro, prata e pedras preciosas"; e que "a lenha, o feno e o
restolho" devem ser queimados com fogo. Isto é depois que o Senhor tem colocado
um fundamento na consciência do pecador; tendo-o trazido para perto de si; feito
Jesus precioso para sua alma; levantado esperança e amor em seu coração, que
ele é tão capaz de tomar materiais que Deus nunca reconhece "madeira, feno
e restolho", e, portanto, uma frágil superestrutura própria. Mas isso cede
na hora da provação; não pode suportar uma rajada de tentação. Uma centelha da
ira vindoura, uma descoberta da majestade do temor de Deus, queimará esta
"madeira, feno e palha", como palha no forno. O povo do Senhor,
portanto, tem que passar por dificuldades, provações, tribulações e tentações,
dúvidas e medos, e todo o caminho de assédio em que eles costumam entrar, para
que possam ser impedidos de erigir uma superestrutura de "natureza"
sobre a fundação da "graça"; "madeira, feno e restolho"
sobre o glorioso mistério de um Deus encarnado.
Mas "a
palavra da graça de Deus" é "capaz" de edificá-los. Você sofreu
tentação, e foi libertado? Foi "a palavra da graça de Deus" que lhe
edificou. Você esteve em severa provação, e o Senhor o abençoou nela, e tirou
você dela? Foi "a palavra da graça de Deus" que lhe edificou. Você
foi enredado em algum erro, e o Senhor o arrebatou desse erro aplicando uma
parte de sua verdade à sua alma? Foi "a palavra da graça de Deus" que
lhe edificou. Você foi enredado nos desejos da carne, lançado por algum laço do
diabo, e o Senhor o libertou de tudo isso? Foi "a palavra de sua
graça" que lhe edificou.
Não somos edificados
pela santidade da carne, pela piedade da criatura, pelas longas e amplas
orações, pelos feitos e deveres da carne; nem mesmo por doutrinas sólidas
flutuando em nosso cérebro; mas pela "palavra da graça de Deus"
aplicada com um poder divino ao coração.
Mas, essa
própria "palavra de graça" é feita adequada às nossas almas, na maior
parte, apenas quando somos levados para as circunstâncias às quais ela seja
adaptada. Não é a graça um "favor livre"? E não é "a palavra da
graça de Deus" o instrumento através do qual este livre favor se
manifesta? Posso então aprender as alturas, as profundezas, as superabundâncias,
a liberdade, a soberania, e o poder todo-poderoso da graça, somente por entrar
nas circunstâncias a que é adequada? Não devo me sentir um pecador culpado
antes que a graça possa ser doce? Não devo conhecer as abundâncias do pecado
interno antes que as superabundâncias da graça de Deus possam ser preciosas?
Não devo conhecer alguma coisa daquela fonte do mal, que eu carrego em meu
interior, e ter meu peito desnudado com suas abominações ocultas, antes que eu
possa conhecer a graça que cobre, perdoa e cura? E esta graça só posso conhecer
pela "palavra da graça de Deus"; em outras palavras, pela doce
manifestação, aplicação da unção e revelação divina do evangelho da graça de
Deus.
Assim, o
apóstolo não os levou a descansar sobre sua própria força e sabedoria, mas a
viver na plenitude do grande e glorioso Mediador ressuscitado. Esta é a única
maneira de conhecer qualquer coisa da graça. Eu posso ouvir de graça todos os
meus dias, e ainda morrer ignorante. Posso sentar-me sob ministros que pregam
nada além da graça, e ainda assim ser tão desprovido dela em meu coração como o
próprio Satanás. Mas, se "a palavra da graça de Deus" cair em meu
coração; se o Senhor, o Espírito, se agradar em enviar sua própria preciosa
verdade à minha alma, e através dessa palavra comunicar um sentido de sua
superabundante graça; então, e somente então, é minha. Nem há outra maneira de
ser espiritualmente edificado. As doutrinas não podem edificá-lo; as corrupções
não podem edificá-lo; as dúvidas e os temores não podem edificá-lo; as
provações e as tribulações não podem edificá-lo; perdas pesadas na providência
e as aflições cortantes na graça não podem edificá-lo. Eles puxam para baixo;
eles dispersam "a madeira, o feno e o restolho" aos ventos; eles
deixam você em um deserto selvagem.
