A. W. Pink
(1886-1952)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
Introdução pelo Tradutor
Por conta de uma formação
deficiente, mesmo depois de convertidos a Cristo, tivemos, por muitos anos,
noções incorretas sobre a salvação, especialmente quanto à santificação, e isto
nos trouxe conflitos, dúvidas, temores e falta de crescimento espiritual que
poderiam ter sido evitados, caso tivesse sido devidamente instruído quanto aos
caminhos do Senhor.
Qual é a função da Lei de Deus na salvação e na
vida do salvo?
Qual é a função do Evangelho?
Como a Lei e o Evangelho atuam no trabalho de nos
salvar do pecado, do diabo e do fascínio do mundo, para um andar na Luz, por
uma vida santificada ao Senhor?
Como as tribulações devem ser encaradas, e qual é a
contribuição que elas podem prestar ao refino da fé?
Estas e muitas outras perguntas devem ser
devidamente respondidas para uma vida cristã sadia e bem orientada.
A fonte para estas respostas deve ser fundamentada
exclusivamente no ensino das Escrituras, e o Seu grande instrutor, é o Espírito
Santo.
Antes de tudo, como ponto de partida, deve ser dito
que ninguém poderá ser salvo por Cristo, se antes não for convencido pelo
Espírito e pelo testemunho das Escrituras, do quanto Deus odeia o pecado, e que
a morte de Cristo na cruz foi para pagar a nossa dívida de pecados, e nos
resgatar para uma vida de comunhão com Deus.
Mas, não basta ser convencido de que se é pecador e
culpado diante de Deus, para ser salvo, pois é preciso também haver
arrependimento dessa condição, e um voltar-se para Deus para ser purificado e
perdoado.
Este retorno não é feito com pagamento de
promessas, macerações, sacrifícios ou qualquer meio religioso, senão somente
crer em Cristo, e nele exclusivamente para ser o nosso Senhor e Salvador.
É preciso entregar a Ele, pela fé, o governo total
de nossa vida, e pedir-lhe humildemente que tenha misericórdia de nós, perdoe
os nossos pecados, e nos salve.
Enquanto a Sua paz sobrenatural não penetrar o
nosso ser, e não percebermos que há uma nova inclinação em nós, que nos leva a
detestar o pecado, e a amar a Deus e a Sua Palavra, tendo os nossos olhos
espirituais abertos para entendê-la, devemos continuar orando para que isto
ocorra, comprovando assim, que fomos de fato salvos.
Quem realiza toda esta operação de salvação em nós
é o Espírito Santo, e sem a sua operação, nada disto será possível.
O Trabalho do Espírito Santo na Salvação
Em Atos 19, aprendemos que, quando o apóstolo Paulo
chegou a Éfeso, perguntou a alguns discípulos de João Batista. “Recebestes vós
o Espírito Santo quando crestes?" (V. 2) E nos é dito: "Responderam-lhe
eles: Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo."
É triste dizer que a história se repetiu. Sem
dúvida, os membros de centenas de chamadas "igrejas" (em que há o
modernismo e a dominação do mundo) aos quais se fizesse a mesma pergunta, eles seriam
obrigados a dar uma resposta idêntica.
A razão pela qual os discípulos de Éfeso nada
sabiam sobre o Espírito Santo era, provavelmente, porque tinham sido batizados
na Judeia pelo precursor de Cristo (João Batista) e depois retornaram a Éfeso,
onde permaneceram ignorantes quanto ao que aconteceu no dia de Pentecostes,
quando o Espírito Santo foi derramado em Jerusalém. Mas a razão pela qual os
membros da "igreja" nada sabem sobre a terceira Pessoa da Divindade,
é porque os pregadores sob os quais estão assentados para ouvi-los, estão
silenciosos em relação a Ele, ou lhes passando noções incorretas sobre quem
seja o Espírito Santo e o seu trabalho na nossa salvação.
Nem é muito melhor a situação, em muitas igrejas que
ainda são contadas como ortodoxas, ou seja, que sustentam corretamente a
doutrina bíblica. Embora a Pessoa do Espírito não seja repudiada e, embora o
nome dele possa ocasionalmente ser mencionado - ainda, com poucas raras
exceções, há algum ensinamento bíblico definitivo dado a respeito dos ofícios e
operações do divino Consolador. Quanto ao Seu trabalho na salvação, isso é
muito pouco compreendido, mesmo pelos professantes cristãos. (Nota do tradutor:
é muito comum, em nossos dias, neste século XXI, ver o Espírito Santo sendo
associado apenas a uma noção de que deve ser buscado para que a pessoa possa
ter sucesso profissional, financeiro, sentimental, e qualquer outro, menos
aquele para o qual nos foi enviado do céu como um dom, a saber, para operar e
desenvolver a nossa salvação, especialmente na obra de regeneração (novo
nascimento) e santificação (remoção do pecado e revestimento das virtudes de
Cristo), além, evidentemente de todo o Seu trabalho relativo à nossa
consolação, dando-nos firmeza de fé nas tribulações, sabedoria nos assuntos
comuns da vida, etc, em razão da Sua habitação em nós, e governo, instrução e
direção de nossas vontades.)
Na maioria dos lugares em que o Senhor Jesus ainda
é formalmente reconhecido como o único Salvador para os pecadores, o ensino
atual do dia é que Cristo tornou possível que os homens fossem salvos - mas que
eles mesmos deveriam decidir se eles deveriam ser salvos. A ideia agora que é tão
prevalecente é que Cristo é oferecido à aceitação do homem, e que ele deve
"aceitar Cristo como seu Salvador pessoal", "dar seu coração a
Jesus", "tomar sua posição para Cristo", etc., se o sangue da
Cruz deve ser de proveito pelos seus pecados. Assim, de acordo com esta
concepção, a obra final de Cristo, a maior obra de todos os tempos e em todo o
universo, depende da vontade inconstante do homem de saber se deve ser um
sucesso ou uma falha!
Entrando agora em um círculo muito mais estreito na
cristandade, em lugares onde ainda é admitido que o Espírito Santo tem uma
missão e um ministério em conexão com a pregação do Evangelho, a ideia geral
prevalece mesmo que, quando o Evangelho de Cristo é fielmente pregado, o
Espírito Santo convence homens de pecado e revela a eles a necessidade de um
Salvador. Mas, além disso, poucos estão preparados para isto. A teoria que
prevalece nestes lugares é que o pecador tem que cooperar com o Espírito, que
ele mesmo deve ceder ao "esforço" do Espírito, ou ele não pode ser
salvo. Mas, essa teoria perniciosa e insultante de Deus nega duas coisas:
argumentar que o homem natural é capaz de cooperar com o Espírito Santo, é
negar que ele está "morto em transgressões e pecados" porque um homem
morto é incapaz de fazer qualquer coisa. E dizer que as operações do Espírito
no coração e na consciência de um homem podem ser resistidas é negar a Sua
onipotência!
Antes de prosseguir, e para abrir o
caminho para o que se segue, algumas palavras devem ser ditas sobre "o meu
Espírito não contenderá sempre com o homem" (Gênesis 6: 3) e "vocês
sempre resistem ao Espírito Santo." (Atos 7:51). Agora, essas passagens se
referem à obra externa do Espírito, isto é, ao Seu testemunho através da
Palavra pregada. 1 Pedro 3: 18-20 mostra que foi o Espírito de Cristo em Noé
quem "se esforçou" com os antediluvianos quando o patriarca pregou a
eles. (2 Pedro 2: 5). Então, em Atos 7, as próximas palavras explicam v. 52:
"A qual
dos profetas não perseguiram vossos pais?" Como Neemias disse: "Não
obstante, por muitos anos os aturaste, e testemunhaste contra eles pelo teu
Espírito, por intermédio dos teus profetas; todavia eles não quiseram dar
ouvidos; pelo que os entregaste nas mãos dos povos de outras terras." (Neemias
9:30).
O trabalho externo do Espírito, o seu
testemunho através das Escrituras, quando cai no ouvido exterior do homem
natural, é sempre "resistido" e rejeitado, o que só demonstra solene
e completamente o fato de que "a mente carnal é inimizade contra Deus."
(Romanos 8: 7). Mas o que agora salientamos é que a Escritura revela outra obra
do Espírito Santo, uma obra que é interna, imperceptível e invisível. Este
trabalho é sempre EFICAZ. É o trabalho do Espírito na salvação, iniciado no
coração no novo nascimento, continuado ou sustentado durante todo o curso da
vida cristã na Terra, e concluído e consumado no Céu. É a isso que se refere Filipenses
1: 6: "Aquele que começou um bom trabalho em você irá completa-lo."
Isto é o que está em vista no Salmo 138: 8: "O Senhor aperfeiçoará o que
me concerne." Esta obra é realizada pelo Espírito em cada um dos
"eleitos de Deus", e neles somente. (Nota do tradutor: Entenda-se por
eleitos de Deus, aqueles que são separados por Ele para uma vida santificada,
que seja vitoriosa sobre o pecado, de forma a poder participar da natureza do
próprio Deus, e formar íntima familiaridade e comunhão com Ele. Todo aquele que
deseja isto, comprova para si mesmo que é eleito de Deus, pois é a estes que o
Pai procura para serem seus filhos e adoradores. Quem buscar a Deus por outros
motivos, poderá então estar em autoengano ou então receber auxílios temporais
que não podem lhe garantir a entrada na vida eterna, pois isto, é sempre pela
fé, pelo arrependimento, para uma vida santificada.)
Foi bem dito que "a parte e o ofício
do Espírito Santo na salvação dos eleitos de Deus, consiste em renová-los. Ele vivifica
os herdeiros da glória com uma vida espiritual, ilumina suas mentes para
conhecer Cristo, revela-Lhe, Fornece-O a seus corações e os leva a construir
todas as suas esperanças de glória eterna nEle. Ele expande o amor do Pai em
seus corações e lhes dá um senso real, em que a experiência de Seu trabalho
gracioso e eficaz em suas almas, os leva a dizerem com o salmista: "Bem-aventurado aquele a quem tu
escolhes, e fazes chegar a ti, para habitar em teus átrios! Nós seremos
satisfeitos com a bondade da tua casa, do teu santo templo." (Salmo 65:
4)."
Um dos delírios do dia, é que uma crença
evangélica em Cristo está dentro do poder do homem não renovado, de modo que,
ao realizar o que é ingenuamente chamado de "simples ato de fé", ele
se torna um homem renovado. Em outras palavras, supõe-se que o homem seja o
iniciante de sua própria salvação. Ele dá o primeiro passo, e Deus faz o resto;
ele "crê" e então Deus entra e o salva. Isso não é nada além de uma
negação vazia do trabalho do Espírito. Se há uma ocasião mais do que outra
quando o pecador necessita do poder do Espírito - é no início. "Aquele que
nega a necessidade do Espírito no começo, não pode acreditar em Seu trabalho
nos estágios posteriores, e não acredita na necessidade do trabalho do
Espírito. A dificuldade mais poderosa e insuperável está no início. Se o
pecador pode superar isso sem o Espírito, ele pode facilmente superar o resto.
Se ele não precisa do Espírito para capacitá-lo a acreditar, ele não precisará
dele para capacitá-lo a amar." (H. Bonar)
(Nota do Tradutor: Para a conversão
inicial que consiste na justificação (perdão de todos os pecados e aceitação na
condição de filho de Deus justificado, isto é, considerado justo por Ele, por causa
de ter sido revestido com a justiça de Cristo no momento da conversão) e na
regeneração (novo nascimento) do Espírito Santo, conforme Jesus falou sobre ela
a Nicodemos em João 3, o pecador deve confiar tão somente no trabalho que Jesus
fez por Ele morrendo e ressuscitando em seu lugar, e crer que Deus o salvará
inteiramente por pura graça e misericórdia, independentemente de qualquer obra
do penitente que dEle se aproxima com o coração contrito, sentindo a
necessidade de ser purificado e limpo de seus pecados. O que vem a seguir, a
saber, a necessidade da sua santificação, mediante a progressão de sua
transformação pela aplicação da Palavra de Deus pelo Espírito Santo, abrirá um
conflito permanente até a morte do crente, por causa das duas naturezas que
agora nele habitam, ou seja, a influência do velho homem, do corpo de pecado,
da carne, o que é a mesma coisa, para designar a antiga natureza pecaminosa, e
a nova influência da habitação do Espírito Santo que o inclina a amar a Deus, a
Sua vontade e Palavra. Por esta luta da carne contra o Espírito, e do Espírito contra
a carne, o crente é levado a perceber que há um trabalho real espiritual sendo
realizado em sua vida, pois sempre que se dispõe para a carne, a vida de Deus é
diminuída nele, e sempre que se dispõe para o Espírito, caminha em novidade de
vida, em verdadeira santificação.)
