Em sua cela fria e solitária
em Roma o apóstolo Paulo aguardava o momento da execução da sentença capital
que daria cumprimento ao maior desejo de toda sua vida – de ser livrado
finalmente do corpo desta morte para ser revestido da imortalidade e glória que
são prometidas a todos os que amam ao Senhor Jesus Cristo e a Sua vinda.
De há muito que ele se encontrava
crucificado para este mundo, pois havia contemplado não somente a visão gloriosa
do terceiro céu, como também vivera em espírito, discernindo as coisas
espirituais, e vendo o quão são mais excelentes do que tudo o que se possa
considerar em relação a esta vida natural e terrena.
Estava feliz por ter
cumprido com alegria o ministério que recebera do Senhor, na fundação de
igrejas e confirmação dos crentes na fé, pela pregação e ensino da Palavra, com
a confirmação desta por meio de sinais, prodígios e milagres, concedidos a ele
e aos demais apóstolos para realizarem para servirem de sinal de que eram de
fato enviados especiais de Cristo para aquela missão.
Se os doze tiveram o
privilégio de verem o Senhor ressuscitado e que se elevou diante deles ao céu,
a ele foi concedido o privilégio maior de ter sido arrebatado ao terceiro céu, onde
viu e ouviu coisas inefáveis, para servirem de convicção de que pregava e
ensinava coisas que tinham a sua realidade correspondente na eternidade.
Assim, sua grande aspiração
era a de migrar para aquele lugar onde tudo e todos são santos, uma vez que
conhecera e entrara na posse da pérola de grande valor, diante da qual tudo o
que há neste mundo é restolho e de muito pouco valor.
O Deus que criou o céu
dos céus, inclusive o próprio terceiro céu, que designou como sua habitação com
os anjos e seres aperfeiçoados, sem que, no entanto, seja menor do que ele,
pois sendo o próprio céu obra de suas mãos, não pode a criatura conter e
delimitar o Criador.
O Deus que pode assumir
a forma que quiser, mas que não possui forma, pois é espirito infinito e insondável,
que a tudo abrange, cativou inteiramente o apóstolo para obter nele e na comunhão
com ele todas as perfeições da santidade, de modo que o apóstolo esmurrava o
seu corpo para atingir o alvo da soberana vocação em Cristo Jesus.
Nada menos do que a
perfeição em todas as coisas era o seu grande objetivo de vida. Ele havia visto
a excelência do terceiro céu, e os espíritos dos santos aperfeiçoados, e não
tinha outro propósito senão o de ser como eles.
Agora, por que o mesmo
sentimento que habitou no apóstolo é tão raramente visto em nossos dias? Não é
porque, segundo afirmado pelo próprio Paulo em relação aos crentes coríntios, somos
carnais e não espirituais?
A mente carnal não tem
prazer nas coisas do Espírito, e não somente isto, como também se opõe a elas.
Se o gosto do céu e do
que é divino somente pode existir no espírito, como aspiraríamos pela
eternidade andando na carne, e não no Espírito?
Se é pelo progresso na
santificação de corpo, alma e espírito que somos transformados de glória em glória,
à imagem espiritual do Senhor, pelo Espírito, como poderemos participar deste
processo andando segundo a carne e amando o mundo?
Primeiro o natural,
depois o espiritual, mas até quando andaremos somente no natural? Até quando
ele dominará todos os nossos afetos?
A falta de afeição pelo
que é do alto, e a completa dedicação da mesma às coisas terrenas é uma evidência
do quanto somos ainda carnais, pois o homem espiritual tem os seus afetos
deslocados para o que é celestial, espiritual e divino, e como Paulo anseia
todos os dias deixar este tabernáculo terreno para ser enfim revestido pela
imortalidade.
Ele continua fazendo uso
das coisas terrenas, mas não é nelas que está preso o seu afeto. Sabe que são
passageiras e que até mesmo podem ser um laço e um peso para afastá-lo da
comunhão com Deus.
Mas sua relação com elas
não é pelo temor de perder a vida celestial, mas simplesmente porque elas já não
dominam o seu coração e vontade. Foi aprisionado por elas num determinado tempo
de sua carreira, mas foi paulatinamente sendo desmamado delas porque algo muito
superior, infinitamente excelente havia ocupado o lugar que elas tinham em suas
afeições.
Pergunte ao homem
espiritual se desejaria trocar um minuto de sua nova condição no Senhor por
todos os tesouros do mundo, e ele não pestanejaria para recusar a oferta.
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