Por
Wilhelmus à Brakel
Jul/2017
O
reconhecimento de todas as perfeições de Deus, e o exercício de todas as
virtudes para com Deus se unem em oração – que é um necessário, proveitoso,
santo e santificador dever de um cristão. Por conseguinte, o exercício da
religião é compreensivamente expresso em como orar e clamar a Deus: “daí se
começou a invocar o nome do SENHOR” (Gênesis 4.26).
Desde que a oração procede de uma variedade de movimentos da
alma, ela também é referida por várias designações, como (teffila), que
significa oração (Salmo 4.2); (techinna), que significa súplica (Salmo 6.10);
(siach), que quer dizer queixa (Salmo 64.1); (tse’naqah), que significa clamar
ou chorar (Salmo 9.13); (deesis), que
significa oração (Tiago 5.16) ou súplica (1 Timóteo 2.1); (hiketeria), que quer
dizer súplica (Hebreus 5.7); enteuksis)
(1 Timóteo 4.5), (euchomai) (Tiago 5.16), e (proseuche) (Colossenses 4.2),
todas significando oração; e (proskuneo), que significa cultuar (Mateus 4.10).
As várias formas de oração na Escritura:
Primeiro, há a adoração. Isso ocorre quando, ao ver e reconhecer
as perfeições de Deus, reverentemente, curvamo-nos diante do Senhor e
rendemos-Lhe honra e glória, seja sem palavras, com pensamentos interiores, ou
por meio de palavras externas – nós – falamos da gloriosa honra de Sua
majestade, e de Suas maravilhosas obras (Salmo 145.5). Este é também o trabalho
dos anjos em relação a Cristo: “E todos os anjos de Deus o adorem” (Hebreus
1.6).
Segundo, há a invocação. Isso ocorre quando pedimos alguma coisa
a Deus, seja a libertação de algum mal opressor ou iminente, ou o recebimento
de algum benefício para o corpo e a alma. “Invoca-me no dia da angústia; eu te
livrarei” (Salmo 50.15); “Ele me invocará, e eu lhe responderei... Saciá-lo-ei
com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação” (Salmo 91.15,16).
Em terceiro lugar, há a súplica. Isso ocorre quando, com muita
humildade e por apresentar muitos argumentos, perseveramos em oração: “Não
obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro” (Salmo
31.22); “chorou e lhe pediu mercê” (Oséias 12.4).
Em quarto lugar, há o gemido. Isso ocorre quando não podemos
achar palavras para expressar nossos desejos ou os assuntos nobres que temos em
vista e desejamos ardentemente. O apóstolo os chama de “gemidos inexprimíveis”
(Romanos 8.26), e o salmista diz: “Na tua presença, Senhor, estão os meus
desejos todos, e a minha ansiedade não te é oculta” (Salmo 38.9).
Em quinto lugar, há as orações públicas ou comuns. Isso ocorre
quando a congregação apela a Deus em qualquer lugar de reunião pública ou em
uma casa privada, onde alguém ora de forma audível: “mas havia oração
incessante a Deus por parte da Igreja a favor dele” (Atos 12.5). Orações que
são oferecidas quando alguns se reúnem para orar em conjunto, são também
consideradas orações comuns: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre
vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura,
pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde
estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus
18.19,20).
Em sexto lugar, há as orações privadas. Isso ocorre quando
levamos nossos desejos particulares diante de Deus. São elas:
(1) Orações jaculatórias, que são enviadas ao céu, a Deus,
durante o nosso trabalho, enquanto caminhamos, ou durante uma conversa com
pessoas. Dessa forma, Neemias orou a Deus, enquanto falava com o rei (Neemias
2.4), e Moisés, que orou enquanto estava diante do Mar Vermelho com Israel
(Êxodo 14.13);
(2) Orações sazonais, que por sua vez, são de caráter ocasional,
quando um incidente em particular nos leva a procurar a solidão, a fim de orar;
ou orações regulares, isto é, nossos tempos devocionais designados pela manhã,
ao meio-dia, e à noite. Ambas, jaculatórias bem como sazonais são:
[a] Mentais, quando levamos nossos desejos diante de Deus por
nos exercitarmos mentalmente, e por meio da reflexão e da contemplação. Isso
ocorre sem palavras, como observado nos exemplos de Neemias e Moisés.
[b] Orais, que ocorrem quando expressamos nossos desejos com
palavras, mesmo se formarmos e pronunciarmos palavras sem usar a voz:
“porquanto Ana só no coração falava; seus lábios se moviam, porém não se lhe
ouvia voz nenhuma” (1 Samuel 1.13).
Pode ser também que expressemos nossos desejos com a voz,
fazendo isso mais alto ou baixo,
dependendo de quão longe ou perto estamos das pessoas: “De manhã,
SENHOR, ouves a minha voz” (Salmo 5.3). Não é à toa que os romanistas elevam as
orações mentais acima das orações orais, uma vez que suas orações não são nada
por via oral, mas recitações de fórmulas de orações, Pai Nosso e Ave Marias.
Em sétimo lugar, há a oração intercessória. Isso ocorre quando
desejamos algo de Deus para os outros.
Pode ocorrer para a igreja em geral: “Ó Deus, redime a Israel de
todas as suas tribulações” (Salmo 25.22);
“Faze bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de
Jerusalém” (Salmo 51.18); “Orai pela paz de Jerusalém!” (Salmo 122.6). Também
ocorrer em lugar de indivíduos determinados: “Chame os presbíteros da igreja, e
estes façam oração sobre ele” (Tiago 5.16); “Irmãos, orai por nós” (1
Tessalonicenses 5.25); “Orai uns pelos outros” (Tiago 5.16); “Orai pelos que
vos perseguem” (Mateus 5.44); “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática
de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os
homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade”
(1 Timóteo 2.1,2).
Muitos, por diversas vezes, abusam dessa prática em nossos dias
dizendo uns aos outros, em cima da despedida: “Recomendo-me às vossas orações”,
“Lembre de mim em suas orações”, “Peço suas orações intercessórias”, ou “Ore
por mim”. Comumente, fazem isso como expressão de saudação. Além do fato, que é
impossível lembrarmos de todos aqueles que fazem esse pedido. É necessário
sabermos especificamente que estamos orando em favor de outra pessoa. A pessoa
que faz a solicitação deveria ser, em circunstâncias específicas, revelada
àqueles cujas orações intercessórias são solicitadas. Só então, alguém pode
solicitar interceder por outro, e aquele a quem o pedido tenha sido feito é
obrigado a fazê-lo, para que Deus, sendo buscado por muitos, seja também
agradecido por muitos. No entanto, a tendência de fazer esses pedidos é
frequentemente não mais do que um costume, e isso pode fazer perder de vista a
intercessão do Senhor Jesus.