A obra do Espírito é aplicar a redenção
que o Senhor Jesus comprou para o Seu povo - e os filhos de Deus devem a sua
salvação tanto ao Espírito quanto a Cristo.
Em Tito 3:5, a salvação dos redimidos é
expressamente atribuída ao Espírito: "Não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos
feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da
regeneração e renovação pelo Espírito Santo." Se for perguntado, em que sentido dos
homens pode ser dito "salvos pela renovação do Espírito”, a resposta é
óbvia: há uma série de verdades para as quais nenhum vínculo pode faltar. Somos
salvos pelo divino propósito, porque Deus nos escolheu para a salvação; somos
salvos pela expiação, como o fundamento meritório de todos, somos salvos pela
fé, como o vínculo da união com Cristo, somos salvos pela graça, em contraste
com as obras realizadas; somos salvos pela verdade pela transmissão do
testemunho de Deus, e, como aqui, somos salvos pela renovação do Espírito
Santo, como produzindo fé no coração." (Smeaton)
REGENERAÇÃO é pelo Espírito Santo
"Ele vos vivificou, estando vós
mortos nos vossos delitos e pecados." (Efésios 2: 1). A vivificação
daqueles que estão mortos nas transgressões é obra da terceira Pessoa da
Trindade: "O que nasceu do Espírito é espírito". (João 3: 6) O homem
natural está morto espiritualmente. Ele está vivo no pecado e no mundo – mas
morto para Deus, alienado da vida de Deus. (Efésios 4:18). Se essa verdade
solene fosse realmente crida, haveria um fim da controvérsia sobre o assunto
atual. Um homem morto não pode "cooperar" com o Espírito, nem pode
"aceitar a Cristo". Em 2 Cor 3: 5 lemos: "Não que sejamos suficientes
para pensar cousa alguma." Isso é dito dos cristãos. Se o regenerado não
tem capacidade para "pensar" espiritualmente, ainda menos os não regenerados
(não nascidos de novo do Espírito) são capazes disto.
"O homem natural não recebe as coisas
do Espírito de Deus, porque são loucura para ele, nem pode conhecê-las, porque
elas são discernidas espiritualmente." (1 Cor. 2:14). O que poderia ser
mais simples? O "homem natural" caído em seu estado não regenerado. A
menos que ele nasça do Espírito, ele é completamente desprovido de
discernimento espiritual. Nosso Senhor expressamente declarou: "Exceto que
um homem nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus." (João 3: 3). O
"homem natural" não pode ver a si mesmo, a sua ruína, a sua
depravação, a imundície de sua própria justiça. Não importa o quão claramente a
verdade de Deus lhe é apresentada, sendo cego, ele não pode discernir o seu
significado, espiritualidade ou adequação à sua necessidade. Uma compreensão
espiritual do Evangelho é tão verdadeiramente devida à operação do Espírito
Santo - como Ele é o Autor da Revelação divina. A vida espiritual deve preceder
a visão espiritual, e o próprio Espírito deve entrar no coração antes que haja
vida. "E porei
em vós o meu Espírito, e vivereis." (Ezequiel 37:14)
O trabalho do Espírito na regeneração é um
milagre divino que é o resultado de Seu derramar de poder sobrenatural. Está vivificando
um cadáver espiritual; é a vida de uma alma morta. O próprio pecador não pode realizá-lo
por um ato de sua própria vontade mais do que ele poderia criar um universo.
Este milagre de graça é falado na Escritura como "a grandeza de seu poder
para nós os que cremos, de acordo com o funcionamento de seu poderoso poder,
que Ele operou em Cristo quando o ressuscitou dentre os mortos." (Efésios
1:19, 29). O mesmo poder que foi usado para ressuscitar Cristo dentre os mortos
é apresentado na regeneração. A ressurreição de Cristo é o padrão exemplar de
nossa ressurreição espiritual, segundo a qual, como o Espírito fez com Ele,
então, trabalha em nós uma obra conforme a sua ressurreição. Como a
ressurreição de Cristo é o primeiro passo para o seu reino e glória eternos, a
regeneração é a primeira introdução aberta a todas as bênçãos desse estado de
graça em que o filho de Deus agora é apresentado." (S.E. Pierce).
(Nota do tradutor: Este trabalho de
regeneração do Espírito Santo, transformando pecadores em filhos de Deus,
continua sendo realizado na Terra, todos os dias, desde que Ele foi derramado
no dia de Pentecostes, depois da ascensão de Jesus ao Céu. Este é o grande
milagre que todos devem buscar, pois Deus está disposto a concedê-lo a todo o
que crer em Jesus. Ressurreição de corpos, restauração de visão a cegos
físicos, cura de coxos, podem ter sido reduzidos grandemente em número desde
que a Palavra de salvação do Evangelho foi confirmada por tais sinais,
especialmente por meio dos apóstolos, mas o grande propósito da vinda de Jesus
a este mundo, continua em marcha, confirmando, que Ele se manifestou, antes de
tudo, para a salvação de nossas almas.)
APTIDÃO para o Céu é pelo Espírito Santo
Nosso título para a
glória no Céu é unicamente pela Justiça de Cristo; nossa aptidão pessoal para
isso está na nossa regeneração pelo Espírito Santo. Toda a nossa aptidão para o
estado celestial foi forjada em nós na regeneração, a qual foi instantânea, e
aconteceu de uma vez para sempre na primeira vez que tivemos um encontro
pessoal com Jesus, na conversão – a propósito, simultaneamente, e da mesma
maneira, ocorreu a nossa justificação. Escrevendo aos Colossenses regenerados,
o apóstolo disse: "Dando graças ao Pai, que nos fez aptos a participar da
herança dos santos na luz". E então ele mostra em que esta
"aptidão" consiste: "Quem nos libertou do poder das trevas e nos
transpôs para o reino de Seu Filho amado" (v. 13). Seu título está fora
deles; Sua "aptidão" está dentro deles. O Espírito Santo criou neles
uma natureza que é capacitada para conhecer e desfrutar o Deus Triúno.
Em nosso estado não regenerado (de não
convertidos), estávamos completamente sob o poder das trevas, isto é, do pecado
e de Satanás, e não éramos menos capazes de livrar-nos dessa escravidão - do
que Jonas conseguiria escapar do ventre do grande peixe. Nós estávamos "sentados
na escuridão" e "na região e sombra da morte". (Mateus 4:16).
Nós éramos "escravos", "encadeados" e em
"prisão". (Isaías 61: 1). Nós estávamos "sem esperança, e sem
Deus no mundo". (Efésios 2:12). Deste estado terrível, toda alma renovada
foi "libertada" pelo poderoso, soberano e invencível poder do
Espírito Santo, e foi "trazida para o reino do amado Filho de Deus".
Então, cada leitor renovado tribute homenagem, adoração e louvor iguais ao
Espírito Santo quanto ao Pai e ao Filho.
JUSTIFICAÇÃO e SANTIFICAÇÃO são do Espírito
Santo
"E tais fostes alguns de vós; mas
fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do
Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus." (1 Coríntios 6:11). Esta é
uma Escritura notável, e pouco ponderada. Seríamos levados muito longe do nosso
tema se tentássemos uma exposição completa dela. Duas coisas aqui apenas
apontaríamos: as três bênçãos salvadoras enumeradas neste versículo são
referidas, primeiro, ao "Nome" ou aos méritos de Cristo como Sua
própria causa de aquisição; e depois ao Espírito Santo que faz nos eleitos a
Sua própria aplicação eficaz. Ele é quem ilumina suas mentes e abre seus
corações para assumir e ter certeza de que eles são "lavados, santificados
e justificados".
A FÉ é do Espírito Santo
Um servo de Deus
profundamente instruído escreveu uma vez a um jovem pregador: "Nunca
representem a fé como um ato tão "simples" de que a obra do Espírito
não é necessária para produzi-la". No entanto, isso é o que foi comumente
feito. Um grande número de evangelistas dos últimos cem anos mostraram um zelo
que não era conforme o conhecimento (Romanos 10: 2), e manifestaram uma preocupação
muito maior para ver as almas salvas do que pregar a verdade de Deus em sua
pureza. Em seus esforços para mostrar a simplicidade do "caminho da
salvação", perderam de vista as dificuldades da salvação (Lucas 18:24; 1
Pedro 4:18): na sua pressão sobre a responsabilidade do homem de acreditar,
eles ignoraram o fato de que ninguém pode acreditar até o Espírito Santo transmitir
fé. (Nota do tradutor: o que deve nos levar a orar em favor daqueles que
necessitam de salvação, para que o Espírito Santo opere em seus corações,
conduzindo-os a crerem em Cristo para serem salvos.) Apresentar Cristo ao
pecador e depois jogá-lo de volta à sua própria vontade, é zombar dele em sua
impotência; a obra do Espírito no coração é uma necessidade tão real e urgente,
como foi a obra de Cristo na Cruz. Que o coração realmente acredite e confie em
Deus é um ato espiritual, um "bom fruto", e se o homem caído possui o
poder inerente para fazer o bem, então, apresentar-lhe a Expiação é
completamente desnecessário.
(Nota do tradutor: este é outro ponto
fundamental para que haja salvação. Enquanto o Espírito Santo não conduzir o
não ainda regenerado a enxergar espiritualmente o quanto é desprovido de
justiça própria e qualificações diante de Deus, que o vê como um coitado,
pobre, cego, nu, miserável, pecador, uma árvore ruim que necessita ser feita
boa, para que possa dar bom fruto espiritual, ele não poderá ser convertido.
Não é fácil livrar alguém da autojustiça. Se o Espírito não fizer este
trabalho, o pecador continuará se achando justo aos olhos de Deus,
independentemente do modo que viva, sempre se comparando e se julgando mais
justo que outros, por não cometer os mesmos grosseiros pecados que eles
cometem. Todavia, é a sua condição de ser pecador que é abominável aos olhos de
Deus. Ainda que nada fizesse, e ficasse parado em um canto, não pode ser
aceitável a Deus, se não for justificado por Ele por meio da fé em Cristo. É
tão somente por causa de Jesus, e da obra que Ele fez por nós, que somos
aceitáveis a Deus, e não por qualquer coisa boa que exista em nós, que a
propósito não há nenhuma habitando em nossa natureza terrena decaída no pecado.
Por isso somos salvos pela fé – o meio designado por Deus, porque a fé exclui
qualquer obra ou ato nosso para a nossa salvação, e dá toda a honra e glória à
graça de Jesus.)
Não há um termo intermediário entre a vida
e a morte; nenhum estágio intermediário entre conversão e não conversão. A
doação da vida eterna é instantânea; nós somos "criados em Cristo
Jesus". (Efésios 2:10).
Quão perversamente o homem inverte a ordem
da verdade de Deus. Eles pedem aos pecadores mortos que venham a Cristo,
supondo que eles tenham o poder ou vontade de fazê-lo. Considerando que Cristo
declarou clara e enfaticamente que "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não
o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." (João 6:44). Ah, é o
Espírito que deve trazer Cristo a mim, revelá-lo em mim antes que eu possa
realmente conhecê-Lo. "Vir a Cristo" é um ato interno e espiritual,
não externo e natural. Verdadeiramente, "o homem natural não recebe as
coisas do Espírito de Deus, nem pode conhecê-las, porque elas são discernidas espiritualmente."
(1 Coríntios 2:14). Não podemos "vir a Cristo" até nascer de novo.
(João 3: 3).
A salvação é algo mais que um fato
objetivo que nos foi apresentado; é uma operação subjetiva operada dentro de
nós. Como não é pelo discernimento natural que eu descubro minha necessidade de
Cristo, então não é por minha força natural e vontade que eu "venho"
a Ele. Deve haver vida e luz (visão) antes que possa haver movimento. Um bebê
deve nascer, e ter visão e força, também, antes que ele seja capaz de
"vir" para seu pai. Crer em Cristo é um ato sobrenatural, o produto
do poder sobrenatural. Pode-se, por meio de frases gramaticais e proposições das
Escrituras, ensinar-se a verdade espiritual a alguém, mas ele não pode iluminar
sua mente com respeito a isso. Ele pode dizer a um homem que Deus é santo - mas
ele não pode lhe conferir a consciência de que Deus é santo. Ele pode dizer-lhe
que o pecado é infinitamente odioso - mas ele não pode gerar nele um sentimento
ou percepção no coração de que é assim.
