Por
Charles H. Spurgeon (1834-1892)
“Tua fé te salvou.” (Lucas 7:50; 18:42)
Eu não recordo que esta expressão possa ser encontrada em qualquer outra
parte da Bíblia. Está nestes dois versículos do Evangelho de Lucas, mas não a
achamos nos demais Evangelhos. Lucas também nos dá uma expressão parecida ou
quase idêntica em outras duas passagens: “tua fé te curou.” (Bíblia das
Américas). Esta expressão foi usada em referência à mulher cujo fluxo de sangue
havia sido estancado instantaneamente (Lucas 8:48), e também em conexão com o
único dos dez leprosos que regressou para glorificar o Salvador pela limpeza
que tinha recebido (Lucas 17:19).
Poderão encontrar a expressão, “tua fé te curou” uma
vez em Mateus e duas vezes em Marcos, mas a encontrarão duas vezes em Lucas,
além das palavras de nosso texto que são repetidas duas vezes: “Tua fé te
salvou.” Acaso nos equivocamos ao supor que a larga convivência de Lucas com o
apóstolo Paulo lhe permitiu não só receber a grandiosa doutrina da justificação
pela fé, que Paulo ensinava de maneira tão clara, e outorgar à fé essa alta
importância que Paulo sempre lhe dava, mas também ter essa memória peculiar
dessas expressões usadas pelo Salvador, nas quais a fé era honrada de maneira
manifesta e a um grau extremamente elevado?
Embora Lucas não tenha escrito nada que não fosse
verdade simplesmente para proclamar essa grandiosa doutrina ensinada pelo
apóstolo tão claramente, sem dúvida eu creio que sua plena convicção dela tenha
lhe ajudado a trazer à sua memória mais vividamente essas palavras do Senhor
Jesus, nas quais se poderia entender essa doutrina de maneira mais clara e com
exemplos.
Seja como for, sabemos que Lucas estava inspirado, e
que não tinha escrito nada nem demais nem de menos, senão o que o Salvador
disse na realidade, e aqui podemos estar seguros que a expressão, “Tua fé te
salvou,” saiu dos lábios do Redentor e somos obrigados a aceitá-la como uma
pura verdade inquestionável, e nós podemos repeti-la sem temor de confundir
outros ou de mutilar outras verdades.
Menciono isso porque outro dia escutei um amigo
sincero dizer que a fé não nos salvava e, diante desta afirmação, fiquei muito
surpreso. É verdade que esse irmão disfarçou sua expressão e disse que queria
deixar muito claro que Jesus foi quem nos salvou e não nosso próprio ato de fé.
Eu estou de acordo com o que ele quis dizer, mas não com o que disse, pois ele
não tinha o direito de usar uma expressão que estava em franca contradição com
a claríssima declaração do Salvador, “Tua fé te salvou.”
Nós não devemos forçar nenhuma expressão para fazê-la
expressar algo mais além do que se pretendeu dizer, e é bom proteger as
palavras para que não sejam mal entendidas; mas por outro lado, não podemos ir
tão longe como para negar uma declaração do próprio Senhor, independentemente
de que sentido queremos lhe dar. Podemos destacar, mas não contradizer a
expressão, pois ali está firme, inalterável, “Tua fé te salvou.”
Agora, no dia de hoje vamos indagar, com a ajuda de
Deus, o que foi que salvou as duas pessoas cujas histórias estaremos
considerando? Foi sua fé. Nossa segunda pergunta será: que
tipo de fé os salvou? E depois, em terceiro lugar: o que
isso nos ensina referente à fé?
I. O
QUE SALVOU as duas pessoas cujas histórias estamos considerando?
No caso da mulher penitente, seus grandes pecados
foram perdoados e se converteu numa mulher de extraordinário amor: amou muito,
pois muito lhe foi perdoado. Ao pensar nela sinto um pouco como aquele eminente
pai da igreja que dizia: “eu não posso pregar bem em relação a esta narração;
prefiro mais lamentar bem a respeito dela em secreto.”
As lágrimas dessa mulher, as tranças soltas dessa
mulher secando os pés do Salvador, o fato de que se aproximou de seu Senhor
apesar dos que O rodeavam, enfrentando seus orgulhosos comentários com uma
determinação muito firme e resoluta de honrar a Jesus; certamente, entre
aqueles que têm amado o Salvador, não viveu ninguém maior que esta mulher que
foi uma pecadora. E sem dúvida, apesar de tudo isso, Jesus não lhe disse: “teu
amor te salvou.” O amor é uma maçã de ouro da árvore cuja raiz é a fé, e o
Senhor teve o cuidado de não atribuir ao fruto isso que só pertence à raiz.
Esta mulher cheia de amor também foi muito notável por
seu arrependimento. Observem bem essas lágrimas. Não eram lágrimas de emoção
sentimental, mas uma chuva procedente da santa dor do coração pelo pecado. Ela
havia sido pecadora e o sabia; ela recordava muito bem a multidão de suas
iniquidades, e sentia que cada pecado merecia uma lágrima, e ali estava ela,
desfazendo-se em lágrimas, porque havia ofendido seu amado Senhor. E sem dúvida
não foi dito: “teu arrependimento te salvou.”