Não pode haver intercessão pelos mortos, pois eles já estão onde
estarão por toda a eternidade e continuarão a estar; purgatório nada mais é do
que o inferno em si mesmo. Também não pode haver intercessão por aqueles que
cometeram o pecado contra o Espírito Santo: “Há pecado para a morte, e por esse
não digo que rogue” (1 João 5.16).
Em oitavo lugar, há a oração imprecatória. Aqui devemos ser
cautelosos e não ser levados por nossas próprias paixões, como ocorreu com os
discípulos de Cristo, que desejaram orar para que o fogo consumisse os
samaritanos que não os receberam (Lucas 9.54). Nunca devemos orar pela perdição
eterna de alguém, nem pela destruição do corpo de alguém que é nosso inimigo
pessoal. Também não podemos fazer isso em relação àqueles que ofendem a
congregação do Senhor. No entanto, se o Senhor nos move a orar contra os que
oprimem e perseguem a congregação de uma maneira extraordinária, então, podemos
orar a Deus para que os converta, e se não for o caso, para que Deus os puna,
para que não sejam capazes de oprimir a igreja. Seria, portanto, evidente, que
o Senhor toma vingança contra o sangue de sua igreja e, além disso, Deus seria
glorificado nisso: “Enche-lhes o rosto de ignomínia, para que busquem o teu
nome, SENHOR. Sejam envergonhados e confundidos perpetuamente; perturbem-se e
pereçam. E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo sobre
toda a terra” (Salmo 83.16-18).
Em nono lugar, há a ação de graças. Tal ocorre quando
reconhecemos com alegria a bondade de Deus manifestada em todas as bênçãos
temporais e espirituais concedidas a nós. Deve ser feita por bênçãos
específicas. Este reconhecimento motivará o suplicante a orar fervorosamente
por aquilo que, no presente, ele deseja. Foi o que Jacó fez em Gênesis 32.9-12,
assim como a igreja, no Salmo 75.2-5. Portanto, ação de graças e oração estão
frequentemente unidas: “em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as
vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Filipenses
4.6); “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações,
intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens” (1 Timóteo 2.1).
A NATUREZA OU ESSÊNCIA DA ORAÇÃO
Em nosso tratamento do assunto da oração iremos, primeiramente,
mostrar qual é a sua natureza, e, então, moveremos você ao exercício da oração.
A fim de expandir a verdadeira essência da oração, iremos apresentar: 1) sua
definição (sobre a qual discorreremos abaixo); 2) suas características; 3) suas
ocorrências externas; e 4) o exercício da oração, consistindo em preparação,
prática e reflexão.
Oração é a expressão de santos desejos a Deus, em nome de
Cristo, que, por meio da operação do Espírito Santo, procede de um coração regenerado,
junto com o pedido do cumprimento desses desejos. Cada palavra possui
importância enfática e necessita ser desenvolvida como abaixo.
Oração é a expressão de desejos. Com esta frase desejamos
expressar qual é a atividade da alma na oração.
Há total envolvimento, isto é, o intelecto, vontade, paixões,
olhos, boca, mãos, joelhos, a alma inteira, e o corpo inteiro estão envolvidos.
(1) O suplicante está focado em si mesmo. Ele conhece, vê e
percebe sua deficiência. Ele perece de fome e deseja ser saciado. Ele percebe
sua impotência – sua inabilidade para ajudar a si mesmo. Ele também sabe que
nenhuma criatura pode lhe conceder isso e ele também não deseja receber isso da
criatura. Somente Deus pode dar isso a ele, mas ele sabe e percebe com tristeza
e angústia de coração sua indignidade, odiosidade e abominação. Desse modo,
Deus pode não ser movido a ajudá-lo por sua disposição – de fato, isto logo
provocaria Sua ira. Ele percebe que não é digno – nem de longe – de se dirigir
a Deus, pois sua oração é tão pecaminosa e tão deficiente que por ela, não pode
mover a Deus para ouvi-lo e ajudá-lo. Ele está focado tão intensamente sobre
sua disposição que desfalece em miséria e desespero, e não tem esperança em
nada dentro de si ou que procede de si.
(2) O suplicante está focado em Deus, mantendo o Senhor diante
dele como sendo majestoso, onisciente, glorioso, imanente, santo – bem como
gracioso em Cristo, misericordioso, e onipotente. Aqui ele se curva em
humildade e treme devido ao respeito que tem. Aqui ele toma liberdade para
receber a Cristo e fazer conhecer seus desejos em e por meio dEle, sabendo que
Deus é glorificado em ouvir e socorrer pecadores arrependidos.
(3) O suplicante está focado nos assuntos que ele deseja – seja
a libertação de um sofrimento que o oprime ou o ameaça, ou uma bênção para a
alma ou o corpo. Ele percebe quão necessário e benéfico seria para ele ou ser
libertado disso ou receber a bênção. Ele sabe o que deseja, vividamente reflete
sobre isso, está encantado com isso, e anseia por isso.
O suplicante confunde estas três questões. Em um movimento ele
foca em si mesmo, Deus e o assunto em questão. Estando nesta disposição, ele
não apenas se apresenta diante de Deus como tal, mas também dá expressão aos
seus desejos diante do Senhor. A expressão de desejos é vividamente apresentada
na Escritura, transmitindo-nos tanto o assunto em si, como também todos aqueles
que estão ou estiveram em tal disposição. Além disso, a Escritura desperta
inclinações para tal disposição – sim, frequentemente faz com que uma alma
esteja disposta. Aquilo que denominamos como uma “expressão”, a Escritura
denomina:
(1) um derramamento: “... porém venho derramando a minha alma
perante o SENHOR” (1 Samuel 1.15);
(2) “Oração do aflito que, desfalecido, derrama o seu queixume
perante o SENHOR” (Salmo 102.1);
(3) uma declaração: “Eu tenho declarado meus caminhos, e tu me
ouviste” (Salmo 119.26);
(4) uma elevação: “A ti, SENHOR, elevo a minha alma” (Salmo
25.1);
(5) um olhar para cima: “De manhã dirigirei a ti a minha oração
(isto é, organizar tudo de forma tão organizada, do mesmo modo que um exército
é organizado em linhas e divisões) e olharei para cima” (Salmo 5.3)
(6) uma conversa: “Quando tu disseste: Buscai a minha face, meu
coração disse a ti: Tua face, Senhor, eu buscarei” (Salmo 27.8)
(7) um choro, um suspiro: “Eles clamaram a ti, e foram libertos”
(Salmo 22.5); “Como a corsa suspira por ribeiros de água, assim suspira a minha
alma por ti, ó Deus” (Salmo 42.1);
(8) uma busca com todo o nosso coração e todo o nosso desejo:
“de todo o coração, eles juraram e, de toda boa vontade, buscaram ao SENHOR” (2
Crônicas 15.15).