Para aqueles que estavam bem
familiarizados com Ele externamente, Cristo disse: "Vocês não Me conhecem
nem a meu Pai." (João 8:19). Um homem pode "conhecer" o caminho
da justiça "(2 Pedro 2:21), teoricamente, intelectualmente - mas isso é um
assunto muito diferente de um experimento espiritual em conhecê-lo. "Ora, temos o mesmo espírito de
fé, conforme está escrito: Cri, por isso falei; também nós cremos, por isso
também falamos."
(2 Coríntios 4:13). Aqui é dito do Espírito de Deus segundo a obra que Ele
realiza.
O título "Espírito de fé" intima
que o Espírito Santo é o Autor da fé, pois todos os homens não têm fé, isto é,
não é dado a todos e não pertence a todos (2 Tessalonicenses 3: 2). A
designação significa que a causa da fé é o Espírito Santo que produz esse
efeito por um chamado invisível, um convite que acompanha, de acordo com o bom
prazer de Sua vontade, a proclamação externa do Evangelho. A fé, portanto, da
qual Ele é o Autor, não é afetada pela própria força do ouvinte - ou pela
vontade efetiva do ouvinte ... A operação especial do Espírito inclina o
pecador, que não estava disposto a receber os convites do Evangelho, pois é somente
Ele, agindo como o Espírito da fé, que remove a inimizade da mente carnal para
as doutrinas da cruz que, senão por isso, lhe pareceriam desnecessárias, ou
tolas ou ofensivas." (Smeaton).
Escrevendo aos santos filipenses, o
apóstolo declarou: "A você é dado ... crer nele". (1:29). A fé é o
"dom" de Deus como Efésios. 2: 8,9 afirma positivamente. Não é um dom
oferecido para a aceitação do homem, mas, de fato, conferido aos filhos de Deus.
Ela é transmitida a cada um dos "eleitos de Deus" em seu tempo
designado pelo Espírito Santo. Não é produzida pela vontade da criatura, mas é
"fé da operação de Deus" (Col 2:12). É a "obra" do
Espírito, por Sua ação sobrenatural. O Espírito Santo é dado por Cristo para
este fim, para que cada um daqueles para quem Ele morreu possa ser levado a um
conhecimento salvador da verdade; portanto, somos informados de "Quem por
Ele (não por nossas vontades) acredita em Deus". (1 Pedro 1:21). Em 1 Cor
3: 5 é dito: "Pelos
quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um." Então em Efésios
6:23 é declarado: "Paz seja
com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo." O próprio
grau e força de nossa fé é determinado unicamente por Deus: "Porque pela graça que me foi
dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do
que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus,
repartiu a cada um."
(Rom12: 3) Se, pela graça, você é verdadeiramente um "crente", que o
leitor dê a Deus, o Espírito, honra, glória e louvor por isso.
(Nota do tradutor: Vemos quão errada e
prejudicial é a noção generalizada que muitos têm de que é pela fé que eles têm
em Deus que serão salvos. A ênfase está na capacidade deles crerem, e não raro,
isto não passa de crer que Deus exista. Este tipo de fé não é a que salva,
senão somente a que foi citada anteriormente, que é obra do Espírito Santo em
nossas mentes e corações, levando-nos a crer na obra que Jesus fez para a nossa
salvação, bem como em amar os Seus mandamentos, tendo verdadeira honra e apreço
pela Lei de Deus, para que seja escrita em nossas mentes e corações,
progressivamente, à medida que vamos nos despojando do pecado em todas as suas
formas, e nos santificando mais e mais, vivendo de acordo com os preceitos de
Deus. Somente a verdadeira fé que salva, que é um dom do Espírito, e obra sua
em nós, pode operar tais coisas espirituais, e transformar-nos verdadeiramente
em pessoas santas, que vivem conforme a descrição do seu comportamento nas
Escrituras.)
Salvação
é totalmente APLICADA pelo Espírito Santo
"Mas nós devemos sempre dar graças
a Deus por vós, irmãos, amados do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o
princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade." (2
Tessalonicenses 2:13). A missão do Espírito na terra é aplicar aos eleitos de
Deus a redenção proposta por Deus Pai e comprada por Deus Filho para eles. O
Espírito Santo está aqui para cumprir nas almas dos herdeiros da glória - os
frutos do trabalho da alma de Cristo. Isto Ele faz por meio do Evangelho pelo
ministério escrito e oral da Escritura, pois a Palavra de Deus é o único
instrumento que ele emprega ou usa. A Palavra de Deus é "a palavra da
vida" (Filipenses 2:16) - mas ela só se torna tal na experiência da alma
individual pela operação e aplicação imediata do Espírito de Deus. Como Paulo
escreveu aos santos de Tessalônica: "Pois nosso Evangelho não veio a vós
apenas em palavras, mas também em poder e no Espírito Santo." (1
Tessalonicenses 1: 5). Isto não é negar a eficácia da própria Palavra, mas é
insistir que a agência direta do Espírito no coração é absolutamente necessária
para a recepção da Palavra. A Palavra é uma lâmpada para o nosso caminho, mas
deve haver uma abertura dos olhos de nossos entendimentos pelo Espírito, antes
que possamos ver sua luz.
A salvação dos eleitos de Deus foi
proposital, planejada e provida por Deus Pai antes da fundação do mundo. Foi
adquirida e assegurada pela encarnação, obediência, morte e ressurreição de
Deus Filho. É divulgada, aplicada e forjada nos crentes por Deus Espírito Santo.
Assim, "A salvação é do Senhor" (Jonas 2: 9), e o homem não tem parte
nela em qualquer ponto quanto ao seu planejamento, propósito e provisão. O
filho de Deus não é o ganhador da salvação, mas o destinatário dela. A fé não é
uma condição que o eleito pecador deve cumprir para obter a salvação, mas é o
meio e o canal através dos quais ele pessoalmente desfruta da salvação do Deus
Triúno.
(Nota
do Tradutor: Não poderíamos deixar de fazer um fechamento deste trabalho, sem
dizer que há uma diferença essencial entre a Lei de Deus e o Evangelho. Ambos
são a boa, perfeita, santa e agradável vontade de Deus revelada, mas o
Evangelho é tudo aquilo que foi provido em Cristo, e que é operado pelo
Espírito Santo, para que sejamos livrados da condenação eterna, por termos
nossos pecados perdoados, para sermos justificados por Deus e regenerados pelo
Espírito. Daí, ser o significado da palavra Evangelho, uma proclamação de boas
notícias, as boas notícias de Deus para o pecador de que há uma salvação em
Cristo disponível para ele. A Lei, revela a nossa condição caída e a
consequente necessidade de um Salvador capaz de nos libertar da citada condição.
Ela também revela qual é o caráter de Deus, o qual nos convém imitar, pela
aplicação do mesmo pelo Espírito Santo às nossas vidas. É com um Deus santo que
temos que lidar. Um Deus justo que não inocenta o culpado, mas que pode
perdoá-lo, caso se arrependa e aceite o castigo e a condenação de Cristo na
cruz, em seu lugar, como sendo o castigo que lhe era devido e não a Ele, para
que uma vez absolvido da condenação do pecado, possa servir a Deus em novidade
de vida, já não mais governado pelo pecado, mas pela graça de Jesus.
Como tudo na salvação é por Cristo, e para
Cristo, então, podemos entender que ninguém poderá entrar no reino do Céu sem
que tenha humildade de espírito, sem que lamente por ser pecador, sem que se
disponha a suportar perseguições e injustiças por causa do Seu amor a Cristo,
sem que seja um promotor da paz do evangelho pelo seu testemunho a outros, sem
ser misericordioso com a mesma misericórdia que recebeu da parte de Deus na sua
salvação, sem que seja submisso à vontade de Deus com longanimidade e mansidão,
sabendo que não pode ser ou ter tudo isto sem que haja um trabalho do Espírito
Santo na sua regeneração e santificação.)
A. W. Pink
(1886-1952)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
Introdução pelo Tradutor
Por conta de uma formação
deficiente, mesmo depois de convertidos a Cristo, tivemos, por muitos anos,
noções incorretas sobre a salvação, especialmente quanto à santificação, e isto
nos trouxe conflitos, dúvidas, temores e falta de crescimento espiritual que
poderiam ter sido evitados, caso tivesse sido devidamente instruído quanto aos
caminhos do Senhor.
Qual é a função da Lei de Deus na salvação e na
vida do salvo?
Qual é a função do Evangelho?
Como a Lei e o Evangelho atuam no trabalho de nos
salvar do pecado, do diabo e do fascínio do mundo, para um andar na Luz, por
uma vida santificada ao Senhor?
Como as tribulações devem ser encaradas, e qual é a
contribuição que elas podem prestar ao refino da fé?
Estas e muitas outras perguntas devem ser
devidamente respondidas para uma vida cristã sadia e bem orientada.
A fonte para estas respostas deve ser fundamentada
exclusivamente no ensino das Escrituras, e o Seu grande instrutor, é o Espírito
Santo.
Antes de tudo, como ponto de partida, deve ser dito
que ninguém poderá ser salvo por Cristo, se antes não for convencido pelo
Espírito e pelo testemunho das Escrituras, do quanto Deus odeia o pecado, e que
a morte de Cristo na cruz foi para pagar a nossa dívida de pecados, e nos
resgatar para uma vida de comunhão com Deus.
Mas, não basta ser convencido de que se é pecador e
culpado diante de Deus, para ser salvo, pois é preciso também haver
arrependimento dessa condição, e um voltar-se para Deus para ser purificado e
perdoado.
Este retorno não é feito com pagamento de
promessas, macerações, sacrifícios ou qualquer meio religioso, senão somente
crer em Cristo, e nele exclusivamente para ser o nosso Senhor e Salvador.
É preciso entregar a Ele, pela fé, o governo total
de nossa vida, e pedir-lhe humildemente que tenha misericórdia de nós, perdoe
os nossos pecados, e nos salve.
Enquanto a Sua paz sobrenatural não penetrar o
nosso ser, e não percebermos que há uma nova inclinação em nós, que nos leva a
detestar o pecado, e a amar a Deus e a Sua Palavra, tendo os nossos olhos
espirituais abertos para entendê-la, devemos continuar orando para que isto
ocorra, comprovando assim, que fomos de fato salvos.
Quem realiza toda esta operação de salvação em nós
é o Espírito Santo, e sem a sua operação, nada disto será possível.
O Trabalho do Espírito Santo na Salvação
Em Atos 19, aprendemos que, quando o apóstolo Paulo
chegou a Éfeso, perguntou a alguns discípulos de João Batista. “Recebestes vós
o Espírito Santo quando crestes?" (V. 2) E nos é dito: "Responderam-lhe
eles: Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo."
É triste dizer que a história se repetiu. Sem
dúvida, os membros de centenas de chamadas "igrejas" (em que há o
modernismo e a dominação do mundo) aos quais se fizesse a mesma pergunta, eles seriam
obrigados a dar uma resposta idêntica.
A razão pela qual os discípulos de Éfeso nada
sabiam sobre o Espírito Santo era, provavelmente, porque tinham sido batizados
na Judeia pelo precursor de Cristo (João Batista) e depois retornaram a Éfeso,
onde permaneceram ignorantes quanto ao que aconteceu no dia de Pentecostes,
quando o Espírito Santo foi derramado em Jerusalém. Mas a razão pela qual os
membros da "igreja" nada sabem sobre a terceira Pessoa da Divindade,
é porque os pregadores sob os quais estão assentados para ouvi-los, estão
silenciosos em relação a Ele, ou lhes passando noções incorretas sobre quem
seja o Espírito Santo e o seu trabalho na nossa salvação.