Mas , é
"a palavra da graça de Deus", comunicada à alma da inesgotável e
divina plenitude de Cristo, que somente edifica. Todo o outro edifício é uma
construção sem fundamento, um mero castelo no ar, uma névoa conduzida pelo
vento.
IV. Mas,
havia algo mais adiante; "e dar-vos uma herança entre todos os que são
santificados". Há um povo, então, que é santificado, isto é;
1. Separados
na aliança, nos decretos eternos de Deus.
2.
Santificados pela obra do Espírito Santo em seus corações, por meio da qual são
feitos próprios para "a herança dos santos na luz".
Primeiro
eles foram separados pelo decreto original e propósito de Deus. Isto fez deles
"uma geração escolhida, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo
peculiar". "Santificar" é separar como propriedade especial de
Deus. Então Deus disse a Moisés: "Santifica-me todo primogênito" Ex
13: 2, que ele explica em Ex 13:12 como sendo "separação para o
Senhor". Assim, Deus santificou o sétimo dia, separando-o dos outros dias
da semana. Esta é a única raiz original e fonte de santidade. Os homens não se
santificam por um ato de sua livre escolha, e por essa santidade recomendam-se
a Deus e obtêm o céu.
A santidade
não consiste em uma certa quantidade de deveres a serem cumpridos, orações a
serem ditas, sacramentos e ordenanças a serem atendidas, esmolas a serem dadas,
paixões a serem subjugadas, trajes religiosos a serem usados, lágrimas a serem
derramadas. Fruto para ser fruto, deve crescer sobre uma árvore, ser alimentado
por seiva, ser amadurecido pelo sol, ser refrescado com chuvas, ser um produto
vivo desenvolvido por um mecanismo divino. Flores e frutos podem ser modelados
a partir de cera, e tão belamente como para ser mal distinguível do genuíno.
Mas, eles carecem de cheiro, seiva e gosto. Tal é a santidade humana; uma
imitação artificial modelada e pintada.
Cristo é o
Santo de Israel. A cabeça da igreja é santa, intrinsecamente, eternamente assim;
os membros são santos porque são unidos a essa cabeça. Uma cabeça sagrada não
pode ter membros profanos. Assim Cristo é a santificação da igreja, ela sendo
santa em sua santidade, assim como justa em sua justiça. Esta é a raiz.
Daí vem a
santificação pessoal, interior, pela obra regeneradora do Espírito Santo. Ele
dá o novo coração e o novo espírito; comunica desejos, afeições, respirações,
prazeres, com todo fruto gracioso, trabalhando arrependimento pelo pecado,
quebrantamento de coração, contrição de espírito, ternura de consciência, fé,
esperança, amor, mansidão, resignação, humildade, oração, vigilância,
afastamento do mal, busca de todo o bem; e todos os frutos exteriores da
justiça, que são para a glória de Deus. Esta é a santidade do evangelho, a
santidade como dom especial e obra do Espírito Santo, a única santidade
verdadeira e aceitável, e sem a qual ninguém verá o Senhor. Os que são assim
santificados têm uma herança eterna, sendo herdeiros de Deus e co-herdeiros com
Cristo. Toda a outra santidade é a santidade do mosteiro e do claustro, um
farisaísmo monacal, do qual a superstição é a raiz, e o orgulho o fruto, e a
maldição de Deus o fim.
Quão
diferente é essa obra e operação divina que derrete seu coração e o quebra, e o
dissolve, em humilde adoração a seus pés, daquele que lhe amou e se entregou
por você. Esta é "uma herança entre todos os que são santificados".
Aqueles que foram separados no propósito eterno de Deus foram escolhidos para o
gozo desta herança. Estes têm as primícias do Espírito, aqueles em que "a
palavra da graça de Deus" cai no coração. Pois isso traz luz, vida,
liberdade, amor, conformidade à imagem de Jesus, uma renovação no espírito da
mente, uma separação do mundo e todas as suas vaidades e encantos mortais, e carimba
no coração uma medida da bem-aventurança de Cristo. E tudo isto, unicamente, pela
"palavra da graça de Deus".