Todas estas expressões indicam o envolvimento intenso da alma na
oração. Quando a alma intenta orar, frequentemente, ela pode não encontrar
palavras – sim, todas as palavras são tão inferiores e inadequadas para
expressar o desejo e a intensa disposição da alma. Por conseguinte:
(1) Ela faz isso por simplesmente manifestar sua disposição ao
Senhor;
(2) Algumas vezes ela o faz através de um suspiro, que transmite
mais do que ela pode expressar;
(3) Quando a alma é mais dilatada, ela começa a formular
palavras, ainda que de forma estritamente mental, ou silenciosamente, com a
boca, apenas movendo os lábios sem fazer barulho, ou ainda com um suave
sussurro;
(4) Como os desejos aumentam em intensidade, a voz também se
torna mais alta, e se está tão longe das pessoas, de maneira que elas não podem
ser ouvidas, haverá um chamado;
(5) E se as emoções se tornam mais abundantes, haverá lágrimas,
especialmente se a esperança e o amor se tornam mais fortes. Quão maravilhoso é
quando um homem, que não é movido facilmente às lágrimas e se envergonharia se
chorasse (sendo isto incompatível com a sua dignidade), algumas vezes se
derrete diante do Senhor, em lágrimas, que correm pelo rosto como rios! A alma
nunca esteve mais em seu ambiente do que quando ela foi suave e capaz de chorar
de uma forma sincera. Jó, um homem que não era emotivo, foi capaz de chorar:
“Clamo a ti” (Jó 30.20). Davi, que era um herói valente, que tinha o coração de
um leão, chorou diante do Senhor como uma criança: “todas as noites faço nadar
o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Salmo 6.6); “não te emudeças à vista
de minhas lágrimas” (Salmo 39.12). O bravo e respeitado Paulo, comumente orava
com lágrimas: “servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações”
(Atos 20.19).
ORAÇÃO: A EXPRESSÃO DE SANTOS DESEJOS
Nós denominamos oração como sendo uma expressão de desejos – não
uma expressão de assuntos. Uma pessoa não convertida que possui um conhecimento
crítico de assuntos espirituais, e que, além disso, é eloquente, tem uma voz
expressiva, e tem controle sobre suas emoções, pode ter uma percepção da
necessidade e da beleza dos assuntos espirituais (embora de uma forma mais
natural e como se relacionada com as questões naturais) e apresentá-los em
oração de uma forma extremamente emocional e triste. Sim, ela pode agitar suas
emoções a tal ponto que pode falar em lágrimas sobre estes assuntos. Isto é
particularmente verdadeiro quando ela tem conhecimento que está sendo ouvida ou
pode ser ouvida; ou, se ela conduz à oração em uma reunião onde ela pode se
tornar agradável por tais expressões e lágrimas, de modo que parece ser muito
espiritual, estar muito perto de Deus, e ser inflamada com santo zelo – e ainda
assim, não é nada mais do que uma obra natural. Por isso, refiro-me à oração
como expressão de desejos, e não de assuntos. Mas o homem é um vaso vazio que
deve obter seu enchimento em outra parte – a partir de uma fonte externa a si
mesmo. Para este fim o Senhor deu ao homem a capacidade para desejar e dar
expressão aos seus desejos. A força dos seus desejos é proporcional à medida
que ele é sensível à sua deficiência, à magnitude e caráter desejável dos
assuntos que, em seu julgamento, podem satisfazê-lo, e à probabilidade de que
eles sejam obtidos. Ele se esforça para expressar esses desejos de acordo com
isso. No entanto, isso não significa necessariamente, tornar os desejos santos,
e, portanto, não nos limitamos a nos referir à oração como uma expressão de
desejos.
Em vez disso, a oração é uma expressão de santos desejos.
Podemos realmente desejar assuntos temporais de uma forma espiritual, e os
assuntos espirituais de uma forma carnal. Os desejos são carnais quando se
relacionam com o pecado, ou se desejamos boas coisas com uma motivação
pecaminosa, a fim de ganhar honra, amor, favor, vantagens e prazer. Desejamos
assuntos temporais e espirituais de uma forma espiritual quando é lícito
desejar estas coisas e as desejamos para melhor servirmos a Deus com alegria e
zelo – isto é, quando desejamos aqueles assuntos do modo que descrevemos
anteriormente, e de um modo que neles pode-se observar, reconhecer e louvar a
graça, a bondade, socorro e poder de Deus, encontrando prazer em fazer isto.
Chamamos oração de uma expressão de santos desejos dirigidos a
Deus. Nós, então, olhamos para além de todas as criaturas – tanto boas como más
– sabendo que elas não são capazes de ajudar. E mesmo que elas fossem capazes
de ajudar, nunca desejaríamos orar a elas. Não desejamos ser ajudados por
ninguém a não ser por Deus, porque O amamos e não queremos dar a sua honra a
outrem.
(1) É idolatria servir àqueles que por natureza não são deuses
(Gálatas 4.8);
(2) Deus quer que clamemos apenas a Ele: “Invoca-me” (Salmo
50.15);
(3) Apenas a oração tem uma promessa associada a ela: “E
acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Atos
2.21);
(4) Somente Deus tem as perfeições exigidas para ser adorado.
Aquele que ora corretamente, buscando glorificar a Deus em oração como o Único
que é digno de adoração; a Única fonte de todas as boas dádivas; o Único
onisciente que conhece o coração e a mente do Espírito; o Único onipotente para
quem nada é demasiado maravilhoso; o Único que é bom, misericordioso, gracioso,
e o Único que se deleita na misericórdia; o Único que espera que alguém venha a
Ele para que lhe seja gracioso; e o Único que é verdadeiro e prometeu ouvir e
dar. É por esta razão que o suplicante se volta para o Senhor, prostra-se
diante dEle com humildade e reverência, apresenta suas necessidades e suplica
pelo cumprimento dos seus desejos, e, então, espera no Senhor. É seu prazer e
alegria adorar a Deus.