Nem é muito melhor a situação, em muitas igrejas que
ainda são contadas como ortodoxas, ou seja, que sustentam corretamente a
doutrina bíblica. Embora a Pessoa do Espírito não seja repudiada e, embora o
nome dele possa ocasionalmente ser mencionado - ainda, com poucas raras
exceções, há algum ensinamento bíblico definitivo dado a respeito dos ofícios e
operações do divino Consolador. Quanto ao Seu trabalho na salvação, isso é
muito pouco compreendido, mesmo pelos professantes cristãos. (Nota do tradutor:
é muito comum, em nossos dias, neste século XXI, ver o Espírito Santo sendo
associado apenas a uma noção de que deve ser buscado para que a pessoa possa
ter sucesso profissional, financeiro, sentimental, e qualquer outro, menos
aquele para o qual nos foi enviado do céu como um dom, a saber, para operar e
desenvolver a nossa salvação, especialmente na obra de regeneração (novo
nascimento) e santificação (remoção do pecado e revestimento das virtudes de
Cristo), além, evidentemente de todo o Seu trabalho relativo à nossa
consolação, dando-nos firmeza de fé nas tribulações, sabedoria nos assuntos
comuns da vida, etc, em razão da Sua habitação em nós, e governo, instrução e
direção de nossas vontades.)
Na maioria dos lugares em que o Senhor Jesus ainda
é formalmente reconhecido como o único Salvador para os pecadores, o ensino
atual do dia é que Cristo tornou possível que os homens fossem salvos - mas que
eles mesmos deveriam decidir se eles deveriam ser salvos. A ideia agora que é tão
prevalecente é que Cristo é oferecido à aceitação do homem, e que ele deve
"aceitar Cristo como seu Salvador pessoal", "dar seu coração a
Jesus", "tomar sua posição para Cristo", etc., se o sangue da
Cruz deve ser de proveito pelos seus pecados. Assim, de acordo com esta
concepção, a obra final de Cristo, a maior obra de todos os tempos e em todo o
universo, depende da vontade inconstante do homem de saber se deve ser um
sucesso ou uma falha!
Entrando agora em um círculo muito mais estreito na
cristandade, em lugares onde ainda é admitido que o Espírito Santo tem uma
missão e um ministério em conexão com a pregação do Evangelho, a ideia geral
prevalece mesmo que, quando o Evangelho de Cristo é fielmente pregado, o
Espírito Santo convence homens de pecado e revela a eles a necessidade de um
Salvador. Mas, além disso, poucos estão preparados para isto. A teoria que
prevalece nestes lugares é que o pecador tem que cooperar com o Espírito, que
ele mesmo deve ceder ao "esforço" do Espírito, ou ele não pode ser
salvo. Mas, essa teoria perniciosa e insultante de Deus nega duas coisas:
argumentar que o homem natural é capaz de cooperar com o Espírito Santo, é
negar que ele está "morto em transgressões e pecados" porque um homem
morto é incapaz de fazer qualquer coisa. E dizer que as operações do Espírito
no coração e na consciência de um homem podem ser resistidas é negar a Sua
onipotência!
Antes de prosseguir, e para abrir o
caminho para o que se segue, algumas palavras devem ser ditas sobre "o meu
Espírito não contenderá sempre com o homem" (Gênesis 6: 3) e "vocês
sempre resistem ao Espírito Santo." (Atos 7:51). Agora, essas passagens se
referem à obra externa do Espírito, isto é, ao Seu testemunho através da
Palavra pregada. 1 Pedro 3: 18-20 mostra que foi o Espírito de Cristo em Noé
quem "se esforçou" com os antediluvianos quando o patriarca pregou a
eles. (2 Pedro 2: 5). Então, em Atos 7, as próximas palavras explicam v. 52:
"A qual
dos profetas não perseguiram vossos pais?" Como Neemias disse: "Não
obstante, por muitos anos os aturaste, e testemunhaste contra eles pelo teu
Espírito, por intermédio dos teus profetas; todavia eles não quiseram dar
ouvidos; pelo que os entregaste nas mãos dos povos de outras terras." (Neemias
9:30).
O trabalho externo do Espírito, o seu
testemunho através das Escrituras, quando cai no ouvido exterior do homem
natural, é sempre "resistido" e rejeitado, o que só demonstra solene
e completamente o fato de que "a mente carnal é inimizade contra Deus."
(Romanos 8: 7). Mas o que agora salientamos é que a Escritura revela outra obra
do Espírito Santo, uma obra que é interna, imperceptível e invisível. Este
trabalho é sempre EFICAZ. É o trabalho do Espírito na salvação, iniciado no
coração no novo nascimento, continuado ou sustentado durante todo o curso da
vida cristã na Terra, e concluído e consumado no Céu. É a isso que se refere Filipenses
1: 6: "Aquele que começou um bom trabalho em você irá completa-lo."
Isto é o que está em vista no Salmo 138: 8: "O Senhor aperfeiçoará o que
me concerne." Esta obra é realizada pelo Espírito em cada um dos
"eleitos de Deus", e neles somente. (Nota do tradutor: Entenda-se por
eleitos de Deus, aqueles que são separados por Ele para uma vida santificada,
que seja vitoriosa sobre o pecado, de forma a poder participar da natureza do
próprio Deus, e formar íntima familiaridade e comunhão com Ele. Todo aquele que
deseja isto, comprova para si mesmo que é eleito de Deus, pois é a estes que o
Pai procura para serem seus filhos e adoradores. Quem buscar a Deus por outros
motivos, poderá então estar em autoengano ou então receber auxílios temporais
que não podem lhe garantir a entrada na vida eterna, pois isto, é sempre pela
fé, pelo arrependimento, para uma vida santificada.)
Foi bem dito que "a parte e o ofício
do Espírito Santo na salvação dos eleitos de Deus, consiste em renová-los. Ele vivifica
os herdeiros da glória com uma vida espiritual, ilumina suas mentes para
conhecer Cristo, revela-Lhe, Fornece-O a seus corações e os leva a construir
todas as suas esperanças de glória eterna nEle. Ele expande o amor do Pai em
seus corações e lhes dá um senso real, em que a experiência de Seu trabalho
gracioso e eficaz em suas almas, os leva a dizerem com o salmista: "Bem-aventurado aquele a quem tu
escolhes, e fazes chegar a ti, para habitar em teus átrios! Nós seremos
satisfeitos com a bondade da tua casa, do teu santo templo." (Salmo 65:
4)."
Um dos delírios do dia, é que uma crença
evangélica em Cristo está dentro do poder do homem não renovado, de modo que,
ao realizar o que é ingenuamente chamado de "simples ato de fé", ele
se torna um homem renovado. Em outras palavras, supõe-se que o homem seja o
iniciante de sua própria salvação. Ele dá o primeiro passo, e Deus faz o resto;
ele "crê" e então Deus entra e o salva. Isso não é nada além de uma
negação vazia do trabalho do Espírito. Se há uma ocasião mais do que outra
quando o pecador necessita do poder do Espírito - é no início. "Aquele que
nega a necessidade do Espírito no começo, não pode acreditar em Seu trabalho
nos estágios posteriores, e não acredita na necessidade do trabalho do
Espírito. A dificuldade mais poderosa e insuperável está no início. Se o
pecador pode superar isso sem o Espírito, ele pode facilmente superar o resto.
Se ele não precisa do Espírito para capacitá-lo a acreditar, ele não precisará
dele para capacitá-lo a amar." (H. Bonar)
(Nota do Tradutor: Para a conversão
inicial que consiste na justificação (perdão de todos os pecados e aceitação na
condição de filho de Deus justificado, isto é, considerado justo por Ele, por causa
de ter sido revestido com a justiça de Cristo no momento da conversão) e na
regeneração (novo nascimento) do Espírito Santo, conforme Jesus falou sobre ela
a Nicodemos em João 3, o pecador deve confiar tão somente no trabalho que Jesus
fez por Ele morrendo e ressuscitando em seu lugar, e crer que Deus o salvará
inteiramente por pura graça e misericórdia, independentemente de qualquer obra
do penitente que dEle se aproxima com o coração contrito, sentindo a
necessidade de ser purificado e limpo de seus pecados. O que vem a seguir, a
saber, a necessidade da sua santificação, mediante a progressão de sua
transformação pela aplicação da Palavra de Deus pelo Espírito Santo, abrirá um
conflito permanente até a morte do crente, por causa das duas naturezas que
agora nele habitam, ou seja, a influência do velho homem, do corpo de pecado,
da carne, o que é a mesma coisa, para designar a antiga natureza pecaminosa, e
a nova influência da habitação do Espírito Santo que o inclina a amar a Deus, a
Sua vontade e Palavra. Por esta luta da carne contra o Espírito, e do Espírito contra
a carne, o crente é levado a perceber que há um trabalho real espiritual sendo
realizado em sua vida, pois sempre que se dispõe para a carne, a vida de Deus é
diminuída nele, e sempre que se dispõe para o Espírito, caminha em novidade de
vida, em verdadeira santificação.)
A obra do Espírito é aplicar a redenção
que o Senhor Jesus comprou para o Seu povo - e os filhos de Deus devem a sua
salvação tanto ao Espírito quanto a Cristo.
Em Tito 3:5, a salvação dos redimidos é
expressamente atribuída ao Espírito: "Não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos
feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da
regeneração e renovação pelo Espírito Santo." Se for perguntado, em que sentido dos
homens pode ser dito "salvos pela renovação do Espírito”, a resposta é
óbvia: há uma série de verdades para as quais nenhum vínculo pode faltar. Somos
salvos pelo divino propósito, porque Deus nos escolheu para a salvação; somos
salvos pela expiação, como o fundamento meritório de todos, somos salvos pela
fé, como o vínculo da união com Cristo, somos salvos pela graça, em contraste
com as obras realizadas; somos salvos pela verdade pela transmissão do
testemunho de Deus, e, como aqui, somos salvos pela renovação do Espírito
Santo, como produzindo fé no coração." (Smeaton)
REGENERAÇÃO é pelo Espírito Santo
"Ele vos vivificou, estando vós
mortos nos vossos delitos e pecados." (Efésios 2: 1). A vivificação
daqueles que estão mortos nas transgressões é obra da terceira Pessoa da
Trindade: "O que nasceu do Espírito é espírito". (João 3: 6) O homem
natural está morto espiritualmente. Ele está vivo no pecado e no mundo – mas
morto para Deus, alienado da vida de Deus. (Efésios 4:18). Se essa verdade
solene fosse realmente crida, haveria um fim da controvérsia sobre o assunto
atual. Um homem morto não pode "cooperar" com o Espírito, nem pode
"aceitar a Cristo". Em 2 Cor 3: 5 lemos: "Não que sejamos suficientes
para pensar cousa alguma." Isso é dito dos cristãos. Se o regenerado não
tem capacidade para "pensar" espiritualmente, ainda menos os não regenerados
(não nascidos de novo do Espírito) são capazes disto.
"O homem natural não recebe as coisas
do Espírito de Deus, porque são loucura para ele, nem pode conhecê-las, porque
elas são discernidas espiritualmente." (1 Cor. 2:14). O que poderia ser
mais simples? O "homem natural" caído em seu estado não regenerado. A
menos que ele nasça do Espírito, ele é completamente desprovido de
discernimento espiritual. Nosso Senhor expressamente declarou: "Exceto que
um homem nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus." (João 3: 3). O
"homem natural" não pode ver a si mesmo, a sua ruína, a sua
depravação, a imundície de sua própria justiça. Não importa o quão claramente a
verdade de Deus lhe é apresentada, sendo cego, ele não pode discernir o seu
significado, espiritualidade ou adequação à sua necessidade. Uma compreensão
espiritual do Evangelho é tão verdadeiramente devida à operação do Espírito
Santo - como Ele é o Autor da Revelação divina. A vida espiritual deve preceder
a visão espiritual, e o próprio Espírito deve entrar no coração antes que haja
vida. "E porei
em vós o meu Espírito, e vivereis." (Ezequiel 37:14)
O trabalho do Espírito na regeneração é um
milagre divino que é o resultado de Seu derramar de poder sobrenatural. Está vivificando
um cadáver espiritual; é a vida de uma alma morta. O próprio pecador não pode realizá-lo
por um ato de sua própria vontade mais do que ele poderia criar um universo.
Este milagre de graça é falado na Escritura como "a grandeza de seu poder
para nós os que cremos, de acordo com o funcionamento de seu poderoso poder,
que Ele operou em Cristo quando o ressuscitou dentre os mortos." (Efésios
1:19, 29). O mesmo poder que foi usado para ressuscitar Cristo dentre os mortos
é apresentado na regeneração. A ressurreição de Cristo é o padrão exemplar de
nossa ressurreição espiritual, segundo a qual, como o Espírito fez com Ele,
então, trabalha em nós uma obra conforme a sua ressurreição. Como a
ressurreição de Cristo é o primeiro passo para o seu reino e glória eternos, a
regeneração é a primeira introdução aberta a todas as bênçãos desse estado de
graça em que o filho de Deus agora é apresentado." (S.E. Pierce).
