Título original: The Death of the Flesh the Life of the Spirit
Por J. C. Philpot (1802-1869)
Traduzido,
Adaptado e Editado por Silvio
Dutra
"Ó
Senhor por estas coisas vivem os homens, e inteiramente nelas está a vida do
meu espírito; portanto restabelece-me, e faze-me viver." (Isaías 38:16)
Vocês sabem que estas palavras fazem parte da carta
que o rei Ezequias escreveu, depois que foi recuperado daquela doença que
Isaías, o profeta, foi enviado para declarar que era para a morte. Mas, quando
o Senhor, em resposta às orações e lágrimas de Ezequias reverteu a sentença, e o
levantou mais uma vez para a saúde; e não apenas isso, mas o capacitou a dizer
"Eis que foi para minha paz que eu estive em grande amargura; tu, porém,
amando a minha alma, a livraste da cova da corrupção; porque lançaste para trás
das tuas costas todos os meus pecados." - então, para que houvesse um
registro duradouro do trato do Senhor com ele, e uma palavra de consolo para os
santos afligidos sob a inspiração do Espírito Santo, ele escreveu esta carta.
Assim foi o seu canto triunfal; o canto de sua libertação que ele cantou sobre
os "instrumentos de corda, e para a honra e louvor do Senhor".
(Isaías 38:20).
Antes, então de entrar no
significado espiritual e experimental das palavras do texto, será necessário
traçar um pouco da experiência de Ezequias, para que saibamos o que ele
pretendia, quando usou esta expressão, "Ó Senhor, por estas coisas vivem
os homens, e em todas estas coisas está a vida do meu espírito." O termo "essas coisas" é claramente
a chave do texto, e tem uma referência a certos tratos de Deus sobre sua alma,
portanto para saber o que pretendia transmitir, devemos dar uma olhada nesses
tratos de Deus com ele.
Ezequias, seja lembrado, era uma
pessoa graciosa diante de Deus, que trouxe sobre ele a pesada provação registrada
neste capítulo. (Isaías 38). Mas, ele estava onde muitos do povo de Deus se
encontram, embora não soubesse que não tinha sido mergulhado suficientemente
profundo em um conhecimento de sua própria ruína, impotência e desesperança
como um pecador caído. Ele necessitava ouvir o que o Sr. Deer fala sobre sua
experiência (ele usa uma palavra estranha, mas muito expressiva), pois diz;
"Depois disto, eu o chamaria de reconversão?" Muitos do povo de Deus
precisam dessa reconversão. Eles precisam de um segundo mergulho; e até que
tenham tido este segundo mergulho, não conhecem, na maior parte, os mistérios
do evangelho profundamente.
Procurarei traçar a experiência
de Ezequias, para explicar meu significado mais plenamente e mostrar assim, quão
consistente é com os ensinos e os negócios de Deus no coração. Ezequias, como
eu tenho sugerido, era um participante da graça antes da pesada prova que veio
sobre ele conforme registrado neste capítulo. E você vai perceber traços mais marcantes
de seu caráter espiritual, do que é dito dele nas passagens correspondentes nos
livros de Reis e Crônicas; pois lá temos muitas provas de que ele era alguém
que temia a Deus. Por exemplo, encontramos um grande zelo pelo Senhor,
quebrando as imagens e cortando os bosques. É também expressamente dito, que
"ele confiou no Senhor"; que "ele se apegou a Ele, e não se
apartou de segui-Lo"; e que "o Senhor estava com ele". (2 Reis
18: 4-7).
Como ele trabalhou arduamente
para que a casa de Deus fosse aberta (pois tinha sido fechada por seu pai
Acaz), cada parte do templo foi purificada, seu culto e a Páscoa devidamente celebrados.
(2 Cr 29). Vemos também, como seu amor se estendeu além de Judá; ele enviou o
correio, nós lemos, de Dan para Berseba para reunir na festa solene os que
temiam o Senhor das tribos de Israel.
Ele era também um homem de terna
consciência; alguém que conhecia algo de real quebrantamento e contrição
perante o Senhor; pois quando a carta blasfema veio do rei da Assíria,
encontramo-lo rasgando suas vestes, vestindo-se de saco e entrando no templo
para derramar a carta perante o Senhor; não apenas derramando a carta, mas
também derramando sua alma em clamores e
gemidos, em orações e súplicas, para que Deus vindicasse a sua própria causa, e
livrasse seu povo das mãos de Senaqueribe. (Is 37). Além disso, na véspera da provação
veio a libertação. Deus ouviu seus clamores, feriu o exército do rei da
Assíria, e deu a Ezequias este testemunho impressionante, de que Ele tinha
ouvido sua oração, cortando cento e oitenta e cinco mil do exército poderoso
que o tinha ameaçado, e livrado Jerusalém da destruição total .