A ORAÇÃO DEVE SER OFERECIDA EM NOME DE JESUS CRISTO
A oração a Deus deve ser oferecida em nome de Jesus Cristo: “...
e o ramo que tu fizeste forte para ti mesmo” (Salmo 80.15); “... por amor do
Senhor” (Daniel 9.17); “Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei”
(João 14.14); “... a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele
vo-lo conceda” (João 15.16).
(1) “Em nome de” algumas vezes significa por amor de alguém. “E
quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe” (Mateus
18.5). Portanto, orar em nome de Cristo é o mesmo que dizer, “Senhor, Tu amas
Teu Filho, Tu tens prazer com o Seu sacrifício, e Teu Filho me ama e eu O amo.
Agora, oro por causa do amor que tens por Teu Filho, para que Tu
me ouças e me conceda o meu desejo”.
(2) Às vezes “em nome de” significa sob o comando de: “Nós vos
ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo” (2 Tessalonicenses 3.6).
Então, significa algo como dizer: “Teu Filho, que é o meu Fiador com
Tua aprovação, enviou-me a Ti, e ordenou-me que Te invocasse e
pedisse tudo o de que tenho necessidade.
Isto me dá coragem para, humildemente, fazer este pedido”.
(3) Algumas vezes, e até, mais frequentemente, significa: por
amor do próprio Cristo; por amor do seu sofrimento e morte expiatória: “Pela fé
em o nome de Jesus, é que este mesmo nome fortaleceu a este homem” (Atos 3.16);
“... porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome” (Atos 4.12); “Por isso,
também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus” (Hebreus 7.25).
Desde que o homem, em razão do seu pecado, separou-se de Deus, ele não pode nem
é capaz de vir a Deus de forma imediata. Para ele, Deus seria um fogo
consumidor, e ele experimentaria o mesmo que Nadabe e Abiú, que se aproximaram
de Deus com fogo estranho e foram mortos por Deus com fogo. No entanto, o
Senhor deu Jesus para ser o Fiador e Mediador para que, por meio de Seu
sofrimento e morte, reconciliasse os pecadores com Deus e acabasse com a
separação. Após a Sua morte, o véu do templo foi rasgado, para que, sem qualquer
outro impedimento, o homem fosse capaz de olhar para dentro do Santo dos Santos
e nele entrar. Os crentes, então têm a ousadia de ir a Deus “pelo novo e vivo
caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne” (Hebreus
10.20). Cristo é o único caminho pelo qual alguém pode e deve ir ao Pai (João
14.6). Se nós, portanto, orarmos em nome de Cristo, é como orarmos por causa
dos méritos de Cristo. O suplicante recebe a Cristo, que lhe é oferecido, e,
assim, torna-se participante de Cristo e de todos os seus méritos. Com estas
vantagens, ele vai a Deus e as exibe, e, desta forma, pede a Deus tudo o que
deseja.
Aqueles que oram nem sempre estão na mesma condição. Alguns não
são capazes de assegurar a si mesmos de que são participantes de Cristo. Desde
que eles possuem um forte desejo por bênçãos espirituais e temporais,
refugiaram-se em Deus. Não obstante, eles não fazem isso diretamente, mas com
um olho em Cristo e em Sua satisfação, e oram para que Deus lhes seja gracioso
por causa de Cristo e Seus méritos e, assim, os abençoe. Trata-se de orar em
nome de Cristo – conquanto a fé seja fraca. Alguns estão assegurados
principalmente de sua porção em Cristo; entretanto, há um distanciamento de
Deus. Para estes, a prática da oração é, portanto, a sua primeira tarefa para
receber a Cristo e refletir explicitamente sobre os Seus méritos enquanto
conscientemente se arrependem. Então, eles apresentam ao Pai os méritos de
Cristo e oram para que sua súplica pelo cumprimento de seus desejos seja ouvida
com base nesses méritos. Alguns vivem a vida mais de perto e habitualmente
estão focados no pacto da graça, bem como na satisfação e nos méritos de
Cristo. Esses, ao se engajarem na oração, nem sempre necessitam de uma
transação expressa com Cristo e uma reflexão específica sobre Seus méritos para
o propósito de mostrá-los ao Pai, para dizer que vêm e oram em nome de Cristo e
que suplicam o cumprimento dos seus desejos por amor dos méritos de Cristo. Em
vez disso, eles se aproximam e permanecem na disposição de serem participantes
do Pacto, filhos, e participantes de Cristo. Eles oram por meio do Pacto e da
expiação de Cristo, mesmo que não os mencionem explicitamente. No entanto,
devemos tomar cuidado para não ficarmos sem uma clara transação e com um
retorno a Cristo rápido e frequentemente, para não perdermos Cristo de vista e
nos aproximarmos de Deus de uma forma mais direta, e lidar com Deus de um
modo menos humilde e de maneira inapropriada.
O ORIGINADOR DA VERDADEIRA ORAÇÃO
Uma verdadeira oração procede do Espírito Santo. O homem, por
natureza, está espiritualmente morto, e não tem uma boa disposição de coração
nem bons desejos. Ele é cego e ignorante acerca do que realmente pode
satisfazê-lo. Não obstante, ele percebe as deficiências do corpo e teme o mal.
Ele também se refugia em Deus quando é privado do socorro da criatura;
entretanto, nem a disposição do seu coração, nem sua oração é agradável a Deus.
Para que alguém ore corretamente, o Espírito Santo deve conceder a disposição,
os desejos e as expressões: “E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de
Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas” (Zacarias 12.10); “E,
porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho,
que clama: Aba, Pai!” (Gálatas 4.6); “... o mesmo Espírito intercede por nós
sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26). Isto significa que Ele
concede a disposição e os desejos, coloca as palavras na boca, vai adiante
delas, e causa a oração. Na proporção do fato de que o Espírito se move de uma
forma moderada ou forte, a oração também é mais fraca ou mais zelosa. Às vezes,
o suplicante é fervoroso no início de sua oração, mas, então, gradualmente vem
mais escuridão e ele se torna cada vez mais maçante. Às vezes ele está na
escuridão e apático no início, mas enquanto luta, ele se torna mais vivo. Às
vezes ele está completamente fechado dentro de si, e o Espírito não pode
produzir uma oração, suspiro, ou lágrimas, e nessa condição, Ele deve se
levantar e partir.
Algumas vezes ele está tão cheio que não sabe de onde todos
estes desejos, palavras, e lágrimas tiveram origem, de modo que ele está mais
carente de tempo do que de desejos.