(Nota do tradutor: Este trabalho de
regeneração do Espírito Santo, transformando pecadores em filhos de Deus,
continua sendo realizado na Terra, todos os dias, desde que Ele foi derramado
no dia de Pentecostes, depois da ascensão de Jesus ao Céu. Este é o grande
milagre que todos devem buscar, pois Deus está disposto a concedê-lo a todo o
que crer em Jesus. Ressurreição de corpos, restauração de visão a cegos
físicos, cura de coxos, podem ter sido reduzidos grandemente em número desde
que a Palavra de salvação do Evangelho foi confirmada por tais sinais,
especialmente por meio dos apóstolos, mas o grande propósito da vinda de Jesus
a este mundo, continua em marcha, confirmando, que Ele se manifestou, antes de
tudo, para a salvação de nossas almas.)
APTIDÃO para o Céu é pelo Espírito Santo
Nosso título para a
glória no Céu é unicamente pela Justiça de Cristo; nossa aptidão pessoal para
isso está na nossa regeneração pelo Espírito Santo. Toda a nossa aptidão para o
estado celestial foi forjada em nós na regeneração, a qual foi instantânea, e
aconteceu de uma vez para sempre na primeira vez que tivemos um encontro
pessoal com Jesus, na conversão – a propósito, simultaneamente, e da mesma
maneira, ocorreu a nossa justificação. Escrevendo aos Colossenses regenerados,
o apóstolo disse: "Dando graças ao Pai, que nos fez aptos a participar da
herança dos santos na luz". E então ele mostra em que esta
"aptidão" consiste: "Quem nos libertou do poder das trevas e nos
transpôs para o reino de Seu Filho amado" (v. 13). Seu título está fora
deles; Sua "aptidão" está dentro deles. O Espírito Santo criou neles
uma natureza que é capacitada para conhecer e desfrutar o Deus Triúno.
Em nosso estado não regenerado (de não
convertidos), estávamos completamente sob o poder das trevas, isto é, do pecado
e de Satanás, e não éramos menos capazes de livrar-nos dessa escravidão - do
que Jonas conseguiria escapar do ventre do grande peixe. Nós estávamos "sentados
na escuridão" e "na região e sombra da morte". (Mateus 4:16).
Nós éramos "escravos", "encadeados" e em
"prisão". (Isaías 61: 1). Nós estávamos "sem esperança, e sem
Deus no mundo". (Efésios 2:12). Deste estado terrível, toda alma renovada
foi "libertada" pelo poderoso, soberano e invencível poder do
Espírito Santo, e foi "trazida para o reino do amado Filho de Deus".
Então, cada leitor renovado tribute homenagem, adoração e louvor iguais ao
Espírito Santo quanto ao Pai e ao Filho.
JUSTIFICAÇÃO e SANTIFICAÇÃO são do Espírito
Santo
"E tais fostes alguns de vós; mas
fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do
Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus." (1 Coríntios 6:11). Esta é
uma Escritura notável, e pouco ponderada. Seríamos levados muito longe do nosso
tema se tentássemos uma exposição completa dela. Duas coisas aqui apenas
apontaríamos: as três bênçãos salvadoras enumeradas neste versículo são
referidas, primeiro, ao "Nome" ou aos méritos de Cristo como Sua
própria causa de aquisição; e depois ao Espírito Santo que faz nos eleitos a
Sua própria aplicação eficaz. Ele é quem ilumina suas mentes e abre seus
corações para assumir e ter certeza de que eles são "lavados, santificados
e justificados".
A FÉ é do Espírito Santo
Um servo de Deus
profundamente instruído escreveu uma vez a um jovem pregador: "Nunca
representem a fé como um ato tão "simples" de que a obra do Espírito
não é necessária para produzi-la". No entanto, isso é o que foi comumente
feito. Um grande número de evangelistas dos últimos cem anos mostraram um zelo
que não era conforme o conhecimento (Romanos 10: 2), e manifestaram uma preocupação
muito maior para ver as almas salvas do que pregar a verdade de Deus em sua
pureza. Em seus esforços para mostrar a simplicidade do "caminho da
salvação", perderam de vista as dificuldades da salvação (Lucas 18:24; 1
Pedro 4:18): na sua pressão sobre a responsabilidade do homem de acreditar,
eles ignoraram o fato de que ninguém pode acreditar até o Espírito Santo transmitir
fé. (Nota do tradutor: o que deve nos levar a orar em favor daqueles que
necessitam de salvação, para que o Espírito Santo opere em seus corações,
conduzindo-os a crerem em Cristo para serem salvos.) Apresentar Cristo ao
pecador e depois jogá-lo de volta à sua própria vontade, é zombar dele em sua
impotência; a obra do Espírito no coração é uma necessidade tão real e urgente,
como foi a obra de Cristo na Cruz. Que o coração realmente acredite e confie em
Deus é um ato espiritual, um "bom fruto", e se o homem caído possui o
poder inerente para fazer o bem, então, apresentar-lhe a Expiação é
completamente desnecessário.
(Nota do tradutor: este é outro ponto
fundamental para que haja salvação. Enquanto o Espírito Santo não conduzir o
não ainda regenerado a enxergar espiritualmente o quanto é desprovido de
justiça própria e qualificações diante de Deus, que o vê como um coitado,
pobre, cego, nu, miserável, pecador, uma árvore ruim que necessita ser feita
boa, para que possa dar bom fruto espiritual, ele não poderá ser convertido.
Não é fácil livrar alguém da autojustiça. Se o Espírito não fizer este
trabalho, o pecador continuará se achando justo aos olhos de Deus,
independentemente do modo que viva, sempre se comparando e se julgando mais
justo que outros, por não cometer os mesmos grosseiros pecados que eles
cometem. Todavia, é a sua condição de ser pecador que é abominável aos olhos de
Deus. Ainda que nada fizesse, e ficasse parado em um canto, não pode ser
aceitável a Deus, se não for justificado por Ele por meio da fé em Cristo. É
tão somente por causa de Jesus, e da obra que Ele fez por nós, que somos
aceitáveis a Deus, e não por qualquer coisa boa que exista em nós, que a
propósito não há nenhuma habitando em nossa natureza terrena decaída no pecado.
Por isso somos salvos pela fé – o meio designado por Deus, porque a fé exclui
qualquer obra ou ato nosso para a nossa salvação, e dá toda a honra e glória à
graça de Jesus.)
Não há um termo intermediário entre a vida
e a morte; nenhum estágio intermediário entre conversão e não conversão. A
doação da vida eterna é instantânea; nós somos "criados em Cristo
Jesus". (Efésios 2:10).
Quão perversamente o homem inverte a ordem
da verdade de Deus. Eles pedem aos pecadores mortos que venham a Cristo,
supondo que eles tenham o poder ou vontade de fazê-lo. Considerando que Cristo
declarou clara e enfaticamente que "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não
o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." (João 6:44). Ah, é o
Espírito que deve trazer Cristo a mim, revelá-lo em mim antes que eu possa
realmente conhecê-Lo. "Vir a Cristo" é um ato interno e espiritual,
não externo e natural. Verdadeiramente, "o homem natural não recebe as
coisas do Espírito de Deus, nem pode conhecê-las, porque elas são discernidas espiritualmente."
(1 Coríntios 2:14). Não podemos "vir a Cristo" até nascer de novo.
(João 3: 3).
A salvação é algo mais que um fato
objetivo que nos foi apresentado; é uma operação subjetiva operada dentro de
nós. Como não é pelo discernimento natural que eu descubro minha necessidade de
Cristo, então não é por minha força natural e vontade que eu "venho"
a Ele. Deve haver vida e luz (visão) antes que possa haver movimento. Um bebê
deve nascer, e ter visão e força, também, antes que ele seja capaz de
"vir" para seu pai. Crer em Cristo é um ato sobrenatural, o produto
do poder sobrenatural. Pode-se, por meio de frases gramaticais e proposições das
Escrituras, ensinar-se a verdade espiritual a alguém, mas ele não pode iluminar
sua mente com respeito a isso. Ele pode dizer a um homem que Deus é santo - mas
ele não pode lhe conferir a consciência de que Deus é santo. Ele pode dizer-lhe
que o pecado é infinitamente odioso - mas ele não pode gerar nele um sentimento
ou percepção no coração de que é assim.
Para aqueles que estavam bem
familiarizados com Ele externamente, Cristo disse: "Vocês não Me conhecem
nem a meu Pai." (João 8:19). Um homem pode "conhecer" o caminho
da justiça "(2 Pedro 2:21), teoricamente, intelectualmente - mas isso é um
assunto muito diferente de um experimento espiritual em conhecê-lo. "Ora, temos o mesmo espírito de
fé, conforme está escrito: Cri, por isso falei; também nós cremos, por isso
também falamos."
(2 Coríntios 4:13). Aqui é dito do Espírito de Deus segundo a obra que Ele
realiza.
O título "Espírito de fé" intima
que o Espírito Santo é o Autor da fé, pois todos os homens não têm fé, isto é,
não é dado a todos e não pertence a todos (2 Tessalonicenses 3: 2). A
designação significa que a causa da fé é o Espírito Santo que produz esse
efeito por um chamado invisível, um convite que acompanha, de acordo com o bom
prazer de Sua vontade, a proclamação externa do Evangelho. A fé, portanto, da
qual Ele é o Autor, não é afetada pela própria força do ouvinte - ou pela
vontade efetiva do ouvinte ... A operação especial do Espírito inclina o
pecador, que não estava disposto a receber os convites do Evangelho, pois é somente
Ele, agindo como o Espírito da fé, que remove a inimizade da mente carnal para
as doutrinas da cruz que, senão por isso, lhe pareceriam desnecessárias, ou
tolas ou ofensivas." (Smeaton).
Escrevendo aos santos filipenses, o
apóstolo declarou: "A você é dado ... crer nele". (1:29). A fé é o
"dom" de Deus como Efésios. 2: 8,9 afirma positivamente. Não é um dom
oferecido para a aceitação do homem, mas, de fato, conferido aos filhos de Deus.
Ela é transmitida a cada um dos "eleitos de Deus" em seu tempo
designado pelo Espírito Santo. Não é produzida pela vontade da criatura, mas é
"fé da operação de Deus" (Col 2:12). É a "obra" do
Espírito, por Sua ação sobrenatural. O Espírito Santo é dado por Cristo para
este fim, para que cada um daqueles para quem Ele morreu possa ser levado a um
conhecimento salvador da verdade; portanto, somos informados de "Quem por
Ele (não por nossas vontades) acredita em Deus". (1 Pedro 1:21). Em 1 Cor
3: 5 é dito: "Pelos
quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um." Então em Efésios
6:23 é declarado: "Paz seja
com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo." O próprio
grau e força de nossa fé é determinado unicamente por Deus: "Porque pela graça que me foi
dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do
que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus,
repartiu a cada um."
(Rom12: 3) Se, pela graça, você é verdadeiramente um "crente", que o
leitor dê a Deus, o Espírito, honra, glória e louvor por isso.
(Nota do tradutor: Vemos quão errada e
prejudicial é a noção generalizada que muitos têm de que é pela fé que eles têm
em Deus que serão salvos. A ênfase está na capacidade deles crerem, e não raro,
isto não passa de crer que Deus exista. Este tipo de fé não é a que salva,
senão somente a que foi citada anteriormente, que é obra do Espírito Santo em
nossas mentes e corações, levando-nos a crer na obra que Jesus fez para a nossa
salvação, bem como em amar os Seus mandamentos, tendo verdadeira honra e apreço
pela Lei de Deus, para que seja escrita em nossas mentes e corações,
progressivamente, à medida que vamos nos despojando do pecado em todas as suas
formas, e nos santificando mais e mais, vivendo de acordo com os preceitos de
Deus. Somente a verdadeira fé que salva, que é um dom do Espírito, e obra sua
em nós, pode operar tais coisas espirituais, e transformar-nos verdadeiramente
em pessoas santas, que vivem conforme a descrição do seu comportamento nas
Escrituras.)