Ser salva causou seu arrependimento, mas o
arrependimento não a salvou. A dor pelo pecado é uma mostra temporã da graça em
seu coração, e sem dúvida não foi dito em nenhuma parte: “tua dor pelo pecado
te salvou.” Ela era uma mulher de grande humildade. Aproximou-se do Senhor por
trás e lavou Seus pés, como se somente se sentisse capaz de ser uma serva de
baixa categoria encarregando-se de obras tediosas, mas encontrando prazer ao
fazê-lo para servir o Senhor.
Sua reverência por Ele havia alcançado um ponto muito
elevado; ela o via como um rei, e ela fez o que algumas vezes súditos zelosos
pelos monarcas têm feito: ela beijou os pés do Senhor de seu coração, do
Soberano de sua alma, mas não acho que Jesus tenha dito: “tua humildade te
salvou;” ou que tenha dito: “tua reverência te salvou”; mas pôs a coroa sobre a
cabeça de sua fé e lhe disse expressamente: “tua fé te salvou, vá em paz.”
No caso do cego a quem se refere meu segundo texto,
este homem era notável por sua confiança; ele clamava: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” Ele era notável por sua importunação,
e aqueles que queriam calá-lo lhe reprendiam em vão; ele clamava muito mais, “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”
Mas eu não vejo que Jesus tenha atribuído sua salvação a suas orações, embora
tivessem sido plenas de confiança e incômodas. Não está escrito, “tuas orações
te salvaram”; está escrito, “tua fé te
salvou.” Ele era um homem de conhecimento claro e considerável, e tinha
um claro entendimento do verdadeiro caráter de Cristo: ele não quis chama-lo
Jesus de Nazaré, como fazia a multidão, mas o proclamou “Filho de Davi,” e na
presença desse tropel de gente teve o valor de declarar sua plena convicção que
esse homem humilde, vestido com as roupas de um campesino, que ia empurrado na
multidão, não era outro senão o herdeiro do reino da linha real de Judá, quem
daria pleno cumprimento ao tipo de Davi, o Messias esperado, o Rei dos judeus,
o Filho de Davi.
E sem dúvida, não encontro que Jesus tenha atribuído
sua salvação a seu conhecimento, nem a seu claro entendimento, ou à sua clara
referência ao Messias; mas que lhe disse, “tua fé te salvou,” pondo toda a ênfase de sua salvação em sua
fé.
Sendo assim em ambos os casos, somos levados a
perguntar: qual é a razão disso? Por que em cada caso, em cada homem que é
salvo, a fé é o grande instrumento de salvação? Não é, primeiro, porque Deus
tem o direito de eleger o caminho de salvação que Lhe agrada, e Ele elegeu que
os homens devem ser salvos, não por suas obras, mas por sua fé em Seu amado
Filho? Deus tem o direito de outorgar Sua misericórdia a quem Ele queira; Ele
tem o direito de dá-la quando Ele queira; Ele tem o direito de concedê-la do
modo que Ele queira; e saibam isto, ó filhos dos homens, que o decreto do céu é
imutável, e permanece firme para sempre: “O que crer e for batizado será salvo, mas o que não crer será
condenado.” Para isso não haverá nenhuma exceção; o SENHOR estabeleceu a
regra e será aplicada sempre. (A fé então exalta a graça e a misericórdia de
Deus, pois exclui totalmente nossos méritos e obras para a Sua aceitação, e por
isso foi designada por Ele para ser o instrumento da nossa salvação – nota do
editor).
Se você quiser alcançar a salvação, “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo“;
mas se você não crê, a salvação é totalmente impossível para você. Este é o
caminho assinalado; siga-o e ele o levará ao céu; rejeite-o e você perecerá.
Esta é a determinação soberana, “aquele
que crer, não será condenado; mas o que não crer, já está condenado, porque não
creu no nome do unigênito Filho de Deus.” A vontade do SENHOR sempre se
cumprirá. Se este é Seu método de graça, não demos pontapés contra ele. Se Ele
determina que a fé o salvará, assim será; apenas, Bom Senhor, cria e aumenta
nossa fé.
Mas enquanto eu atribuo isso à eleição soberana de
Deus, vejo certamente, pois a Escritura o indica claramente, uma razão na
natureza das coisas do porquê a fé teve que ser eleita. O apóstolo nos disse
que é por fé para que possa ser por graça. Se a condição da salvação
tivesse sido o sentimento ou as obras, então, tal é a depravação de nossa
natureza que inevitavelmente atribuiríamos o mérito da salvação às obras ou ao
sentimento. Nós reclamaríamos uma participação nisso e, portanto, desejaríamos
a glória. Não importa quão baixa poderia ter sido a condição, mesmo assim o
homem teria considerado que tinha algo que se requeria dele, que algo vinha
dele, e que, portanto, poderia merecer algum crédito para si mesmo. Mas nenhum
homem, a menos que esteja louco, reclama jamais um crédito por crer na verdade.
Se ele ouve algo que o convence, fica convencido; se tem que ser persuadido, é
persuadido; mas ele sente que não pode ser de outra maneira.
Ele atribui o efeito à verdade e à influência usada.
Não anda rondando e presumindo porque ele crê o que lhe parece tão claro, que
não pode duvidar. Se na verdade presumira de fé espiritual, todos os homens
pensantes diriam de imediato: “Por que razão presume do fato de haver crido,
especialmente quando esta fé nunca foi sua se não fosse a força da verdade que
o convenceu, e a obra do Espírito de Deus a que o constrangeu a crer?”