Pergunta: Se não podemos orar corretamente sem o Espírito Santo,
então, por que somos ordenados a orar pelo Espírito?
Resposta: O homem tem um intelecto natural, ele percebe sua
deficiência, e a natureza lhe ensina que devemos orar. Sob a administração dos
meios de graça ele aprende que o Espírito Santo é o autor da oração, e ele
aprende da Palavra de Deus que deve orar a Deus pelo Espírito Santo. Por meio
destas convicções e movimentos o Espírito Santo opera no eleito a inclinação
para orar e mostra-lhe que ele não tem a disposição correta para a oração, os
desejos corretos, nem os expressa adequadamente. O Espírito Santo irá mostrar
que deve operar tudo isto nele e que, portanto, ele deve orar pelo Espírito.
Dessa forma, ele trabalhou secretamente em oração pelo Espírito, e está,
portanto, sempre orando ao Espírito pelo Espírito. Aqueles que, no presente,
percebem em si mesmos o início da operação do Espírito orarão para que isso
seja aumentado pelo próprio Espírito.
O homem, mediante o Espírito Santo ter forjado e estimulado uma
disposição de oração na alma, começa a expressar seus desejos de um coração
regenerado. O homem regenerado é, portanto, a causa formal de seus atos. Se
mesmo um homem natural tem uma inclinação para orar, o homem regenerado tem uma
inclinação muito maior devido à disposição do seu coração regenerado. Uma vez
que nem todos os regenerados sabem que este é o caso deles, mas visto que todos
percebem que têm um coração pecaminoso, e uma vez que todos os tipos de
pensamentos pecaminosos, palavras e atos procedem desta disposição pecaminosa,
eles se preocupam por não saberem como lhes é permitido orar – sim, algumas
vezes eles não se atrevem a orar, pois sentem que estariam zombando de Deus.
Como eles se engajam na oração, é sempre sua intenção não pecar, mas eles
sempre caem novamente no mesmo pecado. As seguintes passagens vêm às suas
mentes: “O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR” (Provérbios
15.8); “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração
será abominável” (Provérbios 28.9); “Sabemos que Deus não atende a pecadores”
(João 9.31). Para sua instrução você deveria saber:
(1) É dever de todos os ímpios se arrependerem e orarem. A
abominação não reside no fato de orarem, mas sim que, enquanto oram por
assuntos temporais, eles não se arrependem, mas voluntária e conscientemente
continuam pecando; nem suplicam a Deus para serem reconciliados com Ele, nem
por uma mudança em seus corações e atitudes. Fazem isso rotineiramente, estando
acostumados desde a sua juventude a oferecerem uma oração pela manhã e à noite,
o que, se negligenciarem os levará a ficarem perturbados. Ou fazem isso de
maneira hipócrita, estando desejosos, apesar de seu estilo de vida mundano, a
serem estimados como bons cristãos.
(2) A oração daqueles cujo coração é reto diante do Senhor, que
buscam a reconciliação e o perdão dos seus pecados, que desejam ser libertos do
pecado e viver no amor e temor de Deus segundo a Sua vontade, e oram por isto
enquanto se esforçam para se concentrarem no Senhor Jesus, não será uma
abominação, mas será agradável a Deus. O Senhor procura por tais suplicantes, e
os trata com carinho como canas quebradas e pavios que fumegam. Portanto, que
isto te dê liberdade. Suas repetidas quedas no pecado são contrárias à sua
intenção, você chora, e isso não procede de uma má intenção. Pelo contrário,
suas quedas são o resultado da fraqueza, a carne se tornando mais forte do que
o espírito.
ORAÇÃO SOB CONSCIÊNCIA DE UM PECADO COMETIDO
Aqueles que, presentemente, sabem que foram trasladados da morte
para a vida espiritual, ou que percebem as evidências dentro de si mesmos por
meio das quais podem concluir isso (mesmo que a segurança disso não seja tão
forte), ocasionalmente entram em uma condição mais pecaminosa do que a
tendência comum da vida. Também podem ser levados cativos pelo pecado a tal
ponto que, no momento, não podem tomar uma resolução completa, alegre e
corajosa de se levantarem desse pecado e de se esforçarem seriamente contra
ele. Ou pode ser que quando a tendência de sua vida é boa, ocasionalmente caiam
em um pecado específico. Se, sob tais condições, eles imediatamente se
engajassem na oração – isto é, sem primeiro examinar a si mesmos, tomando uma
resolução para se arrependerem, de maneira que seus corações os convencessem de
que estão corretos em sua intenção – isso seria um empreendimento irreverente e
desagradável a Deus. Tais pessoas não teriam liberdade na oração, nem orariam
com santa atenção, pois seus corações as condenariam enquanto estivessem
engajadas na oração. Aqueles que estão em tal condição devem primeiro se
recuperar, de modo que possam ter uma intenção reta para batalhar contra o
pecado, e de se colocarem em oração para implorarem a Deus pela reconciliação e
força contra esse pecado. Então, eles estarão em liberdade, porque seus
corações nãos os condenarão (1 João 3.20,21).
Ocasionalmente, se algo acontece que uma pessoa regenerada está
inteiramente vazia de desejos – não em essência, mas no exercício. Quando tal
pessoa se engaja na oração, ela não sabe o que orar, pois não tem vontade para
nada. Ela tem perdido de vista o desejo por tais assuntos devido à escuridão
espiritual, ou se encontrada desencorajada por não ter recebido o seu desejo
após ter orado. Isto fechará o seu coração. O que ela deve fazer? Orar? Ela não
pode. Ela deve negligenciar a oração? – tal pessoa negligencia
tudo com frequência, e, devido a esta negligência, afasta-se
completamente da oração. Ela não pode fazer isso, pois sua natureza regenerada
não permitirá e continuamente a inclinará para orar. Tal pessoa não deve
resistir a tais fracas inclinações, o que é fácil fazer; pelo contrário, ela
deve ser como uma pequenina criança. Ou, como alguém que revive de um desmaio,
e se move fracamente, falando baixinho, ela deve seguir suas fracas
inclinações, apresentá-las perante o Senhor, perseverar em oração, e
familiarizar-se com o Senhor – ou, então, ela apostatará ainda mais.
Entretanto, ao fazê-lo ela experimentará que Ele “atendeu à oração do
desamparado e não lhe desdenhou as preces” (Salmo 102.17).