Juntando todas essas evidências,
não podemos duvidar de que Ezequias era neste momento, alguém participante da
graça. Vemos seu zelo, sua fé, seu amor, sua humildade e a ternura de sua
consciência; que ele sabia o que era oração espiritual, e respostas à oração; a
aplicação à a promessas, e o cumprimento delas.
Mas, ainda assim, embora tivesse
a graça do Espírito em sua alma, embora tivesse um novo coração e uma nova
natureza, e tivesse recebido sinais de misericórdia de Deus, ainda havia algo
deficiente, algo que lhe faltava profundamente. E este é o caso de muitos do
povo de Deus. Eles têm o temor de Deus em sua consciência; eles têm um zelo
pelo Senhor dos exércitos; têm um amor ao seu nome, ao seu povo e à sua verdade;
têm uma medida de ternura de coração e sinceridade divina; e às vezes, quando
entram em tribulações, o Espírito de graça e de súplicas é derramado sobre eles,
pelo qual clamam ao Senhor, que lhes ouve e responde. No entanto, há algo que
lhes falta profundamente; eles ainda estão somente flutuando na superfície da
verdade; ainda têm uma religião superficial; "as fontes do grande
abismo", como Deer diz de si mesmo, "não foram quebradas"; a
profundidade da depravação humana, a traição do coração, o orgulho, a presunção
e a hipocrisia de sua natureza caída, e todo esse abismo insondável da queda de
Adão, que está tão coberto pelo véu da ignorância e da incredulidade; a ruína
na qual foram precipitados pela transgressão de seu antepassado, não foi aberta
pelo Espírito de Deus em sua consciência.
Portanto, só flutuam sobre a
superfície da verdade, sem mergulhar fundo naquele mar insondável da miséria do
homem e da misericórdia de Deus, para arrancar as preciosas joias que só podem
ser encontradas lá. Por falta de um trabalho mais profundo sobre sua
consciência; por falta de ser mais despojado e provado; por não serem mais conduzidos
poderosamente ao conhecimento de sua ruína e miséria, suas visões de Jesus são
superficiais, meramente flutuando mais na cabeça do que sentidas no coração, e
consistindo mais na recepção da sã doutrina no julgamento, do que em um
conhecimento espiritual com Jesus como Ele é, e com tudo o que fez por Seu
povo, em um espírito quebrantado e contrito. Isso não é verdade para a maior
parte do povo de Deus na cidade e no campo? E não é esta religião superficial e
frágil, fomentada pela pregação superficial e doutrinária atual?
As pessoas me confessaram, com
lágrimas brotando de seus olhos, que enquanto estavam sentadas sob ministros
doutrinários, nunca conheceram sua própria miséria, nem experimentaram a
misericórdia de Deus.
Agora o que é curar esta
deficiência? O que é levá-los a uma experiência mais poderosa da verdade? O que
é trazê-los para fora desta religião sincera e contudo superficial? O que é
aprofundar a obra da graça em sua consciência?
Porquanto, as coisas que Deus
trouxe sobre Ezequias, "Naqueles
dias Ezequias estava doente até a morte. E o profeta Isaías, filho de Amoz,
veio a ele e disse-lhe: Assim diz o Senhor: Ponha em ordem a tua casa; porque
morrerás e não viverás. (V. 1). Foi assim que o Senhor agiu para aprofundar sua
obra no coração de Ezequias; trazer a morte diante dele. E sem dúvida, como a
sentença de morte entrou em seu corpo, assim também entrou em sua consciência.
E assim, o Senhor, ao enviar para
casa a sentença de morte em seus próprios atos vitais, e trazê-la pela
autoridade divina em seu coração e consciência, quebrou em pedaços o que era
oco, falso e insincero, e mostrou-lhe a sua verdadeira posição diante dele. Em
uma palavra, ele sentiu que não estava apto para a eternidade, para entrar na
presença de Deus. Sua fé ainda não abraçara completamente a Pessoa, o amor, o
trabalho e o sangue de Jesus; sua esperança ainda não tinha tomado uma firme
ancoragem dentro do véu, e de fato, sua religião estava mais "na sabedoria
dos homens" do que no "poder de Deus".