A fé é eleita por Cristo para levar a coroa da
salvação porque (permitam-me contradizer-me) ela recusa levar a coroa. Foi
Cristo quem salvou a mulher penitente, foi Cristo quem salvou o mendigo cego,
mas Ele retira a coroa de Sua cabeça – tão amada é a fé para Ele – e põe o
diadema sobre a cabeça da fé e diz: “tua fé te salvou,” porque está
absolutamente seguro que a fé nunca tomará a glória para si, mas porá novamente
a coroa junto aos pés transpassados, e dirá: “não é para mim a glória, pois Tu
o fizeste; Tu és o Salvador, e só Tu.” Então, para ilustrar e para proteger os
interesses da graça soberana, e para eliminar toda a vanglória, agradou a Deus
fazer que o caminho da salvação seja pela fé e por nenhum outro meio.
E isto não é tudo. Fica muito claro a todo aquele que
pensa que para a regeneração do coração, que é a parte principal da salvação,
está bem começar com a fé; porque uma vez exercitada corretamente a fé se
converte no motor da natureza inteira. O homem crê que foi perdoado. Que
acontece então? Sente gratidão para com Aquele que o tem perdoado. Sentindo-se
grato, é muito natural que odeie tudo aquilo que desagrada ao seu Salvador, e
que ame intensamente o que agrada Aquele que o salvou, de tal forma que a fé
opera sobre a natureza inteira, e se converte no instrumento na mão do Espírito
regenerador, pelo qual todas as faculdades da alma são postas na condição
correta.
Da maneira que um homem pensa em seu coração, assim é
esse homem, pois seus pensamentos saem de suas crenças; se esse homem é
corrigido em suas crenças, então seu entendimento operará sobre seus afetos, e
todos os outros poderes de sua condição de homem, e todas as velhas coisas
passarão, todas as coisas se converterão em novas por meio do maravilhoso
efeito da fé, que é da operação de Deus.
A fé funciona por amor, e por meio do amor purifica a
alma, e o homem se converte em uma nova criatura. Então, vocês veem a sabedoria
de Deus? Ele pode eleger o caminho que Ele quiser, mas Ele elege um caminho que
simultaneamente guarda Sua graça de nossas jactâncias malvadas, e por outro
lado produz em nós uma santidade que de outra forma nunca teria estado lá.
Fé na salvação, sem dúvida, não é uma causa meritória;
nem é tampouco em nenhum sentido a salvação mesma. A fé nos salva da mesma
maneira que a boca nos salva da fome. Se temos fome, o alimento é a cura real
para a fome, mas seria correto dizer que comer tira a fome, sendo que o próprio
alimento não poderia beneficiar-nos, a menos que a boca o receba.
A fé é a boca da alma, por meio da qual se sacia a
fome do coração. Cristo é também a serpente de bronze levantada; todo o poder
de sarar está Nele; sem dúvida o poder de sarar não sai da serpente de bronze
para quem não olhar para ela; de tal maneira que o olhar é corretamente
considerado como o ato que salva. Certo, no sentido mais profundo é Cristo
levantado quem salva, e a Ele seja toda a glória; mas sem olhar para Ele não
podem ser salvos, assim que:
“Há vida quando se olha,”
Assim como há vida no Salvador para Quem vocês olham.
Nada é de vocês enquanto não se apropriem. Se querem receber riquezas, a coisa
da qual se aproprie o enriquece; não é incorreto mas estritamente correto dizer
que é a apropriação da bênção o que o faz rico. A fé é a mão da alma. Ao
esticá-la, se agarra à salvação de Cristo, e assim pela fé somos salvos. “Tua
fé te salvou”. Não devo ficar mais tempo neste ponto. É muito evidente pelo
texto que a fé é o grande instrumento da salvação.
II. QUE
TIPO DE FÉ salvou essas pessoas? Primeiro, mencionarei os acordos essenciais; e depois, em
segundo lugar, as diferenças,
ou os pontos nos quais esta fé difere em suas manifestações externas nos dois
casos.
Nos casos da mulher penitente e do mendigo cego, sua
fé estava fixada unicamente em Jesus. Eles não podem descobrir nada flutuando
em sua fé em Jesus, que a tenha adulterado; foi uma fé Nele, sem nenhuma
mescla. A mulher abriu seu caminho até Ele, suas lágrimas caíram sobre Ele; seu
unguento foi para Ele; suas tranças soltas foram uma toalha para Seus pés; não
lhe preocupava mais nada, nem sequer os discípulos, que ela respeitava por Sua
causa; todo seu espírito e toda sua alma estavam absorvidos Nele. Ele podia
salvá-la; Ele podia apagar seus pecados. Ela acreditava Nele; ela o fez para
Ele. O mesmo foi o caso com esse homem cego. Ele não tinha nenhum pensamento
acerca de algumas cerimônias que os sacerdotes deviam desempenhar; não tinha
nenhuma ideia que lhe tivesse chegado por meio dos médicos. Sua exclamação foi,
“Filho de Davi, Filho de Davi.” A única forma em que se fixou nos demais foi para
não os levar em conta, e clamar, “Filho de Davi, Filho de Davi.” “Que queres
que te faça?” foi a pergunta do Senhor, e respondeu ao anelo de sua alma, pois
ele sabia que se algo devia ser feito tinha que se fazer pelo Filho de Davi.