Salvação
é totalmente APLICADA pelo Espírito Santo
"Mas nós devemos sempre dar graças
a Deus por vós, irmãos, amados do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o
princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade." (2
Tessalonicenses 2:13). A missão do Espírito na terra é aplicar aos eleitos de
Deus a redenção proposta por Deus Pai e comprada por Deus Filho para eles. O
Espírito Santo está aqui para cumprir nas almas dos herdeiros da glória - os
frutos do trabalho da alma de Cristo. Isto Ele faz por meio do Evangelho pelo
ministério escrito e oral da Escritura, pois a Palavra de Deus é o único
instrumento que ele emprega ou usa. A Palavra de Deus é "a palavra da
vida" (Filipenses 2:16) - mas ela só se torna tal na experiência da alma
individual pela operação e aplicação imediata do Espírito de Deus. Como Paulo
escreveu aos santos de Tessalônica: "Pois nosso Evangelho não veio a vós
apenas em palavras, mas também em poder e no Espírito Santo." (1
Tessalonicenses 1: 5). Isto não é negar a eficácia da própria Palavra, mas é
insistir que a agência direta do Espírito no coração é absolutamente necessária
para a recepção da Palavra. A Palavra é uma lâmpada para o nosso caminho, mas
deve haver uma abertura dos olhos de nossos entendimentos pelo Espírito, antes
que possamos ver sua luz.
A salvação dos eleitos de Deus foi
proposital, planejada e provida por Deus Pai antes da fundação do mundo. Foi
adquirida e assegurada pela encarnação, obediência, morte e ressurreição de
Deus Filho. É divulgada, aplicada e forjada nos crentes por Deus Espírito Santo.
Assim, "A salvação é do Senhor" (Jonas 2: 9), e o homem não tem parte
nela em qualquer ponto quanto ao seu planejamento, propósito e provisão. O
filho de Deus não é o ganhador da salvação, mas o destinatário dela. A fé não é
uma condição que o eleito pecador deve cumprir para obter a salvação, mas é o
meio e o canal através dos quais ele pessoalmente desfruta da salvação do Deus
Triúno.
(Nota
do Tradutor: Não poderíamos deixar de fazer um fechamento deste trabalho, sem
dizer que há uma diferença essencial entre a Lei de Deus e o Evangelho. Ambos
são a boa, perfeita, santa e agradável vontade de Deus revelada, mas o
Evangelho é tudo aquilo que foi provido em Cristo, e que é operado pelo
Espírito Santo, para que sejamos livrados da condenação eterna, por termos
nossos pecados perdoados, para sermos justificados por Deus e regenerados pelo
Espírito. Daí, ser o significado da palavra Evangelho, uma proclamação de boas
notícias, as boas notícias de Deus para o pecador de que há uma salvação em
Cristo disponível para ele. A Lei, revela a nossa condição caída e a
consequente necessidade de um Salvador capaz de nos libertar da citada condição.
Ela também revela qual é o caráter de Deus, o qual nos convém imitar, pela
aplicação do mesmo pelo Espírito Santo às nossas vidas. É com um Deus santo que
temos que lidar. Um Deus justo que não inocenta o culpado, mas que pode
perdoá-lo, caso se arrependa e aceite o castigo e a condenação de Cristo na
cruz, em seu lugar, como sendo o castigo que lhe era devido e não a Ele, para
que uma vez absolvido da condenação do pecado, possa servir a Deus em novidade
de vida, já não mais governado pelo pecado, mas pela graça de Jesus.
Como tudo na salvação é por Cristo, e para
Cristo, então, podemos entender que ninguém poderá entrar no reino do Céu sem
que tenha humildade de espírito, sem que lamente por ser pecador, sem que se
disponha a suportar perseguições e injustiças por causa do Seu amor a Cristo,
sem que seja um promotor da paz do evangelho pelo seu testemunho a outros, sem
ser misericordioso com a mesma misericórdia que recebeu da parte de Deus na sua
salvação, sem que seja submisso à vontade de Deus com longanimidade e mansidão,
sabendo que não pode ser ou ter tudo isto sem que haja um trabalho do Espírito
Santo na sua regeneração e santificação.)
A. W. Pink
(1886-1952)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
Introdução pelo Tradutor
Por conta de uma formação
deficiente, mesmo depois de convertidos a Cristo, tivemos, por muitos anos,
noções incorretas sobre a salvação, especialmente quanto à santificação, e isto
nos trouxe conflitos, dúvidas, temores e falta de crescimento espiritual que
poderiam ter sido evitados, caso tivesse sido devidamente instruído quanto aos
caminhos do Senhor.
Qual é a função da Lei de Deus na salvação e na
vida do salvo?
Qual é a função do Evangelho?
Como a Lei e o Evangelho atuam no trabalho de nos
salvar do pecado, do diabo e do fascínio do mundo, para um andar na Luz, por
uma vida santificada ao Senhor?
Como as tribulações devem ser encaradas, e qual é a
contribuição que elas podem prestar ao refino da fé?
Estas e muitas outras perguntas devem ser
devidamente respondidas para uma vida cristã sadia e bem orientada.
A fonte para estas respostas deve ser fundamentada
exclusivamente no ensino das Escrituras, e o Seu grande instrutor, é o Espírito
Santo.
Antes de tudo, como ponto de partida, deve ser dito
que ninguém poderá ser salvo por Cristo, se antes não for convencido pelo
Espírito e pelo testemunho das Escrituras, do quanto Deus odeia o pecado, e que
a morte de Cristo na cruz foi para pagar a nossa dívida de pecados, e nos
resgatar para uma vida de comunhão com Deus.
Mas, não basta ser convencido de que se é pecador e
culpado diante de Deus, para ser salvo, pois é preciso também haver
arrependimento dessa condição, e um voltar-se para Deus para ser purificado e
perdoado.
Este retorno não é feito com pagamento de
promessas, macerações, sacrifícios ou qualquer meio religioso, senão somente
crer em Cristo, e nele exclusivamente para ser o nosso Senhor e Salvador.
É preciso entregar a Ele, pela fé, o governo total
de nossa vida, e pedir-lhe humildemente que tenha misericórdia de nós, perdoe
os nossos pecados, e nos salve.
Enquanto a Sua paz sobrenatural não penetrar o
nosso ser, e não percebermos que há uma nova inclinação em nós, que nos leva a
detestar o pecado, e a amar a Deus e a Sua Palavra, tendo os nossos olhos
espirituais abertos para entendê-la, devemos continuar orando para que isto
ocorra, comprovando assim, que fomos de fato salvos.
Quem realiza toda esta operação de salvação em nós
é o Espírito Santo, e sem a sua operação, nada disto será possível.
O Trabalho do Espírito Santo na Salvação
Em Atos 19, aprendemos que, quando o apóstolo Paulo
chegou a Éfeso, perguntou a alguns discípulos de João Batista. “Recebestes vós
o Espírito Santo quando crestes?" (V. 2) E nos é dito: "Responderam-lhe
eles: Não, nem sequer ouvimos que haja Espírito Santo."
É triste dizer que a história se repetiu. Sem
dúvida, os membros de centenas de chamadas "igrejas" (em que há o
modernismo e a dominação do mundo) aos quais se fizesse a mesma pergunta, eles seriam
obrigados a dar uma resposta idêntica.
A razão pela qual os discípulos de Éfeso nada
sabiam sobre o Espírito Santo era, provavelmente, porque tinham sido batizados
na Judeia pelo precursor de Cristo (João Batista) e depois retornaram a Éfeso,
onde permaneceram ignorantes quanto ao que aconteceu no dia de Pentecostes,
quando o Espírito Santo foi derramado em Jerusalém. Mas a razão pela qual os
membros da "igreja" nada sabem sobre a terceira Pessoa da Divindade,
é porque os pregadores sob os quais estão assentados para ouvi-los, estão
silenciosos em relação a Ele, ou lhes passando noções incorretas sobre quem
seja o Espírito Santo e o seu trabalho na nossa salvação.
Nem é muito melhor a situação, em muitas igrejas que
ainda são contadas como ortodoxas, ou seja, que sustentam corretamente a
doutrina bíblica. Embora a Pessoa do Espírito não seja repudiada e, embora o
nome dele possa ocasionalmente ser mencionado - ainda, com poucas raras
exceções, há algum ensinamento bíblico definitivo dado a respeito dos ofícios e
operações do divino Consolador. Quanto ao Seu trabalho na salvação, isso é
muito pouco compreendido, mesmo pelos professantes cristãos. (Nota do tradutor:
é muito comum, em nossos dias, neste século XXI, ver o Espírito Santo sendo
associado apenas a uma noção de que deve ser buscado para que a pessoa possa
ter sucesso profissional, financeiro, sentimental, e qualquer outro, menos
aquele para o qual nos foi enviado do céu como um dom, a saber, para operar e
desenvolver a nossa salvação, especialmente na obra de regeneração (novo
nascimento) e santificação (remoção do pecado e revestimento das virtudes de
Cristo), além, evidentemente de todo o Seu trabalho relativo à nossa
consolação, dando-nos firmeza de fé nas tribulações, sabedoria nos assuntos
comuns da vida, etc, em razão da Sua habitação em nós, e governo, instrução e
direção de nossas vontades.)
Na maioria dos lugares em que o Senhor Jesus ainda
é formalmente reconhecido como o único Salvador para os pecadores, o ensino
atual do dia é que Cristo tornou possível que os homens fossem salvos - mas que
eles mesmos deveriam decidir se eles deveriam ser salvos. A ideia agora que é tão
prevalecente é que Cristo é oferecido à aceitação do homem, e que ele deve
"aceitar Cristo como seu Salvador pessoal", "dar seu coração a
Jesus", "tomar sua posição para Cristo", etc., se o sangue da
Cruz deve ser de proveito pelos seus pecados. Assim, de acordo com esta
concepção, a obra final de Cristo, a maior obra de todos os tempos e em todo o
universo, depende da vontade inconstante do homem de saber se deve ser um
sucesso ou uma falha!
Entrando agora em um círculo muito mais estreito na
cristandade, em lugares onde ainda é admitido que o Espírito Santo tem uma
missão e um ministério em conexão com a pregação do Evangelho, a ideia geral
prevalece mesmo que, quando o Evangelho de Cristo é fielmente pregado, o
Espírito Santo convence homens de pecado e revela a eles a necessidade de um
Salvador. Mas, além disso, poucos estão preparados para isto. A teoria que
prevalece nestes lugares é que o pecador tem que cooperar com o Espírito, que
ele mesmo deve ceder ao "esforço" do Espírito, ou ele não pode ser
salvo. Mas, essa teoria perniciosa e insultante de Deus nega duas coisas:
argumentar que o homem natural é capaz de cooperar com o Espírito Santo, é
negar que ele está "morto em transgressões e pecados" porque um homem
morto é incapaz de fazer qualquer coisa. E dizer que as operações do Espírito
no coração e na consciência de um homem podem ser resistidas é negar a Sua
onipotência!
Antes de prosseguir, e para abrir o
caminho para o que se segue, algumas palavras devem ser ditas sobre "o meu
Espírito não contenderá sempre com o homem" (Gênesis 6: 3) e "vocês
sempre resistem ao Espírito Santo." (Atos 7:51). Agora, essas passagens se
referem à obra externa do Espírito, isto é, ao Seu testemunho através da
Palavra pregada. 1 Pedro 3: 18-20 mostra que foi o Espírito de Cristo em Noé
quem "se esforçou" com os antediluvianos quando o patriarca pregou a
eles. (2 Pedro 2: 5). Então, em Atos 7, as próximas palavras explicam v. 52:
"A qual
dos profetas não perseguiram vossos pais?" Como Neemias disse: "Não
obstante, por muitos anos os aturaste, e testemunhaste contra eles pelo teu
Espírito, por intermédio dos teus profetas; todavia eles não quiseram dar
ouvidos; pelo que os entregaste nas mãos dos povos de outras terras." (Neemias
9:30).
O trabalho externo do Espírito, o seu
testemunho através das Escrituras, quando cai no ouvido exterior do homem
natural, é sempre "resistido" e rejeitado, o que só demonstra solene
e completamente o fato de que "a mente carnal é inimizade contra Deus."
(Romanos 8: 7). Mas o que agora salientamos é que a Escritura revela outra obra
do Espírito Santo, uma obra que é interna, imperceptível e invisível. Este
trabalho é sempre EFICAZ. É o trabalho do Espírito na salvação, iniciado no
coração no novo nascimento, continuado ou sustentado durante todo o curso da
vida cristã na Terra, e concluído e consumado no Céu. É a isso que se refere Filipenses
1: 6: "Aquele que começou um bom trabalho em você irá completa-lo."
