terça-feira, 8 de agosto de 2017

Senhor e Salvador


Por Silvio Dutra

“Mas em certo lugar testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites?
Tu o fizeste, por um pouco, menor que os anjos, De glória e de honra o coroaste, E o constituíste sobre as obras das tuas mãos;
Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito. Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas.
Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele que fora feito por um pouco, tendo sido feito menor do que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos.
Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse pelas aflições o príncipe da salvação deles.” (Hebreus 2:6-10)
Estas palavras indicam que Jesus teria que ser feito por um certo período de tempo, menor do que os anjos, para que como homem, pudesse operar a nossa salvação.
Neste espaço de tempo relativo ao seu ministério terreno, ele estaria esvaziado de sua glória divina, de seus ofícios de Rei e Juiz, junto ao Pai, para exercer somente os ofícios de Profeta e Sacerdote, fazendo-se a si mesmo, também o Sacrifício pelo qual seriam expiados os nossos pecados.
Importava que assim fosse, porque fora ajustado no conselho eterno, na Trindade, que a redenção do homem somente poderia ser feita por alguém que fosse perfeito homem, e perfeito Deus, sem pecado, e com a condição de reassumir toda a autoridade e poder de Juiz e Senhor, uma vez completada a obra da expiação, que deveria ser realizada pelo ofício de um Cordeiro, e não pelo de um Leão.
Isto explica porque não vemos no ministério terreno de Jesus, qualquer ação da sua parte, para julgar e ferir os pecadores, por causa de suas ofensas. Ele estava limitado à obra que deveria realizar enquanto estivesse no corpo aqui na Terra, e esta obra lhe fora delimitada quanto ao território em que deveria agir, a saber, somente em Israel, porque segundo as profecias Ele fora enviado como Messias para efetuar a redenção do povo de Israel.
“Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (Lucas 19:10)
“E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!” (Lucas 22:22)
“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado;” (João 3:14)
“Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.” (Mateus 20:28)
“Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.“ (Isaías 53:7)
“Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça.” (Isaías 42:2)
“Não contenderá, nem clamará, Nem alguém ouvirá pelas ruas a sua voz;” (Mateus 12:19)
“E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” (Mateus 15:24)
Na humilhação da sua encarnação e ministração como homem e servo, na condição de Filho do Homem, a serviço dos homens, ele sabia que isto deveria culminar com a Sua morte na cruz, para ocupar o lugar daqueles que lá deveriam estar por causa dos seus pecados.
A falta da devida compreensão desta verdade pode fazer com que permaneçamos tendo pensamento acerca de Jesus, como sendo ainda o menino desamparado nos braços de Maria, como se ele ainda necessitasse dos nossos próprios cuidados e serviços.
O menino era ao mesmo tempo o Rei dos reis e Senhor dos Senhores, conforme haveria de ser revelado pelo tempo, tão logo ressuscitasse dos mortos e subisse ao Céu num corpo glorificado, com a mesma glória que sempre tivera desde antes da fundação do mundo com o Pai e o Espírito Santo.
Este é o testemunho que o apóstolo dá acerca de Cristo:
“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.
O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas;
Feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?
E outra vez, quando introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem. E, quanto aos anjos, diz: Faz dos seus anjos espíritos, E de seus ministros labareda de fogo. Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; Cetro de equidade é o cetro do teu reino.
Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.
E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos.
Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão,
E como um manto os enrolarás, e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão. E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, Até que ponha a teus inimigos por escabelo de teus pés?
Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” (Hebreus 1:1-14)
A palavra de anunciação dos anjos aos pastores em Belém, inclui apropriadamente que o menino que havia nascido em Belém, era o Cristo, o Messias prometido, e que também era o Senhor eterno.
“Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” (Lucas 2:11)
Sua glória, majestade e domínio estavam velados e limitados por seu ofício terreno, e era visto então como o Cordeiro que era, pronto para dar a sua vida em resgate de muitos, do mesmo modo como eram oferecidos os cordeiros que o tipificavam no culto do Velho Testamento.
“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” (João 1:29)
Mas, tão logo chegou em grande glória ao céu, depois de Sua ascensão, Ele é visto agora não somente como Cordeiro, mas também como o Leão na plenitude do exercício de todo o seu domínio e autoridade sobre os vivos, os mortos e todas as nações.