É essencial que nossa fé descanse unicamente em Jesus.
Misturem qualquer coisa com Cristo e estarão arruinados. Se sua fé descansa com
um pé sobre a rocha de seus méritos e com o outro pé sobre a areia de seus
próprios deveres, você cairá e grande será sua queda. Construam solidamente
sobre a rocha, pois se somente só uma esquina do edifício descanse em qualquer
outra coisa além da rocha, isso será a garantia da ruína do prédio todo:
“Nada senão apenas Jesus,
nada senão apenas Jesus
Pode fazer bem aos
impotentes pecadores.”
Toda fé verdadeira é semelhante a este respeito.
A fé desses dois era semelhante em sua
confissão de indignidade. O que significava aquilo que ela tinha deixado
para trás? O que significavam suas lágrimas lágrimas intermináveis, senão que
ela se sentia indigna de achegar-se a Jesus? E que queria dizer o clamor do
mendigo: “tem misericórdia de mim”? Observem a ênfase que põe a respeito.
“Tem misericórdia de
mim.” Ele não reclama a saúde por mérito, nem a pede como uma recompensa. Ele
apelou à misericórdia. Agora, não me importa de que fé se trata, seja a de Davi
em seus amargos clamores do Salmo 51, ou seja a de Paulo em sua exaltação mais
elevada em relação a estar sem condenação por meio de Cristo, sempre há em
conexão com a verdadeira fé um pleno e profundo sentido que é a misericórdia, e
unicamente a misericórdia, é o que nos salva da ira vindoura.
A fé e a vanglória são tão opostas como são os dois
polos. Se você se apresenta diante de Cristo com sua justiça em suas mãos,
aproxima-se sem fé; mas se vem com fé então também deve vir com a confissão do
pecado, pois a verdadeira fé sempre caminha de mãos dadas com um profundo
sentido de culpabilidade diante do Altíssimo. Isto é assim em todos os casos.
Ademais, a fé deles era semelhante quando desafiavam e
conquistavam a oposição. Pouco sabemos das lutas internas da mulher penitente
quando passou pela porta da casa de Simão. “Ele te rejeitará,” diria o duro
fariseu imperturbável, “melhor ir-te, rameira; como te atreves a manchar as
portas dos homens honestos.” Mas sem se importar com o que poderia ocorrer, ela
atravessa as portas, aproxima-se dos pés do Salvador que estão estendidos para
a entrada, estando Ele recostado à mesa, e ali se mantém. Simão a vê: queria
que seu olhar a secasse, mas o amor dela por Cristo estava muito bem arraigado
para ser secado por ele.
Sem dúvida ele fez muitos gestos de desagrado,
mostrando que estava horrorizado porque tal criatura havia ousado aproximar-se,
mas ela não lhe prestou atenção. Seu Senhor estava ali, e ela se sentia segura.
Tímida como uma pomba, ela não tremia quando Ele se encontrava perto; mas não
devolvia olhares desafiantes às grosserias de Simão; seus olhos estavam
ocupados em chorar. Ela não se voltou para pedir uma explicação por seus
movimentos pouco amáveis, pois seus lábios estavam ocupados em beijar os amados
pés de seu Senhor. Seu Senhor era tudo para ela. Ela triunfou por meio da fé
Nele, e manteve sua posição, não abandonou a casa até que Ele a despediu com
“vá em paz.”
Ocorreu o mesmo com o cego. Ele disse, “Filho de Davi,
tem misericórdia de mim.” Eles o repreenderam, “Cala-te! Cego, para que esses
clamores? A eloquência Dele é música; não o interrompas. Nunca um homem falou
como Ele está falando. Cada tom tem o som de harpas dos anjos. Cala-te! Como te
atreves a estragar Seu discurso?” Mas acima de todos eles se elevou ainda mais
a petição importuna, “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” e
o cego prevaleceu.
Toda fé verdadeira enfrenta oposição. Se sua fé nunca
enfrenta provas, não é nascida da raça da igreja militante. “Esta é a vitória que vence o mundo, nossa
fé,” mas nessa mesma declaração se indica que há algo que deve ser
vencido, e que a fé deve pelejar uma guerra para existir.
Uma vez mais, a fé dessas duas pessoas era semelhante no
sentido que era confessada abertamente. Não vou dizer que a confissão tomou a
mesma forma em ambos os casos, pois não foi assim; mas mesmo assim ambas foram
confissões abertas. Ali está o Salvador, e ali vem a penitente chorando. Ela o
ama. Causa-lhe vergonha dizê-lo? Poderia acarretar-lhe reprovações; certamente
este feito reavivará as velhas censuras contra ela, pois ela tinha sido uma
pecadora. Não importa o que tenha sido, nem quem está presente vendo-a. Ela ama
seu Senhor, e quer demonstrá-lo.