Isto é o que está em vista no Salmo 138: 8: "O Senhor aperfeiçoará o que
me concerne." Esta obra é realizada pelo Espírito em cada um dos
"eleitos de Deus", e neles somente. (Nota do tradutor: Entenda-se por
eleitos de Deus, aqueles que são separados por Ele para uma vida santificada,
que seja vitoriosa sobre o pecado, de forma a poder participar da natureza do
próprio Deus, e formar íntima familiaridade e comunhão com Ele. Todo aquele que
deseja isto, comprova para si mesmo que é eleito de Deus, pois é a estes que o
Pai procura para serem seus filhos e adoradores. Quem buscar a Deus por outros
motivos, poderá então estar em autoengano ou então receber auxílios temporais
que não podem lhe garantir a entrada na vida eterna, pois isto, é sempre pela
fé, pelo arrependimento, para uma vida santificada.)
Foi bem dito que "a parte e o ofício
do Espírito Santo na salvação dos eleitos de Deus, consiste em renová-los. Ele vivifica
os herdeiros da glória com uma vida espiritual, ilumina suas mentes para
conhecer Cristo, revela-Lhe, Fornece-O a seus corações e os leva a construir
todas as suas esperanças de glória eterna nEle. Ele expande o amor do Pai em
seus corações e lhes dá um senso real, em que a experiência de Seu trabalho
gracioso e eficaz em suas almas, os leva a dizerem com o salmista: "Bem-aventurado aquele a quem tu
escolhes, e fazes chegar a ti, para habitar em teus átrios! Nós seremos
satisfeitos com a bondade da tua casa, do teu santo templo." (Salmo 65:
4)."
Um dos delírios do dia, é que uma crença
evangélica em Cristo está dentro do poder do homem não renovado, de modo que,
ao realizar o que é ingenuamente chamado de "simples ato de fé", ele
se torna um homem renovado. Em outras palavras, supõe-se que o homem seja o
iniciante de sua própria salvação. Ele dá o primeiro passo, e Deus faz o resto;
ele "crê" e então Deus entra e o salva. Isso não é nada além de uma
negação vazia do trabalho do Espírito. Se há uma ocasião mais do que outra
quando o pecador necessita do poder do Espírito - é no início. "Aquele que
nega a necessidade do Espírito no começo, não pode acreditar em Seu trabalho
nos estágios posteriores, e não acredita na necessidade do trabalho do
Espírito. A dificuldade mais poderosa e insuperável está no início. Se o
pecador pode superar isso sem o Espírito, ele pode facilmente superar o resto.
Se ele não precisa do Espírito para capacitá-lo a acreditar, ele não precisará
dele para capacitá-lo a amar." (H. Bonar)
(Nota do Tradutor: Para a conversão
inicial que consiste na justificação (perdão de todos os pecados e aceitação na
condição de filho de Deus justificado, isto é, considerado justo por Ele, por causa
de ter sido revestido com a justiça de Cristo no momento da conversão) e na
regeneração (novo nascimento) do Espírito Santo, conforme Jesus falou sobre ela
a Nicodemos em João 3, o pecador deve confiar tão somente no trabalho que Jesus
fez por Ele morrendo e ressuscitando em seu lugar, e crer que Deus o salvará
inteiramente por pura graça e misericórdia, independentemente de qualquer obra
do penitente que dEle se aproxima com o coração contrito, sentindo a
necessidade de ser purificado e limpo de seus pecados. O que vem a seguir, a
saber, a necessidade da sua santificação, mediante a progressão de sua
transformação pela aplicação da Palavra de Deus pelo Espírito Santo, abrirá um
conflito permanente até a morte do crente, por causa das duas naturezas que
agora nele habitam, ou seja, a influência do velho homem, do corpo de pecado,
da carne, o que é a mesma coisa, para designar a antiga natureza pecaminosa, e
a nova influência da habitação do Espírito Santo que o inclina a amar a Deus, a
Sua vontade e Palavra. Por esta luta da carne contra o Espírito, e do Espírito contra
a carne, o crente é levado a perceber que há um trabalho real espiritual sendo
realizado em sua vida, pois sempre que se dispõe para a carne, a vida de Deus é
diminuída nele, e sempre que se dispõe para o Espírito, caminha em novidade de
vida, em verdadeira santificação.)
A obra do Espírito é aplicar a redenção
que o Senhor Jesus comprou para o Seu povo - e os filhos de Deus devem a sua
salvação tanto ao Espírito quanto a Cristo.
Em Tito 3:5, a salvação dos redimidos é
expressamente atribuída ao Espírito: "Não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos
feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da
regeneração e renovação pelo Espírito Santo." Se for perguntado, em que sentido dos
homens pode ser dito "salvos pela renovação do Espírito”, a resposta é
óbvia: há uma série de verdades para as quais nenhum vínculo pode faltar. Somos
salvos pelo divino propósito, porque Deus nos escolheu para a salvação; somos
salvos pela expiação, como o fundamento meritório de todos, somos salvos pela
fé, como o vínculo da união com Cristo, somos salvos pela graça, em contraste
com as obras realizadas; somos salvos pela verdade pela transmissão do
testemunho de Deus, e, como aqui, somos salvos pela renovação do Espírito
Santo, como produzindo fé no coração." (Smeaton)
REGENERAÇÃO é pelo Espírito Santo
"Ele vos vivificou, estando vós
mortos nos vossos delitos e pecados." (Efésios 2: 1). A vivificação
daqueles que estão mortos nas transgressões é obra da terceira Pessoa da
Trindade: "O que nasceu do Espírito é espírito". (João 3: 6) O homem
natural está morto espiritualmente. Ele está vivo no pecado e no mundo – mas
morto para Deus, alienado da vida de Deus. (Efésios 4:18). Se essa verdade
solene fosse realmente crida, haveria um fim da controvérsia sobre o assunto
atual. Um homem morto não pode "cooperar" com o Espírito, nem pode
"aceitar a Cristo". Em 2 Cor 3: 5 lemos: "Não que sejamos suficientes
para pensar cousa alguma." Isso é dito dos cristãos. Se o regenerado não
tem capacidade para "pensar" espiritualmente, ainda menos os não regenerados
(não nascidos de novo do Espírito) são capazes disto.
"O homem natural não recebe as coisas
do Espírito de Deus, porque são loucura para ele, nem pode conhecê-las, porque
elas são discernidas espiritualmente." (1 Cor. 2:14). O que poderia ser
mais simples? O "homem natural" caído em seu estado não regenerado. A
menos que ele nasça do Espírito, ele é completamente desprovido de
discernimento espiritual. Nosso Senhor expressamente declarou: "Exceto que
um homem nasça de novo, ele não pode ver o reino de Deus." (João 3: 3). O
"homem natural" não pode ver a si mesmo, a sua ruína, a sua
depravação, a imundície de sua própria justiça. Não importa o quão claramente a
verdade de Deus lhe é apresentada, sendo cego, ele não pode discernir o seu
significado, espiritualidade ou adequação à sua necessidade. Uma compreensão
espiritual do Evangelho é tão verdadeiramente devida à operação do Espírito
Santo - como Ele é o Autor da Revelação divina. A vida espiritual deve preceder
a visão espiritual, e o próprio Espírito deve entrar no coração antes que haja
vida. "E porei
em vós o meu Espírito, e vivereis." (Ezequiel 37:14)
O trabalho do Espírito na regeneração é um
milagre divino que é o resultado de Seu derramar de poder sobrenatural. Está vivificando
um cadáver espiritual; é a vida de uma alma morta. O próprio pecador não pode realizá-lo
por um ato de sua própria vontade mais do que ele poderia criar um universo.
Este milagre de graça é falado na Escritura como "a grandeza de seu poder
para nós os que cremos, de acordo com o funcionamento de seu poderoso poder,
que Ele operou em Cristo quando o ressuscitou dentre os mortos." (Efésios
1:19, 29). O mesmo poder que foi usado para ressuscitar Cristo dentre os mortos
é apresentado na regeneração. A ressurreição de Cristo é o padrão exemplar de
nossa ressurreição espiritual, segundo a qual, como o Espírito fez com Ele,
então, trabalha em nós uma obra conforme a sua ressurreição. Como a
ressurreição de Cristo é o primeiro passo para o seu reino e glória eternos, a
regeneração é a primeira introdução aberta a todas as bênçãos desse estado de
graça em que o filho de Deus agora é apresentado." (S.E. Pierce).
(Nota do tradutor: Este trabalho de
regeneração do Espírito Santo, transformando pecadores em filhos de Deus,
continua sendo realizado na Terra, todos os dias, desde que Ele foi derramado
no dia de Pentecostes, depois da ascensão de Jesus ao Céu. Este é o grande
milagre que todos devem buscar, pois Deus está disposto a concedê-lo a todo o
que crer em Jesus. Ressurreição de corpos, restauração de visão a cegos
físicos, cura de coxos, podem ter sido reduzidos grandemente em número desde
que a Palavra de salvação do Evangelho foi confirmada por tais sinais,
especialmente por meio dos apóstolos, mas o grande propósito da vinda de Jesus
a este mundo, continua em marcha, confirmando, que Ele se manifestou, antes de
tudo, para a salvação de nossas almas.)
APTIDÃO para o Céu é pelo Espírito Santo
Nosso título para a
glória no Céu é unicamente pela Justiça de Cristo; nossa aptidão pessoal para
isso está na nossa regeneração pelo Espírito Santo. Toda a nossa aptidão para o
estado celestial foi forjada em nós na regeneração, a qual foi instantânea, e
aconteceu de uma vez para sempre na primeira vez que tivemos um encontro
pessoal com Jesus, na conversão – a propósito, simultaneamente, e da mesma
maneira, ocorreu a nossa justificação. Escrevendo aos Colossenses regenerados,
o apóstolo disse: "Dando graças ao Pai, que nos fez aptos a participar da
herança dos santos na luz". E então ele mostra em que esta
"aptidão" consiste: "Quem nos libertou do poder das trevas e nos
transpôs para o reino de Seu Filho amado" (v. 13). Seu título está fora
deles; Sua "aptidão" está dentro deles. O Espírito Santo criou neles
uma natureza que é capacitada para conhecer e desfrutar o Deus Triúno.
Em nosso estado não regenerado (de não
convertidos), estávamos completamente sob o poder das trevas, isto é, do pecado
e de Satanás, e não éramos menos capazes de livrar-nos dessa escravidão - do
que Jonas conseguiria escapar do ventre do grande peixe. Nós estávamos "sentados
na escuridão" e "na região e sombra da morte". (Mateus 4:16).
Nós éramos "escravos", "encadeados" e em
"prisão". (Isaías 61: 1). Nós estávamos "sem esperança, e sem
Deus no mundo". (Efésios 2:12). Deste estado terrível, toda alma renovada
foi "libertada" pelo poderoso, soberano e invencível poder do
Espírito Santo, e foi "trazida para o reino do amado Filho de Deus".
Então, cada leitor renovado tribute homenagem, adoração e louvor iguais ao
Espírito Santo quanto ao Pai e ao Filho.
JUSTIFICAÇÃO e SANTIFICAÇÃO são do Espírito
Santo
"E tais fostes alguns de vós; mas
fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do
Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus." (1 Coríntios 6:11). Esta é
uma Escritura notável, e pouco ponderada. Seríamos levados muito longe do nosso
tema se tentássemos uma exposição completa dela. Duas coisas aqui apenas
apontaríamos: as três bênçãos salvadoras enumeradas neste versículo são
referidas, primeiro, ao "Nome" ou aos méritos de Cristo como Sua
própria causa de aquisição; e depois ao Espírito Santo que faz nos eleitos a
Sua própria aplicação eficaz. Ele é quem ilumina suas mentes e abre seus
corações para assumir e ter certeza de que eles são "lavados, santificados
e justificados".