“E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos.” (Apocalipse 5:5)
“E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro animais viventes e entre os anciãos um Cordeiro, como havendo sido morto, e tinha sete pontas e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra.” (Apocalipse 5:6)
À própria Igreja, que dá continuidade ao Seu ofício de Cordeiro, apresentando o Seu sacrifício, como o único meio da reconciliação do homem com Deus, Ele deu também o ofício de julgar, pelo Espírito, desde que Ele recebeu toda a autoridade no céu e na terra para julgar os vivos e os mortos.
A ela deu autoridade para excluir da comunhão dos santos todo aquele que permanecer deliberadamente na prática do pecado, recusando-se ao arrependimento; de maneira que deu-lhe o poder de desligar na terra tudo o que for desligado no céu, ao lado do poder de ligar aquilo que foi ligado.
Isto explica o juízo que veio sobre Ananias e Safira:
“Mas um certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade,
E reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos.
Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade?
Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.
E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram.
E, levantando-se os moços, cobriram o morto e, transportando-o para fora, o sepultaram.
E, passando um espaço quase de três horas, entrou também sua mulher, não sabendo o que havia acontecido.
E disse-lhe Pedro: Dize-me, vendestes por tanto aquela herdade? E ela disse: Sim, por tanto.
Então Pedro lhe disse: Por que é que entre vós vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e também te levarão a ti.
E logo caiu aos seus pés, e expirou. E, entrando os moços, acharam-na morta, e a sepultaram junto de seu marido.
E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas.” (Atos 5:1-11)
Os juízos que estavam ocorrendo na Igreja de Corinto, também demonstram o exercício do ofício do Senhor como Juiz:
“27 De modo que qualquer que comer do pão, ou beber do cálice do Senhor indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor.
28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice.
29 Porque quem come e bebe, come e bebe para sua própria condenação, se não discernir o corpo do Senhor.
30 Por causa disto há entre vós muitos fracos e enfermos, e muitos que dormem.
31 Mas, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados;
32 quando, porém, somos julgados pelo Senhor, somos corrigidos, para não sermos condenados com o mundo.” (I Cor 11.27-32)
São também dignos de destaque os juízos ameaçadores do Senhor Jesus, até mesmo de morte física para crentes de Tiatira que estavam andando de modo desordenado:
“20 Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos;
21 e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não quer arrepender-se da sua prostituição.
22 Eis que a lanço num leito de dores, e numa grande tribulação os que cometem adultério com ela, se não se arrependerem das obras dela;
23 e ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que esquadrinha os rins e os corações; e darei a cada um de vós segundo as suas obras.
24 Digo-vos, porém, a vós os demais que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina, e não conhecem as chamadas profundezas de Satanás, que outra carga vos não porei;
25 mas o que tendes, retende-o até que eu venha.
26 Ao que vencer, e ao que guardar as minhas obras até o fim, eu lhe darei autoridade sobre as nações,
27 e com vara de ferro as regerá, quebrando-as do modo como são quebrados os vasos do oleiro, assim como eu recebi autoridade de meu Pai;” (Apo 2.20-27).
Vemos a autoridade destes juízos sendo exercida até mesmo contra pessoas fora da Igreja, conforme direção do Espírito Santo, em nome de Jesus, como o que vemos por exemplo na seguinte passagem:
“E, havendo atravessado a ilha até Pafos, acharam um certo judeu mágico, falso profeta, chamado Barjesus,
O qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, homem prudente. Este, chamando a si Barnabé e Saulo, procurava muito ouvir a palavra de Deus.
Mas resistia-lhes Elimas, o encantador (porque assim se interpreta o seu nome), procurando apartar da fé o procônsul.
Todavia Saulo, que também se chama Paulo, cheio do Espírito Santo, e fixando os olhos nele,
Disse: Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Senhor?
Eis aí, pois, agora contra ti a mão do Senhor, e ficarás cego, sem ver o sol por algum tempo. E no mesmo instante a escuridão e as trevas caíram sobre ele e, andando à roda, buscava a quem o guiasse pela mão.
Então o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor.” (Atos 13:6-12)
Por eles, o Rei revela o Seu poder e glória. A Sua Majestade e Soberania.
Quem pode resistir-Lhe?
A quem pertence de fato o domínio, o governo e o poder, senão somente a Cristo!
A Ele estão sujeitos principados e potestades, sejam do bem ou do mal.
Então, não devemos confundir a humilhação que foi necessária ao Senhor em Seu ministério terreno para que pudesse ser feita a expiação dos nossos pecados, com o estado de exaltação perfeita no qual Ele se encontra desde que subiu ao céu em glória.