Ela traz unguento e ungirá Seus pés, mesmo na presença
dos fariseus, s que certamente irão dizer, “esta também pertence aos discípulos
de Cristo? Que qualidade de mulher convertida! Uma excelente conquista é esta,
para Seu reino! Uma prostituta se converte em discípula! Que podemos esperar em
continuação?” Ela deve ter conhecido e sentido tudo isso, mas mesmo assim não
teve nenhuma dissimulação. Ela amava seu Senhor, e ia proclamá-lo de qualquer
forma, mesmo na própria casa do fariseu, já que não havia uma oportunidade mais
conveniente; e então ela se adianta e, sem palavras, mas com ações muito mais
eloquentes que as palavras, diz, “eu te amo. Estas lágrimas o demonstram; este
unguento vai difundir seu conhecimento, conforme seu doce perfume encha a
habitação; e cada fio do meu cabelo será um testemunho de que eu pertenço ao
Senhor e Ele pertence a mim.” Ela proclamou sua fé.
E o mesmo fez o cego. Não se sentou simplesmente
dizendo, “eu sei que Ele é o Filho de Davi, mas não devo dizê-lo.” Eles diziam,
alguns com desprezo e outros com indiferença, “é Jesus de Nazaré.” Mas o cego
não ia aceitar isso. “Tu, Filho de Davi,” disse; e eu o escuto exclamar bem
alto, por cima do ruído deles, como um arauto proclamando ao Rei, “Filho de
Davi!” Pois bem, senhores, parece-me que ele foi exaltado a um elevado ofício:
se converteu no arauto do Rei, e o proclamou, e isto pertence a um elevado
oficial de Estado no nosso país.
O mendigo cego demonstrou uma grande decisão e valor. Com
efeito clamou: “Tu és o Filho de Davi; filho de Davi, eu te proclamo; serás
proclamado Filho de Davi, e não importa quem queira negá-lo; só volta Teus
olhos e tem misericórdia de mim.” Há alguém aqui que tenha fé em Cristo, da
qual se envergonhe? Eu também me envergonho dele e Cristo também se
envergonhará dele quando vier na glória de Seu Pai e todos Seus santos anjos
com Ele.
Envergonha-se de manifestar que é honesto? Então,
creio que vive rodeado de más companhias, onde ser um malfeitor é ser famoso; e
se você se envergonha em dizer, “eu
amo meu Senhor,” parece-me que está cortejando os inimigos de
Cristo, e então, acaso você não é também um inimigo?
Se o amas, diga-o. Ponha o uniforme do regimento de
seu Senhor, aliste-se em Seu exército, dê um passo à frente e declare: “eu e
minha casa serviremos a Jeová.” Sua fé, então, era semelhante nestes quatro
pontos específicos, estava posta unicamente Nele, estava acompanhada de um
sentimento de indignidade, lutou e conquistou a oposição, e foi declarada
abertamente em frente a todos os presentes.
Apelando à sua paciência vou tratar de mostrar
as diferenças entre
ambas em relação a suas manifestações. Em primeiro
lugar, a fé da mulher atuou como uma fé de mulher. Ela mostrou um amor terno, e
os afetos são a glória e a fortaleza das mulheres. Assim certamente eram nela.
Seu amor era intenso, amor feminino, e ela o dirigiu ao Salvador. A fé do homem
atuou como a fé de um varão em sua determinação e força. Persistiu em clamar,
“Tu, Filho de Davi.” Havia muito de masculino acerca da sua fé assim como havia
muito de feminino na fé da mulher penitente, e tudo deve ser conforme a sua
ordem e suas estações. Não teria sido apropriado que a voz de uma mulher se
escutasse muito sonora por cima da multidão; pareceria descabido que as
lágrimas de um homem tivessem caído aos pés do Salvador. Qualquer dos dois
casos poderia ser justificado, mas nenhum dos dois teria sido tão apropriado.
Mas agora ambos são apropriados posto que são excelentes.
A mulher atua como uma mulher piedosa deve fazê-lo; o
homem atua como um homem piedoso. Nós não devemos medir-nos conforme a medida
de outras pessoas. Meu irmão, não diga: “eu não poderia derramar lágrimas.”
Quem pediu a você que o fizesse? As lágrimas de um homem estão basicamente no
interior, e devem permanecer ali: corresponde a nós usar outros modos de
demonstrar nosso amor. Minha irmã, não diga, “eu não poderia atuar como um
arauto e proclamar publicamente o Rei.” Não duvido que poderia fazê-lo se
houvesse necessidade disso, mas suas lágrimas em segredo, e essas mudas
demonstrações de amor a Jesus com que você o está brindando, não são menos
aceitáveis porque não são as mesmas que um homem daria. Não, mas são as
melhores porque são as adequadas para você. Não pense que todas as flores do
jardim de Deus devem florescer com o mesmo colorido ou derramar o mesmo
perfume.
Continuando, observem que a mulher atuou como uma
mulher que tinha sido uma pecadora. Que pode ser mais conveniente que as
lágrimas? Que lugar pode ser mais adequado para ela que estar aos pés do
Salvador? Ela tinha sido uma pecadora, e ela atua como uma pecadora; mas o
homem que tinha sido um mendigo atua como um mendigo. Que faz um mendigo senão
clamar por esmolas? Acaso não mendigou gloriosamente? Ninguém jamais praticou
com maior afinco sua profissão que ele. “Filho de Davi,” disse, “tem
misericórdia de mim.” Eu detestaria ter visto o mendigo sentado na beira do
caminho chorando; nem tampouco gostaria de ter escutado a mulher penitente
dando gritos. Nenhuma dessas duas coisas seria natural ou apropriada. A fé
opera de acordo com a condição, às circunstâncias, sexo, ou habilidade da
pessoa na qual vive, e a melhor maneira que se manifesta é em sua própria
forma, não de uma maneira artificial, mas na efusão natural do coração.