(Nota do Pr Silvio Dutra: Quando o proceder mundano se apodera
do crente, quando se torna inclinado às coisas da carne e não mais às do
Espírito, perde-se com isto o chamado espírito de oração, que nos mantém
interconectados com Deus, e ainda que não nos expressemos em oração em palavras
audíveis, todavia, permanecemos tomados do espirito de oração, pelo Espírito,
de modo que elevamos em todo o tempo nossos pensamentos ao Senhor, e passamos sob
o seu crivo todas as nossas ações e reações, com vistas a sabermos se são ou
não aprovadas por Ele, de modo que estejamos em paz com as aprovadas e
confessemos e rejeitemos as não aprovadas. Esta consciência da presença do
Senhor em espírito com o nosso espírito é permanente naqueles que andam no
Espírito, e a ela logo retornamos, pelo arrependimento, quando nos desviamos
ocasionalmente em razão dos mais variados motivos, e o pior deles, que é a
prática do pecado.)
O PROPÓSITO DA ORAÇÃO
O propósito para o qual alguém apresenta seus santos desejos é o
cumprimento desses desejos, implorando que eles sejam concedidos. O suplicante
faz um pedido. Quando alguém faz uma súplica a outro, ele sustentará tal
súplica com argumentos; como também é o caso aqui. O suplicante não diz
meramente: “Senhor, salve-me, e crie um novo coração dentro de mim; dize à
minha alma ‘Eu sou tua salvação’; ensine-me e guie-me”, mas o suplicante
ampliará seu pedido por meio de argumentação. Isto deve ser observado em
Cristo, Davi, e outros santos, pois isso torna o suplicante:
(1) Mais humilde, pois como ele persevera, contemplará a Deus e
a si mesmo mais claramente. Ele pensará: “Como me atrevo a falar tão
ousadamente – Eu, que sou tão pecaminoso, tão abominável, e tão indigno!” Ele esmorece,
por assim dizer, e reconhece que nada é mais incompreensível do que a graça de
ele poder falar com Deus e de Deus ouvi-lo.
(2) Mais ativo e sua oração mais fervorosa, pois ele percebe a
necessidade e o quão desejosos são todos os assuntos, todos os melhores. Seus
desejos são despertados, e seu coração é alargado e começa a fluir como um rio.
(3) Mais santo em sua oração, pois seu objetivo será o mais
genuíno, ele está mais consciente deste objetivo genuíno. Quanto mais genuíno o
seu objetivo se torna em desejar um assunto, mais liberdade ele terá em
desejá-lo.
(4) Mais apto a perseverar em oração, visto que ele, então, vê a
questão por todos os ângulos. O desejo, então, gerará outro desejo e estes
desejos, por sua vez, originarão outros. Tal perseverança faz com que ele
habite mais na presença de Deus; a alma entra e permanece em uma disposição
mais santa, e sempre recebe uma bênção.
A apresentação de tais argumentos não deve ocorrer de maneira
artificial, mas a questão surge espontaneamente do coração que ora e também o
Senhor faz com que o assunto chegue ao nosso conhecimento. Teremos, então,
procurado ardentemente a glorificação de Deus, cuja glória, bondade, e poder se
manifestam em Ele ouvir a oração e conceder o que foi suplicado. Nesse tempo,
devemos usar argumentos de tal forma que, se o Senhor nos conceder o nosso
desejo, nossas habilidades serão tais que a congregação será edificada e serão
para o benefício de outros. Então, novamente nos concentraremos nas promessas
de Deus, sendo exercitados com elas até crermos na imutável verdade de Deus de
uma maneira mais vívida e podermos ter mais certeza de que este assunto também
será a nossa porção – Deus tem prometido ouvir a oração. Em outra ocasião o
piedoso apresentará a si mesmo ao Senhor como sendo Seu filho, sabendo que
Deus, que se agrada quando seus filhos têm fome e sede dEle, consequentemente,
lhes dará algo e irá alegrá-los – da mesma forma que um pai segundo a carne é
compassivo para com seus filhos famintos e desejosos, e se alegra em lhes
atender os seus desejos e torná-los felizes. Então, novamente, eles
apresentarão com urgência os méritos do Senhor Jesus. Eles lembrarão ao Senhor
de sua misericórdia previamente manifestada a eles – como Jacó fez em Gênesis
32.9-12, e a igreja, no Salmo 85.1-5. Enquanto estiverem assim ocupados, a fé
será despertada, o amor se tornará ativo, eles se engajarão em atitudes mais
íntimas, e, com silente resignação, submeter-se-ão à vontade de Deus.
(Nota do Pr Silvio Dutra: Os desejos aos quais Brakel se refere
devem ser entendidos como os desejos santos e aprovados por Deus, e não todo
tipo de desejo que possa ser abrigado pelo crente. A propósito, é exatamente a
desejos carnais a que Tiago se refere como sendo a causa de os crentes não
terem suas orações atendidas por Deus. Quando estão cheios de cobiça e desejos
desordenados não é de se esperar que sejam atendidos ou aprovados por Deus.)
AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA ORAÇÃO
As características da oração são as seguintes: ela é feita com
humildade, em espírito e em verdade, com sinceridade, fervor, incessantemente,
e pela fé.
Em primeiro lugar, há a humildade. Esta é a sensível e humilde
disposição do suplicante, decorrente de uma visão da majestade de Deus e da sua
própria pecaminosidade, indignidade e impotência para suplicar por sua
deficiência ou tê-la suprida por Deus. Em tudo deve o homem ser humilde diante
de Deus:
“... o que o SENHOR pede de ti... e andes humildemente com o teu
Deus” (Miquéias 6.8). Particularmente, este deve ser o caso daquele que se
engaja na oração, porque:
(1) A criatura, então, se aproxima do seu Criador, humildemente
daquele que é majestoso e exaltado, o pecador do Único Santo, o desprezado do
Único Glorioso, e o merecedor da condenação do Juiz do céu e da terra, que tem
o poder sobre a vida e a morte. Quando Moisés se aproximou da sarça ardente, a
voz de Deus ressoou: “Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque
o lugar onde estás é terra santa” (Êxodo 3.5). Aqui, alguém pode pensar em
verdade: “Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei
ante o Deus excelso?” (Miquéias 6.6). Abraão disse: “Eis que me
atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gênesis 18.27). “O publicano,
estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia
no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador” (Lucas 18.13).
(2) Humildade na oração é muito agradável a Deus: “Sacrifícios
agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito,
não o desprezarás, ó Deus” (Salmo 51.17); “... por ti o órfão alcançará
misericórdia” (Oséias 14.3).