Agora, meus amigos, sei por
experiência da alma que, até que o Senhor prove Seu trabalho sobre o nosso
coração, descansaremos numa religião superficial, estaremos contentes com
evidências superficiais, esperanças fracas e expectativas sombrias; ficaremos
satisfeitos com um ligeiro ferimento e uma ligeira cura. Por falta de ensinamentos
mais claros e mais profundos, estaremos prontos a pensar que alcançamos coisas
muito maiores na vida divina do que de fato alcançamos, e assim seremos capazes
de nos enganar parcialmente; eu não digo inteiramente, porque tenho uma
experiência verdadeira, embora superficial. Mas, toda essa religião superficial
é pela falta de Deus enviando para casa a sentença de morte na consciência, como
diz o Apóstolo; "Tínhamos a sentença de morte em nós mesmos." (2 Cor
1: 9). Falo do que sei, pois eu estava aqui, eu creio, eu mesmo por algum tempo
depois que o Senhor primeiro vivificou a minha alma.
Mas, o que eu gostaria de chamar
sua atenção mais particularmente é: que efeito foi produzido em Ezequias quando
a sentença de morte entrou em sua consciência? Lemos, "Então Ezequias
voltou o rosto para a parede e orou ao Senhor". Que realidade, que poder,
que veracidade irradia através dessa expressão! É como se ele se afastasse da
criatura, do mundo e de toda a força, sabedoria e justiça da carne, para buscar
a Deus como seu refúgio. Sem dúvida, havia no tempo de Ezequias, como no nosso,
aqueles que lhe dariam falsa consolação; havia, sem dúvida, em torno de seu
leito de morte, rebocadores, com espátulas polidas e montões de argamassa não
temperada. Os sacerdotes, temos certeza, reuniram-se em torno dele, e
procuraram administrar falsos conselhos à sua alma. "Lembra-te", eles
diriam: "Ó rei, o teu zelo pelo Senhor, recorda como purificaste o templo,
como celebraste a páscoa, despedaçou a serpente de bronze, tudo quanto fizeste
por Deus, Como o Senhor te livrou da mão do rei da Assíria.” Mas, todas essas
consolações (ou o que elas pretendiam ser) não lhe serviram de consolo, porque
todas caíram sobre um coração que não podia recebê-las. A sentença de morte
estava em sua consciência; culpa, ira e condenação estavam todos queimando sua
alma; as flechas do Todo-Poderoso estavam penetrando seu espírito. Foi o
propósito de Deus que ele não deveria ser assim confortado, pois se ele pudesse
ter recebido paz nas coisas que estavam
tentando esmagá-lo, ele teria perdido o conforto que Deus tinha projetado
através desta provação para trazer à sua alma.
Agora, essa é a razão pela qual
Deus não permitirá que Seu povo seja confortado pela opinião dos homens, porque
Ele quer tirá-los da confiança na criatura, para desmamá-los de apoiar-se em um
braço de carne, e trazê-los para o local onde Ele e somente Ele, torna-se toda
a sua salvação e todos os seus desejos. Portanto, para tirá-los da criatura,
ele derruba os pés podres de debaixo deles, com os quais, com tanta frequência,
tentam arrematar e reforçar sua alma que está afundando.
Mas, para onde Ezequias se
voltou? Ele virou "para a parede e orou ao Senhor". Sua cama
provavelmente estava perto da parede, e voltando-se para ela, expôs o que sentia, que agora tinha que lidar com Deus
sozinho, e que nenhuma criatura deveria estar entre o Senhor e ele. Ele se
voltou, longe dos amigos e de cada coisa terrena, para buscar somente ao
Senhor. Agora este é o lugar para o qual Deus trará todos os seus filhos. Ele
faz com que todo o seu povo, através de convicções dolorosas, afiadas,
cortantes na consciência se afastem das criaturas, e de todo o conforto falso, para
vir ao Senhor como sentimentalmente perdido, nu, culpado e desfeito, a fim de
que possa atar as feridas que suas próprias mãos fizeram. Presunção, hipocrisia
e autojustiça não podem viver aqui. Só o temor divino e a sinceridade
espiritual respiram neste ar.
Mas, lemos, que ele não somente
virou o rosto para a parede, mas "orou ao Senhor, e chorou amargamente".
Não há oração real até que viremos nossos rostos para a parede. Não há
derramamento verdadeiro do coração diante do Senhor até que sejamos levados a
circunstâncias nas quais somente o Seu braço esticado pode nos livrar. Quantos
do povo de Deus continuam orando de maneira formal, dobrando os joelhos de
noite e de manhã com toda a regularidade (Eu não falo contra isso), mas quão
pouco sabem da oração sincera, ou de clamar ao Senhor pela angústia da mente e por
derramar sua alma em Seu seio, porque não têm outro refúgio para ocultar suas
cabeças culpadas!