Observem também que a mulher não
falou. Há algo muito belo no silêncio de ouro da mulher, que era mais
rico do que teria sido seu discurso de prata. Mas o homem não estava calado;
ele falou; ele falou e suas palavras foram excelentes. Aventuro-me a dizer que
o silêncio da mulher falou tão poderosamente como a voz do homem. Dos dois,
penso que encontro mais eloquência nas lágrimas que aspergiam e nas tranças
soltas que secavam os pés do Salvador do que no grito, “Filho de Davi, tem
misericórdia de mim.” Sem dúvida, ambas as formas de expressão eram igualmente
boas, melhor o silêncio da mulher com suas lágrimas, e a eloquência do homem
com sua confiança plena em Cristo.
Não pense que é necessário, querido amigo, para você
servir, que você faça o trabalho de outras pessoas. A atividade que sua própria
mão encontre, essa atividade faça com todo o seu poder. Se você pensa que não
pode jamais honrar a Cristo até que entre num púlpito, pode ser o caso que vai
honrar mais descendo do púlpito o mais rapidamente possível. Tem havido pessoas
muito bem qualificadas para adornar a religião de Cristo com uma prancha de
sapateiro em seu colo, que pensaram que era necessário subir no púlpito, e
nessa posição foram um estorvo para Cristo e Seu Evangelho.
Irmã, há um lugar para você; mantenha-se nele, não
permita que nada a tire dele; mas não pense que não há nada mais que fazer
exceto o trabalho que alguma outra mulher faz. Deus a chamou a ele, deixe que
ela siga a voz de Deus: Ele chama você em outra direção, segue ali Sua voz.
Então, será muito semelhante a essa excelente mulher, quanto mais diferente
dela seja: quero dizer, será verdadeiramente mais obediente a Cristo, como ela
é, se prosseguir num caminho muito diferente.
Também havia outra diferença nisso. A mulher deu, ela
trouxe seu unguento. O homem fez o contrário, mendigou. Existem várias maneiras
de mostrar amor a Cristo, que são igualmente demonstrações excelentes de fé.
Dar-lhe seu unguento, e dar-lhe suas lágrimas, e dar-lhe o serviço de seu
cabelo, estava muito bem; mostrava sua fé, que agia por amor; e não dar nada,
pois o mendigo não tinha nada para dar, mas simplesmente honrar a Cristo ao
apelar à Sua riqueza e ao Seu poder real, era o melhor nesse mendigo. Não posso
exaltar a um mais que ao outro, pois não duvido que ambos, a mulher penitente e
o mendigo, deram a Cristo todo seu coração, e que mais pede Jesus de alguém?
Também os pensamentos da
mulher e os pensamentos do mendigo eram diferentes. Os pensamentos dela eram principalmente acerca do
passado, e de seus pecados, por isso suas lágrimas. Ser perdoada, esse era seu
ponto. Os pensamentos do homem eram principalmente sobre seu presente, não
tanto em relação a seus pecados, mas à sua deficiência, à sua enfermidade, à
sua incapacidade, e assim ele veio com pensamentos diferentes. Não duvido que
ele tenha pensado no pecado, como também me atrevo a dizer que pensava em sua
enfermidade; mas no caso dela o pensamento do pecado era proeminente, e por
isso suas lágrimas; no caso dele, a enfermidade era o proeminente, e por isso
sua oração, “Senhor, que eu veja.”
Então, não compare sua experiência com a de alguém
mais. Deus é um Deus de uma variedade maravilhosa. O pintor que se repete a si
mesmo em muitos quadros tem uma pobreza de concepção, mas o artista que é
mestre raramente faz um esboço de uma mesma coisa uma segunda vez. Existe uma
variedade ilimitada na genialidade, e Deus que transcende toda a genialidade
dos homens, cria numa variedade infinita as obras de Sua graça.
Portanto, não busquem semelhanças em todas as partes.
A mulher amou muito, e ela manifestou seu amor mediante seus atos; mas o homem
também amou muito, e manifestou seu amor mediante ações que eram extremamente
admiráveis, pois seguiu Jesus pelo caminho, glorificando a Deus. Sem dúvida,
eram ações diferentes. Não encontro que ele tenha trazido uma caixa com
unguento, ou que tenha ungido os pés de Cristo, nem tampouco encontro que ela
tenha seguido literalmente a Cristo pelo caminho, embora sem nenhuma dúvida ela
o seguiu em espírito; tampouco ela glorificou a Deus em voz alta como o fez o cego
mendigo restaurado.
Há diferenças de operação, mas um mesmo Senhor; há
diferenças de capacidade e diferenças de chamados, e mediante esta reflexão eu
espero que vocês sejam capacitados para libertar-se da falha de julgar a um
mediante os padrões de outro, e possam buscar a mesma fé, mas não seu mesmo
desenvolvimento.
Este tema é tão interessante que eu quero que me sigam
enquanto esboço rapidamente o caso da mulher e a continuação do homem, sem
mencionar cada uma das diferenças, mas permitindo que os dois quadros gravem-se
separadamente em suas mentes.