Supondo (Deus
não permita que isso aconteça por um momento!) que eu devo, por meus próprios
esforços, em primeiro lugar, trazer graça em meu coração, e assim estabelecer o
fundamento; e que eu, por meus próprios esforços, devo continuar a obra, e
assim levantar a superestrutura; não devo falhar totalmente? Mas, quando a
graça faz tudo; do princípio ao fim; quando é a graça que escreveu os nomes do
povo de Deus no livro da vida; quando a graça os deu a Jesus para serem
redimidos; quando a graça, no tempo determinado por Deus, vivificou suas almas;
quando a graça manifestou a eficácia purificadora do sangue de Cristo à sua
consciência; quando a graça os trouxe com segurança através de todas as suas
provações e tentações; aperfeiçoando o que lhes diz respeito e devem e reinarão
pela justiça para a vida eterna; quão apropriado é, mais do que apropriado para
um pecador pobre e culpado, que não tem nada e sente que não tem nada em si
mesmo senão trapos e ruína!
"A
palavra da graça de Deus", nas mãos do Espírito, estabelece os alicerces.
"A palavra da graça de Deus" torna Jesus conhecido no evangelho
eterno, e assim eleva a superestrutura; "a palavra da graça de Deus" atravessa
os braços da morte; os arcos do céu eternamente soarão o louvor da glória
daquela graça que os fez "aceitos no Amado". Todo desejo vivo pelo
Senhor; cada senso de sua graça e glória; cada afeição pela sua pessoa amada; cada
recepção dele no coração como o Cristo de Deus; todo ato de fé, esperança ou
amor; cada respiração da alma em seu seio é uma evidência inegável da graça de
Deus habitando no coração de um pecador. E se a graça de Deus está no coração
de um pecador, ele está em Cristo, é um com Cristo; e "a palavra da sua
graça" o edificará cada vez mais, e lhe dará convicções mais profundas de
sua eterna "herança entre todos os que são santificados".
Pode haver
aqui alguns filhos de Deus pobres, atribulados, provados e tentados a quem esta
notícia parece quase boa demais para ser verdade.
Mas de onde
procede, qual é o assunto principal de suas provações e tentações? Não é isso?
O coração mau que eles carregam em seu seio. Não é o orgulho, a incredulidade,
a infidelidade, a escuridão, as tentações, as dúvidas e os medos, os pecados e
as iniquidades, e os muitos fardos e dificuldades que têm de enfrentar a cada
passo? Perturbados e carregados por tantas provações internas e externas, eles
parecem incapazes de perceber a graça que está neles, ou a glória que os
espera. Suas mãos pendem para baixo, e seus joelhos vacilam. Mas, quão adequado
a isto é "a palavra da graça de Deus"! Não é a graça a única
necessidade deles? Não há uma fonte de plenitude na graça que flui e transborda
do Redentor? E ela não flui plena e livremente através da "palavra da sua
graça", que eles têm ao alcance de seus corações e mãos? De que outra
forma poderia vir a eles, senão livremente? Não têm nenhuma graça, mas para que
trabalham? E a graça é tratada de forma cautelosa e mesquinha, como o dinheiro
da bolsa de um avarento? Não; Deus "dá liberalmente, e não censura”; a
graça de Deus, e o dom pela graça, tem abundado para muitos.
Jesus dá, como um rei, "de sua recompensa
real", como Salomão para a rainha de Sabá. Seja honesto com você mesmo; seja
honesto com o que Deus lhe deu. Você nunca sentiu Jesus precioso? Você nunca
derramou seu coração a seus pés? Você nunca teve um vislumbre pela fé de sua adorável
pessoa? Você nunca sentiu nada da eficácia de seu sangue expiatório? Nunca viu
sua adequação? Nunca o sentiu próximo e querido à sua alma? Nunca experimentou
aquela espiritualidade que é vida e paz? Se você experimentou, você tem uma
"herança entre todos os que são santificados". Pois como somos
"santificados"? Não é pela palavra da verdade? Como o Senhor disse:
"Santifica-os na tua verdade, a tua palavra é a verdade". E você às
vezes não sentiu a palavra da verdade produzir santas sensações e emoções celestiais
em seu coração? Não é esta santificação?