(3) Deus ouve e responde suplicantes humildes: “Porque assim diz
o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito
no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito,
para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos”
(Isaías 57.15).
(4) Um piedoso suplicante encontra um deleite especial – sim,
ele a reconhece como uma grande graça e como uma resposta à sua oração – se,
com tal disposição humilde e reverente, ele pode ter uma visão da majestade e
glória do Senhor, mesmo se ele não recebeu mais nada à sua oração. Entretanto,
ele recebe a segurança imediata de que Deus o ouviu e proporcionará, segundo a Sua
vontade, pois Ele “aos humildes concede a sua graça” (1 Pedro 5.5).
Em segundo lugar, a oração é feita em espírito e em verdade.
Recitar verbalmente o que foi memorizado (mesmo que preste atenção a cada
palavra e mesmo que o nosso objetivo geral seja orar a Deus) mas não entender
os assuntos, e se ao entendê-los não os desejamos, isso é zombar de Deus. é
tolice se nós desejamos um assunto, e para esse fim recitamos a oração do
Senhor, uma manhã ou uma oração vespertina, a fim de consegui-lo.
Orar em espírito e em verdade:
(1) Consiste de uma oração com entendimento; isto é, estar
familiarizado com o Senhor a quem se está orando; com o Cristo através do qual
alguém se aproxima de Deus; com nós mesmos em nossa perplexidade e indignidade;
com o assunto que nós desejamos; e com o objetivo em pedir o assunto. Não
apenas é necessário estar familiarizado habitualmente com isto (estando, assim,
capazes de estar conscientes se dermos ouvidos a isto), mas é preciso haver um
conhecimento real de tudo isto. Assim, enquanto oramos presentemente,
perceberemos e observaremos o que está sendo expresso, e por tal percepção
seremos movidos e nos tornaremos ativos: “Orarei com o espírito, mas também
orarei com a mente” (1 Coríntios 14.15).
(2) É um exercício da vontade, de maneira que nós desejamos os
assuntos em verdade. Nossa consciência deve testificar diante de Deus que nós
os desejamos, que isso é o nosso objetivo – não apenas quando considerando o
assunto em si, mas também juntamente com as suas circunstâncias presentes,
renunciando voluntariamente a tudo aquilo que está em oposição ao assunto
desejado. Uma pessoa não-convertida quando ouve o desejo de santidade
apresentado como tal talvez dirá: “Sim, eu quero isso, e eu tenho um desejo por
santidade”. Se, entretanto, ela vê o pecado como uma prática honesta, se o
estima, deleita-se nele, e o considera proveitoso é observado sob essa luz, e
percebe que deve renunciá-lo por completo, ela não deseja santidade, mas, sim,
o pecado em seu lugar. Alexandre desejava ser Diógenes, se não fosse Alexandre.
O jovem rico tinha um desejo por salvação e por guardar os mandamentos de Deus;
entretanto, quando ele precisou partilhar os seus bens, afastou-se triste
(Mateus 19.21,22).
(3) É também acompanhada por reflexão e atenção. Devemos estar
atentos para o fato de que a paixão não é executada antes do entendimento e da
vontade; pelo contrário, o engajamento do entendimento e da vontade deve
preceder, estimular e governar nosso zelo. Se as coisas acontecem dessa forma,
o coração permanecerá em uma disposição própria: “Guarda o pé, quando entrares
na Casa de Deus [...] Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se
apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus,
e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras” (Eclesiastes 5.1,2).
Espírito e verdade são absolutamente essenciais na oração, pois:
[1] “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem
em espírito e em verdade” (João 4.24);
[2] Deus requer o coração: “Dá-me, filho meu, o teu coração”
(Provérbios 23.26);
[3] Deus conhece o coração, bem como a mente do Espírito: “...
porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1
Reis 8.39);
[4] Deus deseja a verdade no íntimo (Salmo 58.8);
[5] “Ah! SENHOR, não é para a fidelidade que atentam os teus
olhos?” (Jeremias 5.3), “porque são estes que o Pai procura para seus
adoradores” (João 4.23);
[6] Deus odeia e pune aqueles que se aproximam dEle fisicamente
e não com o coração: “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e
com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor
para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu,
continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa
e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a
prudência dos seus prudentes se esconderá” (Isaías 29.13,14).
Terceiro, deve existir sinceridade e fervor. Isto não consiste
em clamar em voz alta, nem com uma longa expressão de palavras em uma sequência
fluente, nem em uma junção de argumentos intelectuais de uma maneira apaixonada
e chorosa. Tudo isto um homem natural é capaz de fazer. Pelo contrário, fervor
é um movimento intenso do coração, que é gerado por um forte desejo, expresso
em uma maneira compreensiva e pensativa. Fervor é o envolvimento de toda a
energia da alma e do corpo. Ele penetra através de toda a oposição e vence o
vaguear dos pensamentos, a letargia da carne, e o surgimento de pensamentos
incrédulos (tais como, “Isto é vão; Deus não vai te ouvir; você não receberá o
que deseja”, etc.), e os enganos sutis e insinuações de Satanás, etc. O crente
não pode desistir tão facilmente, pois seus desejos são também fortes; ele
persevera. “Não te deixarei ir se me não abençoares” (Gênesis 32.26). Como a
mulher cananeia, o crente persegue o Senhor com oração e súplica (Mateus
15.22). Não obstante, fervor não leva embora a reverência a Deus, nem a
disposição calma e serena da alma. Quietude e fervor andam de mãos dadas aqui.
Aqueles que, por assim dizer, não podem fazer chegar a si mesmos à oração, mas,
em vez disso, a evitam e olham por cima dela, deveriam se envergonhar. Quando,
sem culpa sua, um impedimento se apresenta em seu tempo devocional, eles não
estão tristes, mas, secretamente, estão satisfeitos por estarem isentos do
dever da oração. É possível que alguém ore mais para satisfazer sua consciência
(por ter orado) do que para atingir a satisfação dos seus desejos. Ele permite
a si mesmo ser facilmente prejudicado por um pensamento incrédulo, no sentido
de que, não será ouvido. Não possui desejos ardentes direcionados a um assunto
e, portanto, movem-se de um assunto para outro por meramente enumerá-los –
assunto, palavras, e desejos estando ausentes. Isto é um assunto abominável.
Se você não tem desejos, então, desapareça. Se você não vir com
suas próprias necessidades, você não precisa vir simplesmente por causa da
vontade de Deus. Ele não deseja tal serviço morno, apático e preguiçoso.