Observem esta mulher. Que estranho composto era ela.
Ela estava consciente de ser indigna, e por isso chorou, e apesar disso se
aproximou de Jesus. Seus atos foram de proximidade e comunhão; ela lavou Seus
pés com lágrimas, secou-os com os cabelos e durante todo esse tempo os beijava
uma e outra vez. “Mas esta, desde que
entrei, não cessou de beijar meus pés,” disse Cristo. Um sentido de
indignidade, e o gozo da comunhão, estavam misturados. Oh, fé divina, que funde
a ambos! Ela estava muito envergonhada, e sem dúvida foi muito audaciosa.
Todavia não se atrevia a olhar para o rosto do Senhor; aproximou-se dele por
trás; e sem dúvida se atreveu a enfrentar Simão, e a permanecer na sua casa,
mesmo que ele a olhasse com maus olhos ou não. É sabido que alguns coram ante a
face de Cristo que não corariam ante um juiz, nem na fogueira se fossem
arrastados ali por causa de Cristo. Uma mulher assim era Anne Askew, humilde
ante seu Senhor, mas como uma leoa ante os inimigos de Deus.
A mulher penitente chorou, ela se lamentava, mas tinha
um regozijo profundo; eu sei que o tinha, pois cada beijo significava alegria.
Cada vez que ela levantava esse pé bendito, e o beijava, seu coração saltava em
arrebatamento de amor. Seu coração conhecia a amargura pelo pecado, mas também
conhecia a doçura do perdão. Que combinação! A fé fez a composição. Ela era
humilde, não havia ninguém mais humilde; sem dúvida, vejam como ela toma para
si tratar com o próprio Rei.
Irmãos, vocês e eu estaríamos satisfeitos, e bem
podemos estar, se pudéssemos lavar os pés dos santos, mas ela não. Oh, o valor
desta mulher! Ela atravessou o pátio exterior, e foi direto ao trono do Rei,
para render ali sua homenagem, em sua própria pessoa para Sua pessoa, e lavar
os pés do Maravilhoso Conselheiro, Deus forte.
Eu não sei se algum anjo tenha jamais desempenhado tal
trabalho e serviço, portanto esta mulher tem proeminência ao ter feito por
Jesus o que nenhum outro ser jamais fez. É dito que ela estava calada, e sem
dúvida falou; acrescentarei que foi desprezada, mas Cristo a colocou em elevada
honra, e fez que Simão, que a desprezava, se sentisse pequeno na presença dela.
Vou acrescentar também que ela era uma grande pecadora, mas era uma grande
santa. Sua condição de
grande pecadora, quando foram perdoados seus pecados, converteu-se na
matéria-prima da qual saem os grandes santos pela força poderosa de Deus.
Finalmente ela foi salva pela fé, isso nos disse o texto, mas se alguma vez
houve um caso em que Tiago não possa ter dito: “Poderá a fé salvá-lo?”, e em
que deveria ter dito, “Aqui está uma pessoa que mostra sua fé por suas obras,”
era o caso desta mulher. Ali está frente a ti. Imita sua fé, embora não possas
na verdade copiar suas obras.
Agora observem o homem. Ele era cego, mas podia ver
muito mais que os fariseus, que diziam que podiam ver. Cego, mas sua visão
interna viu o Rei em sua beleza, viu o esplendor de Seu trono, e o confessou.
Era um mendigo, mas tinha uma alma real, e uma forte determinação soberana que não
podia ser reprimida. Tinha o tipo de mente que habita em homens que são
príncipes entre seus companheiros. Ele não ia ser detido por discípulos, não,
nem por apóstolos. Ele começou a orar, e vai orar até obter a bênção que busca.
Notem bem que o que sabia era o que proclamava, o que
desejava era o que pedia, e entendia o que necessitava. “Senhor, que eu veja;”
ele estava convicto acerca de suas necessidades, e convicto acerca da única
pessoa que podia supri-las. Ele esperava o que pedia, pois quando se lhe ordenou
que se aproximasse, ele evidentemente esperava que sua vista fosse restaurada,
pois outro evangelista nos narra que jogou sua capa de mendigo. Sentiu que
nunca necessitaria mendigar de novo. Estava seguro que seus olhos estavam a
ponto de se abrir.
Finalmente, estava muito agradecido pelo que recebeu,
pois tão logo pode caminhar sem um guia, tomou a Cristo como seu guia, e o
seguiu pelo caminho, glorificando-o. Vejam ambos os quadros. Espero que
percebam as sombras e as luzes de ambos, até que os incline a converter-se em
uma pintura diferente e clara feita pelo mesmo artista, cuja mão unicamente
pode produzir tais maravilhas.
III. O
QUE ISSO NOS ENSINA COM REFERÊNCIA À FÉ? Primeiro, ensina-nos que a
fé tem a máxima importância. Rogo-lhes, meus leitores, que verifiquem se
vocês têm a fé preciosa, a fé dos eleitos de Deus. Recordem que na Escritura
não há muitas coisas que sejam chamadas preciosas, mas entre elas está o sangue
precioso, e com ele a fé preciosa. Se vocês não têm isso, estão perdidos; se
não têm isso, não são aptos para viver nem aptos para morrer; se não têm isso,
o eterno destino de vocês será desespero infinito; mas se vocês têm fé, mesmo
que seja como um grão de semente de mostarda, vocês são salvos. “Tu fé te salvou.”