Quando disse: “E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo.” (João 12.47), e “Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou.” (João 5:30); não devemos interpretá-las como se Ele ainda não julgasse quem não crer nEle no presente.  Ele continua com seu ofício de salvar o mundo até o fim desta dispensação da graça, mas já não mais apenas como o Cordeiro mudo que não abriu a sua boca e nem  fez ouvir a sua voz nas praças, contendendo para fazer prevalecer o seu domínio e poder, até mesmo sobre os contradizentes.
Ele era apenas o Cordeiro em seu ministério terreno, e isto é visto inclusive nas suas ações mais enérgicas em Seu ministério terreno, como a da expulsão dos vendilhões do templo; das palavras ameaçadoras dirigidas aos escribas e fariseus hipócritas, e a todos aqueles que viam nele apenas um mensageiro da paz para os homens de toda e qualquer condição, Ele estava na verdade não usando de juízos, mas de grande misericórdia em alertar-lhes quanto ao grande perigo de permanecerem no pecado e o rejeitarem como o Messias enviado por Deus.
“E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos.” (João 9:39)
“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;”  (Mateus 10:34)
“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,
E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:5-11)
Jesus nunca escondeu a Sua condição de ser o eterno Senhor, mesmo em sua humilhação quando esteve aqui na terra, pois sempre reivindicou o Seu senhorio, conforme pode ser visto em várias passagens das Escrituras, mesmo quando agia como o mais humilde servo, quando lavou os pés dos apóstolos.
Vós me chamais Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.” (João 13:14)
“E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.” (João 5:27). Por estas palavras o Senhor alertava os Seus ouvintes de que aquele que lhes dissera que a ninguém julgava, pois estava apenas empenhado na salvação dos pecadores, e não no seu juízo, quando estava aqui na Terra, era o mesmo que se levantaria também depois da Sua morte e ressurreição como Senhor e Juiz do mundo, e este ofício será plena e especialmente demonstrado no dia do Juízo final.
Eles fariam a bem de suas próprias almas reconhecer esta autoridade suprema, e se submeterem a Ele, em vez de ficarem contraditando-o, como vinham fazendo, sobretudo os escribas e fariseus.
“Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor.” (Mateus 12:8)
Este senhorio de Jesus é visto principalmente no modo da conversão.
Ninguém pode vir a Ele caso isto não seja concedido por Sua soberania e vontade.
Quantos permanecem debaixo da pregação do verdadeiro evangelho, por vezes, até por anos seguidos, e contudo, não chegam à conversão. Não por alguma falta na mensagem ou no pregador, mas porque se o Senhor não agir para abrir os olhos e ouvidos espirituais de alguém, tal pessoa não pode receber a verdade que salva e liberta em seu coração.
A outros é concedido que se convertam sob a primeira audição da verdade do evangelho, quando Deus prepara as circunstâncias necessárias para que isto ocorra com eles.
A parte do pregador é apenas a de apresentar a verdade das Escrituras na unção do Espírito, mas o resultado que daí decorrerá está sob a esfera da autoridade exclusiva do Senhor.
A salvação é exclusivamente do Senhor (Jonas 2.9; Ef 2.8).
“Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia.
Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.
Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra.
Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer.” (Romanos 9:15-18)
A salvação não depende de quem quer e nem de quem se esforça (corre) para obtê-la, porque não está na esfera da deliberação humana produzi-la. Bem fez o publicano que apelou para a misericórdia do Senhor, e com ele o cego Bartimeu, que agiu de igual modo, e foram salvos, do que valer-se de seus próprios esforços religiosos e justiça pessoal, como fez o fariseu orgulhoso que não foi justificado por Deus (salvo).
Muitos se iludem pensando que se arrependeram para a salvação pelo mero fato de terem se entristecido por algo de errado que fizeram, e por terem confessado o seu pecado a Deus. Todavia, isto não passa muitas vezes de tristeza consigo mesmo, pelo fato de ter sentido o seu orgulho ferido, porque em sua justiça própria lamentaram terem errado, como se houvesse neles alguma capacidade para vencerem o mal que habita inerentemente na nossa natureza terrena carnal, em que não habita bem algum.
O publicano que foi justificado por Deus não se entristeceu por ter eventualmente pecado, mas se entristeceu e se arrependeu de sua condição à qual chamou de “mísero pecador”.