Não há oração real até que haja
este derramamento do coração diante do Senhor, nem qualquer súplica real, luta
fervorosa, e clamor importuno até que a alma, em necessidade profunda, vira sua
face para a parede, procurando Jesus como sua única esperança e refúgio.
“E chorou amargamente”. Ele não
podia se confortar com as coisas que tinha feito para o Senhor. Ele não podia
olhar para suas evidências, pois estavam todas obscurecidas; não podia rever
sua vida bem-gasta, pois estava manchada por toda parte; ele não podia olhar
para o futuro, ou para o que pretendia fazer por Deus, pois o futuro era um
vazio sombrio; sim, uma eternidade para a qual ele estava se apressando sem
saber como estava diante do Senhor, se foi perdoado, aceito e salvo, ou se a
ira de Deus devia permanecer sobre ele para sempre.
Agora, quando foi reduzido a este
extremo, o Senhor apareceu para ele. O Senhor sempre quis aparecer; nunca quis matá-lo,
como ameaçou; Ele sempre se propôs a
prolongar sua vida por quinze anos, mas o conduziu a esta provação, não apenas
para ensinar-lhe a sua profunda culpa e miséria, mas também para mostrar as
superabundâncias de Sua própria graça em perdoar seus pecados através do sangue
do Cordeiro. Assim, Ezequias teve de bendizer a Deus todos os dias da sua vida,
como ele declara, por ter sido levado para estas águas profundas, por ter
passado por esta fornalha e por ter sido levado a esta provação, porque nela
aprendeu o que não podia aprender em outro lugar, e nela o perdão e a paz foram
abençoadamente comunicados com o poder divino e sagrada unção à sua alma.
Ao livrá-lo, então desta
provação, o Senhor prolongou sua vida natural, sorriu sobre sua alma e o
preservou de descer à cova, lançando todos os seus pecados para trás. Ensinado
e guiado pelo Espírito, Ezequias escreveu esta carta como um doce memorial dos
tratos do Senhor com ele, que poderia ser um encorajamento para o povo de Deus
em circunstâncias semelhantes no tempo vindouro.
Mas, o ponto principal a que
gostaria de chamar sua atenção está contido nas palavras do texto. Vamos, então
com a bênção de Deus, ver qual é o significado e a mente do Espírito Santo nelas.
"Ó Senhor, por estas coisas vivem os homens, e em todas estas coisas está
a vida do meu espírito". Quais eram essas coisas a que ele alude? As
palavras "estas coisas" referem-se ao que Ezequias tinha falado – a
provação em que tinha sido atirado, e a libertação que lhe fora dada; a
imposição do pecado sobre sua consciência e seu lançamento por trás das costas
do Senhor; a fornalha em que fora posto, e o Senhor o tendo trazido com
segurança e sem ferimentos; a sentença de morte enviada à sua consciência e a
manifestação de luz, vida, paz e salvação pela qual Deus a removeu, quando por
ela fora completamente esvaziada, humilhada e despojada. Assim, por "estas
coisas"; pela provação e libertação, pela aflição e consolação, pela dor e
cura, por sermos humilhados e ressuscitados, tornados pobres e enriquecidos; por
estas séries alternadas de operações de Deus na consciência "vivem os
homens", "E em todas estas coisas", sendo trazido a elas, sendo
levado por elas, e sendo libertado delas; "em todas estas coisas está a
vida de nosso espírito".
I. Vamos, pois ver como, por
"estas coisas", os homens vivem. Qual é o efeito quando a sentença de
condenação entra na consciência? Por ela vivemos. Como assim? Viver pela morte?
Como pode ser?
Porque a vida de fé na alma é de
tal natureza, que tudo o que enfraquece a natureza, fortalece a graça, e tudo o
que alimenta a natureza, abala a fé. A vida de Deus na alma é uma terna planta exótica
que, como uma flor entre as ervas daninhas, vive quando a natureza ao seu redor
morre. De modo que "por estas coisas vivem os homens", uma vez que a
vida espiritual é levada a cabo e revigorada na alma, através das provações e
tentações que enfraquecem a carne.
1. Por exemplo, estas provações
nos mortificam para o mundo. Não achamos isso uma verdade solene, que quando
todas as coisas vão bem conosco, quando o mundo é todo sorrisos, quando as
circunstâncias prosperam, quando o corpo é saudável, forte e vigoroso, a
religião espiritual está quase morrendo em nossas almas? Não é verdade que como
Jesurum, quando estamos engordando, chutamos?