Também aprendam que a principal matéria na fé é a pessoa em quem
creem. Paulo disse “eu sei em
quem tenho crido.” A fé crê em Cristo. A fé de vocês deve reconhecê-Lo
como uma pessoa, e vir a Ele como pessoa, e não descansar simplesmente em Seu
ensinamento, ou unicamente em Sua obra, mas Nele. “Vinde a mim todos os que estais cansados
e sobrecarregados e eu vos aliviarei.”
Um Salvador pessoal para os pecadores! Vocês estão
confiando Nele unicamente? Creem Nele? Vocês sabem que a segurança do edifício
depende principalmente dos alicerces, e se os alicerces não são adequados,
podem construir como quiserem, mas o prédio não durará. Então, vocês constroem
sobre Cristo unicamente? Investiguem isso como um ponto especial.
Em seguida, observem que não
devemos esperar exatamente a mesma manifestação em cada convertido. Que
não a esperem os anciãos da igreja, que os pais não a requeiram de seus filhos;
que não a busquem os ansiosos amigos; vocês mesmos não a esperem. As biografias
são muito úteis, mas se podem converter em uma armadilha. Não devo julgar que
não sou um filho de Deus porque não sou precisamente como o bom homem sobre
cuja vida acabei de ler.
Estou descansando em Cristo? Creio Nele? Então, pode
ser que a graça do Senhor esteja preparando um caminho muito diferente para mim
do caminho em que meu irmão tem caminhado, que possa ilustrar outras fases de
Seu poder, e ensinar aos principados e às potestades as riquezas
superabundantes do amor divino.
Finalmente, o assunto que resume tudo é este, se
tivermos fé em Jesus somos salvos, e não devemos falar nem agir como se tivesse
alguma dúvida a respeito. “TUA
FÉ TE SALVOU.” Jesus o disse. Desde que você tenha fé em Cristo, é certo
que a fé o salvou. Portanto, não ande por aí falando e agindo e sentindo como
se não fosse salvo.
Conheço um grupo de gente salva que diz a cada
domingo, “Senhor, tem misericórdia de
nós, miseráveis pecadores“; mas eles não são miseráveis pecadores se são
salvos, e que eles utilizem tais palavras é jogar um menosprezo sobre a
salvação que Cristo lhes deu. Se eles são pecadores salvos, então deveriam ser
santos plenos de gozo. O que uns dizem, outros não o dizem, mas agem como se
assim fosse. Andam por aí pedindo a Deus que lhes dê a misericórdia que já
obtiveram, esperando receber um dia o que Cristo lhes assegura que já está em
sua posse, falando a outros como se fosse um assunto seu se são salvos ou não,
quando não pode haver nenhuma dúvida.
“Tua fé te
salvou.” Imagine a pobre mulher penitente voltando-se e dizendo ao
Salvador, “Senhor, eu humildemente espero que seja verdade.” Não existiria nem
humildade nem fé numa expressão dessa natureza. Imagine o cego, quando Cristo
lhe disse: “tua fé te salvou,” respondendo: “eu confio que nos anos vindouros
se comprove que é assim.” Seria contradizer de maneira simultânea seu caráter
sincero e a honestidade da pregação de Cristo. Se você creu, você está salvo.
Não fale como se não fosse, mas agora pegue dos salgueiros sua harpa e entoe um
cântico novo ao Senhor.
Tenho observado em muitas orações uma tendência a
fazer rodeios como se os feitos não fossem feitos. Tenho ouvido este tipo de
expressões, “Grandes coisas fez Jeová por nós; por isso nós desejamos estar alegres.” O texto
diz, “Grandes coisas fez Jeová por nós; estaremos alegres.” e se o Senhor fez essas
grandes coisas por nós, nosso direito é estar alegres por elas, não responder
com um infame “se” com nossos
lábios diante do Senhor que não pode mentir.
Se vocês têm tratos e acordos com outras pessoas,
podem ter suspeitas delas, pois em geral o merecem; se escutam suas promessas,
podem duvidar delas, pois suas promessas vão ser quebradas; mas se estão
tratando com seu Deus e Senhor, nunca suspeitem dele, pois Ele está além de
toda suspeita; nunca duvidem de Suas promessas, pois o céu e a terra passarão,
mas nem um jota nem um til de Sua palavra falhará.
Eu lhes rogo por Cristo que vocês joguem fora para
sempre toda fala que esteja cheia de “mas” e “se” e “talvez” e “eu espero” e
“eu confio.” Vocês estão na presença de Alguém que disse “Em verdade, em verdade,” e quis dizer
o que disse, e que é “o Amém, o testemunho fiel e verdadeiro.“
Vocês não lhe cuspiriam no rosto se Ele estivesse aqui,
sem dúvida seus “se” e seus “mas” são um insulto parecido, jogado sobre Sua
verdade. Vocês não o flagelariam, mas que fazem suas dúvidas senão aborrecê-Lo
e pô-Lo em vergonha? Se Ele mente, não creiam nele nunca; se Ele disse a
verdade, nunca duvidem dele. Então, saberão, quando deixarem de lado sua
malvada incredulidade, que sua fé os salvou, e poderão ir em paz.
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