Mas você diz: "Não posso negar que eu
experimentei isso"; mas "se assim for, por que estou assim? Por que sou
tão escuro por semanas e meses juntos, por que tão frio em minhas afeições, por
que tão morto em minha condição, por que tão frequentemente preso em
escravidão, por que tão assediado por Satanás? Por um exército de dúvidas e
medos, por que o Senhor está tão ausente, por que o pecado está tão presente,
por que ele exclui a minha oração, por que me deixa tropeçar nas trevas como
aqueles que esperam pela manhã?” A estas queixas não podemos responder com
demasiada frequência: Porventura, não tens feito isso a ti mesmo? "Eis que a mão do SENHOR não está encolhida,
para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas
as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos
pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça.”
Não há Acãs
no acampamento? Nem barra de ouro ou capa babilônica debaixo da tenda? Nenhum
pecado secreto com o qual tem sido indulgente, nenhum ídolo colocado no
coração? Mas se as coisas estiverem neste ponto, pode ser para mostrar a sua
fraqueza; para queimar a sua madeira, feno e restolho? Para te trazer mais
necessitado e nu para os seus pés; para cortar a tua justiça própria e
sabedoria carnal; e quebrar em pedaços o braço direito da força da criatura.
Aquelas
mesmas tribulações, dúvidas, tentações,
dificuldades, e medos pelos quais sua alma é tão assediada, são para esvaziar, de
modo que Deus possa preencher; para tirar, para que possa vestir; para
derrubar, para que ele possa levantar; para que você se sinta nada, para que
Cristo seja tudo em todos. Você nunca teve algo em sua alma que o fez se sentir
assim; que quanto mais baixo você afundou em si mesmo, mais adequado e precioso
o Salvador apareceu? Não houve momentos em que, em meio a suas tribulações,
houve aquela vinda da luz e da vida, da liberdade e do amor, que você pôde
agarrar Jesus nos braços de uma fé viva e sentiu que poderia morrer em paz sob
tais sentimentos?
Você teve a
herança. O que é isso, senão a herança; o próprio reino de Deus na alma, que
"não é alimento e bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito
Santo?" E o que trouxe para você? Votos, resoluções, esforços, tarefas,
deveres? Não. Nada disso. Foi "a palavra da graça de Deus", uma doce
promessa apenas adequada ao seu caso; alguma porção da Escritura que se abriu
ao seu coração; algo que você quase descartou, porque sentia como fosse
imerecido que Deus visse um tal pecador como você. No entanto, esta
"palavra da graça de Deus" foi o que trouxe este antegozo, esta
garantia da herança sobre sua alma.
Se, então,
você pode encontrar na experiência de sua alma alguma dessas marcas divinas,
estas "pedras brancas", de amor, de compromisso, está bem com você
para a vida e a morte, para o tempo e a eternidade! Deixe-me enfocar de novo
estes sinais de matrimônio, estes anéis nupciais, e compará-los com sua
experiência. Se, então, Jesus foi sempre precioso para você; se alguma vez
sentiu a eficácia de seu sangue expiatório em sua consciência; se alguma vez
sua alma se derreteu em doce afeição a seus pés; se alguma vez o abençoou com
uma palavra de graça de seus próprios lábios, e lhe deu "uma herança entre
todos os que são santificados". Se você teve o céu aqui, você terá o
paraíso no futuro. Se você já viu Jesus na fonte da fé aqui embaixo, você verá
Jesus depois pelos olhos da alma em cima.
Com que
melhores palavras posso, então, despedir-me do que aquelas que o apóstolo usou
em uma ocasião quase semelhante? Não que eu ouse por um momento comparar-me com
ele; ou mesmo vocês com eles; contudo, em nosso modo fraco, com que melhores
palavras posso me despedir de vocês do que "recomendá-los a Deus, e à
palavra de sua Graça, que é capaz de vos dar uma herança entre todos os que são
santificados"?
E que esta
seja a nossa experiência crescente; agarrar-nos mais simplesmente, mais
fervorosamente no Deus de toda a graça, e receber de vez em quando doces
comunicações da "palavra de sua graça" em nosso coração. E então,
como nos encontramos aqui em torno do trono da graça, nos encontraremos a seguir
em torno do trono da glória; e como nos regozijamos aqui na "palavra da
sua graça" e sentimos uma medida da "herança dos santos" aqui embaixo,
isto é um prelúdio, uma promessa, um antegozo do eterno peso da glória em cima.
Que o Senhor nos traga para seu próprio nome glorioso e precioso.
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