A FÉ é do Espírito Santo
Um servo de Deus
profundamente instruído escreveu uma vez a um jovem pregador: "Nunca
representem a fé como um ato tão "simples" de que a obra do Espírito
não é necessária para produzi-la". No entanto, isso é o que foi comumente
feito. Um grande número de evangelistas dos últimos cem anos mostraram um zelo
que não era conforme o conhecimento (Romanos 10: 2), e manifestaram uma preocupação
muito maior para ver as almas salvas do que pregar a verdade de Deus em sua
pureza. Em seus esforços para mostrar a simplicidade do "caminho da
salvação", perderam de vista as dificuldades da salvação (Lucas 18:24; 1
Pedro 4:18): na sua pressão sobre a responsabilidade do homem de acreditar,
eles ignoraram o fato de que ninguém pode acreditar até o Espírito Santo transmitir
fé. (Nota do tradutor: o que deve nos levar a orar em favor daqueles que
necessitam de salvação, para que o Espírito Santo opere em seus corações,
conduzindo-os a crerem em Cristo para serem salvos.) Apresentar Cristo ao
pecador e depois jogá-lo de volta à sua própria vontade, é zombar dele em sua
impotência; a obra do Espírito no coração é uma necessidade tão real e urgente,
como foi a obra de Cristo na Cruz. Que o coração realmente acredite e confie em
Deus é um ato espiritual, um "bom fruto", e se o homem caído possui o
poder inerente para fazer o bem, então, apresentar-lhe a Expiação é
completamente desnecessário.
(Nota do tradutor: este é outro ponto
fundamental para que haja salvação. Enquanto o Espírito Santo não conduzir o
não ainda regenerado a enxergar espiritualmente o quanto é desprovido de
justiça própria e qualificações diante de Deus, que o vê como um coitado,
pobre, cego, nu, miserável, pecador, uma árvore ruim que necessita ser feita
boa, para que possa dar bom fruto espiritual, ele não poderá ser convertido.
Não é fácil livrar alguém da autojustiça. Se o Espírito não fizer este
trabalho, o pecador continuará se achando justo aos olhos de Deus,
independentemente do modo que viva, sempre se comparando e se julgando mais
justo que outros, por não cometer os mesmos grosseiros pecados que eles
cometem. Todavia, é a sua condição de ser pecador que é abominável aos olhos de
Deus. Ainda que nada fizesse, e ficasse parado em um canto, não pode ser
aceitável a Deus, se não for justificado por Ele por meio da fé em Cristo. É
tão somente por causa de Jesus, e da obra que Ele fez por nós, que somos
aceitáveis a Deus, e não por qualquer coisa boa que exista em nós, que a
propósito não há nenhuma habitando em nossa natureza terrena decaída no pecado.
Por isso somos salvos pela fé – o meio designado por Deus, porque a fé exclui
qualquer obra ou ato nosso para a nossa salvação, e dá toda a honra e glória à
graça de Jesus.)
Não há um termo intermediário entre a vida
e a morte; nenhum estágio intermediário entre conversão e não conversão. A
doação da vida eterna é instantânea; nós somos "criados em Cristo
Jesus". (Efésios 2:10).
Quão perversamente o homem inverte a ordem
da verdade de Deus. Eles pedem aos pecadores mortos que venham a Cristo,
supondo que eles tenham o poder ou vontade de fazê-lo. Considerando que Cristo
declarou clara e enfaticamente que "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não
o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." (João 6:44). Ah, é o
Espírito que deve trazer Cristo a mim, revelá-lo em mim antes que eu possa
realmente conhecê-Lo. "Vir a Cristo" é um ato interno e espiritual,
não externo e natural. Verdadeiramente, "o homem natural não recebe as
coisas do Espírito de Deus, nem pode conhecê-las, porque elas são discernidas espiritualmente."
(1 Coríntios 2:14). Não podemos "vir a Cristo" até nascer de novo.
(João 3: 3).
A salvação é algo mais que um fato
objetivo que nos foi apresentado; é uma operação subjetiva operada dentro de
nós. Como não é pelo discernimento natural que eu descubro minha necessidade de
Cristo, então não é por minha força natural e vontade que eu "venho"
a Ele. Deve haver vida e luz (visão) antes que possa haver movimento. Um bebê
deve nascer, e ter visão e força, também, antes que ele seja capaz de
"vir" para seu pai. Crer em Cristo é um ato sobrenatural, o produto
do poder sobrenatural. Pode-se, por meio de frases gramaticais e proposições das
Escrituras, ensinar-se a verdade espiritual a alguém, mas ele não pode iluminar
sua mente com respeito a isso. Ele pode dizer a um homem que Deus é santo - mas
ele não pode lhe conferir a consciência de que Deus é santo. Ele pode dizer-lhe
que o pecado é infinitamente odioso - mas ele não pode gerar nele um sentimento
ou percepção no coração de que é assim.
Para aqueles que estavam bem
familiarizados com Ele externamente, Cristo disse: "Vocês não Me conhecem
nem a meu Pai." (João 8:19). Um homem pode "conhecer" o caminho
da justiça "(2 Pedro 2:21), teoricamente, intelectualmente - mas isso é um
assunto muito diferente de um experimento espiritual em conhecê-lo. "Ora, temos o mesmo espírito de
fé, conforme está escrito: Cri, por isso falei; também nós cremos, por isso
também falamos."
(2 Coríntios 4:13). Aqui é dito do Espírito de Deus segundo a obra que Ele
realiza.
O título "Espírito de fé" intima
que o Espírito Santo é o Autor da fé, pois todos os homens não têm fé, isto é,
não é dado a todos e não pertence a todos (2 Tessalonicenses 3: 2). A
designação significa que a causa da fé é o Espírito Santo que produz esse
efeito por um chamado invisível, um convite que acompanha, de acordo com o bom
prazer de Sua vontade, a proclamação externa do Evangelho. A fé, portanto, da
qual Ele é o Autor, não é afetada pela própria força do ouvinte - ou pela
vontade efetiva do ouvinte ... A operação especial do Espírito inclina o
pecador, que não estava disposto a receber os convites do Evangelho, pois é somente
Ele, agindo como o Espírito da fé, que remove a inimizade da mente carnal para
as doutrinas da cruz que, senão por isso, lhe pareceriam desnecessárias, ou
tolas ou ofensivas." (Smeaton).
Escrevendo aos santos filipenses, o
apóstolo declarou: "A você é dado ... crer nele". (1:29). A fé é o
"dom" de Deus como Efésios. 2: 8,9 afirma positivamente. Não é um dom
oferecido para a aceitação do homem, mas, de fato, conferido aos filhos de Deus.
Ela é transmitida a cada um dos "eleitos de Deus" em seu tempo
designado pelo Espírito Santo. Não é produzida pela vontade da criatura, mas é
"fé da operação de Deus" (Col 2:12). É a "obra" do
Espírito, por Sua ação sobrenatural. O Espírito Santo é dado por Cristo para
este fim, para que cada um daqueles para quem Ele morreu possa ser levado a um
conhecimento salvador da verdade; portanto, somos informados de "Quem por
Ele (não por nossas vontades) acredita em Deus". (1 Pedro 1:21). Em 1 Cor
3: 5 é dito: "Pelos
quais crestes, e isso conforme o que o Senhor concedeu a cada um." Então em Efésios
6:23 é declarado: "Paz seja
com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo." O próprio
grau e força de nossa fé é determinado unicamente por Deus: "Porque pela graça que me foi
dada, digo a cada um dentre vós que não tenha de si mesmo mais alto conceito do
que convém; mas que pense de si sobriamente, conforme a medida da fé que Deus,
repartiu a cada um."
(Rom12: 3) Se, pela graça, você é verdadeiramente um "crente", que o
leitor dê a Deus, o Espírito, honra, glória e louvor por isso.
(Nota do tradutor: Vemos quão errada e
prejudicial é a noção generalizada que muitos têm de que é pela fé que eles têm
em Deus que serão salvos. A ênfase está na capacidade deles crerem, e não raro,
isto não passa de crer que Deus exista. Este tipo de fé não é a que salva,
senão somente a que foi citada anteriormente, que é obra do Espírito Santo em
nossas mentes e corações, levando-nos a crer na obra que Jesus fez para a nossa
salvação, bem como em amar os Seus mandamentos, tendo verdadeira honra e apreço
pela Lei de Deus, para que seja escrita em nossas mentes e corações,
progressivamente, à medida que vamos nos despojando do pecado em todas as suas
formas, e nos santificando mais e mais, vivendo de acordo com os preceitos de
Deus. Somente a verdadeira fé que salva, que é um dom do Espírito, e obra sua
em nós, pode operar tais coisas espirituais, e transformar-nos verdadeiramente
em pessoas santas, que vivem conforme a descrição do seu comportamento nas
Escrituras.)
Salvação
é totalmente APLICADA pelo Espírito Santo
"Mas nós devemos sempre dar graças
a Deus por vós, irmãos, amados do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o
princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade." (2
Tessalonicenses 2:13). A missão do Espírito na terra é aplicar aos eleitos de
Deus a redenção proposta por Deus Pai e comprada por Deus Filho para eles. O
Espírito Santo está aqui para cumprir nas almas dos herdeiros da glória - os
frutos do trabalho da alma de Cristo. Isto Ele faz por meio do Evangelho pelo
ministério escrito e oral da Escritura, pois a Palavra de Deus é o único
instrumento que ele emprega ou usa. A Palavra de Deus é "a palavra da
vida" (Filipenses 2:16) - mas ela só se torna tal na experiência da alma
individual pela operação e aplicação imediata do Espírito de Deus. Como Paulo
escreveu aos santos de Tessalônica: "Pois nosso Evangelho não veio a vós
apenas em palavras, mas também em poder e no Espírito Santo." (1
Tessalonicenses 1: 5). Isto não é negar a eficácia da própria Palavra, mas é
insistir que a agência direta do Espírito no coração é absolutamente necessária
para a recepção da Palavra. A Palavra é uma lâmpada para o nosso caminho, mas
deve haver uma abertura dos olhos de nossos entendimentos pelo Espírito, antes
que possamos ver sua luz.
A salvação dos eleitos de Deus foi
proposital, planejada e provida por Deus Pai antes da fundação do mundo. Foi
adquirida e assegurada pela encarnação, obediência, morte e ressurreição de
Deus Filho. É divulgada, aplicada e forjada nos crentes por Deus Espírito Santo.
Assim, "A salvação é do Senhor" (Jonas 2: 9), e o homem não tem parte
nela em qualquer ponto quanto ao seu planejamento, propósito e provisão. O
filho de Deus não é o ganhador da salvação, mas o destinatário dela. A fé não é
uma condição que o eleito pecador deve cumprir para obter a salvação, mas é o
meio e o canal através dos quais ele pessoalmente desfruta da salvação do Deus
Triúno.
(Nota
do Tradutor: Não poderíamos deixar de fazer um fechamento deste trabalho, sem
dizer que há uma diferença essencial entre a Lei de Deus e o Evangelho. Ambos
são a boa, perfeita, santa e agradável vontade de Deus revelada, mas o
Evangelho é tudo aquilo que foi provido em Cristo, e que é operado pelo
Espírito Santo, para que sejamos livrados da condenação eterna, por termos
nossos pecados perdoados, para sermos justificados por Deus e regenerados pelo
Espírito. Daí, ser o significado da palavra Evangelho, uma proclamação de boas
notícias, as boas notícias de Deus para o pecador de que há uma salvação em
Cristo disponível para ele. A Lei, revela a nossa condição caída e a
consequente necessidade de um Salvador capaz de nos libertar da citada condição.
Ela também revela qual é o caráter de Deus, o qual nos convém imitar, pela
aplicação do mesmo pelo Espírito Santo às nossas vidas. É com um Deus santo que
temos que lidar. Um Deus justo que não inocenta o culpado, mas que pode
perdoá-lo, caso se arrependa e aceite o castigo e a condenação de Cristo na
cruz, em seu lugar, como sendo o castigo que lhe era devido e não a Ele, para
que uma vez absolvido da condenação do pecado, possa servir a Deus em novidade
de vida, já não mais governado pelo pecado, mas pela graça de Jesus.
Como tudo na salvação é por Cristo, e para
Cristo, então, podemos entender que ninguém poderá entrar no reino do Céu sem
que tenha humildade de espírito, sem que lamente por ser pecador, sem que se
disponha a suportar perseguições e injustiças por causa do Seu amor a Cristo,
sem que seja um promotor da paz do evangelho pelo seu testemunho a outros, sem
ser misericordioso com a mesma misericórdia que recebeu da parte de Deus na sua
salvação, sem que seja submisso à vontade de Deus com longanimidade e mansidão,
sabendo que não pode ser ou ter tudo isto sem que haja um trabalho do Espírito
Santo na sua regeneração e santificação.)
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