Não sentimos quando o mundo fica
mais firme em nosso coração, que as coisas de Deus perdem sua realidade e poder
na consciência? Não é uma questão de experiência, que assim como a natureza
floresce dentro de nós, assim a graça parece murchar, e enfraquecer?
O florescimento conjunto dessas
duas coisas é incompatível. A natureza é enfraquecida? A graça é fortalecida. A
graça está enfraquecida? A natureza é fortalecida. A natureza e a graça, o
espírito e a carne, são tão inteiramente opostos; a morte de um é a vida do
outro, e a vida de um é a morte do outro.
Portanto, para enfraquecer a
natureza e fazer do mundo e seus encantos nada à nossa vista, o Senhor envia ou
permite que as provações e aflições venham sobre nós, que enfraquecendo a
natureza e abatendo nossa alma, Ele pode fazer com que a vida do Espírito seja
mais ativa e vigorosa em nosso coração. Por exemplo, quando uma provação nos
sobrevém, como aconteceu com Ezequias (uma provação que tenho passado em certa medida,
e portanto, sei alguma coisa dela); quando a sentença de condenação entra em
nossa consciência, qual é o efeito disso? Em que estado e circunstância a
provação nos encontra?
Na maior parte, encontra-nos
cheios do mundo; temos alguma sinceridade, algum temor piedoso, algum desejo de
estar certo, e alguns que tememos estarem errados. Tivemos alguns testemunhos,
desfrutamos de alguma medida de consolo e paz de Deus em nossa consciência, porém,
por falta de um trabalho mais profundo, por falta de operações de despojamento
e esvaziamento do Espírito, o mundo se infiltrou gradualmente sobre nós e tomou
posse de nosso coração e afeições; e não sabemos até que ponto nos desviamos do
caminho certo, e em que estado de magreza, esterilidade e morte espiritual nos
encontramos , até que venha a provação.
Mas, quando a provação, a
tentação ou a aflição vierem; quando a sentença de condenação entrar com poder
na consciência, ela nos mostra onde estamos, quão insensivelmente mergulhamos
no amor do mundo, e quão imperceptivelmente seu espírito atingiu suas fibras
profundas em nossas afeições.
Quando a morte nos olha na cara,
quando nossas evidências se afastam da vista, quando Deus se esconde, e sua ira
é sentida na consciência; que coisa vã é o mundo!
Quando, nestas circunstâncias, e
sangrando sob as feridas que o Espírito faz na alma, que pobre consolo são os
confortos, prazeres, riquezas e honras que este mundo oferece! Que bálsamo eles
podem dar às feridas de uma consciência culpada?
Assim, o espírito do mundo, a
escória e o estanho misturados com o metal puro, são purgados pela severidade da
provação e calor da fornalha em que a alma é lançada.
2. Mas, ainda. O julgamento nos
encontra muito neste estado, confundindo os ensinamentos do homem com os
ensinamentos de Deus; acumulando um tesouro, sem que o Senhor comunique suas
preciosas riquezas, pelas operações do Espírito Santo, à nossa consciência.
Quantas pessoas existem, e é de temer que muitos do povo de Deus estão entre
eles, que estão confundindo a forma da religião com o poder dela; confundindo
doutrinas aprendidas na cabeça com os ensinamentos do Espírito na alma! Agora,
quando esta provação vem sobre nós, o Senhor nos leva e nos coloca na fornalha,
queima toda essa falsa religião. Talvez tenhamos nos tornado muito sábios na letra
da Palavra, possuímos lembranças remanescentes que temos guardado com textos e
passagens da Escritura, ouvimos muitos pregadores excelentes, lemos numerosos
livros escritos por grandes teólogos e, assim, acumulamos muitos tesouros.
Mas, quando a sentença de
condenação vier, estes tesouros, amontoados para o dia do mal, são todos
expulsos como fumaça da chaminé, ou palha da eira. Eles não podem suportar o
dia da provação, não sendo forjados na alma pelo poder divino, nem selados no
coração por um testemunho de Deus, mas apenas flutuando na provação. Quando o
pecado não perdoado pesa sobre a consciência, os sentimentos mais sólidos e os
pontos de vista mais claros, que não foram introduzidos no coração pelo
Espírito de Deus, não podem dar paz à mente; e não podemos mais pendurar-nos
sobre eles para salvar nossas almas da ira vindoura, do que um homem afogado
pode pendurar em uma palha para salvá-lo de afundar nas águas profundas. Assim,
esta provação expurga uma grande quantidade de religião falsa.