Ele sentiu a sua culpa e condenação permanentes diante de um Deus que é inteiramente Santo e Justo, e sabia que não havia qualquer esperança para ele senão exclusivamente ser perdoado por Deus mediante a redenção do Salvador.
Somos justificados somente por fé, porque a salvação não é por obras, mas por graça, por misericórdia, que é manifestada por Deus para míseros pecadores que se arrependem e confiam nos méritos do Senhor e Salvador para serem livrados da condenação eterna.
“Como também diz em Oséias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; E amada à que não era amada.
E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo; Aí serão chamados filhos do Deus vivo.
Também Isaías clama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo.
Porque ele completará a obra e abreviá-la-á em justiça; porque o Senhor fará breve a obra sobre a terra.
E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, Teríamos nos tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra.
Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé.
Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça.
Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei; pois tropeçaram na pedra de tropeço;
Como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço, e uma rocha de escândalo; e todo aquele que crer nela não será confundido.” (Romanos 9:25-33)”
“E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia.” (Atos 16:14)
“E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús.
E iam falando entre si de tudo aquilo que havia sucedido.
E aconteceu que, indo eles falando entre si, e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles.
Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que o não conhecessem.
E ele lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós, e por que estais tristes?
E, respondendo um, cujo nome era Cléopas, disse-lhe: És tu só peregrino em Jerusalém, e não sabes as coisas que nela têm sucedido nestes dias?
E ele lhes perguntou: Quais? E eles lhe disseram: As que dizem respeito a Jesus Nazareno, que foi homem profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;
E como os principais dos sacerdotes e os nossos príncipes o entregaram à condenação de morte, e o crucificaram.
E nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram.
É verdade que também algumas mulheres dentre nós nos maravilharam, as quais de madrugada foram ao sepulcro;
E, não achando o seu corpo, voltaram, dizendo que também tinham visto uma visão de anjos, que dizem que ele vive.
E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porém, a ele não o viram.
E ele lhes disse: Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!
Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?
E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.
E chegaram à aldeia para onde iam, e ele fez como quem ia para mais longe.
E eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles.
E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão, o abençoou e partiu-o, e lho deu.
Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele desapareceu-lhes.
E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras?” (Lucas 24:13-32)
Os dois discípulos que Jesus encontrou no caminho de Emaús necessitavam de duas coisas básicas: a primeira – entendimento da revelação  das Escrituras sobre os ofícios de Jesus, e isto Ele lhes fez começando desde Moisés e passeando pelas demais Escrituras. Depois, o principal, que era a abertura de seus corações para conhecê-lo pessoalmente não mais apenas na carne, como o haviam feito até então, mas espiritualmente, como convém ser conhecido para que sejamos salvos. E isto também o Senhor lhes fez.
Vemos assim o apóstolo se referindo a estas duas coisas necessárias para a salvação, pois se o poder do Espírito Santo não operasse nos corações além da sua pregação do evangelho, nenhuma conversão real ocorreria:
“E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria.
Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado.
E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor.
E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder;
Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.
Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam;
Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória;
A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória.
Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam.
Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.
Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.
Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.” (1 Coríntios 2:1-16)
Estas coisas que Deus preparou para aqueles que o amam, incluem muito do que já temos falado até aqui, e estas coisas, conforme afirmado, só podem ser discernidas espiritualmente.
Ninguém saberá quem é de fato o único Salvador e Senhor dos pecadores, se isto não for aprendido nas Escrituras pela direção e instrução e poder do Espírito. É somente o Espírito que pode revelar a pessoa e os ofícios de Jesus aos nossos corações, e levar-nos a entregar-lhe totalmente a direção de nossas vidas, para sermos transformados à Sua imagem e semelhança.
Todas as coisas que acompanham a salvação, especialmente as melhores, conforme se refere a elas o autor de Hebreus, só podem ser conhecidas nas Escrituras e com a instrução do Espírito, revelando-as a nós.
Quando crescemos no conhecimento da graça e de Jesus Cristo (II Pedro 2.18), então podemos ter a certeza de que formos de fato salvos por Jesus.
Quando falta este crescimento, é provável que estejamos na condição à qual se refere o apóstolo:
‘Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que se perdem está encoberto.” (2 Coríntios 4:3)
Porque a todos os que amam de fato a Deus e que são aceitos e amados por Ele, as coisas que os sentidos naturais não podem desvendar, lhes são reveladas pelo Espírito.
“Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós.” (1 Tessalonicenses 1:5)



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