Os sacrifícios e incenso tinham de ser acesos com fogo, e nossas
orações também devem ser inflamadas com fervor. As razões para isso são as
seguintes:
(1) Suplicantes fervorosos são agradáveis aos olhos de Deus:
“Meus suplicantes... trarão a minha oferta” (Sofonias 3.10);
(2) Uma oração sincera é muito proveitosa diante de Deus: “Muito
pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5.16);
(3) O crente deve ser fervoroso em tudo aquilo que faz: “...
sede fervorosos de espírito” (Romanos 12.11);
“Sê, pois, zeloso” (Apocalipse 3.19);
(4) Os exemplos dos santos, cujos passos devemos seguir,
estimulam-nos a sermos fervorosos na oração.
Toda a sua vida consistia de oração. Davi levantava-se à
meia-noite. Ele clamou, e chorou; e não cessou.
Devemos fazer o mesmo, para que o Senhor possa perceber que
nosso objetivo é conhecê-Lo e reconhecê-Lo como o Doador – como o Único que dá
livremente – e que é a graça somente que pode nos ajudar.
Quarto, deve existir uma incessante perseverança na oração.
“Orai sem cessar” (1 Tessalonicenses 5.17).
(1) Perseverança consiste em fazer da oração uma atividade
diária, disciplinando-nos a não negligenciarmos a oração e a não a tornarmos
uma prática não-familiar. Um cristão é um suplicante. Oração é a verdadeira
essência da religião (Gênesis 4.26).
(2) Perseverança consiste em sempre estar em uma disposição para
a oração. Mesmo se alguém não estiver sempre expressamente engajado na oração,
o coração deve, não obstante, estar sempre perto de Deus, estar concentrado
nEle, e andar com Ele. Tal disposição trará, de tempos em tempos, oração
jaculatórias – seja quando estivermos em solidão, viajando, empenhados em nosso
trabalho, ou na presença de pessoas. Neemias orou a Deus enquanto estava
falando com o rei (Neemias 2.3-4).
(3) Existem assuntos que Deus não concederá de uma vez, mas
gradualmente, passo a passo – tais como crescimento na fé, esperança, e amor,
vida espiritual, força contra o pecado, e santificação. Portanto, devemos
persistir em oração por estes assuntos durante toda a nossa vida.
(4) Existem circunstâncias específicas em que temos necessidade
especial do socorro do Senhor e da orientação do Espírito. Isto acontece quando
temos de sair ou entrar em nosso lar, para realizar uma tarefa especial, entrar
na companhia de pessoas, retribuir a alguém uma visita especial, enfrentar
situações em que armadilhas foram preparadas para nós, quando devemos fazer uma
escolha entre coisas diferentes, quando devemos contratar um empregado, comprar
ou vender, ou nos deparamos com circunstâncias imprevistas. Em cada situação
devemos buscar refúgio na oração.
(5) Existem assuntos que são extraordinariamente opressivos e
ameaçadores, ou que desejamos de uma maneira extraordinária – seu gozo sendo
iminente. Pode ser verdade tanto em um sentido temporal quanto espiritual, que
nós estamos sujeitos à tentação incomum. Pode ser um pecado extremamente forte,
pode ser um forte desejo por algo mais do que uma revelação comum de Deus à
alma; podemos estar excepcionalmente desejosos de obtermos segurança de nossa
participação em Cristo e na salvação, ou por uma antecipação do céu, etc. Em
tais circunstâncias, o suplicante perseverará 1) por expressar a mesma oração,
não sendo capaz de desistir até ter recebido algo; 2) por repetição da oração
pelo mesmo assunto em tempos diferentes, quer na hora devocional regular, quer
ocasionalmente fora desse horário, se houver oportunidade de ficar sozinho e se
o desejo se torna fervoroso. Desta maneira, podemos perseverar, olhando para o
Senhor (Salmo 34.5) até que o assunto esteja resolvido; isto é, até que o
Senhor nos conceda o assunto (ou alguma medida dele) ou torne a alma tão
contente com Sua vontade que os desejos não se tornem veementes. Em vez disso,
estaremos tranquilos e satisfeitos, estando assegurados de que o Senhor nos
fará bem.
(6) Algumas vezes haverá um forte desejo pelo bem-estar de
outras pessoas – seja a igreja em geral, ou alguém que tem uma necessidade
específica ou extraordinária, ou pela eleição de um ministro, presbíteros, ou
diáconos. Ou, então, alguém pode ter um forte desejo pelo bem-estar de uma
família ou uma pessoa em particular, quer em relação ao corpo ou alma, sejam
eles convertidos ou não-convertidos. Marido, esposa, filhos, ou pais podem
pesar no coração. Podemos ter um forte desejo por sua conversão e, então,
engajamo-nos na oração, não sendo capazes de desistir. Esta oração gerará
muitas súplicas, e a repetiremos com frequência outras vezes, até que o Senhor
nos conceda o assunto ou nos dê uma confiança tranquila de que a nossa oração
por eles foi ouvida, e que o Senhor a atenderá, mesmo se nunca virmos isso.
Pode ser também que, o Senhor comece a Se ocultar, e já não nos atrevemos a
pressionar o assunto tão fortemente, ou o Senhor pode excluir estas pessoas de
nossas orações, não querendo ser abordado por seus filhos em vão. Quando é
nosso dever fazer isso, entretanto, não devemos negligenciá-lo devido à
frouxidão ou desânimo, mas devemos perseverar até que o Senhor docemente nos
refrigere, mostrando que nossa sincera oração tem sido agradável a Ele.
Teremos, assim, entregado o assunto nas mãos de Deus, nossa oração retornará ao
nosso peito (Salmo 35.13), e nossa paz retornará (Mateus 10.13).
(Nota do Pr Silvio Dutra: Comumente se ouve dizer que orar é
simplesmente conversar com Deus. Todavia muitas coisas devem ser consideradas
conforme vimos na exposição de Brakel, quanto a tal conversação. É possível que
pessoas conversem sobre futilidades, e de forma insincera, e certamente não
deve ser este o caso de nossa comunicação com Deus, que é santo e justo. Jesus,
no Sermão do Monte, repreendeu a oração formal, que sequer é oração, daqueles
que multiplicam palavras, pensando que com isto serão ouvidos por Deus. A boca
deve estar ajustada a um coração convertido, contrito, arrependido, sincero,
devotado, e não apenas suplicante, pois de outro modo, não é de se esperar que
haja uma ligação real com o céu.)
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