3. Ainda enquanto neste estado,
antes de termos tido o segundo passo, marque-o, estou falando aos filhos de
Deus; há muita presunção na mente carnal, que passa para a fé. Muitos do povo
de Deus usam a linguagem da segurança, que nunca receberam dos ensinamentos de
Deus, o Espírito. Eles ouviram o ministro dizer; "Meu Deus, e meu
Jesus"; na reunião de oração ouviram, "Meu Deus e meu Pai" e
cantaram o hino, sem que o Espírito Santo tivesse derramado o amor de Deus em
seu coração, ou lhes tivesse dado o espírito de adoção para clamar "Abba
Pai". Assim, eles tomaram esses termos apropriando-se dos lábios dos
outros, e ignorantemente confundem esta presunção tão abundante nos dias de
hoje, como sendo a verdadeira segurança da fé.
Mas, quando Deus leva um homem à
água e lhe dá um segundo mergulho, ele afoga essa presunção e o leva a este
lugar, que não tem senão aquilo que Deus dá, não sente senão o que Deus
inspira, só sabe o que Deus ensina, e nada mais do que o que Deus faz. Então, um
homem observa as numerosas palavras que caíram de seus lábios. Quão alto ele
subiu, enganado pelo exemplo dos outros, e agora encontra o que ele pensava ser
a fé; ser nada mais que uma ousada presunção e uma vaidosa confiança. Assim,
esta provação acentuada corta sua falsa fé, e o rebaixa com tristeza, em
profunda humildade e contrição perante o Senhor.
4. Outro efeito que a provação
produz é este. Quando a sentença de condenação dos lábios de Deus entra na
consciência, ela abre os olhos de um homem para ver a realidade da piedade
vital. Meus amigos, há muita conversa sobre religião, mas quão poucas pessoas
sabem alguma coisa sobre a verdadeira religião, sobre o segredo da piedade
vital, sobre os ensinamentos e operações internas do Espírito Santo sobre o
coração!
Muitos homens falam fluentemente
de doutrinas, e das bem-aventuradas verdades do evangelho, mas que bem podem
fazer meras doutrinas para mim, se não forem seladas no meu coração e aplicadas
com poder divino à minha consciência?
Sem isso, as maiores verdades não
podem me fazer nada de bom. Mas, quando o Senhor faz com que aprendamos acerca
da nossa total insuficiência, conhecendo
nossa real condição de impotência, nos coloca na fornalha e nos arrasta pelas
águas, Ele nos mostra que a verdadeira religião, a piedade vital, é algo mais
profundo, mais espiritual, mais sobrenatural, algo que está mais nos
ensinamentos do Espírito e sua operação no coração, do que nunca sonhamos antes
de entrarmos na provação. Poderíamos ter tido os pontos de vista mais claros da
verdade doutrinária, e professarmos acreditar também, que a verdadeira religião
é obra do Espírito Santo; no entanto, estas eram apenas noções escuras
flutuando na cabeça, antes que chegássemos à fornalha. Mas, essas coisas agora
são vistas sob uma luz diferente, e sentidas de uma maneira totalmente
diferente. O que antes era apenas uma doutrina, torna-se agora uma verdade
muito certa; e o que antes era apenas um sentimento, está agora selado como uma
realidade viva na experiência.
Como o Senhor, então nos leva
para o pó, Ele tira nossa mera religião conceitual e doutrinária. Ele começa a
abrir ao nosso coração, a verdadeira natureza da piedade vital, que é algo mais profundo, mais espiritual,
mais poderoso, algo mais experimental do que qualquer coisa que já conhecemos;
que consiste nos ensinamentos e orientações do Espírito Santo na consciência.
Assim que isto é sentido, despoja
o homem de tudo o que aprendeu na carne, e o leva ao pó da morte; e quando
trazido lá, o Espírito abre as verdades do evangelho de uma maneira que ele
nunca tinha conhecido antes.
Muitas pessoas conhecem a verdade
apenas na letra, mas quão poucos pelos ensinamentos e operações de Deus, o
Espírito, no coração! Eles têm visões sãs do caminho da salvação, mas nunca
foram trabalhados com poder em sua alma; eles têm mentes claras, mas seus
corações não são quebrados em contrição e piedade; suas mentes estão bem
instruídas nas verdades do evangelho, mas essas verdades não foram comunicadas
por "uma unção do Santo"; nem têm sido sentidas com uma convicção
solene e esmagadora, por meio da qual conhecem a verdade e seu poder, e têm
suas almas batizadas em uma conformidade espiritual com o doce prazer dela.
Até que um homem é obrigado a ver
o vazio de uma mera profissão, a ter seu livre arbítrio despojado e purgado, a
ser tirado daquela religião vazia tão geralmente corrente, e é dividido em
humildade no escabelo da misericórdia divina, ele não sentirá o poder, a
realidade, a doçura e a bem-aventurança do amor esmagador de Deus exibido no
evangelho. Até que a alma seja despojada, até que o vaso seja esvaziado, essas
coisas não podem ser conhecidas, nem está em condições de receber as gloriosas
riquezas da graça livre. Até que a escória e o estanho sejam removidos do
coração, o metal puro não pode brilhar, até que essa palha seja queimada, o
trigo fica amontoado numa massa confusa na eira. O Senhor, portanto provará seu
trabalho no coração, porque é um Deus zeloso, e não dará Sua glória a outro, mas manterá para si mesmo
a prerrogativa de soberana misericórdia, e de salvar ao máximo.
Quando Ezequias, então disse;
"Por estas coisas, os homens vivem", ele quis dizer que por estas
provações e libertações, por esses afundamentos e levantamentos; esvaziamento e
enchimentos, "os homens", isto é, os homens espirituais, "vivem".
(Nota do tradutor: De fato é somente por este método divino que a verdadeira
espiritualidade pode ser trazida à alma e ser mantida nela, de modo que não há
verdadeiro crente espiritual onde não houve um trabalho operado pelas
provações, para a quebra do velho homem, tendo em vista possibilitar o
revestimento do novo.)
É um mistério, mas uma grande
verdade, que na proporção em que morremos para o mundo, para o “eu”, para o
sentido, para a natureza e para a religião falsa, mais a vida de Deus é
fortalecida em nossa consciência. Talvez o Senhor tenha ensinado esta verdade a
alguns de vocês, através de grandes aflições. Mas, quando estas provações
vieram sobre você no início, parecia como se elas o submergiriam inteiramente;
elas moveram a sua posição, e parecia que tinham destruído a sua fé e
esperança. Mas, embora estas inundações de tentação passassem sobre a alma, elas
varreram apenas o lixo, que até então era confundido com os ensinamentos
interiores de Deus, pelo Espírito. Até agora, a partir dessas aflições
esmagando sua fé, você descobriu que a fé foi secretamente fortalecida pela
própria inundação que ameaçou no início afogá-la.
A fé verdadeira não é mais
destruída por provações afiadas, do que o carvalho é destruído por se cortar a
hera que o envolve, ou por uma tempestade soprando e arrancando alguns de seus
ramos podres. Quando as tentações nos atacaram pela primeira vez, pensamos que
elas nos destruiriam completamente; eram tão poderosas que não conseguimos
resistir a elas; e ameaçaram não nos deixar uma única vela em nosso barco para ser
colocada diante do vento. Mas, não descobrimos depois que a primeira rajada da
tempestade ocorreu, que ficamos mais profundamente enraizados na verdade, e
fomos capazes de entrar mais no poder e na doçura dela?
Comparei professantes de religião
às vezes, com árvores de dois tipos diferentes de crescimento. Há aqueles que
se assemelham a abetos em uma plantação, e outros, a carvalhos em um parque. Os
abetos, amamentados em uma plantação, (como professantes em uma igreja) e
abrigados do vento, são facilmente arrancados pela tempestade; enquanto que
pela mesma rajada os carvalhos só ficam mais profundamente enraizados. Quanto
mais os ventos invernais sopram e as tempestades uivam, e quanto mais batem
sobre o carvalho, mais firmemente se fixa, mais profundamente as raízes atingem
a terra, mais altos os ramos sobem para o céu, mais amplamente se espalham
sobre o solo.
Assim, espiritualmente, as
tempestades que passam sobre um filho de Deus, em vez de enfraquecer, apenas o
fortalecem, porque o aproximam do Senhor. E assim, como o carvalho, quanto mais
o vento sopra sobre ele, tem uma raiz mais firme no solo; de modo que as
tempestades que sopram sobre a alma, só fazem com que ela tome uma postura mais
firme da verdade, e afete suas fibras mais profundamente na Pessoa, no amor, no
trabalho e no sangue de Jesus. Assim,
"por estas coisas vivem os homens", pois através deles, a vida de
Deus é mantida na alma, o Espírito Santo a fortalece secretamente pelas mesmas
coisas que pareciam ameaçá-la com a destruição.
II. Mas, ele acrescenta: "E
em todas estas coisas está a vida do meu espírito". Por
"espírito", ele se refere à "nova natureza", assim chamada
de seu nascimento do Espírito. Essa "nova natureza" tem seus fluxos e
refluxos, afundamentos e ressurgimentos; tem suas flutuações, e às vezes, para
nossos sentimentos parece quase extinta do nosso coração. Mas Ezequias diz, em todas estas aflições e consolações, esses
movimentos e fluxos, esses levantamentos e afundamentos - "em todas estas
coisas está a vida do meu espírito". Por toda essa contrariedade do
sentimento e graça na alma, a vida de Deus no coração é nutrida, fortalecida e
revivida.
Tão longe estão essas provações,
tentações, dificuldades e perplexidades, de destruir ou oprimir a graça de Deus
na alma, que as próprias tribulações, ao passar por eles, são a vida do
espírito. A graça floresce em meio a essas aflições; a fé está em operação mais
viva pelos pesos e encargos que são colocados sobre ela, porque Deus assim o
ordenou; que quando somos fracos, então somos fortes. Este é o grande segredo
da piedade, "a minha graça te basta, porque a minha força se aperfeiçoa na
fraqueza." (2 Coríntios 12: 9). Portanto, para que a força de Cristo se
torne perfeita em nós, devemos entrar em provações e tentações, a fim de que
nossa fraqueza nos convença de nossa profunda necessidade e nos traga àquele
lugar onde a força de Cristo é aperfeiçoada.
“Meus irmãos, tende por motivo de
grande gozo o passardes por várias provações, sabendo que a aprovação da vossa
fé produz a perseverança; e a perseverança tenha a sua obra perfeita, para que
sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma.” (Tiago 1. 2-4).
“Bem-aventurado o homem que
suporta a provação; porque, depois de aprovado, receberá a coroa da vida, que o
Senhor prometeu aos que o amam.” (Tiago 1.12).
“E não somente isso, mas também
gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança, e
a perseverança a experiência, e a experiência a esperança;” (Rom 5.3,4).
Somos assim levados a sentir que
todas estas provações e libertações são misericordiosamente dadas; para fazer
com que nosso espírito reviva e floresça, para mostrar que o Senhor é poderoso
em nos ajudar, que nEle habita toda a plenitude divina, e que, daquela
plenitude, recebemos graça sobre graça. E assim, o Senhor secretamente mantém a
vida que deu; por estas mesmas provações, e o que sai delas; por essas mesmas tribulações
e libertações, Ele faz com que a nova natureza reviva e floresça, não só apesar
de, mas através e por conta dessas provações que uma vez pareciam prontas para
dominá-la e quase destruí-la.
Que misericórdia é, saber que
estas provações e aflições são enviadas pela mão de Deus! Que misericórdia,
embora seja doloroso ao extremo ser despojado e esvaziado de todos os nossos
refúgios mentirosos, para sentir a verdade dessas palavras, "E regrarei o juízo pela linha, e a justiça pelo
prumo, e a saraiva varrerá o refúgio da mentira, e as águas inundarão o
esconderijo." (Isaías 28:17).
Aqueles de nós que conhecemos a
praga de nossos próprios corações, que refúgio de mentiras encontramos lá!
E que misericórdia é ser levado a
sentir a sentença de condenação aplicada com poder à nossa consciência, de modo
a reprovarmos o mal que há em nós, e a exaltarmos a justiça e a verdade que
existem em Jesus!
Que resultados abençoados
dependem dessas provações! De modo que as mesmas coisas que pensamos estarem
contra nós, achamos serem as mesmas coisas que são mais por nós; e as coisas
que pensamos serem mais por nós, provamos serem mais contra nós. As mesmas
coisas que pensávamos que tínhamos mais motivo para temer, são as mesmas coisas
pelas quais temos mais motivos para ser gratos; e se tivéssemos aquelas coisas
que nossos corações carnais mais desejariam, elas deixariam a alma estéril e
vazia.
Assim, então a alma encontra,
"por estas coisas os homens vivem, e em todas estas coisas está a vida do
meu espírito", para que, na hora da meditação solene possamos bendizer a
Deus pelas provações e tribulações, agradecer-lhe pelas fornalhas e louvá-Lo
por esvaziar-nos e despojar-nos, porque descobrimos que ocasião Ele tirou disso
para ensinar e consolar a alma, e levá-la em alguma medida de conformidade com
a imagem de sofrimento de Cristo. E assim nos encontramos, como disse Ezequias
"Em todas estas coisas," dolorosas como são, "está a vida do
nosso espírito."
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